












Zibia Gasparetto

ditado por Lucius


O ADVOGADO DE

Reviso e Editorao Eletrnica Joo Carlos de Pinho

Direo de Arte Luiz Antnio Gasparetto

Gapa Ktia Cabello

Foto 4a de capa Renato Girone

Medio
Maro  1999
10.000 exemplares

Publicao e Distribuio
CENTRO DE ESTUDOS VIDA & CONSCINCIA EDITORA LTDA.

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E  S  P -A   -O VIDA & CONSCINCIA

Sumrio
Captulo 1...................................................
Captulo 2..................................................
Captulo 3..................................................
Captulo 4..................................................
Captulo 5..................................................
Captulo 6..................................................
Captulo 7..................................................
Captulo 8..................................................
Captulo9.................................................
Captulo 10................................................
Captulo 11................................................
Captulo 12................................................
Captulo 13................................................
Captulo 14................................................
Captulo 15................................................
Captulo 16................................................
Captulo 17................................................
Captulo 18................................................
Captulo 19................................................
Captulo 20................................................
Captulo 21................................................
Captulo 22................................................
Captulo 23................................................
Captulo 24................................................
Captulo 25................................................
Captulo 26................................................
Captulo 27................................................
Captulo 28................................................


Captulo 1


        O salo estava cheio e a festa, animada. Os pares danavam alegremente ao som da msica agradvel. Tudo estava impecvel. Maria Alice olhava satisfeita,
atenta aos convidados, observando todos os detalhes para que nada faltasse. Com classe e finura, deslizava entre eles, dando uma palavra aqui, um sorriso ali, segura
de seu charme, certa de sua beleza. Mulher habituada ao brilho dos sales, sabia como receber com luxo e distino.
        Seu marido, Antnio de Almeida Resende, rico e de importante famlia do Rio de Janeiro, militava ativamente na poltica, tendo sido eleito deputado federal. 
Costumava reunir em sua casa pessoas famosas, artistas no pice da fama, polticos, empresrios, a classe A. Os convites de suas recepes eram muito disputados 
e todos consideravam uma honra comparecer a uma de suas festas.
        Tanto Maria Alice quanto o marido e seus dois filhos, Lanira e Daniel, apareciam constantemente nas colunas sociais das revistas da moda. Lanira, dezenove 
anos, corpo bem-feito, tez morena, cabelos castanhos, olhos negros grandes e brilhantes, sempre elegante e vestida na ltima moda, chamava ateno por onde passava. 
Voluntariosa, habituada a ser servida e valorizada, no se relacionava com facilidade. Educada, tinha muitos conhecidos, mas seria difcil encontrar algum que privasse 
de sua intimidade.
        Daniel, vinte e dois anos, alto, mais claro do que a irm, cabelos castanhos e ondulados que o sol descoloria ainda mais colocando neles reflexos dourados. 
Elegante, afvel e cordato, tinha muitos amigos, acabara de se doutorar em Direito.
        O pai sonhava introduzi-lo na poltica. Daniel tinha todas as qualidades para isso. Simptico, amvel, aparncia bondosa e principalmente uma perspiccia 
que muitas vezes o surpreendia. Mas, apesar de sua insistncia, Daniel no se decidira.
        - Tenho outros planos - dizia quando o pai tocava no assunto.
        - Nada pode ser melhor do que servir ao pas! - argumentava ele convicto. - Voc ter o apoio de nosso partido e obter vitria fcil.  uma profisso honrosa 
e rendosa. No pode haver caminho melhor!
        - No penso assim. Voc vive preso a compromissos com os homens do partido, com o povo, com o governo, com as organizaes. No pretendo escravizar-me dessa 
forma. Sou livre e quero fazer o que gosto.
        - Neste mundo no se pode fazer s o que se gosta! Cedo descobrir que est errado. Para progredir ter que transigir. No h outra maneira de vencer.
        Daniel olhou-o pensativo e em seus olhos havia uma expresso indefinvel ao dizer:
        - A vida no  s o que parece estabelecido. H diferentes caminhos para se chegar ao que se quer. Pretendo encontrar o mais curto.
        Antnio meneou a cabea negativamente:
        - Arroubos da mocidade, meu filho! Escute o que eu digo. Tenho experincia. Se quer o caminho mais curto, entre para a poltica. Ter fama, respeito, dinheiro, 
tudo.
        Ele riu e no respondeu. Seu pai era um vencedor, respeitado, rico, bem-visto na sociedade, mas ele no concordava com suas idias. Desde muito jovem observava 
a vida familiar e embora se relacionasse bem com o resto da famlia, respeitando seus pontos de vista, sentia que seus valores eram diferentes.
        Quando os comentrios em casa corriam soltos sobre as ltimas fofocas sociais, quem aparecera mais em sociedade, quem estava decadente ou quem liderava neste 
ou naquele setor, Daniel entediava-se. No sentia nenhum interesse por essas futilidades. No dava nenhuma importncia aos sobrenomes, s posies ou aos poderes 
das pessoas.
        Gostava da espontaneidade, olhava as pessoas apreciando seus aspectos de personalidade, valorizando-as pelas qualidades que descobria ou pelo brilho de sua 
inteligncia.
        Quando seus pais reclamavam porque ele no participava das conversas familiares, ele explicava:
        - Vocs criticam todo mundo! Enxergam somente os defeitos. E as qualidades?
        - Que qualidades? - dizia Maria Alice irnica.
        - Todas as pessoas tm qualidades, mame. Nem sempre esto  vista.  preciso descobri-las.
        Antnio no concordava:
        - Isso  loucura. Voc  ingnuo. Se continuar pensando assim, vai se dar mal. As pessoas so cheias de defeitos e fraquezas. Pobre de quem confiar no ser 
humano! Ningum  perfeito, voc sabe disso. E preciso estar prevenido para se precaver contra a maldade dos outros.
        - Pensando assim voc nunca vai encontrar pessoas que poderiam ser seus verdadeiros amigos.
        - Tenho muitos amigos.
        - Voc vive rodeado de pessoas conhecidas nas quais no confia e critica pelas costas. Amigo, para mim,  outra coisa.
        - Agora voc est sendo radical. Claro que tenho amigos! Mas sei at onde posso ir com cada um deles.
        - So seres humanos, no , papai?
        - Isso mesmo. Um dia ver que tenho razo.
        Daniel sorria e no argumentava. De que adiantaria? Ele no era ingnuo como seu pai dizia. Tinha perspiccia para perceber as fraquezas e os limites de 
cada um, mas por causa disso no era insensvel a ponto de ignorar suas qualidades. Pensava que era mais produtivo incentivar essas qualidades do que ficar criticando 
e mostrando as falhas.
        Na adolescncia, sempre que algum criticava uma falha sua, sentia revolta e rancor. No errava de propsito, mas por no saber fazer melhor. Sentia que 
as crticas no o ajudavam em nada, davam-lhe apenas uma viso de incapacidade que se ele aceitasse acabaria por incapacit-lo ainda mais.
        Maria Alice preocupava-se com as idias do filho, ao que Antnio respondia:
        - Ele  jovem. Isso passa. Vai amadurecer com o tempo.
        - No sei, no. s vezes ele me parece to ingnuo... No enxerga a maldade. Relaciona-se com qualquer um. No valoriza nossa classe social.
        - Tem a boa-f dos moos. O que acha que ele vai encontrar rela-cionando-se com gente sem cultura ou boa educao?  inteligente. Vai descobrir que o nvel 
de cada um  muito importante. Ento, mudar, chegar onde ns estamos. No deve se preocupar.
        Maria Alice dirigiu-se  porta principal. Um importante empresrio acabava de chegar com a esposa. Ostentando seu melhor sorriso, foi receb-los.
        Eram amigos h vrios anos. Ele era um engenheiro especializado em construo naval. Sua empresa construa navios no s para companhias mercantes como para 
a marinha brasileira. Muito rico, casara-se com a filha de um ilustre fazendeiro de Minas Gerais, juntando os nomes importantes e as fortunas. Dos trs filhos, o 
mais velho formara-se engenheiro e trabalhava com o pai. O segundo preferira advocacia e o mais novo no se decidira quanto  carreira. Mimado pela me, que lhe 
fazia todas as vontades, gastava seu tempo desfilando com seu carro ltimo tipo pelas praias da cidade, empenhando-se em gastar o dinheiro da famlia.
        Vrias vezes o pai o advertira a que se moderasse, mas ele sorria e continuava. Ernesto, inconformado, pressionava a esposa:
        - Angelina, voc precisa parar de dar tanto dinheiro a Betinho. Esse menino est abusando! No estuda, no faz nada! Est errado!
        Ao que ela respondia sorrindo:
        - No seja dramtico! Ele  muito jovem. Tem tempo para arcar com as responsabilidades da vida!
        Maria Alice abraou Angelina:
        - Como vai, querida?
        - Bem. Que festa linda!
        - Obrigada. E voc, Ernesto, tudo bem?
        - Tudo.
        Maria Alice passou o brao pelo de Angelina dizendo:
        - Passemos para o salo. Antnio espera-o com ansiedade. Deixando Ernesto em companhia do marido, Maria Alice conduziu a amiga para um recanto agradvel, 
convidando-a a sentar-se. Vendo-a acomodada com um copo de vinho entre os dedos e um pratinho de canaps sobre a mesinha lateral, perguntou:
        - Seus filhos viro, Angelina? Uma festa sem a alegria dos moos no tem brilho. Depois, sei de algumas meninas que os esto esperando com ansiedade.
        Angelina sorriu com satisfao. Ver os filhos serem admirados era sua melhor recompensa onde quer que fosse.
        - Andrezinho tinha um compromisso, mas ficou de vir mais tarde. Rubinho estava se preparando quando samos, logo estar aqui. Quanto a Betinho, tem a agenda 
lotada. No sei como arranja tantos compromissos. H sempre algum esperando por ele em algum lugar. Ficou de vir, mas sabe Deus a que horas.
        Maria Alice via com prazer a presena dos dois filhos mais velhos de Angelina. Acariciava a idia de um dia poder casar a filha com um deles. Quando falava 
nisso com Lanira, esta invariavelmente respondia:
        - No penso em casar-me, mame. Mas, se um dia resolver, ser com um homem de verdade.
        - Andr  engenheiro e j trabalha. Alm do nome ilustre e de sua grande fortuna,  um moo bonito, fino, elegante. Qualquer moa desta cidade ficaria feliz 
com um partido desses!
        - Pois que aproveitem! Ele no  meu tipo.
        - E Rubens? Tambm  formado. Embora esteja no incio da carreira, sua fortuna e seu nome bastam para que todas as portas lhe sejam abertas. No tenho dvida 
quanto a seu sucesso!  um moreno atraente, elegante!
        - No me interessa, mame. Quando eu quiser namorar, posso arranjar eu mesma um pretendente. No precisa dar-se a esse trabalho.
        Apesar das evasivas da filha, Maria Alice no desanimava. Os moos eram atraentes e ela acreditava que um dia, quando Lanira estivesse mais amadurecida, 
perceberia isso.
        - A qualquer hora sero bem-vindos - respondeu Maria Alice educadamente.
        - E Daniel? No o estou vendo.
        - Deve estar com os amigos no jardim. Adora conversar.
        - J os meus preferem danar.
        - J notei. Alis eles danam divinamente.
        Na outra sala, distanciados do rudo da festa, Antnio e Ernesto conversavam animadamente.
        - Precisamos unir nossos esforos - dizia Antnio com entusiasmo. - As eleies se aproximam. Voc pode fazer muito por nosso partido.
        - Confesso que simpatizo com suas idias, gosto de seu partido. Mas por enquanto prefiro cooperar sem aparecer. No me convm tomar posio agora.
        - Esse tempo passou! Estamos na hora da definio, voc no pode mais omitir-se.
        - Tenho clientes importantes que pensam diferente. Se eu me posicionar apoiando vocs, eles vo se aborrecer. No posso prejudicar os negcios. Prefiro continuar 
me mantendo neutro.
        - Vamos precisar de muito dinheiro para a campanha.
        - Pode contar comigo, como sempre. Nunca deixei de cooperar. Agora, meu nome no pode aparecer.
        - Se prefere assim, que seja. Mas ainda acho que se nos apoiasse abertamente seria melhor. Daria prestgio a nossos candidatos. Voc  muito respeitado!
        - Sou porque no assumo nenhuma posio. Dessa forma continuo sendo prestigiado por todos os polticos que como voc desejam engajar-me. Enquanto eu me mantiver 
assim, terei a simpatia de todos.
        -  uma posio cmoda porm duvidosa. O Brasil est precisando de homens que assumam a coisa pblica e trabalhem em favor de todos.
        Ernesto sorriu, acendeu um cigarro calmamente, deu algumas tragadas olhando os arabescos que a fumaa desenhava no ar e considerou:
        - Vamos ver o que seu partido vai fazer para melhorar o Brasil. Estou esperando para apoiar. Acredite: o que vocs fizerem de bom, eu apoio!
        Antnio olhou-o, perguntando-se at que ponto ele estava sendo sincero. Havia em seu tom uma pitada de ironia que o fez pigarrear e dizer:
        - Soube que fechou um vultoso contrato com a marinha.
        - Nem tanto. Alguns navios de carga, apenas.
        - Entendo que no queira perder seu prestgio com o almirante. Ele no apia nosso partido.
        - E, no mesmo. Mas apesar disso nunca me pediu para assumir uma postura poltica. Nunca tocou nesse assunto.
        - Apesar de tudo, sua ajuda nos tem sido muito valiosa.
        - Mas aquela iseno de imposto ainda no saiu. Em que p ela est?
        - J dei entrada do projeto na Cmara. Estamos esperando sua tramitao. Logo dever ser colocado na pauta.
        - Espero que saia antes das eleies. Sabe como , se a iseno sair, terei mais dinheiro para ajudar na campanha.
        Antnio dissimulou a contrariedade. Ele estava deixando claro que s lhe daria o dinheiro se pudesse contar com a iseno dos impostos. Isso no dependia 
dele. Fizera sua parte, cumprira o prometido no trato que haviam feito. Mas as coisas precisavam de tempo para concretizar-se.
        - Se dependesse de mim, essa lei j teria sido aprovada. Mas a oposio obstruiu e engavetou o projeto. S agora consegui encontr-lo e coloc-lo novamente 
em tramitao.
        - Faa um esforo. Neste ano, se eu tiver que pagar todos os impostos, creio que no sobrar dinheiro para o partido. Sabe como , no posso prejudicar os 
negcios. O dinheiro de que eu posso dispor sai dos lucros. Se no houver lucros, nada feito.
         - Pode ficar tranqilo. Amanh mesmo vou me empenhar para que o projeto seja votado.
        - Tenho certeza de que vai conseguir.
        
        Lanira olhou aborrecida para os pares que danavam no salo. Que festa sem graa! Estava cansada daqueles almofadinhas, cabelo emplastado colado na cabea, 
bigodinho refinado, sapatos brilhando, camisa de seda.
        Ela apreciava gente elegante, bem vestida, mas era difcil encontrar algum interessante e com idias prprias. Conhecia cada um dos rapazes que freqentavam 
sua casa, julgava-os melosos e sem graa.
        Eram sem expresso. Tinham as mesmas brincadeiras, os mesmos suspiros, a mesma forma de ser galantes. Lanira pensava que eles no possuam nenhuma imaginao. 
Certamente haviam aprendido na mesma escola.
        Tratava-os com desdm, e quanto mais o fazia, mais eles a procuravam tentando conquistar-lhe as graas. Embaixo de sua janela havia serenata quase todas 
as noites. Ela nunca aparecia para agradecer, como era costume. Colocava algodo nos ouvidos e dormia tranqila.
        - Vamos danar?
        Lanira levantou os olhos. Andr estava  sua frente. Levantou-se.
        - Vamos. No o vi chegar. Ele a enlaou delicadamente.
        - Cheguei agora. Vi-a to pensativa e logo imaginei que estivesse sentindo minha falta! Acertei?
        Ela sorriu:
        - Voc cresceu mas continua o mesmo.
        - O que fazer se as garotas no me deixam em paz? E difcil agradar a todas!
        Lanira estava habituada aos gracejos de Andr. s vezes se perguntava at que ponto ele estava brincando. Sabia que era bonito, rico e muito cobiado pelas 
mulheres. Ela sabia at de algumas histrias dele com certa dama casada.
        - No foi prudente eu danar com voc. Elas podem querer me matar!  melhor pararmos - disse ela querendo esquivar-se dele.
        - Qual nada! Eu gosto de provoc-las. Voc  linda! Elas devem estar morrendo de cime.
        Lanira no respondeu. Fechou os olhos e deixou-se conduzir ao ritmo do bolero. Ele danava divinamente. Ela adorava danar. Se ficasse calada, no ouviria 
as futilidades que ele dizia.
        Maria Alice olhou-os com satisfao. Andr chegara e logo fora  procura de Lanira. Era um bom sinal. Embevecida, olhava-os. Formavam um lindo par.
        - Andr dana divinamente - disse.
        - E verdade - concordou Angelina com satisfao.
        Para ela a vida se resumia no sucesso dos filhos e do marido. V-los brilhar na melhor sociedade do Rio de Janeiro era sua glria.
        - Veja: Rubens est chegando - disse Maria Alice.
        De fato um rapaz alto, moreno e elegante acabava de entrar e, vendo-as, dirigiu-se a elas cumprimentando-as educadamente. Maria Alice aspirou com prazer 
o delicado perfume que vinha dele.
        - Ainda bem que chegou - disse sorrindo. - Vrias meninas me perguntaram por voc.
        - Desculpe o atraso, D. Maria Alice. Tive que atender um cliente.
        - Voc j est trabalhando, Rubens! Naturalmente nos escritrios do Dr. Ernesto...
        - No. Tenho meu prprio escritrio.
        - No sabia. Parabns!
        O garom passou a bandeja, mas Rubens no quis nada.
        - No vai tomar um vinho? - indagou Maria Alice atenciosa. - Prefere outra coisa?
        Ele se curvou levemente:
        - No se preocupe, D. Maria Alice. Acabei de chegar.
        - Como queira. Fique  vontade.
        Ele agradeceu e afastou-se. Acabava de encontrar um amigo. Quando o viu distante, Angelina suspirou dizendo baixinho:
        - Viu, Maria Alice?
        - O qu ?
        - O que ele fez. No d para entender. Ernesto  um pai maravilhoso. Faz tudo para encaminhar os filhos na vida. Entretanto Rubens no quis fazer nada do 
que o pai programou. Em vez de dirigir o departamento jurdico de nossa empresa, ele preferiu alugar uma sala em um prdio qualquer e fazer seu escritrio. Voc 
acredita nisso?
        -  mesmo? Que loucura!
        - Disse que se bacharelou porque gosta da profisso e no quer ser apenas o filho do Dr. Ernesto. Quer fazer carreira por si mesmo.
        - No deixa de ser uma idia digna.
        - Digna mas pobre. Ele  recm-formado. No tem nome profissional. Se voc visse o escritrio que ele montou, ficaria preocupada como eu fiquei. Fiz tudo 
para que ele mudasse de idia, mas qual! Rubinho sempre foi assim. Quando pe uma coisa na cabea, no h quem tire.
        - O que diz Ernesto?
        - Acha que ele vai quebrar a cara e voltar mansinho. Mas eu sei como ele  orgulhoso. No vai fazer isso.
        - Se ele tem vontade de trabalhar, pode ser que obtenha sucesso. Por que no?
        - No creio. Sabe como , hoje em dia  importante ter nome. Quem confiaria uma causa a um iniciante? S os pobres mesmo, que no tm como pagar. E isso 
j est acontecendo.
        - Tem certeza?
        - Tenho. Outro dia fui conhecer o lugar. O prdio at que no  to ruim, mas ele tem apenas quatro salas e s uma secretria. Como ele estava com um cliente, 
fiquei na sala de espera. Vi quando o homem saiu. Vestia-se mal e no tinha boa aparncia. Fiquei chocada! Meu filho atendendo essa gentinha!
        - No falou com ele?
        - Falei. Mas ele riu e no me levou a srio. Esse  o problema. Eu falo, o pai fala, mas ele no nos atende. Veja voc como os filhos so ingratos.
        - Quanto a isso voc tem razo. Antnio queria que Daniel entrasse para a poltica, fosse ajud-lo em seus projetos sociais. Mas ele se recusa. No quer 
nem ouvir falar nisso. Faz como Rubinho. Mas vocs tm Andr. Esse trabalha com o pai. Acho que est aproveitando a oportunidade de subir na vida.
        -  verdade. Andr  maravilhoso. E o brao direito de Ernesto.
        - E Betinho, pensa em fazer o qu?
        - Esse ainda no decidiu. E to jovem! E melhor que pense bem para no se enganar.
        - J fez vinte anos!
        - J. Mas no tem maturidade ainda. E inteligente, acho at que  o mais inteligente dos trs, mas pensa como criana. Ernesto vive pressionando para que 
ele decida o que quer estudar. Mas eu acho que ele deve esperar. De que adianta seguir uma carreira sem vontade?
        Maria Alice no disse nada. Ela achava a amiga tolerante demais com a irresponsabilidade de Betinho. Havia muitos comentrios sobre as loucuras que ele aprontava. 
Era o terror das mes, que no queriam as filhas envolvidas com ele. Leviano, namorador, exagerava na bebida, diziam at que havia engravidado uma das empregadas 
da casa e que Angelina fora forada a tomar as devidas providncias, financiando um aborto. Como ela nunca tocara nesse assunto, Maria Alice fazia de conta que ignorava. 
Esse, se no aparecesse na festa, ela agradeceria.
        Mas isso no lhe tirava o entusiasmo de casar Lanira com um dos dois irmos mais velhos. Afinal, justificava ela, um estrina na famlia era comum na alta 
sociedade. Sabia de vrias famlias ilustres em que havia um elemento dissonante. Enquanto todos se ocupavam m construir, esse elemento gastava seu tempo em botar 
fora o dinheiro e comprometer o nome ilustre que usava. No tinha dvida de que Betinho era um desses. Tinha todas as caractersticas.
        Limitou-se a dizer delicadamente:
        - Um dia ele vai amadurecer.
        - Tenho certeza!
        
        Rubens conversava com Daniel, que o ouvia com interesse.
        - No sei se aceito o caso - dizia. - No vai ser fcil.
        - Tem certeza de que o que ele lhe contou  verdade? No  apenas uma suposio?
        - No. Ele possui fotos, cartas que comprovam o que ele afirma.
        - Se ele for mesmo o herdeiro de tudo e provar que foi usurpado, vai ser um escndalo. Contra quem ele deseja mover a ao?
        - Por enquanto no estou autorizado a dizer. Ele pediu sigilo. Quer arranjar mais provas.
        - Depois de tantos anos decorridos, ser difcil.
        - Ele tem fatos novos.
        - Esse caso parece-me interessante mesmo. Se eu fosse voc, no recusaria.
        - Voc se formou agora. J decidiu o que vai fazer?
        - Estou pensando. Gostei do que voc fez. Pode ser que eu faa a mesma coisa. E bom comear de baixo e aprender tudo que for possvel. Penso que nada substitui 
a experincia.
        - Meus pais no concordaram, mas eu sinto que  isso que eu quero. No estou disposto a ficar limitado pelos interesses de nossa empresa. Quero mais. Gosto 
de observar a vida, encontrar sadas para os problemas. Experimentar do meu jeito.
        Daniel entusiasmou-se:
        - At que enfim encontrei algum que pensa como eu! Tambm no quero entrar na poltica e ficar limitado s idias partidrias. Desejo ser livre e exercer 
o Direito como eu penso que deve ser exercido.
        - Bravos! No sabia que voc pensava dessa forma! Por que no trabalha comigo? Dividiremos as despesas. Poderemos nos ajudar mutuamente.  bom ter com quem 
trocar idias e estudar os casos.
        - Gostaria muito.
        Rubens tirou um carto do bolso e entregou-lhe, dizendo:
        - Procure-me na prxima semana. V conhecer o lugar. Ento conversaremos melhor.
        - Irei, pode esperar.
        Passava das trs quando o ltimo convidado se despediu e Maria Alice subiu com o marido para seus aposentos depois de haver ordenado aos criados que fechassem 
tudo.
        Enquanto se preparava para dormir, Maria Alice comentava:
        - A festa foi tima! Antnio concordou:
        - Graas a voc, como sempre. Foi impecvel. At Honrio, que costuma se exceder na bebida e provocar discusses, voc controlou. Como conseguiu isso?
        - Foi fcil. Coloquei uma linda mulher a seu lado para distra-lo. Viu como ele estava gentil?
        - Qualquer um seria gentil ao lado de uma viva rica como aquela. Ele sempre se interessou por ela. Estava cheio de dedos.
        - Eu sabia disso. Foi s dar um jeitinho e pronto.
        - Em compensao, Ernesto me pressionou. Deu-me vontade de mand-lo s favas. O que ele quer mais? Fiz o que podia.
        - Claro que se controlou. Afinal ele  quem sempre d mais dinheiro para sua campanha.
        - Por isso me fiz de tolo. Amanh eles podem aprovar a iseno dos impostos e pronto. Tudo fica no lugar.
        - Ele est desgostoso com o filho. Sabe que Rubinho no quer trabalhar com o pai e preferiu alugar um escritoriozinho? Angelina estava inconformada.
        - No  para menos. Estou pensando em Daniel... Ele precisa decidir o que vai fazer.
        - Tem razo.
        - Amanh mesmo falo com ele.
        - Faa isso.
        Acomodaram-se para dormir, o que no tardou a acontecer.
        
Captulo 2
        
        Daniel parou em frente o prdio e conferiu o nmero. Era esse mesmo. Quinto andar. Entrou, olhou em volta, gostou. Apesar de no ser novo, estava muito limpo 
e arrumado.
        Ao sair do elevador, caminhou pelo corredor e logo viu uma placa na parede: Dr. Rubens de Oliveira e Castro. Advogado. Parou e tocou a campainha.
        A porta abriu e uma moa apareceu.
        - O senhor deseja... - perguntou ela educadamente.
        - Falar com o Dr. Rubens. Ele est?
        - Sim. Faa o favor de entrar. Marcou entrevista?
        - No.
        - Vou ver se ele pode atender. Como  seu nome? Daniel tirou um carto do bolso e deu-o a ela, dizendo:
        - Ele me convidou a vir aqui.
        - Queira sentar-se e esperar.
        Ela saiu e Daniel examinou a sala com satisfao. Havia flores no vaso, quadros nas paredes. A decorao moderna, elegante, de muito bom gosto.
        A porta abriu-se e Rubens apareceu com um sorriso nos lbios.
        - Que bom v-lo! Como vai?
        Depois dos cumprimentos, conduziu-o  sua sala.
        - Voc toma alguma coisa? Um refresco, uma gua, um caf?
        - Um caf.
        Rubens apanhou o telefone discando, depois disse:
        - Dona Elza, providencie um caf para ns. Desligou o telefone e voltando-se para Daniel continuou:
        - E ento, gostou do lugar?
        -  muito agradvel. No se parece nada com os escritrios que conheo. Mveis pesados, escuros, sbrios.
        - Meu estilo  outro. Passo aqui muitas horas e gosto de me sentir bem. Ambiente leve, bonito, acolhedor e principalmente confortvel. Adoro conforto, mas 
no dispenso a beleza, juntei os dois.
        - Faltam tambm os papis espalhados sobre a mesa e as incontveis pastas empilhadas.
        Rubens riu gostosamente.
        - Sou perfeccionista. Gosto de ordem. No consigo trabalhar em um lugar desarrumado.
        A copeira trouxe a bandeja com o caf e serviu-os. Depois de tomarem o caf conversando amigavelmente, Rubens convidou:
        - Venha conhecer as outras salas.
        A sala contgua tinha poucos mveis. Apenas alguns arquivos, uma mesa com mquina de escrever.
        - Estou organizando aqui os arquivos dos casos. Tenho tambm as informaes importantes, algumas pesquisas.
        - Boa idia! Facilitar o trabalho.
        - Tem pouca coisa. Estou no comeo.
        - H quanto tempo est aqui?
        - Seis meses. Trabalhei um ano e meio com o Dr. Del Vecchio. Apesar do pouco tempo, aprendi muito com ele. Meu pai queria que eu ficasse mais l para depois 
ir trabalhar na empresa dele. Quando soube que eu sa, achou ruim, mas ter que se conformar.
        Passaram para outra sala. Estava vazia.
        - No tive dinheiro nem tempo para mobili-la. Sabe como ... Tambm tenho meu orgulho. Se quero ser independente, no posso ficar pedindo dinheiro  minha 
famlia. Alis, meu pai j disse que no vai dar nada, que eu vou botar tudo fora. No acredita que eu consiga.
        - No acredita ou no deseja que d certo? Rubens parou um pouco, depois disse:
        - . Acho que ele no quer.
        - S para depois poder dizer: "Eu no falei?" Os dois riram gostosamente.
        - Quando falei com voc, no estava brincando. Pode ocupar esta sala. Dividiremos as despesas, os empregados, nos ajudaremos com os casos. Ser perfeito.
        - No sei se estou preparado para assumir isso. Acabo de me formar. No sou conhecido no meio. Alm disso, meu pai tambm no me ajudar. Tem outros projetos 
para mim.
        - Isso o incomoda?
        - No. Gostaria que fosse diferente, mas cada um  o que .
        - Vai precisar mobiliar sua sala e ter algum dinheiro para os primeiros tempos. Eu tambm ainda no tenho muitos clientes. Algumas pequenas causas, com muito 
trabalho e pouco dinheiro. Mas estou disposto a vencer e sei que posso conseguir.
        - Tenho dinheiro guardado. Minha me sempre foi muito generosa nas mesadas. Meu pai tambm. Gostam que eu me apresente sempre bem e tenha dinheiro no bolso. 
Posso mobiliar a sala e agentar os primeiros tempos, se eles resolverem suspender a mesada.
        - Nesse caso, nada o impede de aceitar. Para mim seria conveniente no s porque ficar mais barato manter isto aqui, mas tambm porque gosto de voc, de 
sua forma de pensar. Creio que  o companheiro ideal. Tenho intuio de que juntos faremos grandes coisas!
        Daniel sorriu:
        - Seu otimismo  contagiante.
        - Nesse caso, aceite. Um dia ter que comear, e esta oportunidade  boa mesmo.
        - Est bem. Acho que podemos tentar.
        - Assim  que se fala! Amanh mesmo poderemos comprar seus mveis. Teremos tambm que fazer uma placa com seu nome para colocar ao lado da minha. Seus documentos 
esto em ordem? J pode comear a trabalhar?
        - Esto. Gostei muito da decorao que voc fez. Acho melhor seguir o mesmo estilo.
        - timo.
        Entusiasmados, os dois continuaram conversando, combinando detalhes e programando a instalao de Daniel. Quando este deixou Rubens, no fim da tarde, estava 
entusiasmado e alegre. Imaginava como decorar a sala, o que comprar, tentando visualizar como ficaria desta ou daquela forma.
        Na hora do jantar, Maria Alice comentou:
        - Daniel est bem-disposto! Alguma namorada nova?
        Ele desviou o assunto. Achava melhor no entrar em detalhes do que pretendia fazer.
        - Nada disso. Voc acha que s ficamos bem quando h mulheres por perto?
        - Acho. Basta observar quando passa uma moa bonita. Vocs ficam babando!
        Antnio olhou para ambos e resolveu:
        - Daniel tem razo. Mulher  bom, mas o que ele precisa agora  decidir o rumo que sua vida vai tomar. Tratar de sua carreira. Agora  o momento exato para 
inici-la. Tudo nos favorece.
        - Vou pensar no assunto, papai - prometeu ele querendo escapar  presso.
        - J pensou demais. Est pensando h muito tempo.  hora de decidir. Est perdendo um tempo precioso. O que espera mais? Formou-se,  um advogado. Tem o 
ttulo e um nome ilustre. O caminho est aberto.
        Daniel franziu o cenho. Seu pai obrigava-o a uma atitude que no queria tomar. No gostava de ser pressionado. Enquanto ele apenas sugeria, no tinha importncia, 
mas agora estava querendo intervir em suas decises. Isso feria seu senso de justia. Tinha o direito de escolher o prprio caminho. Olhou-o srio e respondeu:
        - Obrigado por seu interesse, mas eu posso resolver qual a carreira que devo seguir. Estudei no para ter um ttulo, mas para exercer a profisso. Gosto 
do Direito. Pretendo advogar.
        Antnio olhou-o surpreendido. No esperava uma atitude to firme. Habituado a contemporizar, disse em tom conciliador:
        - Claro que voc se formou para advogar. Eu mesmo tenho tido minhas causas.
        - Onde voc d o nome e os outros advogados fazem tudo. No  isso que eu quero para mim.
        Antnio irritou-se:
        - O que quer? Ir ao frum de pasta na mo, correr atrs dos juizes, ir nos cartrios e nas juntas para tirar algum malandro da cadeia? E isso que quer?
        Maria Alice interveio, preocupada:
        - Vamos deixar esse assunto para depois. No  bom discutir durante as refeies. - Baixou o tom de voz ao dizer: - E na frente dos criados.
        - Desculpe, Maria Alice, mas a indeciso de Daniel me irrita. Concordo. Deixemos esse assunto para depois. Mas pode ter certeza de que no esquecerei.
        Lanira olhou-os entediada. Eles eram teimosos e com certeza iriam discutir no escritrio, tomar decises para depois sair como se nada houvesse acontecido, 
fingindo diante dos criados.
        Estava cansada dessa hipocrisia. Onde quer que fosse, as pessoas eram falsas e sem graa. Diziam frases convencionais, sorriam educadamente, nunca mostravam 
o que estavam sentindo. Anos atrs pensara em fugir de casa, mas nunca tivera coragem. Detestava a pobreza, a falta de conforto. Por vezes sentia-se culpada por 
essa fraqueza. Ela tambm dizia frases convencionas, fingia, sorria sem vontade. Por isso a vida parecia-lhe sem graa. As pessoas eram autmatos, vivendo uma vida 
vazia, sem objetivos, sepultando sentimentos, cuidando das aparncias. Ela, tambm, tornara-se uma pessoa como as demais, obedecendo s regras da sociedade. Um dia 
se casaria com um nome ilustre, teria filhos, ensin-los-ia a entrar nas regras.
        As geraes se sucediam, sempre iguais, e essa rotina a deprimia. Embora desejasse quebr-la, sabia que no teria coragem. Continuaria fazendo tudo igual, 
como sua av, sua me e as outras famlias que conhecia. Acreditava que fora das convenes sociais no havia nada. Era s perdio, sofrimento, dor.
        Maria Alice procurou conduzir a conversao de forma mais amena, falando dos filmes do momento e dos novos cinemas da cidade. Apesar do tom, Lanira podia 
sentir que ela estava tensa. Antnio trocou idias com ela, fingindo que no percebia o silncio de Daniel. Lanira olhou-o com certa curiosidade. Ele teria coragem 
para escapar  rotina familiar? Desde pequena ouvia o pai programar a carreira poltica do irmo. Para ela era fato consumado. Ele acabaria por ceder.
        Depois do caf, Daniel ia retirar-se quando Antnio convidou:
        - Vamos conversar no escritrio. Precisamos esclarecer algumas coisas. No d mais para adiar.
        Daniel suspirou mas resolveu:
        - Est bem, papai. Vamos.
        Maria Alice olhou com certa preocupao, porm no disse nada. Nunca se intrometia nas conversas do marido com os filhos.
        Foram para o escritrio. Lanira apanhou um livro e acomodou-se em uma poltrona. Maria Alice foi dar ordens na cozinha.
        Antnio sentou-se atrs da pesada escrivaninha de carvalho e Daniel acomodou-se em uma poltrona  sua frente. Olharam-se.
        - Se estou tocando nesse assunto,  porque voc j tem idade para assumir uma carreira. Eu ingressei no partido muito antes.
        - J lhe disse, pai. No pretendo ingressar no partido. No gosto de poltica.
        - No sabe o que est dizendo. Muitos jovens adorariam ter uma oportunidade como a sua. Quer jogar tudo fora?
        - Agradeo seu interesse. Mas quero seguir outro caminho.
        - Quer advogar. Logo ser poltico  ideal para isso. Vai dar-lhe fama, nome. Credibilidade. Se  isso que quer, vou arranjar-lhe um lugar em um escritrio 
de um grande advogado que me deve muitos favores. Ao lado dele, logo estar conhecido. Agora ele  do partido e voc precisa inscrever-se tambm. Amanh mesmo providenciaremos 
tudo.
        - Eu no quero, pai. No vou.
        - No quer?
        - No quero. Deixe-me escolher o que fazer. J decidi. Amanh comeo a trabalhar com Rubinho. Estive com ele hoje e acertamos tudo.
        - O qu? Com Rubinho? Voc enlouqueceu? Sua me me disse que Angelina e Ernesto esto desesperados porque Rubinho montou um escritrio por conta prpria, 
de quinta categoria, sem nenhuma chance de ir para a frente. E l que voc quer ir enterrar seu talento?
        O rosto de Antnio cobriu-se de rubor e ele se levantou indignado. Sem dar tempo para que Daniel dissesse alguma coisa, prosseguiu:
        - No posso consentir em uma coisa dessas! Meu filho me envergonhando dessa forma. Voc no vai fazer isso.
        Daniel olhou-o srio e respondeu:
        - Vou, pai. J decidi. O escritrio  em um lugar bom no centro da cidade, bem montado, e tenho certeza de que obteremos xito.
        - Voc no sabe o que est dizendo. E jovem demais. Vai perder um tempo enorme, gastar dinheiro, envergonhar a famlia e depois voltar para tentar recomear. 
No. No posso permitir que faa isso.
        - No vou envergonhar ningum. Vou comear do princpio, aprender, crescer. Rubinho  inteligente, sabe o que diz, juntos vamos conseguir subir na vida.
        Antnio sacudia a cabea incrdulo. Foi at a porta e chamou Maria Alice. Quando a viu entrar, no se conteve:
        - Veja se consegue convencer seu filho a desistir dessa loucura. Recusou todas as oportunidades que eu lhe ofereci. Sabe por qu? Para ir juntar-se quele 
visionrio do Rubinho, no escritoriozinho que voc falou.  l, com ele, que Daniel deseja fazer carreira!
        Maria Alice levou a mo aos lbios para abafar a exclamao de susto que emitiu a contragosto.
        - No pode ser! Diga, meu filho, que no ouvi bem.
        Daniel levantou-se, respirou fundo tentando controlar-se e respondeu:
        - Vocs esto fazendo um drama de uma coisa to simples! Vou fazer uma experincia trabalhando com ele e dividindo as despesas. Combinamos tudo. No  uma 
calamidade. No faam disso uma tragdia familiar.
        Maria Alice abriu a boca, tornou a fech-la e no encontrou palavras para responder. Estava assustada. O tom da voz de Daniel fazia-a sentir que ele falava 
srio. Quando conseguiu falar, considerou:
        - Isso no vai dar certo, meu filho!
        - Se no der, farei outra coisa. Afinal sou jovem e tenho uma vida
        inteira pela frente. Agora, se me do licena, vou dormir. Amanh terei que levantar cedo.
        Daniel deixou a sala, e Maria Alice e o marido continuaram conversando, inconformados.
        - Esse menino est me enlouquecendo! - desabafou Antnio. - No sei a quem ele puxou. Talvez quele seu tio maluco que foi morar na Europa e jogou tudo fora.
        - Ele no tem nada a ver com tio Eurides. Pare de fazer comparaes. Daniel impressionou-se com Rubinho. Sabe como , os jovens gostam de fazer coisas hericas, 
diferentes.
        - Vai quebrar a cara! Como nunca trabalhou, pensa que  fcil ganhar a vida.
        - Ele  muito moo. Acho que devemos ser pacientes com ele. Deixe-o experimentar, logo vai descobrir seu engano. No h nada como a verdade. Vai trabalhar 
muito, ganhar pouco, e quando perceber seu engano, aceitar fazer tudo como voc deseja.
        - E o que vai acontecer. Mas para isso vou cortar a mesada. Se ele deseja ser independente, fazer as coisas por conta prpria, que se sustente.
        Maria Alice sacudiu a cabea:
        - No concordo. Seria humilhante ver Daniel passando necessidades. O que nossos amigos vo dizer? No, isso no.
        - Se eu continuar a dar-lhe dinheiro, ele no vai voltar atrs. E meu dever ensin-lo.
        - No dessa forma. Ele no vai ganhar o suficiente para manter nosso padro de vida. Vai ser uma desmoralizao. Nosso filho, mendigando, sem dinheiro para 
ir ao clube, sustentar o automvel. Voc no far isso! Vai ficar mal para ns!
        - Isso .
        - Lembra quando o filho do Dr. Emlio brigou com o pai e saiu de casa?
        - Para casar-se com aquela balconistazinha!
        - Foi. Ele cortou a mesada e foi um vexame. O rapaz deu para beber, pedia dinheiro emprestado aos amigos do pai, uma vergonha. Voc mesmo ficava constrangido 
quando ele o abordava. No, nosso Daniel no pode nos fazer passar essa vergonha!
        - Voc acha que ele poderia ficar como Netinho?
        - E um risco. Daniel  um bom moo. Mas sempre teve tudo. Se ficar sem dinheiro, pode descambar e ser difcil traz-lo de volta ao bom caminho.
        Antnio suspirou e passou a mo pelos cabelos num gesto nervoso.
        - Esse menino merecia uma boa surra.
        - Ele j  um homem.
        - Mas tem cabea de criana.
        - Precisamos ter pacincia. Tenho certeza de que essa postura vai durar pouco. Se voc fizer presso, ele vai teimar. Sei como ele .
        - Um cabea-dura.
        - Isso. Agora, se voc no pressionar, ele vai, percebe a bobagem que est fazendo e desiste.
        - Talvez voc tenha razo. A presso de Ernesto me irritou. Deu-me vontade de fazer justamente o contrrio.
        - Est vendo?  isso. No vamos pression-lo. Por si s ele voltar ao bom senso.
        - Espero que tenha razo.
        Na manh seguinte Daniel levantou-se disposto a enfrentar qualquer oposio familiar. Pensara em vrios argumentos para convencer os pais que sua resoluo 
era irrevogvel. Mas, para sua surpresa, na mesa do caf ningum tocou no assunto. Parecia que nada havia acontecido.
        Lanira olhou-o curiosa. Se seus pais estavam calmos, Daniel j teria desistido? Depois do caf, quando saa para escola, cruzou com Daniel e perguntou:
        - Voc mudou de idia?
        - No. Ao contrrio. Estou indo encontrar-me com Rubinho para comprarmos os mveis.
        - Est tudo to calmo... pensei que houvesse desistido.
        - No. Estou estranhando. Ontem s faltaram me bater, hoje esto como se nada houvesse acontecido.
        - Hum... Se eu fosse voc, tomava cuidado. Eles devem estar planejando algo. Papai estava particularmente amvel. Quando ele fica assim, sempre h alguma 
coisa por trs.
        - Eu sei.  assim que ele fica quando quer alguma coisa de seus eleitores, ou dos homens do partido.
        Lanira riu bem-humorada.
        - Eles pensam que nos enganam!
        - Seja como for, estou determinado. Tenho o direito de cuidar de minha vida e fazer as coisas do jeito que eu gosto. Se eu errar, ser por minha cabea.
        - Gostaria de fazer o mesmo.
        - Voc?
        - Nossa vida  sempre igual. Gostaria de fazer alguma coisa diferente, antes que acabe me casando com algum almofadinha e vire uma dona de casa.
        Daniel riu.
        - Voc, uma dona de casa?
        - Do que se admira? O que pode fazer uma moa de sociedade neste Rio de Janeiro?
        - Nunca pensei nisso. Sempre achei que voc gostava de freqentar a sociedade.
        - Antigamente gostava mais. Agora, estou ficando cansada. Isso no pode, aquilo no fica bem, desse jeito no, s desse. Acho que estamos virando marionetes. 
Outro dia na festa aqui em casa pensei que todos ns ramos bonecos manipulados.
        - E quem puxaria os cordes para movimentar-nos?
        - As regras. J reparou que todos lhes obedecem? Que  um crime sair fora delas?
        Daniel olhou a irm como se a estivesse vendo pela primeira vez. Seus olhos brilharam quando respondeu:
        - No sabia que pensava assim. Entendeu por que quero cuidar de minha vida e fazer alguma coisa do meu jeito? No quero ser uma marionete nas mos de papai 
ou de mame, nem da tirania social. Pretendo achar outro caminho. Acredito que exista. Nunca pudemos procur-lo. Agora estou decidido. Quer saber? A hora que resolver 
fazer o mesmo, tomar uma deciso diferente de ser a esposa de um almofadinha, conte comigo. Temos o direito de escolher o que fazer de nossas vidas.
        Lanira olhou-o sria ao responder:
        - Sua atitude sacudiu-me de alguma forma. Vou pensar no assunto. s vezes penso que a vida no  s essa rotina que conhecemos. Deve existir algo mais.
        - No sabia que estava to amarga! Em sua idade!
        - O que quer? Olho as pessoas e s encontro jogo de interesses, papis, aparncia, nada mais.
        Daniel cocou a cabea pensativo:
        - Isso  o diabo. Sei como se sente. No pensei que estivesse to entediada. Embora queira mudar, assumir minha vida, no estou deprimido como voc. Acredito 
na vida. Sei que existem outras coisas, outras formas de viver. Existe amor, alegria, bondade.
         - Onde?
        - Em algum lugar. O importante  no se conformar com o que esto nos impondo.  sair em busca do que queremos,  tentar ser feliz seja como for.
        - Voc acredita que vai encontrar o que procura?
        - Acredito. Somos jovens, cheios de vontade de viver.
        - Est entusiasmado!
        - O que faremos sem entusiasmo? Ele  o grande motivador na busca da felicidade.
        - O pior  que eu perdi o entusiasmo. Nada me motiva. Tudo me parece sem importncia.
        - Isso passa. Logo mais vai aparecer um moo inteligente, bem apanhado, e pronto. Seu entusiasmo volta rapidinho!
        - ... pode ser. No digo que no. Mas onde encontr-lo? Por enquanto, nenhum dos que conheo conseguiu interessar-me. Alis, acho melhor assim. Sabe de 
uma coisa? s vezes penso que sou diferente, que no tenho nenhuma vocao para o casamento.
        Ele riu bem-humorado:
        - Duvido. E s no que as mulheres pensam!
        - No nego que eu penso, mas quanto mais penso, menos eu gosto da idia de me casar. J olhou em volta e viu como  a vida dos casais? Eu no teria pacincia 
para obedecer ao marido, pr panos quentes aqui e ali, engolir a raiva, dissimular.
        - Como mame faz?
        - E. Como ela. Reparou como ela se controla para no sair das regras? Nunca perde o controle, em nenhuma situao.
        - Talvez seja uma qualidade.
        - At certo ponto sim, mas ela no  calma, cordata, equilibrada como quer parecer. Com seu jeito educado, controla papai, ns, os criados. Todo mundo s 
faz do jeito que ela quer.
        - Ela no gosta de discutir.
        - Experimente contrari-la. Seus olhos soltam chispas. E embora no discuta, sempre arranja um jeito de torcer as coisas do jeitinho que ela quer. Quer apostar 
como vai fazer voc mudar de idia?
        - Quanto a isso, est enganada. Ela pode fazer o que quiser. No vai conseguir.
        - Veremos.
        - Voc tem aula agora?
        - Tenho. Por qu?
        - Ia convid-la para ir comigo ver o escritrio. Poderia me ajudar a arrum-lo.
        - No tenho nenhuma aula importante. Posso cabular.
        - Se mame souber, me mata!
        - Ns no vamos contar. Estou curiosa para ver como . Outro dia assisti a um filme em que havia um escritrio moderno, muito chique.
        - Combinei com Rubinho que faria a decorao no mesmo estilo das salas dele.  moderno e eu gostei. Depois, acho que no ficar muito caro. Sabe como , 
ainda no sei se poderei contar com a mesada. Eles bem que podem fazer presso e cort-la.
        - No a mame. Isso eles no faro. J pensou se algum comentar que o filhinho dela est sem dinheiro para as despesas? Ela vai morrer de vergonha!
        - E, acho que tem razo. Ento vamos embora.
        Lanira entrou no carro com satisfao. At que enfim iria sair da rotina. Havia uma coisa diferente para fazer. Conversaram animadamente durante o trajeto. 
Rubinho j os esperava. Levaram Lanira para ver tudo e ajud-los a escolher o que comprar. Um leve toque feminino seria agradvel, uma vez que eles desejavam quebrar 
a sobriedade comum a todos os escritrios de advocacia.
        Os trs foram s compras alegremente e Lanira no continha o entusiasmo, principalmente porque eles estavam saindo do tradicional, criando alguma coisa nova, 
mais ousada. s duas da tarde eles j haviam comprado o mais importante e foram almoar em um pequeno restaurante.
        - Quando sairmos daqui, o que vamos comprar? - indagou Lanira com entusiasmo.
        - Bom, eu preciso ir para o escritrio. Fiquei fora a manh inteira. Tenho um cliente que ficou de ir s trs horas - respondeu Rubinho.
        - Eu acho que por hoje no podemos comprar mais nada. Amanh eles vo entregar os mveis, vamos arrumar tudo e ver como fica. No quero me precipitar e comprar 
coisas que no combinam.
        - Tem razo - concordou Lanira. - S vendo os mveis no lugar  que vamos saber o que fazer mais. No compramos ainda os objetos de uso, cinzeiros, quadros. 
Acho elegante ter uma caixa de cigarros sobre a mesa. Vi uma na rua do Ouvidor linda, ficar muito bem com seus mveis.
        - Estou comeando a ficar com inveja - disse Rubinho. - Eu tive que fazer tudo sozinho. No notei esses detalhes.
        - Se voc quiser, podemos escolher algumas coisas para sua sala tambm - sugeriu Lanira com satisfao.
        Ela nunca tivera chance de escolher nada. Seu quarto, seus mveis, seus objetos de uso e at suas roupas haviam sido escolhidas pela me. Quando ela era 
criana, vrias vezes tentara comprar o que achava bonito. Mas a me dizia que no ficava bem, que estava fora de moda, sugeria outra coisa. Ela obedecia. Ultimamente, 
quando gostava de algo, s comprava se sua me aprovasse, se dissesse que ficava bom.
        Ela sempre gostara de decorao. Apreciava objetos de arte, tinha certo jeito para arrum-los de maneira agradvel. Percebendo que os dois rapazes tinham 
acatado sua opinio na compra dos mveis, sentiu-se animada.
        - S que amanh voc no vai "matar" a aula - resolveu Daniel.
        - Est certo. Mas eu saio s onze e meia e vou direto para o escritrio. Estou louca para arrumar tudo e ver como fica!
        - Est certo. Irei busc-la na escola.
        Quando voltaram para casa, passava das quatro, e Maria Alice olhou-os admirada. Nunca os vira sair juntos. Foi logo dizendo:
        - Estava preocupada. Voc no voltou da escola no horrio de costume e no veio para o almoo. O que aconteceu?
        - Nada.  que Daniel passou pelo colgio e aproveitei para voltar com ele. Estvamos com fome e fomos almoar juntos.
        Ela o olhou desconfiada. A histria no estava bem contada. Havia alguma coisa errada por detrs disso. Iria descobrir.
        - Poderia pelo menos ter telefonado. J estava quase ligando para o escritrio de seu pai e mandando Jos  sua procura na escola.
        - A culpa  minha, me - justificou-se Daniel. - Deveria ter avisado que ela estava comigo. Desculpe.
        - S foram almoar? J passa das quatro. Lanira saiu s onze e meia!
        - Verdade? - disse Lanira. - Nem percebemos o tempo passar! Vou subir para tomar um banho e descansar um pouco.
        -  uma boa idia. Vou fazer o mesmo - resolveu Daniel.
        Eles subiram e Maria Alice permaneceu em p observando-os at que eles sumissem no fim da escada. L em cima, no corredor, Lanira trocou um sorriso alegre 
com o irmo, dizendo baixinho:
        - Ela desconfiou, mas desta vez no descobrir nada.
        - E. Espero que no, seno vai sobrar para mim.
        - Qual nada! Estou adorando esta histria. No perderia isso por nada! No se esquea: amanh estarei esperando para continuarmos.
        - Acho melhor arranjar uma desculpa para a mame. Ela vai estranhar voc no vir para casa outra vez.
        - Deixe comigo. Eu telefono da escola.
        - O que vai dizer?
        - No sei ainda. Mas, pode ter certeza de que ela vai acreditar. Com os olhos brilhantes, Lanira entrou no quarto enquanto Daniel, abanando a cabea e rindo, 
foi para seus aposentos.
        
        
Captulo 3
        
        
        Daniel olhou em volta com satisfao. A sala estava pronta e o ambiente, muito agradvel. Rubinho entrou e vendo a alegria de Daniel disse:
        - Ficou bom mesmo. Vocs fizeram milagre em uma semana.
        - A ajuda de Lanira foi preciosa!
        - Tem razo. Ela tem muito bom gosto. Agora,  comear a trabalhar. Voc fez os cartes?
        - Sim. Ficaro prontos amanh cedo.
        - Voc pode tambm anunciar no jornal.
        - No sei. Meus pais ficariam furiosos. At agora no tocaram mais no assunto e eu no gostaria de provoc-los.
        - Os meus ficaram, mas eu no liguei. Meus primeiros clientes vieram por causa do anncio. Sabe, Daniel, quando eu resolvi assumir minha profisso e cuidar 
de minha vida, sabia que minha famlia no iria gostar. Mas entre eles ficarem contrariados e eu viver infeliz, optei por minha felicidade. No compreendo em que 
os estou prejudicando fazendo as coisas do meu jeito. No cometi nenhum crime, nem nada que possa envergonh-los. Estou trabalhando honestamente e dando o melhor 
de mim. Acho que tenho todo o direito de escolher o rumo que deverei dar  minha vida.
        - Eu penso como voc. Por que ser que os pais no confiam em nossa capacidade? Para eles ns ainda no crescemos.
        - No  s isso. Eles do muita importncia s aparncias, s regras da sociedade. Todos estamos cansados de saber a corrupo que existe por trs. Tudo 
 permitido desde que ningum descubra. H muita gente srdida fantasiada de gente bem ditando normas e criticando todo mundo.
        - Concordo. E engraado como os comentrios maldosos insinuam, a podrido  comentada, mas ningum faz nada.
        - Eu me recuso a ser um deles.
        - Eu tambm. Tem razo. Vou pr o anncio. No tenho nada a esconder. As pessoas precisam saber que estou  disposio.
        Rubinho colocou a mo no ombro do amigo, dizendo contente:
        - Assim  que se fala! Gostaria de trocar idias com voc sobre os casos que estou atendendo. Ouvir sua opinio.
        - Com prazer. Aprender mais vai ser bom para mim.
        Dois dias depois Antnio chegou em casa indignado. Encontrou Maria Alice na sala e foi logo dizendo:
        - Voc j leu no jornal? Ela se levantou:
        - O qu?
        - Precisamos fazer alguma coisa! Daniel perdeu o juzo.
        - O que aconteceu?
        - Veja aqui, este anncio!
        Ela leu o jornal que ele lhe estendia e enrubesceu:
        - Que mau gosto! No foi assim que o educamos!
        - Para voc ver. Ele poderia ter tudo que quisesse, comear de cima, e no quis. Preferiu ficar como um pedinte, implorando que lhe dem servio. Colocar 
anncio no jornal  ridculo. Como se ele fosse uma mercadoria, um sabonete, um par de meias que precisa ser vendido. Um horror! Vamos cham-lo aqui e exigir que 
ele acabe com isso de uma vez por todas.
        - Foi uma idia infeliz, reconheo. Mas, por outro lado, para ele chegar a esse extremo  porque est determinado. Se o pressionarmos, pode ser pior.
        - No posso ser desafiado por meu prprio filho. Eu, um homem de posio! Ele ter que me ouvir!
        - Daniel no  mais criana. Contrari-lo s far com que ele continue. Como ns fomos contra o que ele queria, far tudo para mostrar que ele estava certo.
        - Teimoso ele . Mas por causa disso no podemos deix-lo fazer as bobagens que quer. Ele ter que entender.
        - E se ele se recusar? Se suspendermos a mesada ser pior. Nosso filho no pode sair por a na misria. O que os outros iriam dizer? No, Antnio. O melhor 
mesmo ainda  fazer de conta que no vimos nada. Ignorar.
        - Estamos fazendo isso desde que essa histria comeou. No deu resultado.
        - Dar, com certeza. Voc acha que ele ser bem-sucedido? Que ganhar fama e dinheiro naquele escritoriozinho?
        - No. Claro que no. Grandes advogados, verdadeiras sumidades precisaram trabalhar com gente famosa durante anos para conseguirem notoriedade. No daria 
certo ainda que ele fosse um gnio, o que infelizmente ele no .
        - Ento ser uma questo de tempo. Ele vai experimentar, no vai dar certo e voltar arrependido, disposto a fazer o que voc quiser. - ... Pode ser que 
tenha razo. S pode dar nisso.
        - Ento por que se preocupar? Vamos fazer de conta que no sabemos de nada.
        - E quando os amigos perguntarem? O que diremos?
        - Ora, Antnio, vamos sorrir e dizer que so arroubos da juventude. Que ele est querendo ganhar experincia, conhecer a vida, estar no meio do povo para 
s depois ingressar na poltica.
        - Bem pensado. Um homem de classe que desce de seu nvel social para misturar-se ao povo para mais tarde trabalhar pelo bem-estar da sociedade! Que idia! 
Nem eu pensei nisso!
        - Pois pense. Tudo passa, e essa loucura do Daniel tambm passar. Ento tudo entrar nos eixos.
        Antnio suspirou mais conformado. Maria Alice tinha razo. No iria dizer nada a Daniel.
        
        Naquela noite, depois do jantar, Lanira procurou Daniel no quarto:
        - Vi seu anncio no jornal.
        - Ento, o que achou?
        - Bom. Simples e claro. Gostei. Quem no gostou foi papai, e como sempre mame o apoiou.
        - E? No falaram nada durante o jantar.
        - Nem falaro. Eles encontraram uma sada para suas "loucuras da mocidade".
        - Como assim?
        - Pretendem transformar voc em um socilogo que est pesquisando os problemas sociais para mais tarde dedicar-se  poltica.
        - De onde eles tiraram isso? Fui categrico. Jamais entrarei para a poltica.
        - Eles no pensam assim. O que far quando tudo der errado? Ir procur-los e far o que eles quiserem.
        - Isso  absurdo.
        - E o que eles pensam.
        - Vero o quanto esto enganados.
        Lanira ficou alguns segundos pensativa, depois disse:
        -  o que eu desejo de corao. Voc  minha esperana. Sua atitude me mostrou que eu no preciso seguir a programao que eles fizeram para mim.
        - No precisa mesmo. Agora, para ser livre  preciso assumir a responsabilidade por sua vida. A independncia intelectual  s iluso. Voc s se torna independente 
quando tem dinheiro suficiente para sustentar-se. Apesar de minha atitude, ainda no me sinto  vontade. Enquanto estiver vivendo s expensas da famlia, no posso 
dizer que sou dono de mim. Mas pode ter certeza de que estou caminhando para isso. Quando puder, no vou mais aceitar a mesada deles.
        - Voc fala como se fosse errado aceitar o que eles nos do. So nossos pais, criaram-nos e  funo deles nos sustentar.
        - Gostaria que soubesse que no pretendo ser ingrato. Gosto deles, respeito-os, eles me deram mais do que o dinheiro, eles me deram a vida. Mas isso no 
lhes d o direito de decidir sobre meu destino. Tenho minhas idias, meus projetos, quero fazer o que gosto. Depois, sou adulto, tenho uma profisso, penso que seria 
vergonhoso continuar a viver s custas deles. O que se justificava quando ramos crianas, hoje no se justifica mais.
        - . Tem razo. Eu tambm vou estudar, ter uma carreira e fazer o que quero.
        Daniel sorriu ao responder:
        - Voc  mulher. No precisa fazer o que eu fao. Logo vai aparecer algum que far seu corao bater mais forte e voc no vai resistir.
        - Isso no vai me acontecer.
        - Acontece com todas as meninas.
        - No comigo. No quero me transformar em dona de casa nem em esposa. No gosto desse papel. Quando penso nisso me d arrepios!
        Daniel soltou uma gargalhada.
        - Vamos ver se voc vai falar isso daqui a dois ou trs anos.
        - Voc vai ver.
        Quando Lanira deixou o quarto, Daniel deitou-se pensativo. Apesar de se sentir atrado por muitas garotas, de haver namorado algumas, nunca amara ningum. 
Seus romances no duravam mais do que um ms ou dois e logo a atrao inicial desaparecia. Como todos os rapazes de sua poca, ele tivera algumas aventuras sem conseqncias 
com mulheres casadas. No era romntico. Tirava da vida o que podia lhe oferecer, no acreditava no amor dos poetas.
        Pretendia dedicar-se  carreira e, quando conquistasse uma boa situao financeira, escolher uma mulher inteligente, culta, que lhe agradasse, e se casar. 
Pensava em ter uma famlia. Tudo aconteceria a seu tempo.
        Embalado por seus projetos para o futuro, Daniel adormeceu e sonhou. Viu-se sentado em uma mesa em um grande salo, cercado de pessoas. Um homem andava de 
um lado a outro, falava apontando para ele, acusando-o. Reconheceu que estava em um tribunal. Mas ele no era o advogado, ele era o ru. Angustiado, ouviu o que 
o acusador dizia:
        - Ele matou para encobrir a traio! Atraiu a vtima com falsas palavras e covardemente matou-a. Esse assassino cruel no pode ficar impune. Precisa ser 
responsabilizado pelo que fez. A justia pede e vocs precisam conden-lo!
        Daniel suava frio e queria fugir dali sem conseguir. O acusador parou  sua frente e continuou:
        - Olhem para ele! Diz ser inocente e finge estar sofrendo, mas no se iludam, no se deixem enganar pelas aparncias. Trata-se de um assassino perverso, 
calculista. As provas so todas contra ele. No tenho nenhuma dvida do que estou afirmando.
        Daniel fez tremendo esforo para sair daquela situao e acordou com o corpo molhado de suor. Passou a mo pelos cabelos, levantou-se e foi  cozinha tomar 
gua. Depois respirou aliviado.
        "Foi s um pesadelo", pensou. Ele havia pensado tanto em sua carreira que acabara sonhando com ela.
        Apesar de no levar a srio o sonho, teve medo de dormir e ter novamente aquele pesadelo. Apanhou um livro e comeou a ler. S quando o dia comeou a clarear 
foi que conseguiu adormecer.
        Acordou assustado olhando o relgio sobre a mesa de cabeceira. Dez horas! Levantou-se apressado. Pretendia ir cedo para o escritrio. Lavou-se, vestiu-se 
e saiu.
        Maria Alice estava no hall e, vendo-o, disse:
        - Se quiser caf, tem na copa.
        - Obrigado. Estou atrasado.
        Saiu rpido e ela suspirou resignada, pensando: se ao menos ele ouvisse seus conselhos! Filhos so assim mesmo. No ouvem os pais, mas quando as coisas do 
errado, quando se metem em alguma enrascada, pedem ajuda. Daniel, sempre to inteligente, por que no entendia isso? Tinha que ir pelo lado mais difcil?
        Daniel chegou ao escritrio e Rubinho quando o viu foi logo dizendo:
        - Ainda bem que chegou. H um recado para voc.
        - Perdi a hora! Tive um pesadelo terrvel e quase no dormi esta noite.
        - Deve ser a tenso. No comeo  assim mesmo.
        Uma pessoa havia ligado por causa do anncio, querendo marcar hora. Daniel dirigiu-se  secretria:
        - Ligue para ele e diga que estarei livre a partir das trs da tarde. Rubinho sorriu malicioso e Daniel esclareceu:
        -  meu primeiro cliente. Ele no pode saber disso.
        - Se tem algum tempo, gostaria que visse comigo um processo. Daniel concordou e juntos mergulharam no estudo do caso que Rubinho estava cuidando, trocando 
idias, procurando solues.
        Passava das quatro quando o candidato a cliente de Daniel chegou. A secretria introduziu-o e Daniel, que o esperava, levantou-se para cumpriment-lo.
        Depois de faz-lo sentar-se em frente  escrivaninha, Daniel sentou-se tambm, fixando-o atencioso. Era um homem alto, magro, rosto fino e plido, olhos 
inquietos, cabelos lisos e castanhos, aparentava uns cinqenta anos. Provavelmente de classe mdia.
        - Meu nome  Aparcio Moreira Filho. Trabalho no comrcio. Tenho uma loja de armarinhos h algum tempo. Aqui tem meu carto.
        Daniel apanhou-o, colocando-o sobre a mesa. Ele continuou:
        - Vim procur-lo porque estou tendo problemas com meu scio e gostaria de desfazer a sociedade.
        - J conversou com ele sobre o assunto?
        - No. Estou desconfiado de que ele est me roubando.
        - E uma acusao grave. Tem provas?
        - Tenho. Vi quando ele entrou no estabelecimento durante a noite e retirou algumas mercadorias. Nunca me falou sobre isso.
        - Por que no o surpreendeu no ato?
        - No podia. Estava l em condies precrias. No podia aparecer. Daniel olhou-o admirado, mas nada disse. Esperou que Aparcio continuasse.
        - Acontece que eu estava l com uma mulher, sabe como . Se minha mulher descobre, estou frito. Tive que ficar escondido e fazer tudo para que ele no me 
visse. Ele  meu compadre. Se eu falasse do roubo, ele poderia vingar-se de mim contando tudo para Maria. Tive que ficar escondido, sem falar nada, vendo-o levar 
minhas mercadorias embora.
        - O que pretende fazer?
        - Desfazer a sociedade. Saber como fazer isso legalmente.
        - Tem uma cpia do contrato social?
        - No.
        - A sociedade no foi legalmente constituda? No foram ao cartrio assinar o contrato?
        - Fomos. Otaviano fez tudo. Eu no entendo disso. - Sabe pelo menos o que estava escrito nele?
        - Dei uma olhada, mas no me lembro bem do que dizia.
        - No consultou nenhum advogado, assinou sem ler?
        - Sabe como , ele  meu compadre, tinha confiana nele.
        - Nesse caso, precisamos ir ao cartrio, procurar o documento e ler. S depois poderei dizer o que precisar fazer para acabar com a sociedade.
        - Pensei que no precisasse disso!
        - Entenda. H muitas formas de se fazer uma sociedade. Sem saber o que vocs combinaram, como esse contrato foi feito, no posso saber como resolver.
        Combinaram que iriam na manh seguinte ao cartrio. Aparcio pagou a consulta e saiu. Quando a secretria entregou-lhe o dinheiro, Daniel emocionou-se. Era 
a primeira vez que ganhava um dinheiro com seu trabalho. A quantia era insignificante, cobrara barato, mas mesmo assim foi prazeroso. Deu-lhe gostosa sensao de 
auto-suficincia.
        Quando contou a Rubinho o caso de Aparcio, ele comentou:
        - Esse  um caso comum. As pessoas confiam demais e sempre h os que abusam. Tenho visto muitos assim. Agora, que foi engraado ele estar l com uma mulher 
e no poder falar nada, isso foi. Vai ver que ele quis economizar o dinheiro de um hotel. Deve ser meio po-duro.
        - Ou ficou com medo de ser visto. Em todo caso, foi at providencial. Acabou descobrindo a safadeza do outro.
        Os dois riram bem-humorados.
        - Hoje  noite vou a uma reunio em casa de Julinho. Voc quer ir comigo?
        - Alguma coisa especial?
        - Nada. Ele trouxe alguns discos novos da Europa e vamos ouvi-los. Sabe como , as garotas tambm estaro l. Ser divertido. Lanira gostaria de ir? O ambiente 
 familiar.
        - Eu vou. Ela, no sei. Posso perguntar.
        - Faa isso. Posso passar em sua casa s oito. Est bem?
        - Est.
        Depois do jantar, Daniel falou com Lanira:
        - Quer ir conosco a casa de Julinho ouvir msica?
        - Quem vai?
        - No sei ao certo. Alguns amigos. Rubinho garantiu que o ambiente  agradvel. No vou ficar at muito tarde. Estou cansado e amanh quero levantar cedo.
        - Nesse caso eu vou. Ser melhor do que ficar no quarto pensando na vida.
        Maria Alice, vendo-os juntos para sair, admirou-se:
        - Vo sair?
        Foi Daniel quem respondeu:
        - Vou a casa de Julinho ouvir msica. Lanira vai comigo. No vamos voltar tarde.
        Era a primeira vez que Daniel convidava Lanira para sair com ele  noite. Ele resmungava quando a me pedia-lhe para buscar a irm em casa de algum. Vendo-os 
sair, Maria Alice procurou o marido, que sentado confortavelmente na sala lia uma revista.
        - Antnio, a tem coisa!
        - Como assim?
        - Daniel convidou Lanira para sair. Reparou que ultimamente eles tm sado muito juntos?
        - Isso  bom. No gosto de ver Lanira saindo por a sozinha.
        - No  disso que estou falando. Acho estranho essa sbita amizade deles. Para mim, esto tramando alguma coisa.
        - Que idia!  natural que Daniel acompanhe a irm. So jovens, gostam das mesmas coisas.
        - , pode ser. Mas as coisas comearam a mudar depois que ele se juntou a Rubinho.
        Ouvindo o rudo de um carro, Maria Alice correu  janela e arregaou a cortina.
        - Eu no disse, Antnio? Eles saram com Rubinho. Daniel nem tirou o carro.
        Antnio colocou a revista sobre a mesa, olhando-a srio.
        - No vejo motivo para preocupao. Apesar de tudo, Rubinho  um rapaz de bons costumes e de boa famlia.
        Maria Alice preferiu no responder. Podia ser que estivesse exagerando mesmo.
        - Machado me procurou para dar sua adeso. As eleies esto chegando. Vou concorrer para o Senado.
        - No ia postular outro cargo?
        - Pensei bem e resolvi que o Senado  o melhor lugar. No quero um cargo no Executivo. E perigoso. Posso queimar minha reputao e ter que deixar a vida 
pblica. J no Senado, no. D mais poder e prestgio com menos controle. Para mim  o ideal.
        - Voc sempre sabe o que faz.
        - Vamos dar uma recepo no sbado e eu reno os que me interessam e que podem contribuir para a campanha.
        - Por que no faz um jantar com eles no clube? Poderiam falar de negcios mais  vontade.
        - No. Precisamos cativar as esposas. Elas no gostam que os maridos fiquem sozinhos no clube. J aqui elas tero prazer em vir.
        - Pensando bem, ser melhor.
        - Sabe como , todos eles gostam de parecer donos da bola, mas na hora H eles s fazem o que as mulheres querem. Para ganhar a eleio, preciso que elas 
me apiem.
        Maria Alice sorriu maliciosa. Antnio era um poltico nato. Sabia o que estava fazendo.
        - Daremos a recepo na semana que vem, Antnio. Preciso de tempo para os convites. Vou providenciar tudo.
        Ele sorriu com satisfao.
        Tudo em sua vida corria bem. Sua mulher era perfeita, seus filhos faziam bela figura, sua carreira ia cada dia melhor, sua vida afetiva ficara maravilhosa 
desde que conhecera a secretria de um desembargador, seu amigo pessoal. Sentira-se atrado por ela desde o primeiro dia. Jovem, bonita, cheia de graa, dona de 
duas covinhas graciosas quando sorria mostrando os dentes alvos e bem distribudos. Bem-feita de corpo, elegante e charmosa, Alicia a princpio mostrara-se arredia, 
o que atiou ainda mais o entusiasmo de Antnio.
        Fez-lhe a corte, enviando-lhe flores, oferecendo-lhe pequenos presentes que ela aceitava mas continuava recusando um encontro a ss com ele. At que uma 
tarde, quando ele foi procurar o amigo em seu escritrio, sabendo que ele havia sado, encontrou-a triste, preocupada.
        - O Dr. Alberto saiu e vai demorar - disse ela quando ele entrou.
        - Tenho tempo, vou esperar.
        - Talvez ele no volte mais hoje.
        - Est muito calor l fora. Aqui est muito agradvel. Vou ficar um pouco. Se ele demorar mesmo, irei embora.
        - Como queira, deputado. Deseja um refresco? Um caf?
        - Um copo com gua, por favor.
        Ela apanhou o telefone e pediu  copeira para trazer a gua.
        Sentado no sof confortvel, Antnio observava-a com ateno. Ela se sentara atrs da escrivaninha e examinava alguns papis.
        Ele tomou a gua lentamente, depois colocou o copo sobre a mesinha e tornou:
        - Espero no estar atrapalhando.
        Ela ergueu os olhos escuros e brilhantes, sacudindo a cabea negativamente, balanando os cabelos louros e cortados  ltima moda.
        - Absolutamente. Esteja  vontade, deputado. Ele se remexeu no sof,um tanto inquieto.
        - Gostaria que no me tratasse de forma to cerimoniosa.
        - No estou entendendo.
        - Faz-me sentir velho.
        - No houve inteno.
        Ela fez silncio, voltando a examinar os papis que tinha nas mos. Ele continuou:
        - Desde que a vi, senti muita simpatia por voc. Tenho observado e hoje percebo que est triste.
        - Nem sempre as coisas so como desejamos.
        - Posso fazer alguma coisa?
        Ela hesitou, deixou os papis em cima da mesa e olhou-o como querendo descobrir o que ele estava pensando. Depois suspirou e respondeu:
        - No sei. Trata-se de meu irmo. Ele se encontra em uma situao difcil.
        Ele no quis perder a oportunidade:
        - Do que se trata? Talvez possa ajudar. Os olhos dela brilharam.
        - Ele  um ano mais novo do que eu, est com vinte e quatro anos. Formou-se em Direito. Desde os tempos de estudante trabalha no escritrio de um advogado 
importante cujo nome prefiro no declinar. A esposa do chefe apaixonou-se violentamente por ele e persegue-o de todas as formas. Agora est fazendo chantagem. Criou 
uma poro de situaes em que parece que ele a est cortejando. Ou ele cede ao que ela quer ou ela o delata ao marido.
        - Por que seu irmo no deixa o emprego? Eu poderia arranjar-lhe algo melhor.
        - Ela o ameaa. Se ele sair, ela o delata. O marido  conhecido por seu cime e por sua intransigncia. Se ela fizer isso, ele vai matar Nelsinho. Ele  
um moo de princpios. No quer se envolver com ela. Est desesperado. Pensando em ir embora do Brasil. Minha me  doente e muito apegada a ele. Desde que meu pai 
morreu ele  a paixo dela. Se ele for embora, ela no vai se conformar.
        Lgrimas rolavam de seus olhos e Antnio levantou-se e apanhou o leno, dando-o a ela.
        - Por favor, Alicia! No suporto v-la chorar! Eu, que tudo faria para v-la feliz! No fique assim, vamos dar um jeito nisso. Confie em mim!
        Ela o olhou tentando sorrir por entre as lgrimas. O interesse de um homem to importante a sensibilizava.
        - Desculpe, Dr. Resende.
        - Chame-me de Antnio. E assim que os amigos me tratam. Ela hesitou um pouco, depois decidiu:
        - Desculpe, Antnio. No deveria estar aqui falando de assuntos pessoais.
        - Por que no? Olhe, diga a seu irmo para ter um pouco de pacincia. Vou resolver esse caso.
        - De que forma?
        - Tenho amigos que sabem como dar um jeito nessa mulher. Podemos armar uma cilada tal que ela nunca mais queira atrapalhar a vida de seu irmo.
        - Se o senhor conseguir isso, eu lhe serei grata pelo resto da vida! Antnio tomou as mos dela, segurando-as com fora.
        - Sua gratido seria o maior prmio. - Passou a mo delicadamente pelas faces dela, dizendo baixinho: - Farei tudo para v-la feliz!
        Ela retirou a mo dele, tentando recompor-se.
        - No se preocupe. Voc est linda como sempre - tornou ele. Ela esboou leve sorriso.
        - Assim est melhor. Seus lbios foram feitos para sorrir.
        - Tem certeza de que vai conseguir que D. ngela deixe Nelsinho em paz?
        - Tenho.
        - No sei como lhe agradecer.
        - Aceite jantar comigo.
        Ela se sobressaltou, e antes que respondesse ele continuou:
        - Se eu conseguir, no mereo nem sua companhia para um jantar de comemorao?
        O rosto dela desanuviou-se:
        - Est bem. Se resolver esse caso, irei jantar com o senhor. 
        Antnio saiu de l entusiasmado. Sabia como resolver o problema dela. Falaria com Antunes. Ele era um ex-policial que trabalhava como detetive particular 
fazendo pequenos servios. Servia aos polticos trabalhando conforme a necessidade deles, incriminando pessoas, arranjando testemunhas falsas, desmoralizando ou 
elevando conforme o caso. Recebia bom dinheiro e tinha um escritrio de representaes, cujos produtos nunca vendeu, j que eram s para manter as aparncias.
        No dia seguinte, Antnio marcou um encontro com Antunes em um caf afastado. No queria ser visto com ele. Alicia dera-lhe todas as informaes sobre as 
pessoas, e Antnio contratou o servio.
        Achou divertido fazer com ngela exatamente o que ela estava fazendo com Nelson, s que com um tipo desclassificado. Antunes armou um plano: usando o nome 
de Nelson, atraiu ngela para um encontro de amor em um apartamento afastado e l tudo estava preparado. Ela chegou, feliz, obedeceu s instrues, preparou-se e 
deitou-se no quarto em penumbra. Quando ela pensou que Nelsinho iria entrar, quem entrou foi outro homem, que a abraou e beijou. As luzes se acenderam e eles tiraram 
vrias fotos. Ela sem roupa, na cama, abraada a ele. Ela quis gritar, mas Antunes foi categrico:
        - Se quer gritar, grite. Quem vai sair perdendo  voc. Seu marido vai saber de tudo.
        Apavorada, ela comeou a chorar e trmula prometeu fazer tudo quanto eles queriam e entregar todo o "material" que forjara contra Nelson, o que ela fez no 
dia imediato.
        Antnio ligou para Alicia e deu-lhe a boa notcia. Ela ficou feliz e finalmente concordou em ir jantar com ele. Excitado, Antnio programou aquela noite 
cuidadosamente. Comprou um belssimo vestido e mandou de presente para Alicia. Levou-a a seu apartamento. Tendo organizado tudo, dispensou os criados. O apartamento 
era belssimo, luxuoso, ricamente decorado. Ele o comprara para seu uso particular. Quando se interessava por alguma mulher, era l que a levava.
        Alicia era arredia, mas ele sabia como conseguir o que queria. Ela o admirava, e isso era meio caminho andado. Foi busc-la, tendo parado um pouco distante 
de sua casa, conforme ela pedira. Quando ela entrou no carro, estava linda. Seu jeito discreto encantava-o. Tentou coloc-la  vontade. Sabia que precisava ser delicado.
        - Voc est linda! O vestido assentou-lhe maravilhosamente!
        - No sei se devo aceitar! Fiquei tentada a us-lo pelo menos esta noite. Amanh poder devolv-lo. No posso ficar com ele!
        - Por qu? Tenho tanto gosto em que fique com ele! Voc foi feita para usar vestidos como esse. Tem um porte de rainha. O vestido ganhou vida e classe em 
voc.
        Ela corou de satisfao. Seu maior desejo era ter classe. Vivia lendo livros a respeito. Adorava a arte, a beleza e os lugares requintados.
        - Obrigada por tudo quanto tem feito por mim. Meu irmo pediu demisso do emprego e j tem outro muito melhor. Estou muito feliz. No imagina o favor que 
nos fez! Nelsinho pretende procur-lo para agradecer.
        - No precisa. Prefiro que ningum saiba. Quando um poltico presta algum servio, as pessoas julgam que est fazendo isso para arranjar votos. No gosto 
dessa postura. Fao isso porque gosto.
        - Essa  a verdadeira caridade.
        Uma vez no apartamento, ele a rodeou de carinho, fazendo-a entrever um mundo onde ela sempre desejara mas nunca conseguira entrar. Ela estava fascinada. 
Na penumbra, danaram, jantaram e quando depois ele a beijou delicadamente, ela no se pode furtar ao prazer de sentir-se querida por um homem fino, bonito, agradvel 
e apaixonado. Esqueceu quem ele era, seus compromissos familiares e sociais, para lembrar-se apenas de que era um homem inteligente, maduro, famoso, rico, bonito, 
cheio de classe, que a amava e desejava estar com ela.
        Antnio, inebriado, deixou-se envolver na aventura. Apaixonou-se perdidamente. Passaram a encontrar-se pelo menos uma vez por semana. Mas isso no era suficiente 
para ele. Conversou com o chefe dela e pediu-lhe para ceder a secretria. Assim, levou Alicia para trabalhar com ele diretamente. Como sua secretria, ela cuidava 
de tudo, acompanhando-o onde quer que fosse. Quando estavam ss, davam vazo a seus sentimentos.
        Antnio remoara, melhorara o humor, sentia-se revigorado, feliz. Alicia deixara-se envolver por esse amor, sentindo-se valorizada e amada. No se detinha 
para pensar aonde a levaria aquela aventura. Ao contrrio, procurava deliberadamente esquecer o futuro.
        Ele nunca lhe prometera deixar a famlia para assumir seu relacionamento com ela. Ao contrrio, fazia-a perceber o quanto a famlia era importante para ele, 
para sua carreira. Por outro lado, cercava-a de amor, garantindo que a amava como nunca amara outra mulher, e ela se conformava com a situao, compreendendo sua 
maneira de ser. Consolava-a a certeza de que ele passava mais tempo com ela do que com a famlia.
        Apesar do relacionamento ntimo, Alicia sabia ser uma secretria eficiente e no misturava as coisas. Antnio aprendeu a admirar sua postura profissional, 
discreta, e a cada dia mais e mais a amava.
        Ele estava feliz e realizado. S lhe faltava agora conseguir seu mandato de senador para aumentar ainda mais seu poder. Ele adorava poder opinar nos problemas 
da nao, ser procurado pelos jornalistas para falar sobre este ou aquele assunto, as reunies do partido, em que era tido em alto conceito.
        Despreocupado e satisfeito, Antnio acomodou-se melhor na poltrona e, encontrando um artigo interessante na revista, concentrou a ateno na leitura.
        
        
Captulo 4
        
        
        Sentado em frente  sua escrivaninha, Daniel examinava atentamente alguns documentos quando Rubinho entreabriu a porta do escritrio dizendo:
        - Est muito ocupado?
        - No. Entre.
        Rubinho aproximou-se dizendo com entusiasmo:
        - Lembra-se daquele caso que lhe contei antes ainda de voc vir trabalhar comigo?
        - Vagamente.
        - Do herdeiro que foi usurpado.
        - Lembro. Ele se resolveu?
        - Resolveu. Est sentado em minha sala.
        - E a?
        - Bom, trata-se de um caso difcil e ele quer que eu aceite. Estou pensando.
        - Por qu? No  isso o que voc queria? Pode ficar famoso!
        - Vai ser trabalhoso. Voc quer pegar esse caso comigo?
        - Eu? Voc vai precisar de pessoa mais experiente. No sei se estou preparado.
        - Acho que est. Faz mais de um ano que est trabalhando, e tem se sado bem. Ganhou vrias causas e tem aumentado o nmero de seus clientes.
        - Sei, mas, ainda assim, um caso como esse! J imaginou os grandes advogados que estaro do outro lado? Voc acha que teremos chance de venc-los?
        - Foi isso mesmo que falei para o cliente. Mas ele argumentou que no confia em nenhum desses figures. Garante que eles se unem para "depenar" os clientes 
e dividem tudo!
        Daniel riu gostosamente:
        - A classe est ficando desmoralizada!
        - Ele disse que prefere advogados moos e bem intencionados. Tem observado nosso trabalho e quer colocar sua causa em nossas mos.
        Daniel cocou a cabea pensativo, depois respondeu:
        - Se ele pensa assim, podemos tentar. Se conseguirmos vencer, teremos credibilidade.
        - Se perdermos, seremos execrados! Daniel suspirou e Rubens continuou:
        - S vou aceitar se voc concordar em dividir comigo essa responsabilidade. Juntos teremos mais chance de ganhar.
        - Antes de decidir, quero ouvir o que ele tem a dizer. Se foi realmente logrado e como. Estudar se ele tem mesmo as provas que diz ter.
        - Foi o que eu quis fazer. Ele, porm, alega que s vai trazer as provas depois que ns aceitarmos o caso. No quer dar mais detalhes antes de saber se vamos 
trabalhar para ele.
        - Estranho. Por que tanto segredo? Se no confia em ns, por que no procura outros?
        -  que h nomes conhecidos envolvidos e ele s vai mencion-los depois de saber nossa resposta. Venha, desejo apresent-lo a voc.
        Curioso, Daniel acompanhou o amigo. Sentado em uma poltrona em frente  escrivaninha de Rubens estava um rapaz alto, moreno, de uns vinte e poucos anos, 
cabelos escuros, rosto coberto por uma barba. Ele se levantou assim que se aproximaram, fixando neles seus olhos castanhos e brilhantes.
        - Este  meu scio Dr. Daniel.
        Daniel apertou a mo que ele lhe estendia. Notou que, apesar de limpo, suas roupas eram gastas e de m qualidade.
        - Muito prazer - disse Daniel. - Sente-se, por favor. Enquanto Rubens sentava-se do outro lado da mesa, Daniel acomodou-se ao lado do visitante.
        - Daniel deseja conhec-lo antes de decidir se aceita o caso. Ele olhou firme nos olhos de Daniel dizendo:
        - O que quer saber?
        - Do caso. Gostaria que me contasse tudo.
        - J disse ao Dr. Rubens o que podia dizer. O resto s vou contar se aceitarem.
        - Gostaria que repetisse o que j relatou a meu scio. O rapaz comeou ento sua narrativa:
        - No conheci meus pais. Fui criado em um colgio interno na Inglaterra. Quando perguntava sobre minha famlia, diziam-me que meus pais haviam morrido e 
que uma senhora generosa pagava minhas despesas mandando o necessrio duas vezes por ano. Aos dezoito anos, fui chamado pela diretora. Ela me perguntou que carreira 
eu queria seguir, se pretendia ir para a universidade. Eu pretendia estudar leis, fazer Direito, mas no sabia se iria ter condies financeiras. Ela me garantiu 
que a pessoa que estava me sustentando escrevera-lhe prometendo aumentar minha mesada para que eu pudesse deixar o colgio e ir para a universidade.
        - Quem  essa senhora? Voc sabe o nome? - perguntou Daniel.
        - Agora sei, mas naquele tempo, no. Uma das condies para que ela continuasse me mandando o dinheiro era que eu no soubesse sua identidade.
        - O que mais ela queria? - tornou Daniel com interesse.
        - Que eu no voltasse ao Brasil.
        - Que estranho! - considerou Daniel.
        - Bem, eu gostava de estudar. Queria ser algum na vida, no poderia perder aquela oportunidade. Cursar uma universidade exigia tempo integral e eu precisava 
daquele dinheiro. Aceitei e fui para a universidade. Duas vezes por ano eu ia ao antigo colgio e a diretora me dava o dinheiro. Durante quase trs anos tudo correu 
bem, at que um dia, quando fui receber o dinheiro, a diretora me disse que no havia chegado nada. Nos dias que se seguiram voltei l diversas vezes, mas o dinheiro 
no veio. Minha situao financeira comeou a se complicar. Nas horas vagas eu costumava dar aulas para ganhar algum dinheiro. Ensinava ingls para estudantes brasileiros 
e portugus para alguns ingleses.
        - Quantos anos tinha quando foi para a Inglaterra? - perguntou Rubens.
        - Quatro anos.
        - No se recorda de nada daquele tempo? - interveio Daniel.
        - Vagamente. Apenas um rosto jovem e bonito sorrindo para mim e beijando-me, um quarto claro e grande, um cachorro de pelcia. E s. Eu era muito pequeno. 
- Fez ligeira pausa e continuou: - Ento, fui forado a deixar a universidade. No pude concluir os estudos. Arranjei um emprego e de vez em quando voltava ao colgio 
em busca de notcias. Mas no havia nada. Trabalhei, juntei algum dinheiro e por algumas coisas que me aconteceram e que agora no vm ao caso, resolvi voltar ao 
Brasil e tentar descobrir o mistrio de minha origem. Mrs. Morgan, a diretora do colgio, afirmava que no havia nada de misterioso. Que eu devia dar graas a Deus 
por haver encontrado uma senhora caridosa que me dera condies de receber uma boa educao. Que eu j era um homem e que ela no tinha nenhuma obrigao de continuar 
me sustentando.
        Mas eu fiquei intrigado. Por que ela interrompera as remessas de dinheiro sem avisar ou dizer nada? Desembarquei no Brasil em 1948, portanto h trs anos. 
Desde ento tenho investigado e o que descobri mostrou-me que eu estava certo. Nasci em uma importante famlia do Rio de Janeiro e tive meus direitos usurpados. 
Nesses trs anos reuni as provas e agora pretendo entrar na justia e reclamar o que me pertence.
        - Seu nome  Alberto Martins, no? - perguntou Daniel.
        - Esse  o nome que consta na certido de nascimento que est comigo, mas esse no  meu verdadeiro nome.
        - Tem certeza? O que est dizendo  muito srio. Se voc foi registrado com esse nome, ser difcil provar o contrrio.
        - No se preocupe com isso. Mudaro de idia quando souberem o resto.
        - Sua histria  muito interessante. Se o Dr. Rubens aceitar, eu concordo. Com uma condio...
        - Qual?
        - Voc ter que trazer todas as provas que tem. Trata-se de um caso difcil e precisamos estud-lo melhor antes de resolver se  legalmente vivel. S ento 
poderemos dizer se aceitamos ou no. Seja qual for nossa deciso, seremos discretos.
        - Trarei todas as provas que possuo.
        - Se elas forem convincentes, de minha parte aceitarei.
        - Eu tambm - disse Rubens satisfeito.
        - Nesse caso vamos discutir as condies. Minha situao financeira no  muito boa. Tenho dado aulas em alguns colgios, mas tenho me ocupado com minhas 
pesquisas e por isso no ganho muito. Agora pretendo procurar um emprego fixo em alguma empresa americana e tenho certeza de que vou ganhar melhor. Entretanto, mesmo 
assim no poderei de pronto pagar muito pelos honorrios.
        - Vamos ter despesas. Acha que conseguir pag-las? - inquiriu Rubens.
        - Acredito que sim.
        - Ns trabalhamos para nosso sustento. No contamos com o dinheiro da famlia - esclareceu Daniel. - No pode contar muito com nosso dinheiro.
        - Sei tudo a respeito de vocs dois. Tenho certeza de que no lhes darei prejuzo. Serei generoso no final, quando vencermos. A ento poderei recompens-los 
pela dedicao e pelo trabalho.
        - Precisamos de seus dados pessoais. Amanh  tarde gostaria que nos trouxesse todos os documentos relativos ao caso. Ento nos contar o resto da histria 
em todos os detalhes - Disse Rubens.
        - Amanh preciso me ausentar do Rio, mas dentro de dois dias voltarei e esclareceremos tudo.
        Ele se levantou, despediu-se e saiu.
        - E ento? - indagou Rubens. - O que achou dele?
        - Uma pessoa interessante. Fala com tanta certeza! Espero que tenha mesmo as provas que diz ter.
        - Acho que tem. Mas se acharmos que essas provas so insuficientes, recusaremos.
        - Combinado.
        Daniel foi para sua sala, voltou aos papis que examinava, mas de vez em quando a figura de Alberto voltava  sua mente. Que histria curiosa! Quem seria 
a mulher misteriosa que lhe mandara o dinheiro? Por que no queria que ele voltasse ao Brasil? Teria sido ela quem lhe roubara a identidade e a fortuna? Por que 
ela teria suspendido a mesada?
        Daniel meneou a cabea. Dali a dois dias teria a resposta a todas essas indagaes. Era intil fantasiar sobre o assunto. Mas, apesar de pensar assim, a 
figura de Alberto e sua curiosa histria no o deixavam.
         noite, tentou esquecer o caso. Estava com vontade de alugar um apartamento e se mudar. Tinha certeza de que quando fizesse isso seus pais suspenderiam 
a mesada. Apesar de tudo, eles continuavam dando-lhe dinheiro e tentando interess-lo em poltica. O pai oferecera-lhe diversos cargos pblicos, que ele recusara. 
Gostava de seu pequeno escritrio e as vitrias que conseguira em sua carreira, mesmo pequenas, deram-lhe imensa satisfao. Fizera um trabalho limpo e dentro das 
normas da justia. Era a primeira vez que tinha oportunidade de fazer alguma coisa sem a ajuda da famlia. Sentia-se digno e capaz. Gostava dessa sensao.
        Deitou-se fazendo mentalmente as contas para saber se j tinha condies de viver sem a mesada e morar s. Suspirou resignado. Talvez ainda tivesse que esperar 
mais um pouco. Tinha a certeza de que haveria de conseguir.
        Adormeceu. Sonhou. Viu-se novamente naquela sala que lhe parecia um tribunal. Sentiu uma sensao desagradvel e quis fugir. Mas no conseguiu sair do lugar. 
A voz acusadora vibrava na sala:
        - Voc foi o culpado de tudo. Assassino! Ladro! Tirou tudo quanto eu possua.
        Daniel assustou-se. Onde tinha ouvido aquela voz? Olhou tentando descobrir quem o acusava e reconheceu Alberto. Um pouco modificado, mais magro, mais baixo, 
mas os olhos eram os mesmos. A voz era a mesma. Apavorado, ele procurou fugir. Fez tremendo esforo e acordou, corpo coberto de suor.
        Levantou-se de um salto e foi  cozinha tomar um copo de gua. Tentou se acalmar. Que loucura! Certamente ficara impressionado com a histria de Alberto 
e acabara provocando aquele pesadelo. Assustado, lembrou-se do outro pesadelo e reconheceu que seu acusador era a mesma pessoa. Como pudera sonhar com Alberto antes 
de conhec-lo?
        Acendeu o abajur, deitou-se e respirou fundo. Ele no era impressionvel. Por que a histria de Alberto mexera tanto com ele? Arrependeu-se de haver concordado 
em aceitar aquela causa. E se seu sonho fosse um aviso para no aceitar?
        Sorriu tentando ignorar a preocupao. Que bobagem! Ele estava fantasiando. Um sonho no significava nada. No iria dar fora a essa iluso. Iria dormir 
e esquecer tudo. Mas apesar da boa resoluo ele no apagou a luz do abajur e custou muito a adormecer.
        Dois dias depois, sentado diante de Alberto, olhando sua fisionomia, lembrou-se do sonho. Sorriu pensando o quanto havia fantasiado. Sua figura agora parecia-lhe 
inofensiva.
        - Conte o resto da histria e vamos examinar as provas que possui - props Rubens.
        Alberto colocou a pasta sobre a mesa e abriu-a. Os dois aguardavam com interesse que ele falasse. Pegando alguns recortes de jornal, ele comentou:
        - Vejam essa notcia. "Faleceu esta manh em um acidente de carro o menino Marcelo, neto do Dr. Antnio Camargo de Melo. O enterro ser amanh s 16 horas."
        - O que isso significa? - indagou Daniel interessado.
        - H vrios jornais da poca contando o drama do Dr. Camargo de Melo. Seu nico filho, pai de Marcelo, depois que o menino nasceu sofreu uma infeco que 
o deixou estril. Ele no podia ter mais filhos. Com a morte do neto, o Dr. Camargo perdeu o nico herdeiro, para o qual sonhava deixar toda a sua fortuna. Seu filho 
Cludio no se interessara pelos negcios e ele sonhava ensinar o neto a cuidar de tudo e manter seu patrimnio. Ficou muito abatido com a perda do menino e desmotivado 
para o trabalho. Sua sade comeou a declinar e ele morreu algum tempo depois. Cludio foi obrigado a assumir o controle de tudo. Tanto ele quanto sua mulher Carolina 
deixaram o dinheiro nas mos de um procurador at que em uma viagem pela Europa eles morreram em um acidente de barco. Foi ento que o Dr. Jos Lus Camargo de Melo 
herdou toda a fortuna do tio e assumiu a direo de tudo. Mdico, sem muito sucesso na profisso, desfrutava de conforto mas no era rico. Ambicioso, vaidoso, freqentava 
a mais fina sociedade, pertencia aos clubes da moda. Sua mulher, Maria Jlia, estava sempre em evidncia, pela classe com que se apresentava e pelas obras de caridade 
de que fazia questo de participar. Eles tiveram dois filhos, Laura e Gabriel.
        - Eu os conheo - disse Daniel, admirado. Alberto olhou-o firme:
        - So pessoas de sua amizade?
        - O Dr. Jos Lus freqenta a minha casa.  amigo de meu pai. Tem apoiado na poltica.
        - Antes de continuar, preciso saber se voc teria coragem de confront-los na justia.
        Daniel sustentou seu olhar e respondeu:
        - Se voc tiver razo e a justia estiver do seu lado, enfrento qualquer um.
        - Muito bem. Vocs so da sociedade. Esse ponto  fundamental. Nenhum advogado famoso ficaria do meu lado numa causa como esta. Eles no teriam coragem para 
brigar com gente que est no alto.
        - E o que o fez pensar que ns o faremos? Nossas famlias so desse meio - interveio Rubens.
        - Foi o fato de vocs desafiarem tudo e abrirem este escritrio.
        - Pelo jeito, est bem informado a nosso respeito - disse Daniel.
        - Estou. Durante algum tempo segui todos os seus passos. Sei tudo sobre vocs e suas famlias.
        Daniel remexeu-se na cadeira. No lhe agradava ver invadida sua privacidade.
        - Voc exagerou! - disse.
        - Eu precisava saber em quem confiar. Por isso estou aqui.
        - Continue - pediu Rubens. - O que essas pessoas tm a ver com voc?
        - Quando voltei ao Brasil, a nica coisa que eu sabia era que o dinheiro era enviado do Rio de Janeiro. Logo a mulher que me protegia deveria morar aqui. 
Veja, esta  minha certido de nascimento. Foi tirada em Petrpolis no ano de 1927. A diz que sou filho de Maria Martins e pai ignorado. Fui a Petrpolis na tentativa 
de encontrar alguma pista. No cartrio, a certido original era igual  minha. Eu tinha os nomes das duas testemunhas que assinaram o documento na ocasio. Mas depois 
de tantos anos eu teria chance de encontr-los? Sa de l desanimado, sem saber o que fazer. Voltei ao Rio e tratei de arranjar um emprego, porque eu precisava me 
manter. Assim que me instalei em uma penso, escrevi para a diretora do colgio em Londres, mandando meu endereo. Algum tempo depois recebi um pacote contendo uma 
carta dela. Est aqui, podem ler, sei que sabem ingls.
        Daniel pegou o papel dizendo:
        - Eu leio. "Querido Alberto. Estou muito doente, sei que vou morrer em breve. No desejo levar este segredo comigo. Ultimamente tenho sonhado muito com voc 
e com uma mulher que me pede insistentemente que lhe escreva e fale tudo que sei. Resolvi contar. Uma tarde fui procurada no colgio por uma mulher jovem e bonita, 
vestida elegantemente, que me contou uma triste histria. Um menino de quatro anos, filho de uma grande amiga sua, corria srio perigo de vida no Brasil, e sua me, 
desejosa de salv-lo, havia pedido a ela que o levasse a um colgio na Inglaterra. O sigilo deveria ser absoluto e nem o menino deveria saber sua origem. Condoda, 
ela o trouxera e pedira minha ajuda. Preocupada com o problema, aceitei tomar conta de voc e prometi guardar segredo. Quando ela abriu a bolsa para pegar o dinheiro, 
vi o nome de Maria Jlia escrito em um envelope. E s o que sei. Cumpri minha parte no acordo, da melhor forma. Mas agora quero me libertar desse peso Estou lhe 
enviando as lembranas que vieram com voc e que guardei com carinho. Espero que compreenda minha posio e reze por mim. De sua sempre amiga Gabrielle Morgan."
        - O que mais havia no pacote? - indagou Rubens.
        - Algumas roupas de criana que eu imagino que sejam as minhas quando cheguei l, uma corrente de ouro com uma medalha, esta aqui.
        Rubens apanhou-a:
        - Veja: tem iniciais atrs. M.C.M.
        - Marcelo Camargo de Melo - disse Alberto com certa emoo.
        - O neto do Dr. Camargo! Mas ele morreu! - disse Daniel.
        -  o que todos pensam. Seu corpo ficou mutilado no acidente e foi velado com caixo fechado. A ama que estava com ele no carro no se machucou.
        - A famlia certamente deve ter feito o reconhecimento do corpo - disse Daniel.
        - Eles ficaram chocados. Foi a ama quem fez o reconhecimento. Tenho certeza de que aquele menino que sofreu o acidente no era Marcelo.
        - Continue - pediu Rubens
        - As iniciais no verso da medalha me intrigaram. Ficou claro para mim que meu nome verdadeiro no era o que eu estava usando. Depois, as roupas eram muito 
finas, a jovem senhora que me levara era de muita classe, o colgio era um dos melhores e seu preo s acessvel a pessoas de posse. Eu no podia ser filho de uma 
Maria Martins, de pai ignorado.
        Alberto fez ligeira pausa e continuou:
        - Comecei a investigar famlias da alta sociedade em busca de Maria Jlia. Me detive na famlia do Dr. Jos Lus Camargo porque tudo coincidia. Sua esposa 
se chama Maria Jlia, eles haviam herdado a fortuna por causa da morte de Marcelo, cujas iniciais eram as da medalha, e havia ainda a idade. Ele havia nascido no 
mesmo ano que eu. Era a nica pista que eu tinha cujos dados se ajustavam aos detalhes do caso. Mas a morte do menino me intrigava. Se ele havia morrido, eu no 
poderia ser ele. Investiguei, procurei encontrar outras pistas, mas foi intil. Tudo me levava sempre de volta aos Camargo. Dediquei-me a investigar o acidente que 
vitimara o menino e descobri certos detalhes que aumentaram minha suspeita. Alm de o caixo haver sido lacrado no velrio, a ama estava s em casa com o menino 
quando saiu naquele dia. Eles estavam passando alguns dias em Petrpolis e os pais dele haviam vindo ao Rio para uma recepo e deveriam voltar no dia seguinte. 
O carro perdeu a direo e bateu no barranco, tombando. O menino foi jogado fora do carro, sofreu pancada violenta e morreu.
        - E o motorista?
        - No sofreu nada, nem a ama. O rosto do menino bateu em uma rocha e ficou irreconhecvel.
        - Uma tragdia! - disse Daniel.
        -  verdade. S que o menino que estava naquele carro no era o neto do Dr. Camargo.
        - No?
        - No. Depois do acidente a ama e o motorista se despediram do emprego dizendo no suportar a tragdia. Tentei localiz-los. Eles eram agora minha nica 
pista para chegar  verdade. Depois de tantos anos fica difcil procurar pessoas, principalmente sem saber o nome completo. Levei tempo para encontrar uma pista 
da ama. Ela se chama Eleutria da Silva e descobri que havia se mudado para So Paulo, pouco depois da morte do menino. Disposto a saber a verdade, fui a So Paulo 
e consegui localiz-la. Havia se casado e morava em um palacete no Jardim Amrica. Onde teria conseguido tanto dinheiro? Ela era uma moa pobre.
        - Vai ver, casou com homem rico - disse Rubens.
        - No. Quem comprou o palacete foi ela pouco depois de haver chegado a So Paulo. S se casou anos depois. Ficou claro para mim que ela deveria ter recebido 
dinheiro e eu suspeitava que fora por sua participao no caso do menino.
        - De fato - disse Rubens -, qualquer um suspeitaria.
        - Eu suspeitava, mas precisava de provas. Tentei conversar com ela, mas recusou-se a receber-me. Disse que no falava com estranhos. Eu tinha que trabalhar 
no Rio, mas sempre que podia voltava a So Paulo para investigar a vida dela. Descobri que tinha dinheiro. O marido era comerciante, dono de uma loja de tecidos 
na Vila Mariana. Ele era balconista de uma loja ao casar-se. Fora ela quem comprara a casa de comrcio para ele.
        - O dinheiro deve ter corrido solto! - tornou Rubens.
        - Ningum d dinheiro por nada! Tentei saber do motorista. Foi difcil mas acabei por descobrir o nome dele. Um conhecido dele me contou que depois do acidente 
ele tambm se mudara para So Paulo por causa do desgosto. Decidido a investigar, arranjei um emprego em So Paulo para poder ter mais tempo. Custou, mas acabei 
encontrando o homem. Estava recolhido em uma casa de velhos vivendo da caridade, doente, amargurado. Seu nico filho no ia visit-lo nem se interessava por sua 
sade. Pensei que era minha chance de descobrir tudo. Passei a freqentar o asilo todos os fins de semana, levando guloseimas para ele e fazendo amizade com os outros. 
Eles me contaram que Alberico fora rico e perdera todo o dinheiro por causa da bebida. Fora recolhido doente e em estado miservel. Os mdicos afirmavam que sua 
vida estava por um fio.
        - Ele abriu o jogo? - perguntou Daniel.
        - Abriu. Estava solitrio e ficou meu amigo. Uma noite de sbado ele estava mal, sofrendo dores e com medo de morrer. Amargurado e choroso, queixava-se da 
ingratido do filho. Eu lhe disse:
        - "Eu tambm fui abandonado. No conheci meus pais. Vivo sem ningum."
        - "Que mundo ingrato! Eu estou sendo castigado por meu crime, mas voc era criana. Por que o abandonaram?"
        - "No sei" - respondi.
        - " triste viver com remorso. E ele que est me matando. Mergulhei na bebida para esquecer, mas nem me destruindo consegui acabar com o peso da culpa!"
        - "Sou seu amigo! Por que no desabafa? Sentir-se- aliviado."
        - Ele suspirou fundo e decidiu:
        - "Talvez tenha razo.  isso que eu deveria ter feito h mais tempo, enquanto ainda podia remediar as coisas."
        - "Talvez ainda haja tempo."
        - Ele abanou a cabea desalentado enquanto lgrimas corriam por suas faces.
        - "Estou velho e cansado. Eles morreram, o que posso fazer agora?"
        - "Conte-me tudo. Talvez eu possa ajud-lo."
        - "Vou desabafar. H muitos anos eu era motorista de uma famlia rica e importante. Dr. Camargo. Homem bom e srio, no merecia o que fizeram com ele! Seu 
sobrinho Jos Lus foi quem tramou tudo. Um plano que ajudei a executar e que acabou com minha paz. Ele sempre invejara a fortuna do tio e como no conseguia ganhar 
dinheiro tramou para ficar com ela e conseguiu. Tudo aconteceu em Petrpolis. O Dr. Camargo tinha um neto que era seu herdeiro e seu enlevo. Os pais do menino estavam 
no Rio e eu ficara para tomar conta da casa, da ama e do pequeno Marcelo naquele fim de semana. Na noite do sbado o Dr. Jos Lus apareceu na casa com sua mulher, 
D. Maria Jlia. Disseram que haviam ido visitar uma antiga empregada cujo menino de quatro anos acabava de morrer vtima de uma queda. Ele subira numa janela do 
sobrado e acabara caindo, havendo tido morte instantnea e tendo ficado irreconhecvel."
        - Eu sustinha a respirao e bebia suas palavras com sofreguido. Finalmente eu iria conhecer a verdade! Ele continuou:
        - "Ele conversou com a ama e comigo e ofereceu-nos uma pequena fortuna, disse que era o dinheiro que sua mulher herdara dos pais. Eleutria concordou logo; 
eu hesitei. O que ele queria podia no dar certo. Mas deu."
        - "O que vocs fizeram?" - indaguei sem poder me conter.
        - "Simulamos um acidente de carro e colocamos o corpo do menino morto vestido com as roupas de Marcelo. Ningum desconfiou. Nem o mdico ou o delegado que 
fez a ocorrncia. Deu tudo certo."
        - "E Marcelo, o que foi feito dele?" - indaguei.
        - "D. Maria Jlia me procurou nervosa. Disse que eles pretendiam mat-lo. Pediu-me que ajudasse a salv-lo. Fizemos um plano. Fingi que concordava com o 
Dr. Jos Lus e garanti que faria o servio. Levei o menino, que ficou escondido em casa de uma conhecida minha, e disse que havia acabado com ele conforme o combinado. 
D. Maria Jlia levou-o embora e desapareceu. Nunca mais se soube dele. Isso tem me incomodado. s vezes penso que podem ter descoberto tudo e t-lo matado. No suporto 
lembrar o rosto do Dr. Camargo e de D. Carolina. Sofreram muito e eu fiquei arrependido. Mas tive medo de dizer a verdade. Eu seria preso e condenado. Antes tivesse 
feito isso. De que me adiantou a liberdade se no tinha paz? Fiquei preso no remorso e foi muito pior."
        - Nesse momento tirei do bolso a corrente de ouro com a medalha e mostrei:
        - "Conhece isto?"
        - Alberico apanhou a corrente com dedos trmulos e depois disse assustado:
        - "Onde conseguiu isso? Como est em suas mos?"
        - Nesse momento no pude mais esconder. Contei-lhe toda a verdade. Ele me abraou soluando e pedindo perdo. Naquele instante eu estava mais interessado 
em conseguir provas do que em culp-lo. Depois, ele havia salvado minha vida. E finalizei:
        - "Voltei para reclamar o que  meu de direito. Eles enganaram meu av, roubaram-me o carinho da famlia. No descansarei enquanto no desmascar-los."
        - "Quisera poder ajudar! Mas no sei como."
        - "Voc no tem nenhum documento, nenhuma prova que eu possa usar na justia?"
        - "No. A nica coisa  o dinheiro que recebi. Mas eles podem alegar que estou mentindo. Documento eu no tenho. Meu Deus! Se eu pudesse fazer alguma coisa..."
        - "Voc pode ir comigo  delegacia, confessar."
        - "No posso me levantar. Estou muito mal."
        - "Nesse caso vou trazer o delegado aqui."
        - Ele concordou. No dia seguinte procurei a delegacia, mas o delegado no quis ir at o asilo. No acreditou em nada do que eu disse. Como eu insistisse, 
aconselhou-me a procurar um escrivo e tomar uma declarao. Foi o que eu fiz. Levei o escrivo do cartrio at l, Alberico contou tudo e ele escreveu. No mesmo 
dia lavrou a declarao e Alberico assinou. Reconhecemos a firma.
        - Voc tem esse documento? - indagou Rubens.
        - Tenho. Tive sorte porque Alberico morreu dois dias depois. Antes consegui que ele me desse mais alguns detalhes. A certido de nascimento que eu usava 
pertencia ao menino que fora enterrado como se fosse eu. O nome da me que constava l era verdadeiro. Tentei encontr-la. Alm da ama, que fugia de mim e se negava 
a me receber, ela com certeza sabia a verdade. Ningum teria lhe tirado o corpo do filho morto sem que ela concordasse. Voltei a morar no Rio com o propsito de 
encontr-la. Procurei-a por toda parte e no a encontrei. Ela desapareceu sem deixar vestgios.
        Ele se calou e Rubens indagou:
        - As provas que voc tem so as roupas, a corrente com a medalha e a declarao do motorista?
        - Sim.
        Daniel abanou a cabea interdito:
        -  pouco para abrirmos um caso como esse.
        - No acreditam em mim?
        - No se trata disso - argumentou Daniel. - Sua narrativa foi convincente. Acredito que voc seja mesmo o neto do Dr. Camargo. Mas em juzo vamos precisar 
de mais. Os Camargo so poderosos e respeitados na sociedade. Depois, vo se valer dos melhores advogados para se defender.
        - Est com medo de enfrent-los? - perguntou Alberto.
        - No se trata disso - ajuntou Rubens. - Daniel est certo. Se vamos comear essa briga, precisamos encontrar mais provas. Algo que no deixe nenhuma dvida 
na justia. Seria bom se pudssemos encontrar a me do menino. Talvez concordasse em testemunhar.
        - Nem ela ou a ama vo querer fazer isso. Sero arroladas como cmplices - tornou Daniel.
        - Pensei que, se eu reivindicasse meus direitos na justia, o prprio juiz convocaria as duas para depor e ento vocs poderiam pression-las a contar tudo 
- disse Alberto.
        - Se ao menos o motorista estivesse vivo e pudesse testemunhar! Isso impressionaria o juiz - disse Rubens.
        - Ou a diretora do colgio na Inglaterra. Ela ainda vive? - perguntou Daniel.
        - No sei. Depois que ela me mandou aquela carta contando o que sabia, eu escrevi vrias vezes mas no obtive resposta.
        - Ela tambm seria uma testemunha importante. Poderia reconhecer D. Maria Jlia como a pessoa que o levou at l e que mandava dinheiro todos os meses.
        - Vocs no vo desistir agora, vo? Foi Rubens quem respondeu:
        - No disse isso. Vamos estudar o caso. Talvez possamos investigar um pouco mais, procurar outras provas antes de iniciarmos a ao. Temos que pensar em 
todas as possibilidades.
        - Est bem. Tenho esperado tanto que mais alguns dias no faro diferena.
        - Nesse meio tempo voc nunca procurou falar com D. Maria Jlia?
        - No. Ela foi cmplice, no queria que eu voltasse ao Brasil. Se
        soubesse que eu voltei e que estou investigando, ficaria contra mim, poderia prevenir o marido, tornar as coisas mais difceis.
        - Se voc no me contasse tudo, seria difcil acreditar que D. Maria Jlia houvesse ajudado o marido nessa histria. Ela  uma mulher muito respeitada na 
sociedade. Faz muita caridade, promove obras de benemerncia,  tida como uma verdadeira dama.
        Alberto riu com ironia:
        - Para vocs verem como as aparncias enganam. Quando o dinheiro est em jogo, as pessoas fazem qualquer negcio. Passam por cima de qualquer sentimento.
        - No vamos generalizar - disse Daniel. Alberto levantou-se.
        - Bom, j vou indo. Tm meu telefone. Qualquer coisa, avisem-me. Seno, dentro de uma semana virei saber o que resolveram.
        Ele se despediu e saiu. Rubens voltou-se para Daniel:
        - E ento? - indagou.
        -  um caso difcil. Talvez at perdido. No sei se vale a pena.
        - Ser arriscado. E tambm j percebi que voc no simpatiza muito com Alberto.
        - No sei o que , mas alguma coisa nele me incomoda.
        - Acha que est mentindo?
        - No. Isso, no. Sua histria me parece verdadeira. Mas quando ele me olha, parece que seus olhos me examinam e me sinto inquieto.  uma sensao desagradvel 
que no posso explicar.
        - Se acha que no devemos aceitar o caso, encerramos por aqui. Para obtermos xito precisamos acreditar no que estamos fazendo, sentir que estamos defendendo 
uma causa justa. Sem isso, ser intil.
        - Tem razo. Vou pensar e amanh darei uma resposta. E voc, o que acha. Gostaria de tentar?
        - O desafio me estimula. Depois, eu acredito que esta seja uma causa justa. Ele foi espoliado no s da fortuna como do convvio da famlia. Cresceu entre 
pessoas estranhas, longe de seu pas. Reparou como seus olhos brilhavam quando se referiu  ausncia da famlia? Ele se sentiu muito s e abandonado o tempo todo. 
 isso que o incomoda.
        - . Pode ser. Talvez voc esteja certo. Amanh voltaremos ao assunto.
        Daniel voltou para sua sala, arrumou alguns papis e foi para casa. Por mais que tentasse desviar a ateno do caso de Alberto, no conseguia. Seu rosto 
forte, seus olhos brilhantes e argutos, sua dramtica histria no lhe saam do pensamento.
        Por que se impressionara tanto com ele? No era uma pessoa impressionvel. Estaria com medo de enfrentar uma briga com pessoas de sua classe e que se relacionavam 
bem com seus pais? Sabia que a hora em que desse entrada na justia daquela ao eles o pressionariam de todas as formas. Estaria agindo certo perturbando o sossego 
deles?
        Ser independente era uma coisa, mas irrit-los era outra. Ele respeitava os seus e no desejava levar-lhes problemas. Por outro lado, se pretendia exercer 
a justia, teria que deixar de lado os interesses pessoais e defender seu cliente a qualquer custo.
        Era uma deciso difcil. Ao mesmo tempo que se preocupava com os problemas que criaria dentro da prpria famlia, sentia que era uma oportunidade de trabalhar 
em favor dos princpios de decncia que sempre defendera. A hipocrisia, os jogos excusos, o abuso do poder incomodavam-no. Gostava das coisas verdadeiras, da dignidade 
e da justia.
        Sob esse aspecto, o caso de Alberto era precioso. Mas a justia aceitaria as provas de que dispunham? Iriam mexer com pessoas de alto nvel, muito bem escoradas 
financeiramente e com muito poder. Mexer com elas era desafiar uma estrutura que no sabiam aonde os levaria.
        Todos esses pensamentos passavam pela cabea de Daniel, e ele no se decidia. Talvez fosse melhor recusar o caso. Eles estavam no comeo de carreira. No 
dispunham ainda de credibilidade para tentar logo um caso desses. No seria muita pretenso? , o melhor seria recusar o caso.
        Finalmente decidiu. No dia seguinte diria que no. Se Rubinho quisesse procurar outro advogado e tentar, tudo bem. Ele no se achava capacitado para assumir 
esse trabalho.
        A deciso diminuiu a tenso e finalmente Daniel deitou-se e conseguiu adormecer.
        

      Captulo 5
        
        Daniel dormiu e sonhou. Estava em uma casa solarenga, sentado atrs de uma escrivaninha escura, toda lavrada e com enfeites de metal dourado. A sala ricamente 
adornada, decorada de maneira sbria, demonstrava o bom gosto de seu dono; as peas de arte caprichosamente colocadas.
        Ele se via um pouco diferente do que era, mais velho, roupas do sculo passado, porm sentia-se muito  vontade nessa sala, que era sua casa. Uma jovem senhora 
entrou e ele se levantou educadamente.
        - Eurico, precisamos conversar - disse ela aflita.
        Era uma mulher de pouco mais de trinta anos, usando um lindo vestido cor de prola, cabelos castanho-dourados presos em um coque delicado sobre a nuca. Seus 
olhos cor de mel refletiam preocupao e sua boca bem-feita e carnuda estava trmula.
        - Tudo que podia dizer eu j disse! Voc sabe que nunca volto atrs. Est decidido e pronto!
        O rosto dela se contraiu ainda mais. Aproximou-se dizendo:
        - Voc no pode ser to duro. Precisa compreender. No pode mand-lo embora dessa forma!
        - Sei o que estou fazendo! No posso tolerar o que ele fez! Voc est proibida de voltar ao assunto!
        Ela no conteve o pranto. Ele prosseguiu:
        - Voc est se excedendo. No posso tolerar que me desobedea. No me obrigue a tomar uma atitude mais drstica.
        Ela levantou a cabea e seus olhos estavam cheios de rancor quando disse com uma voz que a raiva modificava:
        - Voc ainda vai se arrepender do que est fazendo agora. Ento ser muito tarde! Querer voltar atrs e no poder! Esse ser seu castigo! Eu o odeio!
        Daniel sentiu-se angustiado. A cena desapareceu, mas as palavras dela continuaram vibrando dentro de sua cabea enquanto ele vagava por um lugar escuro em 
meio a denso nevoeiro. Sentia-se perdido, desesperado, sem saber como se libertar da tristeza que estava sentindo.
        De repente o rosto de Alberto surgiu  sua frente, aflito e rancoroso. Ele recuou assustado.
        - Assassino! Assassino! - disse ele.
        Daniel passou a mo diante dos olhos como para apagar aquela viso terrvel. Queria gritar que era inocente, mas no conseguiu emitir som algum. Desesperado, 
pensou em Deus. Era um pesadelo e ele precisava de ajuda para sair dele. Rezou e no mesmo instante a cena se modificou. Viu-se em um jardim florido e uma brisa suave 
o envolveu causando-lhe grande bem-estar.
        Respirou gostosamente aquela brisa leve e perfumada, sentindo-se aliviado. Foi quando ouviu uma voz de mulher dizer com carinho:
        - Por que quer recusar a oportunidade que lutou tanto para conseguir? Aceite o caso de Alberto. Aceite o caso de Alberto.
        Daniel estremeceu e acordou. As palavras dela ainda estavam soando em seus ouvidos! Respirou fundo e sentou-se na cama. O relgio marcava cinco horas. Estava 
escuro ainda. Passou a mo pelos cabelos, pensativo.
        Aquele sonho parecia verdade! Que coisa estranha! Embora no fosse dado a supersties, ficou impressionado. Considerou que era apenas um sonho, tentou ignor-lo, 
porm quanto mais tentava mais se sentia envolvido nele. O que estaria acontecendo? Por que tanta preocupao com Alberto? Ele era um desconhecido. Seria um predestinado? 
Aquele sonho teria sido uma forma de faz-lo aceitar aquele caso? No estaria sendo ridculo, impressionando-se demais por um simples pesadelo?
        Levantou-se, foi at a cozinha, tomou um copo de gua e voltou para a cama. Estirou-se no leito, tentou dormir, mas foi intil. Quando se lembrava do sonho, 
sentia um aperto no peito que no sabia explicar. As palavras que ouvira antes de acordar voltavam vivas em sua memria.
        - Por que quer recusar a oportunidade que lutou tanto para conseguir? Aceite o caso de Alberto.
        Durante a vida inteira ele se posicionara como uma pessoa contrria aos abusos e artimanhas dos desonestos. Estudara leis por causa disso. Seria a isso que 
aquela mulher se referia? Teria esse sonho o objetivo de lhe cobrar coerncia e dignidade? Reconhecia que ficara com medo de enfrentar a sociedade e os poderosos 
que alardeava desejar vencer. Teria sido por medo que decidira recusar o caso? Sempre criticara os meios que seu pai usava para subir na carreira poltica, os conchavos 
e as barganhas. Estava com medo de enfrentar tudo isso?
        Se se acovardasse na hora de assumir uma atitude de acordo com seus ideais, estaria se nivelando com tudo aquilo que desprezava. Teria coragem de levar sua 
carreira para a frente depois disso?
        O caso de Alberto seria o preo que teria que pagar para conquistar sua dignidade diante dos casos que tomara conhecimento sem poder fazer nada durante a 
vida inteira?
        Foi naquele instante que Daniel percebeu que no podia evitar. Teria que aceitar aquele caso e enfrentar todas as conseqncias. S assim poderia provar 
para si mesmo que no compartilhava com as coisas erradas, que havia outros caminhos alm daqueles. Em sua casa era comum seus pais se referirem  corrupo como 
um mal do qual no se podia fazer nada sem ele. Diziam-se vtimas do sistema sem o qual no poderiam participar da vida pblica.
        Daniel pensava diferente. Estava na hora de provar que sua teoria tinha fundamento.
        Por isso, quando chegou ao escritrio procurou Rubens, concordando em aceitar o caso.
        - Ainda bem que voc resolveu. No sei explicar por qu, mas desde o comeo senti que no podamos recusar. Voc pode rir de mim, mas h qualquer coisa no 
ar, no sei o que , que me diz que precisamos cuidar desse caso.
        Daniel olhou-o admirado.
        - Voc tambm? Pensei que estivesse acontecendo isso s comigo.
        - Por qu?
        - Acho que o caso dele me impressionou alm da conta. Talvez porque seja meu primeiro caso importante, ou que vai mexer com gente de nossa classe social, 
amigos de nossas famlias.
        - Ser s por isso? Voc me pareceu determinado a sair do convencional e fazer um trabalho honesto.
        - E estou. Entretanto, tenho tido alguns pesadelos, sempre com o rosto de Alberto, como se eu fosse o ru. Ele me acusando. Isso no tem razo de ser, por 
isso acredito que me deixei impressionar por ele mais do que deveria.
        Rubens olhou-o srio por alguns instantes. Depois considerou:
        -  estranho mesmo. Eu acredito que os sonhos tenham uma razo de ser, uma explicao lgica.
        - Lgica como? Sabe que antes de conhecer Alberto eu sonhei com ele? No parece uma coisa impossvel? Pois foi o que aconteceu.
        Rubens interessou-se.
        - Tem certeza de que era ele mesmo? No seria algum parecido? 
        Daniel sacudiu a cabea negativamente:
        - Tenho. Era ele. Acusando-me. Eu estava em um tribunal e ele me acusando. No  uma loucura? Acho que  por causa disso que no sinto muita simpatia por 
ele nem queria aceitar o caso.
        - E estranho mesmo. Teria conhecido Alberto em outras vidas?
        - Outras vidas? Como assim?
        - Nunca ouviu falar era reencarnao? Que ns j vivemos outras vidas aqui na Terra?
        - J. Mas da a acreditar vai muita distncia.
        - Bom, essa  a nica forma de explicar com lgica que voc houvesse sonhado com ele antes de conhec-lo.
        - Voc acredita mesmo nessa possibilidade?
        - Bem, eu no sou estudioso do assunto. Mas sei de pessoas srias e de responsabilidade que se dedicam a essas experincias. Elas afirmam que  verdade. 
Agora, em seu caso pode haver outra explicao?
        - No sei. Agora no me ocorre nada. Acho que fiquei impressionado, s isso.
        - E mesmo no o conhecendo sonhou com ele, do jeito que ele ? No acha que  demais?
        - Acho. Tem razo. Mas a reencarnao me parece alguma coisa ainda mais fantasiosa.
        - Por qu? Eu acho at muito natural. Para mim  a forma de conciliar a bondade de Deus com os problemas do dia-a-dia. Voc sabe, crianas que nascem doentes, 
com defeitos fsicos, a desigualdade social, etc. Os reencarnacionistas explicam que elas tiveram atitudes negativas em outras vidas, lesaram seu equilbrio espiritual, 
por isso no conseguiram nascer com um corpo saudvel. Que ns no nos lembramos do passado para ter maior liberdade nesta vida, mas que os relacionamentos mal resolvidos 
voltam a ns para nos dar oportunidade de solucionar nossos problemas.
        - Voc est querendo dizer que eu teria conhecido Alberto em outra vida?
        -  o que parece.
        - Por que ele me acusa?
        - No sei. Vocs podem ter tido um relacionamento problemtico. Por isso voc no se sente muito  vontade com ele.
        Daniel passou a mo pelos cabelos pensativo. O que Rubens dizia parecia-lhe fantstico. Entretanto, apesar disso, algo dentro dele sentia que era plausvel.
        - Supondo que essa fantstica hiptese seja verdade, seria aconselhvel eu me envolver com ele?
        - Como  que foi o sonho?
        Daniel contou tudo, com todos os detalhes, e terminou: , - Acordei com uma voz de mulher repetindo: "Por que quer recusar a oportunidade que custou tanto 
a.conseguir? Aceite o caso de Alberto". Sua voz era to forte que mesmo depois de haver acordado ainda soava em meus ouvidos. Foi depois disso que resolvi aceitar 
o caso.
        - Fez muito bem. Como dizia Shakespeare: "H mais coisas entre o cu e a terra do que sonha nossa v filosofia". O que aconteceu com voc foi muito interessante. 
Se quiser, poderemos conversar com Julinho. Ele  um estudioso do assunte. Costuma freqentar algumas sesses espritas na casa do Dr. Bittencourt Sampaio.
        - No quero nada com essas coisas. J estou desafiando a famlia na profisso. J pensou se meus pais sabem que estou indo a sesses de espiritismo?
        Rubens deu uma gargalhada.
        - Iriam dizer que estou levando voc para o mau caminho. Eu sou a "ovelha negra", lembra-se? Mas eu no me importo. Eles podem dizer o que quiser. Voc  
quem sabe. Poderemos pelo menos conversar com Julinho. Tenho certeza de que ele vai poder explicar isso muito melhor do que eu.
        - Seja como for, por enquanto no quero mexer nisso. Quanto ao caso de Alberto, por onde devemos comear?
        - Vou fazer a procurao para ele assinar. Depois, vamos estudar melhor as provas que ele tem. Ao mesmo tempo seria bom fazermos algumas pesquisas, tentar 
conversar com as pessoas envolvidas.
        - No acho vivel procurarmos D. Maria Jlia, pelo menos por enquanto.
        - No me referi  parte contrria. Antes vou chamar Alberto e dar
        os primeiros passos.
        - Est certo. Vou para minha sala. Qualquer coisa, avise-me.
        Rubens telefonou para Alberto e marcaram uma reunio para a tarde do mesmo dia. Ele foi pontual. O relgio estava marcando catorze horas quando ele entrou 
no escritrio, sobraando volumoso pacote.
        Reunidos na sala de Rubens, depois de Alberto haver assinado a procurao para que eles cuidassem de seu caso, os trs comearam a trabalhar.
        Alberto abriu o pacote com todas as provas que possua. Os dois advogados examinaram tudo detalhadamente. As peas de roupas com as quais ele fora internado 
no colgio, seus documentos de identidade, a carta da diretora da escola, a corrente com a medalha na qual havia as iniciais. Depois Rubens aconselhou:
        - Vamos personalizar isso, catalogar tudo e guardar no cofre. So as nicas provas que temos.
        - Tive uma idia - disse Daniel. - Ocorreu-me que essas roupas so muito finas e de boa qualidade. Se descobrssemos onde foram compradas, talvez consegussemos 
uma boa pista. Um registro qualquer, uma nota sobre quem as comprou.
        - A idia  boa, eu j havia pensado - interveio Alberto. - Entretanto isso foi h muito tempo. No consegui descobrir nada.
        - No custa tentar de novo - disse Daniel. - No sei por qu, mas algo me diz que devemos tentar.
        Rubens olhou-o surpreendido, mas limitou-se a dizer:
        - Tudo bem. Faremos isso.
        Chamaram a secretria e Rubens disse taxativo:
        - Elza, voc vai anotar tudo que ouvir aqui. Mas desde j quero que nos prometa solenemente que no dir nada a ningum do que escutar. Esse caso  muito 
importante e o sigilo tem que ser absoluto.
        - Sim, senhor.
        - Se eu souber que uma palavra deste assunto saiu daqui, voc ser imediatamente despedida. Estou sendo claro?
        - Sim, senhor.
        - Ainda assim quer ficar? Precisamos muito de sua colaborao, mas, se no quiser, faremos ns mesmos as anotaes. Se concordar em ficar, ter que guardar 
segredo.
        - Dr. Rubens, sou discreta por natureza. Se me permitir colaborar, garanto que no ter nenhum motivo para se arrepender. Sinto-me honrada com sua confiana. 
Pode contar comigo.
        - Muito bem. No vai se arrepender de cooperar. Apanhe seu caderno de anotaes e volte aqui.
        Quando a viu instalada na sala, pronta para comear, Rubens pediu:
        - Agora, Alberto, voc vai contar toda a histria novamente, nos mnimos detalhes. Faa devagar, no importa o tempo que vai demorar. Se precisar, continuaremos 
amanh. E preciso registrar tudo que se lembrar.
        Ele concordou e comeou a contar. Elza era boa estengrafa e rapidamente ia anotando tudo quanto ele dizia. Fizeram pequeno intervalo de quinze minutos para 
um caf e depois recomearam. Eram cinco e meia quando Rubens interveio.
        - Hoje paramos por aqui. Voc volta amanh  tarde, no mesmo
        horrio. De manh Elza vai datilografar tudo e vamos rever o que foi feito e continuar o que falta. Pode ir, Elza.
        Ela se levantou e saiu. Estavam tomando caf quando Lanira enfiou a cabea pela porta. Vendo Alberto, no entrou. Rubens viu-a e foi busc-la.
        - Entre, Lanira. Ns terminamos por hoje.
        Ela entrou e ele a apresentou a Alberto. Cumprimentaram-se formalmente. Daniel abraou-a com carinho:
        - Que bom que voc veio, Lanira - disse. - Pensei que houvesse esquecido.
        - De forma alguma. No havamos combinado?
        -  verdade. Alberto levantou-se:
        - Se no precisam mais de mim, vou embora.
        - Est bem. Amanh s duas. Ele concordou com a cabea.
        - Combinado. Tenham uma boa tarde. Muito prazer, senhorita. Curvou-se ligeiramente diante dela e saiu. Lanira acompanhou-o
        com os olhos at que desaparecesse. Daniel inquietou-se:
        - Ainda bem que ele j se foi.
        - Voc vai ter que se acostumar com a presena dele. Principalmente no comeo, vamos ter que arrancar dele tudo que puder se lembrar.
        Lanira estava absorta e Rubens considerou:
        - Voc parece pensativa. Aconteceu alguma coisa? Ela sorriu alegre, depois respondeu:
        - Nada. Por alguns instantes tive a sensao de conhecer aquele homem que estava aqui. Como se chama mesmo?
        - Alberto.  nosso novo cliente-disse Rubens interessado. - Voc o conhece de algum lugar?
        Ela hesitou por alguns segundos:
        - No. Acho que no.
        - Mas voc teve a sensao de conhec-lo - tornou Rubens.
        - Tive. Seu rosto me  muito familiar. Mas no me recordo de hav-lo conhecido. Deve ser parecido com algum de nossas relaes. Essas coisas acontecem.
        Rubens olhou para Daniel e no disse nada. Daniel tambm no comentou o assunto. Tornou simplesmente:
        - Ns combinamos de tomar um lanche e de ir ao cinema. H um musical que estamos querendo ver. Voc quer vir conosco?
        - Quero, sim. Hoje tomamos uma deciso importante, trabalhamos o dia inteiro. Precisamos mesmo de distrao.
        - A sesso comea s oito. Temos bastante tempo. Que tal um lanche na Colombo? - props Lanira.
        Os dois concordaram com prazer. Lanira apanhou uma revista enquanto eles ultimavam o trabalho do dia e se arrumavam para o passeio.
        Nos dias que se seguiram eles continuaram tomando as declaraes de Alberto, confrontando os dados. Antes de tomar alguma deliberao prtica, eles queriam 
conhecer tudo nos mnimos detalhes, examinar todas as possibilidades, procurar novas pistas que pudessem servir de ponto de partida para as reivindicaes que desejavam 
fazer.
        Todo cuidado era pouco, uma vez que o Dr. Camargo era pessoa influente e certamente se cercaria dos melhores e mais astutos advogados do Rio de Janeiro para 
questionar a ao.
        Depois que conseguiram de Alberto tudo quanto ele podia se lembrar, os dois passaram a esquematizar um plano de ao.
        - Temos a faca e o queijo na mo para investigar - disse Rubinho a certa altura.
        - Voc acha? No est sendo otimista demais?
        - No. Estive pensando. Ns somos membros da sociedade. Nossas famlias freqentam a casa do Dr. Camargo. At que ponto eles se lembram de fatos que poderiam 
nos ajudar?
        - Isso at pode ser verdade. Mas como descobrir sem despertar suspeitas? Se eles souberem o que pretendemos, seremos expulsos de casa.
        - Eles no precisam saber. Se passarmos a freqentar mais as reunies e a festas, poderemos investigar o passado sem despertar suspeitas. Daniel considerou:
        - Repugna-me esse tipo de coisa. Fico com a impresso de que estou sendo falso, traindo todo mundo...
        - Que nada. As pessoas adoram comentar a vida alheia. No precisa muito para elas contarem todas as fofocas antigas e modernas. Depois, e para uma boa causa. 
No se esquea de que uma criana indefesa foi espoliada, roubada, impedida de viver com a famlia. No importa o que voc sente diante de Alberto. Importa que ele 
foi lesado e tem todo o direito de evocar a justia. Ns somos instrumentos da lei!
        - No precisa fazer discurso. No est ainda diante do juiz.
        Rubinho riu bem-humorado.
        - Sabe de uma coisa? O nico juiz que considero impoluto  a nossa conscincia.
        - Pensando bem, acho que tem razo.
        - Ento concorda?
        - Concordo.
        - Por que no conta tudo a Lanira e pede para nos ajudar nisso? As mulheres tm jeito para essas coisas. Talvez seja mais fcil para ela conseguir as informaes.
        - Est bem. Ela anda mesmo louquinha para se envolver com nosso trabalho. Vive me perguntando sobre os casos, as providncias que estamos tomando, etc. Vai 
ficar feliz.
        Colocada a par de tudo, Lanira adorou. Finalmente tinha alguma coisa interessante para fazer nas interminveis e montonas festas familiares.
        A partir daquele dia os trs passaram a freqentar todas as reunies sociais. Tanto Maria Alice quanto Angelina ficaram radiantes com a mudana dos filhos.
        - Parece que eles esto voltando ao bom senso - comentou Angelina em uma reunio em casa de Maria Alice, vendo Rubinho e Daniel conversando animadamente 
com os convidados.
        - Ainda bem - respondeu Maria Alice satisfeita. - Eu disse que tudo era uma questo de tempo. Logo se cansaro daquele escritoriozinho e estaro atendendo 
nossos conselhos.
        - E verdade. Eles esto mudados. Rubinho est to atencioso! Reparou como ele conversa com os mais velhos? Finalmente! Tal como sempre ensinei.  de bom 
tom dar ateno primeiro aos mais velhos.
        - Interessante - observou Maria Alice. - Est acontecendo o mesmo com Daniel.  um bom comeo. Antnio sempre diz que o verdadeiro prestgio est com os 
velhos. Em nossa sociedade, so eles que controlam o poder e o dinheiro.
        -  verdade. Dar-se- o caso de nossos filhos estarem tentando entrar nas altas finanas? Rubinho sempre disse que queria subir por conta prpria, sem usar 
o prestgio do pai.
        - Daniel tambm. Seja como for, acho muito bom que eles tenham voltado s boas.
        Mais tarde, Maria Alice comentou com o marido.
        - Estou contente em ver Daniel novamente participando de nossas reunies. Ele me pareceu interessado em pessoas de prestgio.
        - Deve ter percebido que suas idias no tinham fundamento e est com vergonha de confessar.
        - Voc no vai agora estragar tudo comentando o assunto. Para ns basta v-lo freqentar a sociedade e esquecer aquelas idias disparatadas que sempre teve. 
Eu no disse que um dia ele ainda voltaria atrs?
        - Ainda bem. Aconteceu mais depressa do que espervamos. Daniel aproximou-se de Rubinho, dizendo baixinho:
        - Conseguiu conversar com D. Maria Jlia?
        - No diretamente. Lanira estava conversando com Laura.
        - No diga! Ter descoberto alguma coisa?
        - Estou ansioso para saber, mas teremos que esperar.
        - Laura  mais velha do que Lanira. Ter conhecimento do drama de seu tio-av?
        - Essas histrias costumam ser romanceadas pelos adultos e contadas aos descendentes de acordo com as convenincias. Veremos o que ela sabe.
        Viram Lanira sozinha saindo para o jardim e foram atrs. Vendo-os, ela parou e sentaram-se em um banco.
        - E ento? - indagou Rubinho em voz baixa.
        - Falei com Laura. Inventei uma histria dramtica, da morte trgica de um menino em um acidente. Disse que era um filme. Ela acreditou e contou o drama 
da famlia. No s o nico neto do Dr. Camargo morreu em um desastre de carro aos quatro anos de idade, como os pais dele tambm morreram em um acidente de barco 
na Europa. Do jeito que ela colocou as coisas, seus pais no tiveram outra alternativa seno assumir os negcios deles. Falou como se ao fazer isso eles houvessem 
se sacrificado.
        - Herdar uma fortuna  sacrifcio? - comentou Daniel com ironia.
        - Ela disse que seu pai  um idealista. Pretendia se dedicar a aliviar o sofrimento humano, mas que teve que sacrificar seus ideais por causa da herana.
        - Eu no disse? - tornou Rubinho. - Essas histrias de famlia tornam qualquer um heri.
        - O que mais ela contou? - indagou Daniel.
        - Quando eu ia entrar mais fundo, D. Maria Jlia se aproximou e eu no quis facilitar.
        - Fez bem. Temos que ser discretos. Eles no devem perceber nada. Assim poderemos trabalhar mais  vontade - concordou Rubinho.
        - O que voc ia perguntar? - disse Daniel.
        - Se ela conheceu os pais do menino.
        - Acho que estamos no caminho certo. Seria bom se voc se aproximasse mais de Laura. Ningum vai desconfiar. Vocs tm quase a mesma idade.
        Lanira sorriu maliciosa e respondeu:
        - Seria melhor Daniel. Laura fica emocionada s em falar o nome dele!
        - No vou usar os sentimentos dessa menina. Seria muita baixeza. No contem comigo para isso!
        - Foi s uma sugesto. Mas se voc no quer... - tornou Lanira sorrindo.
        - Isso est fora de cogitao. Voc no gostaria que fizessem isso com voc!
        - No sei. De repente seria um desafio. Colocar um homem "Entre a Cruz e a Espada". J pensou o drama? Ele tentando me usar e acabar se apaixonando por mim?
        - J vi esse filme e est fora de moda. Vamos falar srio. Algum conseguiu mais alguma coisa? - perguntou Daniel.
        - H uma outra coisa! - lembrou Lanira. - Descobri que o mordomo de D. Maria Jlia trabalha l h mais de trinta anos. Esse deve saber de muitas coisas.
        - Eu no disse que as mulheres so boas para investigar? - disse Rubinho com satisfao. - Essa  uma boa pista.
        - Isso se ele souber de algo e se houver como faz-lo falar - objetou Daniel.
        - No podemos perder o aniversrio de Gabriel. Haver uma grande festa. Fomos todos convidados.
        - Para quando? - indagou Daniel.
        - No prximo sbado.
        - Estaremos l - concordou Lanira.
        - Veremos esse mordomo! - tornou Rubinho.
        - Sinto-me como Dick Tracy - brincou Daniel.
        - Todos em busca da justia! - sentenciou Lanira sorrindo.
        
Captulo 6
        
        No sbado  noite, enquanto se preparava para a festa de aniversrio de Gabriel, filho mais velho do Dr. Jos Lus Camargo de Melo, Maria Alice comentou 
com o marido:
        - No precisamos esperar por Lanira. Ela ir com Daniel.
        - Ele tambm vai?
        - Vai. Nem precisei pressionar. Penso que daqui para a frente no teremos mais problemas com eles.
        - Hum!... - fez Antnio olhando significativamente para a esposa. - A tem coisa!
        - Como assim?
        - Algum rabo de saia, com certeza. Daniel nunca gostou dessas festas familiares.
        - Voc acha mesmo? - disse Maria Alice. Em sua voz havia um leve tom de preocupao. - Espero que ele no esteja pensando em casamento. E ainda muito cedo!
        - E verdade. Mas no h motivo para se preocupar. Se ele est interessado em alguma moa, ela pertence ao nosso meio. Isso nos deixa tranqilos.
        Maria Alice suspirou:
        - Tem razo. Pode ser s um namoro. O que importa  que Lanira tambm me parece mudada. Ser que ela tambm anda interessada em algum?
        - Talvez seja por Rubinho. Ultimamente eles no se largam. Maria Alice estremeceu:
        - Isso nos colocaria em uma situao desagradvel. Sendo filho de amigos to chegados, no teramos como recusar o consentimento.
        - Eu j no vejo nenhum inconveniente. Rubinho  filho de excelente famlia,  formado, rico, conhecemo-lo desde criana. O que mais poderamos desejar?
        - Ele no tem juzo.
        - Bobagem. So loucuras da mocidade. Quem no as cometeu um dia. Depois, eles agora parece que esto se assentando. - Fez ligeira pausa e perguntou: - O 
que a faz pensar que Lanira esteja se interessando por ele?
        - No sei se  por ele. Eu notei que para ir a essa festa ela se preparou mais do que o habitual. Quis comprar vestido novo, passou horas no cabeleireiro, 
pediu-me at para tirar do cofre seu anel de rubi porque combina com o vestido.
        Antnio considerou:
        - Ela sempre gostou de andar na moda.
        - Eu sei, porm hoje foi alm do trivial. Seja o que for, acho que est muito bem. Passei pelo quarto dela antes de vir para c e vi tudo que ela comprou. 
Fiquei orgulhosa. Ela vai estar linda, voc vai ver.
        Antnio sorriu satisfeito. Ele precisava dessa moldura familiar onde quer que fosse. Uma famlia unida, bonita e feliz era como um carto de visitas para 
um poltico. Os eleitores se impressionam muito com esse cenrio, por isso ele fazia questo de mostrar-se em todos os lugares junto com seus familiares.
        A festa estava animada quando Rubinho, Daniel e Lanira chegaram ao elegante palacete do Leblon. Entraram no belssimo jardim, dirigindo-se  porta principal, 
onde um criado esperava-os convidando-os a entrar. No elegante hall de mrmore iluminado por enorme lustre de cristal onde as flores do vaso sobre o console refletindo 
no espelho dourado tornavam seus pingentes multicoloridos, os trs foram recebidos pelo aniversariante, a quem entregaram os presentes.
        Gabriel era alto, estava muito elegante em seu smoking preto, cabelos louro-escuros e ondulados, um pouco descorados pelo sol, olhos cor de mel quando ele 
estava alegre que se tornavam ligeiramente verdes de vez em quando. Seu tipo era claro, apesar da pele queimada de sol. Quando sorria, o que fazia constantemente, 
mostrava dentes alvos e bem distribudos. Estudava Letras e Filosofia, possua um barco onde estava sempre que podia, passando horas no mar, sozinho ou com os amigos.
        A msica agradvel vinha do salo, e Gabriel, depois de entregar os pacotes ao criado e dar-lhes as boas-vindas, convidou-os a entrar.
        Tomando o brao de Lanira, disse com satisfao:
        - Quero ter o prazer de conduzir a mais linda mulher da noite. Lanira sorriu alegre:
        - Como voc mudou! Quando era criana, no costumava me dirigir galanteios. Sentia prazer em me provocar. Nossos encontros sempre acabavam em briga.
        - Para voc ver como eu era burro. Tambm eu no podia imaginar que voc se tornaria to linda. Quero me penitenciar esta noite. Depois de receber os convidados, 
quero danar com voc!
        - Vamos ver - disse ela com ar misterioso.
        No salo foram recebidos por Maria Jlia, que abraou Lanira e cumprimentou os rapazes perguntando pelos pais. Era uma linda mulher, muito elegante e educada. 
Depois de conversar alguns minutos colocando-os  vontade, afastou-se, ocupada com os convidados.
        Gabriel voltara ao hall para receber outros convidados. Vendo-se a ss, Rubinho disse baixinho:
        - Gabriel ficou deslumbrado com voc, Lanira. Acho que pode atacar desse lado, enquanto eu vou procurar me aproximar do mordomo. Quanto a Daniel, bem... 
sobrou Laura...
        - No me venham com essa! Eu vou procurar o mordomo e voc vai danar com Laura.
        - Eu posso tentar manejar Gabriel, e voc no quer ficar com Laura! Isso no  justo! Se eu for, voc tambm vai. Foi s eu falar que os olhos dela brilhavam 
quando falava em voc para ficar logo convencido de que ela est apaixonada! Se quer saber, os olhos de uma moa sempre brilham quando ela fala em um rapaz bonito. 
Isso no quer dizer que esteja caidi-nha por ele!
        - Depois, voc no precisa namor-la. Basta ser gentil, amigo, e isso no tem nada de mais - reforou Rubinho.
        - Est bem. Que seja. Mas se eu notar qualquer interesse maior nela, me afasto.
        - Ela vem vindo a - disse Lanira.
        De fato Laura aproximava-se com um sorriso nos lbios finos e bem delineados. Seu rosto claro e ligeiramente corado, seus olhos iguais do irmo e seus cabelos 
dourados e ondulados que ela fazia tudo para alisar, seu corpo bem-feito e delicado faziam-na parecer mais jovem apesar de medir quase um metro e setenta de altura. 
Vestia-se discretamente, contrastando com Lanira, que gostava de cores vivas. Laura s usava tons pastis, prolas, jias sbrias e muito finas.
        - Que bom v-los! - foi dizendo ao chegar, cumprimentando-os educadamente.
        - A festa est animada! - disse Lanira passando os olhos pelo salo. - De onde vem a msica, que no estou vendo?
        - A orquestra est na outra sala, mas abrimos as portas e ouve-se muito bem daqui. Depois do jantar, poderemos danar - observou Laura com satisfao.
        - Por seu tom, vejo que gosta de danar! - tornou Rubinho.
        - Adoro! Enquanto Gabi gosta do barco e do mar, eu gosto de danar. Por mim, passaria todas as noites no baile.
        - Quem gosta de danar  Daniel - esclareceu Lanira. - Ele  um verdadeiro danarino.
        Daniel ia protestar, mas Laura olhou para ele dizendo:
        - No diga! Nas festas que temos ido nunca o vi danar.
        -  que ele  tmido, Laura - disse Lanira com um brilho malicioso no olhar.
        - Mais tarde, se voc no me convidar, eu o convido para danar. No vou perder essa oportunidade.
        - Lanira est exagerando. No  nada disso - disse Daniel fulminando a irm com os olhos. - Mas terei prazer em danar com voc.
        Rubinho passeava os olhos pelas pessoas presentes e observou um criado, elegantemente vestido, andando de um lado a outro, comandando os garons que iam 
e vinham atendendo os convidados. Devia ser o mordomo. Arriscou:
        - Interessante! Oliveira, mordomo dos Sousa Campos, agora est trabalhando com vocs?
        Laura acompanhou o olhar de Rubinho e respondeu:
        - Voc est enganado. Aquele  Bris, nosso mordomo. Est com meus pais desde antes de eu nascer. Ele era nobre na Rssia, mas fugiu para a Frana depois 
da revoluo. Meus pais conheceram-no em um navio quando estiveram na Europa. Ele desejava vir para o Brasil e eles o trouxeram como empregado. Gostou tanto deles 
que nunca mais foi embora.
        - Puxa! Ele  to parecido com Oliveira! - disfarou Rubinho satisfeito.
        Quando todos os convidados chegaram, o jantar foi servido  francesa e depois passaram para o outro salo, onde a orquestra tocava msicas dos filmes americanos 
de sucesso, muito em voga. Os pares danavam animados.
        Gabriel aproximou-se de Lanira dizendo:
        - Quero danar com voc.
        Ela se levantou e logo os dois rodopiavam pelo salo ao som de um blues chorado por um sax bem tocado. A sala romanticamente iluminada com luzes coloridas 
ressaltava de quando em vez o brilho das jias e dos vestidos de seda das senhoras, com aplicaes de vidrilhos, renda ou lantejoulas, modificando a cor dos vestidos 
claros das moas, fazendo-os parecer diferentes em cada canto do salo.
        O perfume das mulheres misturava-se ao perfume das flores dos enfeites arrumados com gosto e em profuso.
        O ambiente era agradvel e Lanira deixou-se envolver pela magia do lugar. Fosse pela situao singular que ela estava vivendo, pelo mistrio que cercava 
o caso que estavam tentando resolver, pelo perfume gostoso que vinha de Gabriel, em cujos braos ela se sentia leve, ou pela msica romntica e bem tocada, ela se 
sentiu viva. Nunca o prazer de danar fora to intenso, nem a proximidade de algum to agradvel.
        O rosto de Lanira ganhara vivacidade. Seus olhos brilhavam e seus lbios entreabertos pareciam querer beber toda a alegria de viver. Gabriel, fitando seu 
rosto expressivo, no se conteve:
        - Como voc  linda! Eu queria que essa msica nunca acabasse!
        Aconchegou-a mais de encontro ao peito e ela se deixou ficar, sentindo a respirao dele perto de seu rosto, o calor que vinha de seu corpo forte, a sensao 
de euforia que ela no tentou explicar.
        Quando a msica acabou, ele a largou e conduziu-a de volta  mesa onde Laura e Daniel conversavam.
        - Preciso deix-la. Tenho que dar ateno a algumas pessoas, mas quero danar novamente com voc.
        Ela sorriu e concordou com a cabea. Ele se afastou. O olhar de Lanira seguiu-o enquanto ele parava aqui e ali, sorrindo para uns, conversando ligeiramente 
com outros. Ela. teve que reconhecer que ele era um anfitrio impecvel. Percebeu que ele cumpria todas as regras que a sociedade considerava de bom tom. Notava-se 
que recebera excelente educao.
        Seu olhar deteve-se em Maria Jlia. Vendo-a, podia entender por que Gabriel era to bem-educado. Seu porte de rainha, sua roupa de classe, seu charme, sua 
simpatia faziam de sua casa um ponto alto de relacionamento que a mais alta sociedade se orgulhava de freqentar. Seu marido, homem bonito, elegante e discreto, 
possua a arte de manter uma boa conversa. Todos, sem exceo, achavam-no encantador.
        Observando tudo isso, Lanira sentiu um pouco de preocupao. O que eles pretendiam fazer no seria uma injustia? E se Alberto estivesse enganado? E se eles 
no tivessem nada a ver com aquele caso?
        A uma msica lenta, Daniel convidou Laura para danar e Rubinho, que estivera circulando pelos sales, sentou-se a seu lado.
        - Estive conversando com Bris - disse ele baixinho. 
        Lenira meneou a cabea pensativa, depois perguntou:
        - Descobriu alguma coisa?
        - No. Foi uma conversa informal. S de aproximao. Sabe como . Preciso de algum tempo para ganhar sua confiana.
        - No sei, no. Observando o Dr. Jos Lus, D. Maria Jlia, o respeito e a considerao que desfrutam na sociedade, no sei se faremos bem levantando esse 
caso.
        - Por qu? Est com medo?
        - Estou. No de enfrentar as conseqncias, mas de mexer com isso e descobrir que Alberto estava enganado. J pensou que pode ter havido uma coincidncia 
de nomes e eles no serem os responsveis?
        - As provas que Alberto tem me parecem bastante conclusivas.
        - Trata-se de mexer com pessoas altamente respeitveis. E se estivermos enganados?
        - Por isso ainda no abrimos a ao. Estamos investigando. S quando confirmarmos todas as provas entraremos na justia.
        - Concordo. Em sociedade  fcil destruir a reputao de uma pessoa, o difcil  reverter a situao se ela for inocente.
        - Quanto a isso, pode ficar tranqila. Tanto eu quanto Daniel estamos interessados em fazer justia, no em difamar pessoas inocentes. Gabriel no tira os 
olhos de voc. Vou dar uma volta para que ele se aproxime.
        Rubinho levantou-se e foi para a outra sala. Lanira fingiu-se interessada em observar os pares que rodopiavam pelo salo. Logo Gabriel se aproximou:
        - Posso me sentar?
        - Por favor.
        - Em que estava pensando?
        - Nada de mais. Observava o baile. Sua festa est maravilhosa.
        - De fato. Foi idia de minha me. A princpio eu no queria, mas agora penso que fiz bem em concordar.
        - Sua me tem muito bom gosto. Sabe receber.
        Pelos olhos dele passou um brilho de emoo quando disse:
        - Ela sabe o que fazer em qualquer circunstncia.
        - Tem muita classe. Seu pai  um homem feliz.
        Ele ficou srio e mudou de assunto. Lanira teve impresso de que ele no gostava de falar no pai. Para amenizar a situao, Lanira perguntou a respeito de 
seu barco. Ento seu rosto se distendeu e ele passou a discorrer sobre ele com entusiasmo.
        Daniel, danando com Laura, tentava conduzir o assunto para onde lhe interessava.
        - Ns no conversvamos desde uma festa de aniversrio em sua casa, anos atrs. Acho que foi quando Lanira fez quinze anos.
        - Tanto tempo assim?
        - Faz. Ns fomos a vrias festas e reunies em sua casa, mas voc nunca estava. No gosta de festas?
        - No gosto muito de formalidades. Nessas ocasies algumas pessoas me parecem muito cheias de regras, a maledicncia anda solta e eu prefiro ignorar essas 
coisas.
        - Sei o que quer dizer. Tambm no gosto de bajulao nem de malcia, mas gosto de festas. Adoro msica, adoro danar, adoro belas roupas, lugares requintados, 
classe, arte, beleza. Prefiro no me privar desses prazeres s porque h pessoas maldosas e fteis que freqentam esses lugares. Para dizer a verdade, eu as ignoro, 
no lhes dou ouvidos, mas no me isolo como voc. Estou viva e participando, desfrutando de todas as alegrias da vida. No permito que elas me afetem.
        Daniel olhou-a admirado.
        - E tem conseguido?
        - Tenho. Nossa famlia freqenta muito a sociedade e eu penso que isso seja uma forma de valorizar nossa posio. Alm do que temos obrigaes sociais a 
cumprir.
        - De que forma?
        - Somos uma classe privilegiada. Uma minoria que teve a felicidade de estudar, de viajar, de possuir bens. Temos que devolver isso trabalhando em favor das 
classes mais pobres. Voc sabe como . Seus pais tambm participam.
        - Sei. Festas beneficentes em favor de entidades filantrpicas.
        - Isso mesmo. Minha me dedica boa parte de seu tempo  caridade. Sempre a acompanho.
        - Por prazer ou por obrigao?
        - Vou porque quero. Minha me no me obriga.
        - Ah!...
        - Soube que voc e Rubinho abriram um escritrio de advocacia.
        -  verdade.
        Ela sorriu, hesitou um pouco e depois disse:
        - Contra a vontade de seus pais. Como esto indo?
        - Estamos no comeo. Por enquanto pequenas causas sem grande repercusso. O que  bom para praticar.
        - Se vocs quisessem, poderiam subir depressa. Tanto seu pai como o de Rubinho tm boas amizades. Estou sendo indiscreta tocando nesse assunto?
        - De forma alguma. O que est dizendo no  segredo para ningum. Talvez voc no tenha condies de entender. Sempre fez tudo que seus pais queriam.
        - Eles s desejam meu bem.
        - Mas voc no  eles,  outra pessoa. O que parece bom para eles talvez no o seja para voc. Cada pessoa  diferente.
        - No gosto de correr riscos desnecessrios. Eles tm experincia. A msica acabou e Daniel conduziu Laura para a mesa onde Lanira
        e Gabriel conversavam. Daniel afastou-se a pretexto de procurar Rubinho. A conversa com Laura o entediara. Ela era bem a filha do distinto casal. Educada 
no mais moderno figurino da alta sociedade do Rio de Janeiro. Quando fosse oportuno, faria um casamento de convenincia e passaria o resto da vida tentando esconder 
a infelicidade, cuidando das aparncias e desempenhando seu papel.
        Ela representava tudo quanto ele no aceitava e estava lutando para sair. Vendo Rubinho conversando animadamente com Bris, ficou observando a certa distncia. 
Quando viu que o mordomo se afastou, aproximou-se.
        - Ento, conseguiu alguma coisa interessante? Rubinho pegou Daniel pelo brao, dizendo:
        - Ele me contou suas aventuras antes de vir para o Brasil. Est aqui desde 1927. Trata-se de um homem esperto e culto. Tenho impresso de que ele  mais 
do que um simples mordomo para o Dr. Jos Lus.
        - ?
        - No vai ser fcil arrancar alguma coisa dele. Me pareceu ser o homem de confiana de seu patro.
        - Deve conhecer tudo quanto aconteceu naquele tempo.
        - Com certeza. Mas como faz-lo falar?
        - Ele no vai dizer nada.
        - Eu mencionei a morte de Marcelo. Disse que minha me havia nos contado que fora uma tragdia horrvel. Depois perguntei:
        - "Voc trabalhava para o Dr. Camargo naquela poca?"
        - "Sim. Fazia quase um ano que eu estava aqui."
        - "Minha me era amiga de D. Carolina. Ela sofreu muito com o acidente. O Dr. Antnio adoeceu por causa disso."
        - " verdade. O Dr. Jos Lus cuidou do tio com dedicao, mas ele no conseguiu mais recuperar a sade. Perdeu o gosto de viver."
        - "Minha me no esquece a tragdia desta famlia. Por fim o Dr. Cludio e D. Carolina tambm morreram de forma inesperada."
        - "Toda famlia tem sua tragdia. Eu tambm perdi toda a minha famlia na revoluo. O que fazer?  preciso se conformar, levar a vida para a frente."
        Rubinho calou-se. Daniel ficou pensativo por alguns instantes, depois perguntou:
        - Voc notou alguma coisa nele durante a conversa?
        - S quando falei do desastre que vitimou os pais de Marcelo. Por um segundo seus olhos brilharam emotivos. Foi uma frao de segundo, logo ele voltou a 
ser como antes.
        - Isso no significa muito. Ele mencionou a guerra, onde perdeu a famlia. Isso pode t-lo emocionado.
        - E verdade. Ou ele sabe mais sobre o desastre que vitimou os pais do Marcelo. Nunca pensou como esse acontecimento foi conveniente para o Dr. Jos Lus?
        - Voc quer dizer que a morte deles pode ter sido provocada? - sussurrou Daniel olhando para os lados com medo que algum o ouvisse.
        - Vamos para o jardim. L estaremos mais  vontade. Uma vez sentados em um banco, Rubinho respondeu:
        - Se eles raptaram o menino e simularam sua morte por causa da herana, precisavam afastar os outros dois. Eles haviam herdado toda a fortuna do pai.
        Daniel passou a mo pelos cabelos pensativo:
        - Voc acha que no foi acidente? Que eles foram assassinados?
        -  uma suposio lgica. Era a nica forma de se apossarem da herana.
        - Tem razo. Isso ainda me parece impossvel. Olhando para eles,  difcil acreditar que tudo isso seja verdade.
        - As aparncias enganam.
        - Aproveitar-se de uma situao, criar uma farsa por ambio pode ser tentador para algumas pessoas, mas chegar ao crime, eliminar os primos!
        Estou quase certo de que eles fizeram isso. De que adiantaria toda a farsa se os pais do menino estavam vivos, gozando de boa sade? Daniel respirou fundo.
        - Voc acha que seria possvel descobrir alguma pista sobre isso?
        - No sei. Mas podemos tentar. Amanh mesmo vamos visitar a sepultura deles, ver a data da morte, procurar os jornais da poca. Fazer as investigaes preliminares.
        - Vamos falar com Jonas, ele  investigador. Alm disso,  muito
        meu amigo e nos ajudar.
        - Boa idia. Voltaram ao salo.
        - Lanira est indo muito bem - comentou Rubinho. - Veja, est danando com Gabriel. Ele est fascinado e ela est sabendo tirar partido disso.
        - Para voc ver como as mulheres so. Para elas, fingir  fcil. Eu
        no consegui nada com Laura.
        - E que voc no se empenhou. Antes de ir, j estava contra.
        - Veja: meu pai conversando animadamente com o Dr. Jos Lus. Quando ele descobrir o que estamos fazendo, vai querer me matar.
        - Est com medo?
        - No. Mas sei que no vai ser agradvel. Antnio conversava animadamente com Jos Lus:
        - Voc no pode querer que ele volte - dizia ele com nfase.
        - No se trata de minha vontade. Voc sabe que nunca gostei de
        Getlio.
        - Voc diz isso, mas freqentava o Catete com assiduidade.
        - Claro. Voc tambm andou l. Era uma ditadura. O que podamos fazer? Porm nunca fui getulista. Mas em eleio  o voto que conta. Dutra s ganhou porque 
foi indicado por ele. Agora que o deixaram candidatar-se, voc vai ver. Ele vai ganhar mesmo.
        - No acredito que nosso povo possa ser to ignorante. Jos Lus riu ao responder:
        - No? Voc vai ver. Seria melhor voc ter se candidatado pelo
        Partido Trabalhista.
        - Isso nunca. Sempre fui da UDN.
        - No sei, no. Est se arriscando.
        - Voc pelo menos vai votar em mim.
        - Claro. Como sempre fiz. Voc ter os votos dos nossos, como sempre. Acho at que vai conseguir ir para o Senado.
        Maria Alice, segurando delicadamente uma taa de vinho branco, conversava animadamente com Angelina:
        - Veja Lanira danando com Gabriel.
        - Muito interessados por sinal - comentou Angelina.
        Maria Alice olhou os dois e pensou: Lanira estaria interessada em Gabriel? Desde que chegaram que ele s danava com ela. Sorriu satisfeita. Ele seria o 
genro ideal para ela! Bonito, elegante, educado, rico. Era muito cedo para pensar nisso, mas a idia era-lhe muito agradvel.
        Vendo que Bris, parado em um canto da sala, observava como ia o servio, Rubinho aproximou-se dizendo:
        - Poderia mandar servir um copo com gua gelada? Imediatamente o mordomo pediu ao garom. Enquanto esperava,
        Rubinho continuou:
        - Gostaria de conversar com voc em um lugar mais calmo. Bris admirou-se:
        - Comigo? Sobre o qu?
        - Estudo sociologia. Gostaria de entender o que aconteceu na Rssia com a revoluo. Voc deve ter coisas muito importantes para contar.
        - Coisas muito tristes, se quer saber. Quando falo nisso, sinto enorme tristeza. Minha terra, to linda, com um povo bom, religioso, inteligente, dominada 
por aqueles brbaros!
        - Gostaria de conversar mais com voc. Quando  sua folga?
        - s segundas-feiras.
        - Quer ir almoar comigo na prxima segunda-feira? Bris olhou-o um pouco assustado.
        - No posso. Tenho muitos compromissos nesse dia. Obrigado pelo convite.
        Dizendo isso, afastou-se e Rubinho seguiu-o com os olhos. Daniel aproximou-se perguntando:
        - E ento?
        - Convidei-o para almoar no dia de sua folga e ele no gostou. Cortou a conversa e foi embora.
        - Teria desconfiado?
        - No. Nem sequer toquei naquele assunto. Disse que estudava sociologia e gostaria de obter informaes sobre a revoluo. A, ele mudou. Percebi que se 
retraiu.
        - No vamos conseguir nada dele. E se tiver sido cmplice?
        - Vamos pedir a Jonas para investigar a vida dele. Laura aproximou-se com um sorriso:
        - Lanira disse que voc gosta de danar, e est a, parado. No est gostando da festa?
        - A festa est tima.  que est muito calor e isso tira a disposio de danar
        - No  o meu caso.
        - D para notar - tornou Rubinho. - Voc est acalorada!
        - Ia convid-la para danar - disse Daniel -, mas diante disso acho mais agradvel darmos uma volta no jardim. Que tal?
        -  uma boa idia.
        - Voc vem, Rubinho? - perguntou Daniel.
        - No. Acabei de ver Julinho. Vou cumpriment-lo.
        Os dois saram para o jardim conversando animadamente. A noite estava bonita e o perfume das flores tornava-a mais agradvel.
        - Vocs tm um jardim maravilhoso - comentou Daniel.
        -  a paixo de minha me. Ela adora plantas. Diz que elas precisam de amor, como as pessoas.
        - Este jardim sempre foi muito bem cuidado. Inclusive no tempo de D. Carolina.
        - Segundo sei, ela tambm gostava de plantas.
        - Minha me era muito amiga dela e freqentava esta casa quando ela ainda era viva. Em casa temos um retrato dela. Era uma mulher muito bonita. Vocs devem 
ter fotos no lbum de famlia.
        - No temos. Meu pai ficou muito sentido com a tragdia e se desfez de todas as fotos.
        - Do pequeno Marcelo tambm?
        - Tambm. No queria nada que lembrasse os dolorosos acontecimentos daqueles tempos.
        - Segundo minha me, a morte de Marcelo abalou toda a sociedade. Ela foi ao enterro e se comoveu muito com a dor dos pais dele e do Dr. Antnio. Foi acidente, 
no ?
        - Parece que foi. Meus pais ficaram muito chocados na ocasio. Por causa disso esse assunto virou tabu em casa. Nunca o mencionamos. Afinal, j faz muito 
tempo, e eles conseguiram esquecer.
        - Ainda bem.
        Ela mudou de assunto e Daniel no insistiu. Laura no sabia de nada e ele estava perdendo tempo conversando com ela.
        Assim que se encontrou com Rubinho e Lanira, foi taxativo:
        - Intil querer descobrir alguma coisa aqui. Laura no sabe nada daqueles tempos. E Bris no vai falar. Temos que pensar em outra coisa.
        - Tambm acho - concordou Rubinho. - Os moos ignoram o assunto e quem sabe no vai dizer nada.
        - Acha que Bris sabe de tudo? - inquiriu Lanira.
        - Tenho a impresso de que sim. Mas no vamos conseguir nada dele.
        - Segunda-feira vamos pesquisar os jornais e contratar Jonas - disse Daniel.
        - Alberto est ansioso e no quer esperar muito para iniciar a ao. Se quisermos levar esse caso adiante, temos que nos preparar bem - tornou Rubinho.
        - Vai ser uma bomba! - exclamou Lanira.
        - Vai. Mas vamos deton-la - considerou Daniel.
        - Hum! Sinto um friozinho na barriga s em pensar no escndalo. Ser um prato cheio para os jornais. Vocs no tm medo? - perguntou Lanira.
        - Quando aceitamos o caso, sabamos disso - respondeu Daniel.
        - . Conversamos a respeito e assumimos a responsabilidade. Ns acreditamos na histria dele.
        - E se ele estiver enganado? Olhando D. Maria Jlia e o Dr. Jos Lus,  difcil acreditar que eles tenham feito tudo isso com a prpria famlia - tornou 
Lanira.
        - As aparncias enganam - contraps Rubinho. - As provas que Alberto possui so convincentes para mim. Eles simularam a morte do menino e suspeito at que 
tenham a ver com o "acidente" que vitimou os pais dele.
        Lanira abriu a boca para responder e fechou-a de novo. Seus pais se aproximavam:
        - J nos despedimos e vamos embora - disse Maria Alice. - Vocs vo ficar?
        Foi Daniel quem respondeu:
        - Iremos em seguida.
        Eles se foram e os trs, percebendo que nada mais havia para fazer ali, despediram-se e saram.
        Uma vez na rua, continuaram conversando, fazendo planos para comear as investigaes no incio da semana.
        
Captulo 7
        
        
        Na segunda-feira seguinte eles chamaram Jonas ao escritrio e encarregaram-no de investigar a vida da famlia Camargo. Resolveram que enquanto esperavam 
no tomariam nenhuma providncia legal, tentando encontrar as provas de que precisavam.
        A custo conseguiram convencer Alberto a esperar. Ele estava impaciente, dizendo ter a certeza de que no havia mais nada a fazer seno abrir o processo. 
Entretanto, Daniel e Rubens no queriam arriscar-se a perder. A derrota em um caso desses iria lev-los ao descrdito. Por outro lado, a vitria iria dar-lhes fama 
e credibilidade. Era uma cartada ousada e eles queriam jogar da maneira certa.
        Duas semanas depois, Jonas procurou-os levando uma pasta na qual alm dos jornais da poca havia as informaes que ele conseguira obter.
        A notcia do acidente que havia vitimado Marcelo. Vrias notas sobre a sade do Dr. Antnio Camargo depois da morte do neto e por fim seu passamento, vitimado 
pela dor que o abateu. Havia ainda notcias do acidente de barco, um ano depois, ocorrido em uma pequena cidade da Itlia.
        - Interessante observar - disse Rubinho - que, um ano e meio depois da morte de Marcelo, todos haviam morrido. Tudo aconteceu muito depressa!
        - O que vocs no sabem  que, na data em que aconteceu o acidente com os pais de Marcelo, o Dr. Jos Lus e a esposa tambm estavam na Europa. Inclusive 
levaram o mordomo! Alis, eles sempre viajam com ele!
        Daniel e Rubinho entreolharam-se admirados.
        - Bem que eu desconfiava desse acidente! - observou Rubinho.
        - Talvez voc esteja exagerando - tornou Daniel.
        - , pode ser. Mas no deixa de ser uma hiptese plausvel.
        - Concordo - disse Jonas. - Nada mais conveniente para eles do que esse acidente. Mas eles estavam na Frana nessa data.
        - Nesse caso, no tiveram nada com o acidente - aventou Daniel.
        - Eu no acho. Quem nos garante que Bris no tenha feito esse "servio"? - sugeriu Rubinho.
        - Ou contratado algum - tornou Jonas.
        - No podemos fantasiar. Temos que nos ater s provas. O que esto fazendo so meras suposies - disse Daniel.
        - Temos que aventar todas as hipteses. No se esquea de que
        quem teve coragem para fazer o que fizeram com Marcelo e a prpria famlia  capaz de tudo.
        - Investiguei a vida de Bris. Ele pertencia  nobreza russa. Perdeu
        a famlia e tudo que possua na revoluo. Nada pude descobrir sobre ele durante o tempo em que perambulou pelo mundo depois disso. Sei que chegou ao Brasil 
trazido pelo Dr. Jos Lus, e desde ento eles no fazem nada sem ele. Nunca se casou. Relaciona-se com uma alem, que mora em uma bela casa, aonde ele vai em seus 
dias de folga. Tem dinheiro no banco, um belo automvel e gosta de luxo.
        - O Dr. Jos Lus deve ser muito generoso - comentou Rubinho.
        -  de admirar, pois no  o que se comenta em sociedade, em que ele  tido como mo-fechada.  difcil arrancar dinheiro dele - esclareceu Jonas.
        - Por que est sendo to generoso com Bris? - perguntou Rubinho. Daniel abanou a cabea pensativo, depois respondeu:
        - Isso  suspeito, na verdade. Precisamos ir mais fundo. A chave do problema pode estar a.
        - Estive pensando em ir a So Paulo ver o que descubro sobre a ama. Mas se preferem seguir essa pista primeiro, verei o que posso fazer.
        - Vigiar Bris, saber o que faz alm de ser mordomo. Ele deve desempenhar outras atividades para o patro.
        - O Dr. Jos Lus tem se ocupado mais em desfrutar da vida social do que em trabalhar. A clnica que montou, com dinheiro da herana,  uma das primeiras 
da cidade, mantm em seus quadros profissionais de alto nvel. Ele comparece apenas para cuidar da parte gerencial, no trabalha mais com os pacientes. A clnica 
 procurada por pessoas importantes. Os preos so caros e o atendimento, diferenciado. Suas finanas vo muito bem - informou Jonas. - Tanto ele quanto a esposa 
so muito estimados. Vai ser difcil conseguir saber o que vocs querem.
        - Voc quer dizer que podemos estar sendo enganados? - perguntou Daniel.
        - No. De forma alguma. Os fatos que sabemos indicam que eles no so o que parecem ser. Estou habituado com isso. As pessoas no querem mostrar sua maldade 
e se cobrem com atos de aparncia. Pura fachada. O que eu quis dizer  que eles fizeram isso to bem que est sendo difcil apanhar o fio da meada. Mas isso para 
mim  um desafio, e eu gosto de vencer os desafios - respondeu Jonas.
        - Ento continue mais um pouco nessa pista. Deixe sua pasta comigo. Quero estudar um pouco mais - pediu Rubinho.
        - Est bem. J vou indo. Darei notcias!
        Ele saiu e os dois apanharam a pasta. Sentados lado a lado, comearam a examinar minuciosamente os recortes, anotando datas, informaes. Eles queriam conhecer 
todos os detalhes, imaginar todas as hipteses para cercar os vrios lados do caso, preparando-se para qualquer eventualidade, no decorrer do processo.
        Lanira olhou-se no espelho com satisfao. O tom verde-escuro ficava-lhe muito bem. Ia encontrar-se com Gabriel. Desde a festa que ele a procurava, ora convidando-a 
para um cinema, ora para um sorvete na confeitaria ou mesmo uma conversa no clube.
        Iria passar em sua casa s sete. Quinze minutos antes ela j estava pronta e desceu para esperar. Vendo-a, Maria Alice olhou-a com satisfao.
        - Vai sair?
        - Vou. Gabriel vai passar aqui s sete.
        - Vocs esto namorando?
        Ela abanou a cabea negativamente.
        - No  nada disso. Somos apenas amigos.
        - Quer dizer que ele ainda no se declarou?
        - No. Espero que ele no o faa.
        - Por qu?  um belo rapaz e parece muito interessado em voc.
        - Isso no basta, mame, para namorarmos.
        - Se ele se declarasse, voc o rejeitaria?
        - Claro. Gosto de sua companhia, mas amor  outra coisa. Por enquanto estamos apenas saindo juntos, conversando. Nada mais.  bom no ficar imaginando coisas.
        - No estou imaginando nada. Vocs so jovens, saem juntos com freqncia. O que posso pensar?
        A campainha tocou, Lanira espiou pela janela e disse:
        -  ele. Vamos s tomar um sorvete. Voltarei cedo.
        Ela saiu deixando uma onda de perfume no ar e Maria Alice aproximou-se da janela, seguindo com o olhar brilhante a figura da filha cumprimentando Gabriel, 
a gentileza do rapaz abrindo a porta para ela entrar. Acompanhou-os com o olhar at que o carro desapareceu no fim da rua.
        Sua filha era linda, inteligente. Casando-se com Gabriel, faria uma aliana brilhante. O que poderia desejar mais? Nesse mundo de aparncias, a posio social, 
o dinheiro eram muito importantes. O amor no passava de um jogo de interesses, sempre colocado no convencional. Acabava na primeira decepo e s se sustentava 
quando havia interesse em manter as aparncias e as vantagens da famlia.
        Maria Alice havia se casado por amor. Entretanto, depois de tantos anos de vida em comum, percebia que nada havia sido como ela imaginara. As primeiras decepes 
ao notar que as prioridades do marido eram muito diferentes das suas. Enquanto ela dava mais importncia a ficarem juntos, ele valorizava a vida social, a companhia 
de gente importante, as amizades de convenincia.
        Quando ela reclamava sua ausncia, sua falta de carinho, ele a chamava de imatura, salientando que apreciava a mulher equilibrada, de classe, capaz de governar 
a famlia com dignidade e firmeza. Decepcionada, Maria Alice esforou-se para no desapont-lo. Trancou os sentimentos e transformou-se na mulher que era. Agora, 
vendo a filha falando em amor, pensava como ela estava enganada.
        O casamento, a famlia eram a riqueza de uma mulher. E essa riqueza tinha que ser preservada a todo custo, mesmo que para isso fosse preciso engolir a dor, 
a insatisfao, a raiva, fechar os olhos para tudo quanto pudesse ameaar a estrutura familiar.
        Ela sabia da ligao do marido com Alicia. Ningum lhe contara, descobrira por acaso. Pensou em falar ao marido. Desabafou com sua amiga Angelina, que a 
ouviu em silncio e depois considerou:
        - Eu j sabia. Voc at que demorou para descobrir.
        - Sabia? Diz isso com essa calma!
        - Digo porque j passei pela mesma coisa. Nesse Rio de Janeiro, que homem de nossa sociedade no tem uma amante?
        Maria Alice olhou-a admirada:
        - Aconteceu com voc tambm?
        - Faz tempo. A princpio fiquei revoltada. Depois pensei: se eu fizer barulho, escndalo, vai aumentar minha vergonha, todos vo saber. Separar eu no quero. 
Ficar por a desquitada eu no suportaria. Depois, o que seria de meus filhos? Pensei, pensei e resolvi fazer de conta que no sabia de nada. Assim, no teria que 
tomar nenhuma deciso.
        - Como agentou?
        - A princpio foi difcil. Depois achei que de alguma forma eu tambm estava enganando-o. Ele pensando que estava me fazendo de boba, mas era eu quem o estava 
tapeando. Ficamos elas por elas.
        - Voc no o amava? No sentiu cime?
        - Amei, agora no amo mais. Que amor resiste a tantos anos de casamento? Hoje sei que nossa unio  uma sociedade conveniente para ambos. Apenas isso.
        - Voc tem razo. O amor  iluso.
        - Depois, os homens precisam de uma mulher que lhes faa todas as fantasias sexuais. Com as esposas eles no se permitem nada disso.  at sinal de respeito.
        - Pensando desse lado...
        - Voc se sujeitaria a qualquer coisa menos digna?
        - Claro que no.
        - Ento! Uma amante  como uma vlvula de escape para os vcios. A esposa  sempre a esposa. Por isso, continuei firme em meu lugar e no me arrependo. Ele 
me respeita, me trata bem e temos uma vida em comum equilibrada. Para que mais?
        Maria Alice hesitou um pouco, depois disse:
        - Ele ainda a procura?
        - Claro. De vez em quando.
        Depois dessa conversa, Maria Alice fez sua opo. Faria a mesma coisa que Angelina. Antnio nunca saberia que ela conhecia a verdade. Pensou na filha com 
tristeza. Ela esperava o amor, como todas as moas. Quantas decepes teria que passar para descobrir que estava enganada?
        Esforou-se para afastar aqueles sentimentos tristes. Ela no se permitia pensar nem se entristecer. Era uma dama e uma dama tinha completo controle sobre 
as emoes.
        Depois dos cumprimentos, Lanira sentou-se no carro e assim que Gabriel deu partida disse:
        - No esperava que me ligasse hoje.
        - Porqu?
        - Como no tem aula, pensei que tivesse ido andar de barco.
        - Fiquei tentado. Mas entre ficar s no barco e passear aqui com voc, preferi ficar.
        Lanira olhou-o um pouco tensa. Sua me teria razo? Gabriel estaria mesmo querendo namor-la? Claro que ela havia percebido que ele se sentia atrado, e 
ela tambm gostava de estar com ele. Contudo, sabia que um namoro entre eles envolveria as duas famlias, poderia transformar-se em um compromisso formal e srio. 
Isso ela no desejava. Reconhecia que ele era encantador, mas ao mesmo tempo ela no queria transformar-se em uma dona de casa, como as que conhecia e abominava. 
Talvez fosse mais prudente espaar os encontros com ele.
        - Voc tem muitos amigos que gostariam imensamente de fazer-lhe companhia. Acho que est se tornando mais metropolitano.
        - Teria imenso prazer se voc pudesse ir comigo. Mas sei que no aceitaria.
        - Porque no?
        - S ns dois? Ela sorriu:
        - No ficaria bem. Mas se meu irmo tambm fosse, talvez Laura, ou Rubinho, no teria nada de mais.
        Ele parou o carro no meio-fio e voltou-se para ela, olhando-a nos olhos:
        - Voc est apaixonada por Rubinho?
        - Eu? No! Que idia!
        - Desde a minha festa desejo perguntar-lhe isso. Vocs no se largam.
        - Ele  scio de Daniel e muito amigo. Apenas isso.
        - Tem certeza?
        - Tenho. E j que tocou nesse assunto, gostaria de dizer-lhe que por enquanto no penso em namorar.  muito cedo.
        - Muitas meninas se casam com sua idade.
        - E justamente isso que desejo evitar.
        - E contra o casamento?
        - No me agrada a idia de transformar-me em matrona, nem de arranjar algum que mande em mim.
        -  essa a idia que faz da vida em famlia? No pensa em casar-se?
        - No, enquanto puder evitar. Ele abanou a cabea:
        - E difcil acreditar. Voc no existe.
        - Porqu?
        - Voc  diferente. As outras s pensam em se casar. No posso compreender. Voc vem de uma famlia bem formada, seus pais levam vida exemplar. De onde tirou 
essas idias?
        - Observando, amigos, conhecidos. Enquanto as mulheres cuidam de manter as aparncias com classe, os homens se dividem entre o interesse, o jogo de poder. 
Vale tudo, desde que nada venha  tona.
        Pelos olhos dele passou um lampejo emotivo quando disse:
        - Voc est sendo dura. No acredita no amor e na felicidade?
        - s vezes penso que sim, outras que no.
        - Pois eu tambm odeio esse mundo de aparncias, onde quem tem mais dinheiro vale mais, onde se passa por cima de todos os sentimentos para alimentar a ambio. 
Quando tudo isso me enoja, refugio-me no barco em busca de paz.
        Lanira surpreendeu-se:
        - No sabia que sentia isso.
        - Tem razo. As pessoas fazem qualquer sacrifcio para acobertar suas mazelas. Em sociedade  preciso dissimular, sorrir mesmo quando o corao est amargurado 
e infeliz.
        Lanira olhou-o sem saber o que dizer. O rosto de Gabriel estava sombrio, e havia tanta amargura em seu tom que ela se arrependeu de haver tocado no assunto. 
Tentou confort-lo:
        - Ns no precisamos ser iguais a eles. Podemos ser diferentes. No desejo me casar por convenincia, nem me transformar em uma mulher como tantas que conheo. 
Quero ser eu mesma. Quando eu amar, ter que ser de corao, e farei tudo do meu jeito, sem ligar para as convenincias.
        O rosto de Gabriel desanuviou-se, ele sorriu. Lanira considerou que ele ficava lindo quando sorria.
        - Se voc se apaixonasse por um joo-ningum, teria coragem de casar-se com ele?
        - Se ele me amasse, sim.
        - Seus pais no aprovariam.
        - Eu enfrentaria todo mundo para ser feliz. E isso que eu quero. Tenho pensado muito nesse assunto, Gabriel. A vida s vale a pena se houver felicidade.
        - Tomara que continue pensando assim quando chegar o momento. Lanira riu contente. Sentia-se aliviada. Conseguira posicionar-se sem ferir os sentimentos 
dele. Depois dessa conversa, tinha certeza de que ele no lhe faria nenhuma declarao. Poderiam continuar a ser amigos. No dia seguinte, conversando com Daniel, 
ela considerou:
        - Gabriel parece-me infeliz. No sei por qu, mas h momentos em que ele se revela magoado, amargurado.
        - Ser? Ele  muito elogiado em todos os lugares. Bonito, rico, respeitado. As mulheres suspiram por causa dele. Por que estaria infeliz?
        Lanira contou-lhe a conversa que haviam tido e finalizou:
        - Suas palavras fizeram-me pensar. H alguma coisa que o est incomodando.
        - Ser que ele sabe de alguma coisa sobre o passado dos pais?
        - No sei. O que sinto  que, quando fala de famlia, ele se emociona, fica amargo, parece infeliz.
        - Talvez seja bom voc continuar saindo com ele. Quem sabe um dia acaba contando o que queremos saber.
        - Vou ser bem sincera com voc. Na festa aproximei-me dele com essa inteno. Porm, agora, reconheo que ele se transformou em um amigo.  inteligente, 
sincero, generoso. No estou saindo com ele para descobrir nada. Estou saindo porque gosto de sua companhia. Eu o aprecio.
        Daniel sorriu malicioso:
        - Voc est se apaixonando por ele!
        - No  nada disso. Ele  apenas um amigo. Nada mais do que isso. E vai continuar assim.
        - Alegra-me saber. Logo entraremos com a ao e se estivesse apaixonada seria um problema.
        Lanira ficou pensativa por alguns segundos, depois disse:
        - s vezes penso nisso e sinto um aperto no corao. Vocs vo mesmo mover essa ao?
        - Tudo indica que sim. Ela suspirou:
        - Vai ser um deus-nos-acuda. Aqui em casa e em casa dele. Nossa amizade vai acabar com certeza.
        - Isso a entristece?
        - Preferiria que nada disso fosse com ele.
        - Se ele gostar mesmo de voc, se fizer questo de sua amizade, saber separar as coisas. Voc pode jogar toda a culpa em mim.
        - Nem quero pensar. Mame ento vai ter um ataque. Em que p esto as investigaes?
        - Jonas foi a So Paulo tentar obter informaes sobre a ama. Deve estar de volta amanh.
        - Quando pensam entrar com a ao?
        - Alberto est impaciente. Est difcil segur-lo. Se tudo der certo, entraremos com a petio na prxima semana.
        -J?
        - Parece que ele descobriu algumas coisas importantes com relao a ama. Amanh decidiremos a data. Pensando bem,  melhor enfrentar as feras logo. A espera 
deixa-me tenso.
        - A mim tambm.
        - Voc? No desejo envolv-la de forma alguma.
        - J estou envolvida.
        - Ningum precisa saber disso.
        Daniel deixou Lanira e foi para o quarto. Deitou-se e custou a dormir. Sentia-se inquieto. A petio formalizando a denncia' e solicitando a abertura de 
um inqurito estava redigida, faltando apenas alguns detalhes que deveriam incluir com as novas informaes de Jonas.
        Sabia que sofreria presso da famlia. Estava preparado. Ele e Rubi-nho haviam combinado que se a situao fosse insustentvel, eles sairiam de casa, alugariam 
um apartamento modesto, dividiriam as despesas.
        Mais calmo, adormeceu. Sonhou. Viu-se, um pouco diferente, mais velho, em um quarto lindamente decorado, sentia-se inquieto, desesperado. Aproximou-se do 
leito em que a mesma mulher que o acusara estava deitada, abatida, sem foras.
        Ele se ajoelhou ao lado da cama, sentindo aumentar sua angstia. Tomou as mos dela dizendo com voz suplicante:
        - Ldia, no me deixe! Eu peo! No me abandone! Farei tudo que quiser!
        Ela abriu os olhos e fixou-o murmurando:
        - Agora  tarde! O que est feito est feito. Acabou.
        Seus olhos se fecharam, sua cabea caiu para o lado e ele percebeu que ela estava morta. Sentiu seu peito rasgar de dor e gritou:
        - No! No!!!
        Daniel acordou agoniado, soluando. Levantou-se de um salto. Um sonho! Fora apenas um pesadelo. Um horrvel pesadelo que havia dilacerado seu corao. O 
que estaria acontecendo com ele? Seria um aviso para no fazer o que eles pretendiam? Por que sonhara com aquela mulher duas vezes? No a conhecia, entretanto sentia 
que a amava com loucura. Estaria perdendo o juzo?
        Olhou o relgio: quatro horas. O dia estava amanhecendo. Deitou-se novamente, porm no conseguiu mais dormir. Sentia o peito oprimido por grande tristeza. 
Tentou reagir. Era loucura ficar to impressionado por um simples sonho. Nada disso havia acontecido. Mas a emoo forte continuava presente como se tudo estivesse 
acontecendo naquela hora.
        Ficou se remexendo na cama, esforando-se para convencer-se de que a verdade era muito diferente de seu sonho, mas aquela sensao desagradvel e forte reaparecia, 
deixando-o inquieto.
        Levantou-se muito cedo e chegou ao escritrio antes das oito. Rubi-nho chegou meia hora depois e olhando para ele perguntou:
        - Aconteceu alguma coisa? Voc est com uma cara!
        - No aconteceu nada.
        - Est doente?
        - No. Mas alguma coisa esquisita est se passando comigo. Ando
        impressionvel, inquieto, tendo pesadelos. - Aquela mesma histria com Alberto?
        - No. Agora  com uma linda mulher. No a conheo e tive dois pesadelos com ela. Em um acusava-me. Ontem sonhei que ela estava morrendo e que eu a amava 
muito. Acordei angustiado, no pude mais dormir, e at agora ainda no me livrei daquela sensao dolorosa. No consigo entender.
        Rubinho balanou a cabea, dizendo:
        - Isso me parece coisa do passado. Voc est revivendo cenas de outra vida.
        - Voc j disse isso mas eu no acredito.  muito fantasioso para ser verdade.
        - Eu mesmo tambm no tenho certeza de nada. Mas me ocorre que  a nica forma de explicar o que est lhe acontecendo. Voc sonha com uma pessoa que no 
conhece, sente que a ama, sofre por ela. De onde tirou esses sentimentos? Como apareceram com tanta fora dentro de voc? Para mim, isso  mais fantstico do que 
a crena em vidas passadas.
        Daniel balanou a cabea interdito. Por fim disse:
        - S sei que essas emoes so muito fortes. No consigo esquec-las. Sinto remorso no sei de qu, tristeza, dor. Estarei ficando louco?
        - Voc no tem nada de desequilibrado. E lcido, tem bom senso.
        - s vezes penso que tem alguma coisa a ver com Alberto. Os pesadelos comearam um pouco antes de ele aparecer em minha vida. At ento eu nunca havia tido 
nada disso. Ser que  para eu no me envolver com o caso dele?
        - No foi isso que voc falou, lembra-se? Foi at aconselhado a aceitar o caso.
        - No consigo entender.
        - Se voc estiver tendo reminiscncias de suas vidas passadas, ele pode ter se relacionado com voc naqueles tempos.
        Daniel passou a mo pelos cabelos inquieto.
        - No sei. Parece-me loucura acreditar em uma coisa dessas.
        - No , no. Tenho visto pessoas de cultura envolvidas com o estudo desses assuntos. Garantem que tm provas concludentes de que isso  verdade. J pensou 
que coisa extraordinria? Como nossa vida mudaria se pudssemos ter essa certeza?
        - Se isso fosse verdade, revolucionaria a sociedade. Ningum fala nada. Acho que no existem essas provas.
        - Em todo caso, vou telefonar para Jlio. Ele estuda isso e poder nos esclarecer melhor. Passaremos em seu consultrio quando sairmos daqui.
        - Est certo. Preciso resolver esse problema, acabar com isso. Talvez como mdico ele tenha alguma explicao melhor.
        - Nenhuma outra conseguiria explicar o que lhe aconteceu.
        - Jonas j chegou?
        - J. Est nos esperando.
        Jonas entrou e depois dos cumprimentos foi direto ao assunto.
        - Trago novidades.
        - V falando - disse Rubinho.
        - Conforme combinado, tenho seguido Bris e descobri que ele mantm contato com a ama em So Paulo. De quando em quando manda-lhe dinheiro. Quem faz a remessa 
 Pola, a amante dele. Mas ela no tem posses, vive do que ele lhe d. Logo,  ele quem manda o dinheiro, certamente a mando do Dr. Jos Lus.
        - Isso significa que essa mulher continua a chantage-los - tornou Daniel.
        - E o que parece. Por que ele haveria de dar-lhe tanto dinheiro? Bom, eu fui a So Paulo e fiz amizade com a criada de Eleutria, por sinal um pedao de 
morena.
        - Acha que pode confiar no que ela lhe diz? - indagou Rubinho.
        - Acho. Demo-nos muito bem. Est apaixonada por mim. Depois, ela no gosta da patroa. Diz que  grossa e muito mandona. Pretendia deixar o emprego, mas eu 
lhe pedi que no o fizesse.
        - No lhe contou por qu - disse Rubinho.
        - No. S lhe disse que um cliente havia me incumbido de investigar a vida dela, que se ela me ajudasse no iria arrepender-se.
        - Ela pode dar com a lngua nos dentes - sugeriu Daniel. Jonas retrucou:
        - Respondo por ela. Garanto que est do meu lado. Est interessada em nosso futuro. Se ela trabalhar direitinho, posso at pensar nisso.
        -  srio, ento? Est cado pela morena? - indagou Rubinho.
        - Reconheo que ela  uma tentao. Mas  cedo para dizer. O que sei  que est totalmente do meu lado. Foi ela quem me contou que todos os meses  depositado 
dinheiro na conta de Eleutria e que ela fala nisso abertamente com o marido, mencionando que deveria aumentar a remessa, dizendo que afinal eles so ricos e podem 
pagar. Chega a dizer que enquanto eles esto brilhando na alta sociedade, ela est l, tendo que arrancar o sustento da loja.
        - Ela disse isso? - perguntou Daniel.
        - Disse. O que comprova completamente a histria de Alberto. Ela est chantageando o Dr. Jos Lus e a cada dia fica mais exigente. Como todos os chantagistas, 
sempre acha que pode obter mais.
        - Essa criada concordaria em depor se fosse preciso?
        - No sei. Talvez. Marilena  corajosa e no gosta deles. Posso ver o que consigo com ela.
        - Tenho certeza de que, se conseguisse isso, Alberto seria reconhecido quando recebesse o dinheiro.
        - Ela me conseguiu alguns extratos bancrios de Eleutria contendo os depsitos efetuados e percebi que eram realizados uma vez por ms, sempre na mesma 
data. Aqui esto eles.
        - Eleutria no vai dar pela falta?
        - No. Ao que parece ela no  organizada com seus papis. Tem pequeno escritrio em casa, onde deixa tudo espalhado pelas gavetas. Marilena garante que 
ela nem vai perceber. Deixei-a encarregada de telefonar-me se acontecesse alguma coisa diferente e voltei para c. Queria ver quem fazia o depsito do dinheiro. 
Ontem foi o dia previsto. Algo me dizia que Bris tinha algo a ver com isso. Fiquei de tocaia em casa do Dr. Jos Lus. Eram mais de meio-dia quando ele saiu e fui 
atrs. Foi diretamente  casa de Pola, ficou l meia hora. Saiu e eu resolvi esperar. Se ele fosse fazer o depsito, teria ido direto ao banco. Meu palpite estava 
certo. Cinco minutos depois, ela saiu e segui-a. Foi direto  agncia bancria. Entrei junto com ela, como se fosse tambm fazer um depsito. Vi quando ela preencheu 
a papeleta com o nome de Eleutria, pegou um mao de notas e fez o depsito.
        - Em dinheiro - disse Rubinho.
        - Sim. Foram duzentos mil cruzeiros.
        - Tudo isso?
        - Em dinheiro, para no deixar nenhuma prova - comentou Daniel. - Eles nem imaginam que estamos investigando. Essa Eleutria nunca vai querer depor a favor 
de Alberto. Primeiro porque seria enquadrada como cmplice, segundo porque mataria a galinha dos ovos de ouro.
        - J esperava por isso - ajuntou Rubinho. - Em todo caso, parece que agora no temos mais dvidas. Podemos dar entrada na petio.
        - Vamos chamar Alberto para conversar a respeito - disse Daniel. - Jonas vai continuar com as investigaes. Falta-nos descobrir o paradeiro da verdadeira 
me do menino que foi enterrado no lugar de Marcelo. Alberto nunca conseguiu localiz-la.
        - Talvez tenha morrido. Mas se conseguirmos encontr-la viva, ser difcil convenc-la a depor. Foi cmplice e certamente ser tambm responsabilizada - 
argumentou Rubinho.
        Jonas interveio:
        - Se conseguirmos- encontr-la, no poder furtar-se a prestar declaraes  justia. Poderemos conseguir a exumao do corpo.
        -  muito tempo, e a exumao no trar muitos esclarecimentos ao caso - opinou Daniel.
        - Poderemos tentar. Hoje em dia a percia est muito adiantada - disse Rubinho.
        Jonas saiu e os dois se dedicaram inteiramente em trabalhar na petio de abertura da ao contra a famlia Camargo. Nela estavam relatados todos os fatos 
que conseguiram descobrir, com nomes e endereos, inclusive com os comprovantes de depsitos bancrios feitos  ex-ama de Marcelo. Era um trabalho de flego, que 
exigia deles o melhor que pudessem obter. Chamaram Alberto para que ele tomasse conhecimento dos documentos que eles haviam redigido e verificar se estava tudo de 
acordo com os fatos que ele vivenciara.
        Faziam questo absoluta de manter-se dentro da verdade, narrando os fatos que por si s constituam-se em um libelo terrvel contra os Camargo.
        Eles queriam cuidar bem de todos os detalhes. Dentro de dois ou trs dias as cartas seriam lanadas e no haveria mais como recuar.
        
        

      Captulo 8
        
        Daniel chegou ao escritrio de volta do almoo e logo notou que algo inusitado estava acontecendo. Na sala de espera havia um burburinho, e alguns fotgrafos 
logo se aproximaram dele enquanto outros faziam perguntas. Ele entrou o mais rpido que pde, sem dizer nada. Rubinho esperava-o um pouco agitado.
        - Estourou a bomba! - disse Daniel excitado.
        - E. H vrios jornais querendo detalhes do caso.
        - Voc falou alguma coisa?
        - No. Prometi-lhes uma entrevista. Estava esperando voc chegar.
        - O que vamos dizer?
        - Bom, ns no podemos entrar em detalhes. Vamos sugerir que Alberto fale com eles. O que lhes interessa  a histria.
        - . S vamos confirmar a veracidade do fato e pronto. O resto fica com ele. Como souberam?
        - Um advogado do frum contou-lhes. Eles sabem at a data em que o Dr. Camargo foi intimado a comparecer para prestar declaraes.
        A secretria entrou dizendo com ar preocupado:
        - Eles esto me crivando de perguntas. Est difcil impedir que eles entrem aqui.
        - Est certo - decidiu Rubinho. - Diga-lhes que podem entrar. Segundos depois eles entraram e Rubinho foi logo dizendo:
        - Estamos prontos a prestar esclarecimentos. O que desejam saber?
        - E verdade que o neto do Dr. Camargo est vivo e deseja reaver seus bens?
        -  - respondeu Rubinho calmo.
        - Por que s agora, depois de tantos anos, ele apareceu?
        - Por que no o pde fazer antes.
        - Quero crer que vocs, cujas famlias pertencem  melhor sociedade, devem ter provas convincentes do que esto afirmando. Que provas so essas?
        - Esto sendo apresentadas em juzo - disse Rubinho. - No desejo falar sobre elas antes da deciso da justia. Em todo caso, como vocs esto muito interessados, 
vou falar com nosso cliente. Se ele concordar, marcaremos uma entrevista com vocs em que ele contar toda a verdade.
        - Isso seria timo. Precisa ser logo. No frum no se falava em outra coisa hoje.  o escndalo do momento - disse outro reprter.
        - No estamos interessados em alimentar escndalos - disse Daniel. - Infelizmente trata-se de pessoas muito conhecidas. No podemos evitar os comentrios. 
Mas o que queremos  devolver, pelo menos em parte, a nosso cliente, o que lhe pertence por direito e que lhe foi tirado.
        - Isso mesmo - reforou Rubinho. - Mesmo que ele agora veja reconhecidos seus direitos e receba sua fortuna de volta, quem poder devolver-lhe o carinho 
da famlia, o amor do av que morreu de desgosto, a companhia dos pais que nunca teve?
        - Por que vocs no contam logo toda essa histria? - disse outro reprter.
        - No podemos fazer isso.  um direito de nosso cliente. Ele s o far se quiser. Portanto vocs precisam aguardar uma resposta dele - respondeu Rubinho.
        - No pode ligar para ele e conseguir que venha aqui agora?
        - Tero que esperar at amanh cedo - disse Daniel.
        - Amanh o jornal j estar na rua.
        -  amanh ou nada - garantiu Rubinho.
        - Est bem - disse o reprter que perguntara mais. - Voltaremos amanh cedo.
        Depois de algumas tentativas de descobrirem mais alguma coisa, vendo a determinao dos dois em no ir alm do que haviam dito, finalmente foram embora. 
Depois que eles saram, Rubinho ligou para Alberto contando-lhe tudo. Ele ficou de ir para l imediatamente a fim de combinarem o que ele deveria dizer na entrevista 
do dia seguinte.
        Tanto Rubinho quanto Daniel achavam importante criar uma atmosfera favorvel na imprensa. Se a opinio pblica ficasse do lado deles, seria uma presso a 
mais para ganhar a causa. No seria difcil conseguir isso.
        A histria de Alberto casava-se bem ao sentimentalismo das pessoas. Quem ousaria ficar contra o pobre menino que fora impedido de viver com a famlia, segregado 
em um colgio distante e lesado em sua fortuna? Eles contavam com isso para ganhar a causa. Depois, um escndalo desses era um prato cheio para a maldade dos que 
nunca haviam conseguido sair da mediocridade e se alegravam com a queda de algum que brilhava na sociedade.
        O telefone tocou e Rubinho atendeu:
        -  para voc. Seu pai. Daniel atendeu:
        - Al.
        - Que histria  essa que esto comentando? Que loucura voc e Rubinho esto fazendo? Perderam o juzo?
        - No, pai. Estamos cuidando dos direitos de nosso cliente.
        - Onde voc pensa que vai, atacando dessa forma nossos amigos, pessoas de nossa melhor sociedade? Jos Lus me ligou e eu fiquei de cara no cho. Onde j 
se viu? Ele sempre foi nosso amigo, apoiou minhas campanhas polticas,  pessoa de bem. Como pde fazer uma coisa dessas?
        - No tenho nada contra o Dr. Camargo como pessoa de nossa amizade, mas nosso cliente foi espoliado e estamos apenas defendendo seus direitos.
        - Pois voc vai agora mesmo retirar essa queixa da justia, alegar que estava enganado e que nada h contra Jos Lus.
        - No vou fazer isso, pai. Sinto muito se ele  seu amigo, mas temos provas suficientes para ganhar essa causa e no vamos desistir.
        - Voc est sendo ingnuo. Provavelmente foi iludido. Eu e sua me fomos ao enterro de Marcelo e no acredito que ele possa estar vivo. Vocs esto envolvidos 
em uma fraude. Saia disso enquanto  tempo. Voc vai ser riscado da profisso, ter seu diploma de bacharel cassado compactuando com uma leviandade dessas.
        - No vou desistir, pai. A justia ser feita. O Dr. Camargo ter que devolver a Marcelo tudo que lhe tirou. Ainda assim, estar fazendo pouco, uma vez que 
nunca poder dar-lhe o carinho da famlia e tudo quanto ele perdeu quando o levaram embora do Brasil e esconderam-no na Inglaterra.
        Apanhado de surpresa, Antnio hesitou um pouco ao responder:
        - De onde tirou essa idia? De algum romance de folhetim?
        - No, pai. Foi o prprio Marcelo quem nos contou tudo quanto fizeram com ele.
        - E voc acreditou! Que ingenuidade! Pois eu o probo de continuar com esse caso que est colocando nosso nome no ridculo. Voc vai j retirar essa queixa 
e dizer aos jornais que estava enganado.
        - No vou fazer isso de forma alguma. Estamos convencidos da veracidade dos fatos e nada nos far recuar agora. Pensamos muito antes de aceitar essa causa. 
Tanto eu quanto Rubinho questionamos exaustivamente. De um lado uma famlia da sociedade, com a qual nossas famlias mantm as melhores relaes; de outro a pessoa 
injustiada, espoliada, de quem tudo foi roubado. Optamos por defender o fraco, o oprimido, e fazer justia. No foi para isso que nos bacharelamos e prestamos nosso 
juramento?
        - O que voc diz me assusta. Como pode ser to inocente? No v que Jos Lus vai contratar o melhor advogado e que vocs sero massacrados por ele? Acha 
que dois principiantes como vocs vo poder desafiar os mestres do Direito e ganhar?
        - Estamos com os fatos. Vamos ganhar porque estamos do lado da verdade!
        - Vocs esto enganados. Precisamos conversar. Venha para casa com Rubinho e vamos resolver essa questo de uma vez antes que acontea coisa pior.
        - Podemos conversar quando quiser. Mas nada nos far mudar de idia agora. Estamos determinados. Iremos at o fim.
        - Se fizer isso, no vai contar comigo! Corto sua mesada e as nossas relaes. No quero compactuar com sua decadncia. Quero que fique bem claro para todos 
que no estou de acordo com suas atitudes. Vou ficar do lado de Jos Lus, doa a quem doer.
        -  um direito seu. Posso compreender sua atitude, entretanto eu esperava que voc, sempre se colocando como um defensor do povo, dos pobres e dos oprimidos, 
ficasse do nosso lado. Entretanto voc prefere o outro lado. Espero que nunca venha a se arrepender dessa atitude.
        Antnio irritou-se:
        - Pare com esse pieguismo barato! No admito que fale dessa forma comigo e que me desobedea. Voc vai acabar com essa histria o quanto antes!
        - E se eu no quiser?
        - No mais o terei como filho.
        - Sinto muito, papai, que pense assim. Hoje  noite passarei em casa para apanhar minhas coisas.
        - Pensou bem no que est fazendo?
        - Pensei.
        - Pois continue pensando at a noite. Ainda pode mudar de idia. Estarei esperando.
        - Est bem, papai.
        Ele desligou e Rubinho considerou:
        - A carga j comeou. Pelo jeito vamos ter que nos mudar mesmo. Meu pai vai tomar a mesma atitude.
        - J esperava que ele fosse reagir dessa forma. Ele no entende nossa postura. Sempre cuidou muito das aparncias, preocupa-se em conquistar a amizade das 
pessoas influentes e poderosas. Se eu no desistir, vai cortar a mesada e as relaes comigo.
        - O que vai fazer?
        - Se ele continuar fazendo essas exigncias, hoje  noite vou apanhar todas as minhas coisas e me mudar para um hotel. Amanh procurarei um pequeno apartamento 
para alugar.
        - Algo est me dizendo que terei que fazer o mesmo. Meu pai tambm no vai acreditar que possamos vencer essa parada.
        - Ele ainda no ligou.
        - Vai esperar eu chegar em casa para conversar pessoalmente. Sei como ele age. Vai tentar convencer-me a desistir. Como no vou fazer o que ele quer, vai 
pressionar da mesma forma que seu pai e terei que sair de casa tambm.
        - Seja como for, estamos jogando tudo e no podemos desistir de forma alguma.
        - Isso. A razo e a verdade esto de nosso lado. Vai dar tudo certo.
        Antnio desligou o telefone nervoso.
        -  verdade mesmo? - perguntou Maria Alice preocupada.
        - . Ele est cego. Imagine voc que quer enfrentar Jos Lus na justia! Vo fazer picadinho deles, dois ingnuos e inexperientes moleques. O pior  que 
ele me enfrentou. Chegou at a questionar minha plataforma poltica, cobrando atitudes de campanha. Imagine voc como ele est desorientado! Ah, mas eu no deixei 
por menos. Hoje  noite ele ter que desistir dessa loucura.
        - E se ele no quiser?
        - Acha que ter como me enfrentar? Corto a mesada, ponho-o na rua por alguns dias e logo ver que toda sua arrogncia desaparece. Vai fazer tudo que eu quiser!
        Maria Alice olhou-o e no escondeu a preocupao. Sabia que Daniel era dcil e fcil de levar, mas que, quando queria uma coisa, ningum conseguia demov-lo.
        - Daniel  impulsivo. Sua poltica est sendo muito radical. Com jeito poderia conseguir mais dele.
        - Tive muita pacincia. Alis foi voc quem me convenceu a esperar quando ele comeou com essa idia maluca junto com aquele descabeado do Rubinho. Se eu 
tivesse tomado uma atitude drstica logo no incio, as coisas no teriam chegado a este ponto. Sinto muito, Maria Alice, mas desta vez vou fazer do meu jeito. Ele 
ter que me obedecer.
        - Ele j  um homem. No  mais um menino que voc pode mandar e ele ter que obedecer.
        - Sou seu pai. Ter que me ouvir. Estou resolvido. Se ele no quiser desistir dessa idia maluca de processar Jos Lus com essa histria inventada por algum 
malandro, vou esquecer que ele  meu filho.
        - Voc no far isso!
        - Farei, sim. E voc no vai impedir-me.
        Lanira na outra sala ouvia com interesse. Sabia que isso teria que acontecer, esperava que seu pai reagisse dessa forma e torcia para que Daniel se mantivesse 
firme. Apesar disso, pensava em Gabriel e sentia um aperto no corao. Como ele reagiria a essa histria? Apegado  famlia, apaixonado pela me, cortaria as relaes 
com ela?
        Durante aqueles meses Lanira aprendera a admirar Gabriel. Gostava dele. Esforava-se para no misturar as coisas. Acreditava que Alberto estivesse falando 
a verdade e que Daniel e Rubinho estavam certos em defend-lo, mas no queria magoar Gabriel. Se ficasse provada a culpa de Jos Lus, seu nome ficaria manchado 
e essa situao certamente atingiria toda a famlia. Lanira ficava dividida. De um lado queria que Daniel vencesse; de outro no queria que Gabriel sofresse. Teve 
vontade de telefonar para ele, porm conteve-se. Melhor fingir que no sabia de nada e esperar que ele ligasse.
        Passava das oito quando Daniel chegou em casa. Maria Alice, preocupada, tentou conversar:
        - Meu filho! Seu pai est arrasado. Pense bem no que est fazendo!
        - J pensei, mame. Minha deciso est tomada. No voltarei atrs. Sinto muito se vocs no compreendem minha posio. Sou um profissional. Aceitei a causa 
e terei que ir at o fim.
        - Logo contra nossos amigos? E se estiver enganado? E se, como seu pai pensa, estiver sendo vtima de um malandro? Vai nos expor ao ridculo e acabar com 
sua carreira. Por que se arriscar em uma causa to difcil sem estar preparado suficientemente?
        - No se preocupe, me. Sei o que estou fazendo. J pensei bastante. Tenho conscincia do que est em jogo. Tenho provas suficientes para ganhar essa musa. 
Pode ter certeza disso.
        - Mas eles so pessoas de nossa amizade! Seu pai deve favores ao Dr. Jos Lus. Como ficaremos diante dele?
        - Sinto muito coloc-los nessa situao, porm dentro da profisso no podemos ser pessoais. H um cliente espoliado, que confia em ns e com o qual assumimos 
compromisso de defend-lo na justia e o faremos da melhor forma.
        Antes que Maria Alice respondesse, Antnio, que entrara na sala sem ser notado, interveio:
        - Voc no vai fazer isso. No permitirei. Daniel voltou-se para ele:
        - Gostaria que se interessasse pelo caso, esquecesse que se trata de pessoa conhecida, compreendesse minha posio. Marcelo foi roubado, privado do convvio 
da famlia, tido como morto. Nada mais justo que deseje reaver o que lhe pertence por direito.
        - Voc fala como se essa histria fosse verdadeira! Est cego! O que lhe disseram para acreditar nisso? No posso permitir que continue nessa farsa. Jos 
Lus  um homem ntegro, respeitado; sua esposa, uma dama caridosa e estimada na melhor sociedade do Rio de Janeiro. Onde pensa que vai com essa calnia? Acha que 
algum lhe dar ouvidos? No percebe a loucura que est cometendo? No v que vai acabar no ridculo e na repulsa de todos os nossos amigos?
        - Estou decidido, pai. Nada do que disser vai me demover de levar este caso  frente. Tenho certeza do que estou afirmando e no vou desistir at provar 
tudo na justia. Eu e Rubinho consideramos minuciosamente todos os riscos. Temos conscincia do poder do Dr. Jos Lus, de seu dinheiro e de sua fama. Resolvemos 
aceitar essa parada e ir em frente. Nada nos far mudar de idia.
        Antnio irritou-se:
        - Est me enfrentando? Eu ordeno que pare com isso. Amanh mesmo voc vai encerrar o caso.
        - E intil, papai. No faremos isso. Antnio indignou-se:
        - Est me forando a tomar uma atitude que eu no queria.
        - J sei, papai. Quer que eu saia desta casa.
        - Se no me obedecer, no o reconheo mais como filho. No o quero mais em minha casa.
        - Lamento que pense assim. Vou l em cima arrumar minhas coisas. 
        Plida, Maria Alice interveio:
        - Seu pai no quis dizer isso. Est nervoso. Voc o desacatou. V para o quarto, pense melhor. Amanh voltaremos ao assunto.
        Daniel foi para o quarto, apanhou uma mala, colocou-a sobre a cama e comeou a juntar todas as suas coisas. Sentia-se emocionado, nervoso. Pensara nessa 
possibilidade. Porm, agora que estava realmente acontecendo, sentia-se angustiado.
        Apesar disso, reconhecia que seu pai no tinha o direito de decidir o que ele deveria ou no fazer em sua vida profissional. Era sua carreira que estava 
em jogo. Eram seus princpios, sua dignidade. Ele queria cuidar da prpria vida; se errasse, assumiria as conseqncias. Desejava ser o dono de seu destino. No 
queria ser como o pai, levar uma vida de aparncia, escravo das convenincias, fechando os olhos e aferindo vantagens com a desonestidade alheia. Ele queria construir 
sua prpria vida, do seu jeito.
        Lanira bateu na porta levemente e entrou. Vendo-o fazer as malas, abraou-o emocionada:
        - Voc vai mesmo! J pensou bem?
        - J, Lanira.
        - Sentirei sua falta!
        - Ns nos veremos sempre. Nada vai mudar entre ns.
        - As coisas deveriam ser diferentes. Acho que papai poderia ser mais compreensivo.
        - Ele  como . Temos que aceitar essa verdade.
        - Sinto muito. Por que no deixa para ir amanh? Pode ser que ele mude de idia.
        - No espere dele o que ainda no pode dar. Sei cuidar de mim, no se preocupe.
        - Para onde vai?
        - Um hotel. Amanh procurarei apartamento para alugar.
        - E Rubinho?
        - Talvez faa o mesmo.
        Lanira ajudou Daniel a arrumar tudo. Quando terminaram, ele a abraou com carinho.
        - Adeus, Lanira. Assim que tiver o endereo, telefono. Abraaram-se e ela o ajudou com as malas. Desceram as escadas e Maria Alice deixou o marido na sala 
e aproximou-se aflita:
        - Meu filho! Voc no pode ir embora!
        - No se preocupe, me. Estarei bem.
        - Pense melhor! No se precipite.
        Daniel abraou-a com carinho, dizendo:
        - Adeus, me. Assim que estiver instalado, mando o endereo.
        - V falar com seu pai antes de ir. Tente demov-lo!
        - No vou fazer isso. Ele foi muito claro.
        - Vai sair sem lhe dizer nada?
        Daniel hesitou, depois foi at a sala onde Antnio lia um jornal e, dirigindo-se a ele, disse:
        - Adeus, pai. Embora no me reconhea mais como filho, eu ainda o reconheo como pai. Quando voltar atrs dessa deciso, estarei esperando com o carinho 
de sempre.
        Antnio no respondeu. Por seus olhos passou um brilho de emoo. Sentiu vontade de abraar o filho e impedi-lo de sair. Mas dominou-se. Ele precisava impor-se 
como pai. No podia fraquejar. Embora com o corao apertado e o peito oprimido, no disse nada enquanto Daniel saa da sala e apanhando as malas deixava a casa 
paterna.
        Vendo seu carro afastar-se, Maria Alice, esforando-se para dominar a emoo, procurou Antnio dizendo:
        - Por que o deixou ir? Por que no o impediu de fazer essa loucura?
        - Foi ele quem escolheu. No posso tolerar em casa um filho que me enfrenta, que no acata minhas ordens. Tenho dignidade. No posso permitir que ele abuse 
de minha autoridade.
        - No precisava ser to radical! Poderia ter esperado um pouco. Pode ser que eles reconheam o erro e mudem de idia.
        - Daniel  teimoso. Vai quebrar a cara e voltar com o rabo entre as pernas. Voc vai ver! E s questo de tempo!
        - Ele no vai voltar. No depois do que voc lhe disse.
        - Bobagem. A vida l fora no  esse mar de rosas que ele tinha aqui. Em sociedade temos visto inmeros casos como esse. Eles sempre voltam para casa quando 
o dinheiro acaba. Daniel no est acostumado a ficar na misria.
        - Meu Deus! O que ser dele sem dinheiro? O que diro nossos amigos?
        - Diro que estamos dando-lhe uma lio. Quando a iluso acabar, ele voltar e far tudo quanto eu disser. Voc ver.
        
        Lanira, no quarto, sentia-se, triste. Gabriel no lhe telefonara como havia prometido. E se ele no a procurasse mais? Sentiu um aperto no corao. Sobressaltou-se. 
Estaria apaixonando-se por ele? Claro que no. tia no queria amar ningum e acabar se transformando em uma dona de casa, com filhos, cheia de obrigaes. No. Ela 
gostava de Gabriel, mas no era amor. Apenas uma boa companhia.
        E se ele cortasse relaes com ela? Bem, se ele agisse assim no seria digno de sua amizade. Ela no era Daniel e ele deveria saber separar as coisas. O 
que faria se ele tocasse no assunto? No seria hipcrita. Diria a verdade. Contaria que Daniel acreditava mesmo que Alberto fosse Marcelo.
        Sentiu-se mais calma depois de tomar essa deciso. No se sentia culpada de nada. No tinha por que temer. Esperaria os acontecimentos serenamente.
        Deitado na cama do hotel, Daniel pensava na deciso que fora forado a tomar. No achou oportuno ligar para Rubinho. Preferiu conversar na manh seguinte 
no escritrio.
        Deixar a casa paterna no fora to fcil como havia pensado. A emoo que a me tentava conter, a tristeza de Lanira, a dureza do pai e principalmente as 
lembranas da infncia e da adolescncia que lhe vieram  mente enquanto fazia as malas fizeram brotar em seu peito um sentimento de perda, uma sensao de insegurana. 
Entretanto, depois que colocou as malas no carro e saiu  procura do hotel, comeou a sentir uma fora interior como antes nunca havia sentido. Um calor no peito, 
uma agradvel sensao de liberdade, de confiana no futuro, que lhe devolveram o otimismo, causando extremo bem-estar.
        - Amanh  outro dia - pensou. - Daqui para a frente, s farei as coisas do meu jeito.
        
        No dia seguinte Daniel foi para o escritrio bem cedo. Agora mais do que nunca precisava estudar o caso para que nenhum detalhe fosse negligenciado. s dez 
horas Alberto daria uma entrevista a alguns reprteres, conforme o combinado.
        Antes das oito, quando Rubinho chegou, j encontrou Daniel estudando o caso.
        - E ento, como foi? - indagou ansioso.
        - Como eu previa, tive que me mudar. Ontem mesmo fui para um hotel.
        Rubinho sentou-se, ficou alguns segundos pensativo, depois disse:
        -  o diabo.
        - Conhecendo meu pai, era de se prever.
        - No tentou convenc-lo?
        - De que forma? Ele no acredita na veracidade dessa histria nem em nossa capacidade para enfrentar na justia o poder dos Camargo. Exigiu que retirssemos 
a queixa. Como recusei, apontou-me o caminho da rua.
        - Deve ter sido duro para voc.
        - Eu sabia que poderia acontecer, mas, na hora que aconteceu, no nego que fiquei apreensivo, nervoso, triste. Mame, apesar de durona, estava plida, angustiada; 
Lanira, triste. Apesar de nossas diferenas de pontos de vista, no nego que tive uma vida muito boa em famlia. Sa com o corao apertado. Entretanto, depois que 
me afastei, uma gostosa sensao de liberdade, de auto-suficincia tomou conta de mim. Senti-me mais forte, encorajado, disposto.
        - Vamos ver como ser comigo.
        - Voc tambm?
        - Meu pai pensa igualzinho ao seu, mas tem outros mtodos de persuaso. No impe. Quando cheguei, chamou-me para conversar. No criticou nossa atitude. 
Ele gosta do tom amigvel. Aconselha. Quis ouvir toda a histria.
        - Ele  mais tolerante.
        - Est enfurecido, mas finge que compreende. Fez fora para controlar-se. No fim, disse que tem um amigo que lhe ofereceu sociedade em uma empresa de consultoria 
jurdica. Um negcio de muito dinheiro. Ele no pode aparecer como scio, mas queria que eu aceitasse. Eu ficaria milionrio, travaria relaes com pessoas de alto 
nvel. Mas teria que abandonar nossa causa para dedicar-me inteiramente ao novo negcio.
        -  uma oferta tentadora.
        - Se eu estivesse apenas visando dinheiro. Meu pai tentou me corromper. Acha que eu aceitaria? Sempre fui contra os conchavos em que ele est sempre metido 
e nos quais ganhou sua fortuna. Recusei e ele ficou vermelho de raiva. Mas dissimulou. Deu-me dois dias para pensar.
        - O que pensa fazer?
        - Pelo que conheo dele, vamos procurar um apartamento hoje mesmo. No comeo no temos muito dinheiro e vamos dividir as despesas conforme combinamos.
        - Acha que vai precisar fazer isso?
        - Acho. Assim que ele tiver certeza de que no vai poder me comprar com essa sociedade, cortar minha mesada, minha me ter crises do corao, meu irmo 
Andr tentar intervir e me "colocar na linha". O nico que vai me apoiar ser Betinho. E o mais mimado, mas adora contrariar o resto da famlia. Minha vida se tornar 
um inferno e no terei serenidade para trabalhar. Por isso, antes que tudo piore, resolvi me mudar o quanto antes.
        - Eu comprei o jornal para procurar. Pretendia fazer isso depois da entrevista de Alberto.
        - Vamos alugar um com dois quartos. No deve ser muito caro.
        - Podemos encontrar um mobiliado.
        - Desde que o preo nos convenha.
        Eram nove horas quando Alberto chegou. Juntos eles combinaram os detalhes da entrevista. Quinze minutos antes da hora marcada, j os reprteres esperavam. 
Elza os fez entrar na sala de Rubinho, onde Alberto estava ao lado dos dois advogados. Quando eles se acomodaram, Rubinho apresentou Alberto dizendo:
        - Este  Marcelo, o neto do Dr. Antnio Camargo de Melo. Eles o olharam com curiosidade.
        - O que querem saber? - perguntou Daniel.
        - A histria toda desde o comeo - disse um deles.
        Alberto comeou a falar. Contou a mesma histria que inicialmente contara a seus advogados, omitindo as investigaes que estavam procedendo e as provas 
que estavam juntando.
        Eles fizeram vrias perguntas, tiraram fotos, pediram para repetir alguns trechos e saram impressionados com o que ouviram.
        - Ser destaque de primeira pgina - comentou Daniel.
        - Eles estavam muito interessados! E uma matria e tanto, bem a gosto popular. Um escndalo em sociedade  um prato cheio! Vai render comentrios por um 
bom tempo.
        - S espero que no atrapalhem as investigaes - comentou Alberto. - O que me interessa mesmo  reaver o que me pertence por direito. Eles se aproveitaram 
de mim quando eu era pequeno e no tinha como me defender. Agora estou aqui para cobrar. Eles tero que devolver tudo.
        - Vamos ganhar! - disse Rubinho.
        - Temos que ganhar! - completou Daniel.
        
Captulo 9
        
        Na sala de espera do consultrio de Jlio, Daniel e Rubinho esperavam. Estava escurecendo e eles haviam combinado sair para jantar. Rubinho pretendia conversar 
com ele sobre os sonhos de Daniel.
        A porta do consultrio se abriu e o ltimo cliente saiu acompanhado de Jlio, que, vendo-os, abraou-os com prazer.
        - Desculpe a demora - disse depois dos cumprimentos.
        - Atender bem o cliente  sempre o mais importante - considerou Rubinho.
        - Tem razo. Vamos entrar um pouco. E a primeira vez que Daniel vem aqui. Gostaria de mostrar-lhe o consultrio.
        Eles entraram na sala em que Jlio atendia. O ambiente era moderno, alegre, com leve aroma de um anti-sptico que Daniel conhecia sem saber o nome. Havia 
rosas brancas em um vaso de cristal sobre um apara-dor elegante e confortveis poltronas ao redor da escrivaninha.
        - Na sala ao lado procedo aos exames de rotina. Sentem-se. Ainda  cedo para jantar, no acham?
        -  - concordou Daniel.
        - Desejam ir a algum lugar antes? - indagou Jlio atencioso.
        - Preferimos conversar. Alis, eu telefonei porque Daniel anda tendo alguns sonhos intrigantes. Como estudioso dos assuntos espirituais, talvez voc possa 
nos ajudar a entender o que est acontecendo.
        - Foram alguns pesadelos. Impressionaram-me bastante. Minha vida mudou muito. Pode ser que eu tenha ficado preocupado.
        - Conte-me o que aconteceu - disse Jlio com naturalidade. Daniel contou todos os sonhos que tivera e a emoo que sentira. Jlio ouviu atentamente. Quando 
ele terminou, disse:
        - Voc est tendo reminiscncias de vidas passadas.
        - Eu no disse que era isso? - disse Rubinho satisfeito.
        - Sim, voc disse, mas eu no sei... Parece-me uma hiptese to inusitada!
        - Talvez porque voc no conhea o assunto. Esses fenmenos so mais comuns do que voc poderia supor. Muitas pessoas tm tido essas experincias.
        - Confesso que nunca me detive para pensar em reencarnao. Essa hiptese parece-me to fantasiosa!
        - Por qu? Nunca questionou por que em um universo to perfeito como o nosso, onde tudo se equilibra, mantendo a vida com preciso tanto no micro como no 
macrocosmos, h tantas diferenas fsicas, sociais entre os homens como as que existem no mundo? Se Deus  perfeito e s age no bem, como entender essa aparente 
disparidade?
        - Longe de mim questionar a perfeio de Deus - disse Daniel. - Mas  difcil conciliar a bondade de Deus com as injustias e os sofrimentos no mundo.
        - Se voc pensar que s vive uma vida na Terra, fica impossvel compreender mesmo - esclareceu Jlio. - Entretanto, se aceitar que o mesmo esprito volta 
vrias vezes a renascer na Terra para aprender a controlar a mente e desenvolver a conscincia, arcando com os resultados de suas atitudes ao longo do tempo, perceber 
que tudo est certo. Que cada um nasce dentro da experincia que precisa para desenvolver seus potenciais de esprito eterno.
        - E uma filosofia interessante! - tornou Daniel interessado.
        - No  apenas uma filosofia. E uma realidade. Muitas pessoas passaram por experincias concludentes. E possvel, atravs da hipnose, fazer regresso e recordar 
fatos vivenciados em vidas passadas. H cientistas estudando o assunto e chegando a provas inquestionveis.
        - Gostaria de ler essas pesquisas - interessou-se Daniel.
        - Posso emprestar-lhe alguns livros. H um em especial que me impressionou. Chama-se O Caso de Bridey Murphy. Foi escrito por um corretor de imveis que 
aps algumas experincias de hipnotismo conseguiu que uma amiga sua voltasse  encarnao anterior, prestasse valiosas informaes que depois foram pesquisadas e 
confirmadas.
        - Como assim? - indagou Rubinho.
        - Ela deu o nome, o endereo de onde viveu na encarnao anterior, o nome do marido, etc. Fizeram pesquisas e encontraram nos cartrios todos os documentos. 
Aquela pessoa havia existido e as informaes estavam certas.
        - Que coisa extraordinria! - comentou Daniel. - Gostaria de ler esse livro.
        - Posso emprest-lo.
        - Ser que esse escritor no estava to fanatizado com a reencarnao que acabou impressionando a moa.
        - De forma alguma. Ele no acreditava em reencarnao quando comeou suas experincias com hipnotismo. Quando a amiga que ele hipnotizava em suas pesquisas 
falou em reencarnao, ele ficou to chocado que abandonou a hipnose por mais de um ano, voltando s pesquisas pressionado por alguns fatos de sua vida.
        - Interessante! - comentou Daniel. - Se meus sonhos tm a ver com alguma vida passada, como poderei saber?
        - Voc tem tido reminiscncias espontneas. Pode ser que continuem. Por alguma razo voc entrou em um processo que est mexendo com problemas de seu passado 
e precisa se recordar de alguns fatos. Mas podemos tambm tentar a hipnose e induzir a fim de que descubra alguma coisa mais.
        - No  um processo perigoso? - indagou Daniel.
        - No, desde que seja utilizado por pessoa capacitada. Se quiser tentar, poderemos fazer alguns testes.
        - Voc sabe como?
        - H anos estudo o hipnotismo e tenho aplicado em alguns pacientes. E uma experincia fascinante.
        - Gostaria de me informar melhor antes de tentar qualquer coisa - tornou Daniel. - Se me emprestar esse livro a que se referiu, lerei com prazer.
        - Eu tambm vou ler - interveio Rubinho. - Vai ser bom desviar um pouco a ateno de nossos problemas.
        - Pelo que li nos jornais e tenho ouvido dos amigos, vocs mexeram em um vespeiro. Em todos os lugares que vou no se fala em outra coisa.
        - O povo gosta do escndalo - respondeu Rubinho. - Infelizmente no pudemos evitar isso. As pessoas envolvidas so muito conhecidas.
        - Alm do que muito respeitadas em sociedade. Meus pais duvidaram da histria que leram nos jornais.
        - Os meus tambm - concordou Daniel. - Entretanto as provas que possumos so irrefutveis. Eles no s mentiram, substituram o corpo de Marcelo pelo de 
um menino que havia morrido naquele dia e ficado com o rosto irreconhecvel, como levaram-no para a Inglaterra, de onde ele nunca deveria voltar.
        - E uma histria de arrepiar. Principalmente por saber que toda a  morreu em menos de dois ou trs anos depois do acontecimento -  completou Rubinho.
        Jlio sacudiu a cabea pensativo:
        - Pode ter sido coincidncia, mas esse fato d o que pensar!
        - Por enquanto estamos investigando a fraude, mas tambm estamos inclinados a crer que os fatos podem ter sido piores. Afinal, a morte de toda a famlia 
favoreceu a posse da herana que o Dr. Jos Lus tanto queria - disse Rubinho.
        - No nego que vocs so corajosos. Diante dos fatos, poucos teriam peito para enfrentar os Camargo de Melo na justia, levando-se em conta que eles so 
muito considerados e possuem amigos at entre a alta magistratura do pas.
        - Por causa disso meus pais acham que vamos ser massacrados - tornou Daniel. - Mas ns acreditamos na justia. Diante das provas, nenhum juiz deixar de 
reconhecer Marcelo como o verdadeiro herdeiro de tudo.
        - Vocs devem estar bem calados para enfrentar essa briga.
        - Alm das provas que Marcelo tem, estamos investigando e j descobrimos novas evidncias. Daniel esteve a ponto de recusar a causa, e s no o fez por causa 
daquele detalhe do sonho.
        -  verdade. Voc sonhou com seu cliente antes de conhec-lo. Depois que precisava aceitar essa causa. No foi isso? - lembrou Jlio.
        - Foi.
        - Est claro que voc, alm de recordar fatos de outras vidas, recebeu ajuda espiritual.
        - Como assim?
        - Antes de nascer neste mundo ns estvamos vivendo em outra dimenso e  para l que voltaremos quando nosso corpo de carne morrer. Embora nossas lembranas 
desse mundo tenham sido apagadas para facilitar nossa vida na Terra, temos muitos amigos em nossa ptria de origem e todas as noites, enquanto nosso corpo dorme, 
podemos ir at l, conversar com eles.
        - Foi isso que aconteceu comigo?
        - Foi. Essa pessoa que o aconselhou a aceitar a causa deve conhecer os fatos de suas vidas passadas que se relacionam com Marcelo. Eu acredito que defend-lo, 
refazer passados enganos, deve ter sido uma aspirao de seu esprito quando estava no astral, antes de reencarnar. Por isso ele procurou avivar sua memria para 
que no perdesse a chance de fazer o que voc queria.
        - Ento terei mesmo tido outra vida e conhecido Alberto, isto , Marcelo?
        - Quanto a isso no tenho dvida. Como poderia ter sonhado com ele antes mesmo de conhec-lo? Juntar vocs dois, ou talvez at os trs, j que Rubinho tambm 
est envolvido no caso, parece-me coisa do destino, da vida, que tudo sabe e age pelo melhor. Ela juntou vocs porque est na hora de resolver os assuntos no resolvidos 
no passado.
        - De que forma? - indagou Rubinho interessado.
        - No sei. Mas, com certeza, aceitando essa causa esto no caminho certo. Algo me diz que essa histria  mesmo verdadeira e que vocs precisavam fazer o 
que esto fazendo.
        - Eu senti isso desde o primeiro dia - concordou Rubinho.
        - Eu tambm, apesar de um vago receio no sei bem do qu, que me incomoda quando olho para Alberto.
        - Nesse processo vocs precisam do bom senso. Sabem como proceder com tica e principalmente voc, Daniel, que eu sinto estar mais envolvido nesta histria, 
no pode se deixar levar pelas emoes do passado que forosamente vo emergir dentro de voc. Precisa ponderar suas atitudes e no se impressionar. Seja o que for 
que aconteceu entre vocs, j passou. Acabou. Se agora a vida reuniu-os, foi porque existe a chance de conviverem de uma forma melhor.
        - O que me assusta so as emoes que no posso explicar - ponderou Daniel. - Nunca fui de me impressionar com pessoas. Com ele  diferente.
        - Reencontr-lo acionou os mecanismos de suas vidas passadas e por isso o impressionou tanto. Por seu sonho d para perceber que o encontro de vocs foi 
programado mesmo antes de sua reencarnao, o que faz crer que ser muito bom para todos essa convivncia.
        - Por qu? E se ele trouxer desgraa? Eu nunca havia me sentido assim antes.
        - Voc est assustado, revivendo intimamente emoes fortes de outras vidas. No precisa temer. Como eu disse, o passado acabou. Seja o que for que aconteceu 
naqueles tempos, no vai voltar mais. Vocs mudaram, o tempo passou, o mundo mudou. A vida s trabalha pelo melhor, s faz o que  bom para todos os envolvidos. 
Se ela juntou vocs, tudo pode dar certo. Ela no joga para perder.
        - Se perdermos essa causa, estamos liquidados profissionalmente - considerou Rubinho.
        - Seja o que for que acontecer, vocs estaro ganhando. Pelo menos vo aprender muito.
        - No tenho medo de perder - disse Daniel. - Temos que ganhar, mas, se no der, perder uma causa no significa perder a vida. Afinal a experincia tem seu 
preo.
        - Assim  que se fala! - considerou Jlio. - Desejo sinceramente que vocs ganhem. No tenho nada contra o Dr. Jos Lus. Mas a causa de um menino espoliado 
sempre mexe com nossos valores de justia. Depois, como estudioso da reencarnao, sinto que ser muito interessante poder acompanhar esse caso e descobrir o que 
se esconde atrs dos acontecimentos de hoje. Para mim, toda esta histria teve incio em vidas passadas.
        - Voc fala com tanta certeza! - disse Daniel.
        - Para mim no h mais dvida. A reencarnao, a existncia de outros mundos de onde viemos e para onde vamos depois da morte do corpo  a nica forma de 
explicar os fenmenos e os problemas que observamos  nossa volta. Quanto mais estudo, observo, penso, mais sinto que no poderia ser diferente. Alm disso, h pessoas 
que se recordam claramente de fatos vivenciados em outras vidas. Elas aparecem em todas as culturas, entre pessoas de crenas e religies diferentes, e as caractersticas 
so as mesmas.
        - No deixa de ser intrigante - comentou Daniel.
        - Voc poderia tentar descobrir o que aconteceu em outras vidas fazendo uma regresso - sugeriu Rubinho. - Seria uma forma de testar essa possibilidade.
        - No estou ainda preparado para uma experincia dessas - respondeu Daniel
        - Do que tem medo? Se fosse comigo, faria logo e pronto. Estou curioso - disse Rubinho.
        - Por que no tenta voc? Afinal, tambm faz parte do mesmo processo. No foi o que Jlio disse?
        - Porque  voc quem est tendo sonhos estranhos e sensaes diferentes. Eu no estou sentindo nada.
        - De fato, Daniel est mais sensvel e talvez fosse mais indicado comear por ele. Mas voc tambm pode tentar. Em uma regresso, nunca se sabe o que pode 
acontecer - disse Jlio.
        - Vou pensar nisso - respondeu Rubinho.
        Continuaram conversando mais alguns minutos e depois, ainda comentando o assunto, saram para jantar.
        Sentada em sua cama, Lanira olhava para o telefone pensativa. Sentia vontade de ligar para Gabriel, mas tinha receio. Fazia mais de vinte dias que ele no 
lhe telefonava, e ela sabia que ele se afastara desde que Daniel abrira a ao contra seus pais.
        Ela preferia que ele a houvesse procurado ainda que fosse para criticar seu irmo, ou para manifestar sua contrariedade. Mas ele simplesmente desaparecera. 
Ela gostaria muito de ter se posicionado com ele sobre o assunto e conhecido tambm seus sentimentos.
        Claro que seu desaparecimento indicava o quanto ele se magoara com o processo, incluindo-a indiretamente. E era isso que ela no queria aceitar. No era 
justo que ele a inclusse sem lhe dar nenhuma chance de posicionar-se.
        Decidida, apanhou o telefone e discou. Uma voz de mulher atendeu e ela pediu:
        - Quero falar com Gabriel.
        - Ele no est. Quem est falando?
        - Uma amiga dele da faculdade - mentiu ela. - A que horas ele volta?
        - Ele est viajando. Tirou frias e viajou. No sabemos quando ele regressar.
        - Poderia dar-me o endereo para que eu possa escrever-lhe?
        - Ele no tem lugar fixo.
        - Obrigada.
        Lanira desligou preocupada. Aquela no era poca de frias. Gabriel teria deixado a faculdade? Remexeu-se na cama inquieta. Teria a situao se tornado to 
insustentvel que ele se ausentara?
        A noite, depois do jantar, ao invs de recolher-se como de hbito, Lanira apanhou uma revista e afundou em uma poltrona na sala de estar. Sempre que desejava 
saber alguma coisa, ela fingia ler e procurava ouvir o que seus pais conversavam.
        Eles tinham o hbito de se sentar na sala aps o jantar e conversar. Nunca se davam conta de que ela estava por perto e falavam sem reservas. Ela fingia 
ler e no perdia nada do que eles diziam.
        Aps falarem sobre poltica, Maria Alice comentou:
        - Angelina me ligou chorando. Rubinho tambm saiu de casa. Ernesto fez de tudo para que ele desistisse da malfadada ao. Mas ele no quis.
        - Ento Ernesto mandou-o embora de casa.
        - Isso mesmo. Ela chorava, mas ele no voltou atrs.
        - At que ele foi muito tolerante. Eu resolvi logo a questo. Soube que Jos Lus no vai comparecer  audincia e mandou o Dr. Loureiro. J pensou? Um dos 
melhores e mais respeitados advogados do pas. Alis, quando Jos Lus procurou-me indignado, me posicionei bem claro. Dei-lhe todo o apoio. Inclusive disse-lhe 
que havia expulsado Daniel e no o considerava mais como filho.
        - Pelo menos para isso valeu sua atitude.
        - Mostrei-me ferido, triste. Infelizmente eu nada posso fazer para impedir essa barbaridade. Daniel  maior de idade. Jos Lus garantiu que Daniel est 
se deixando levar por um impostor, que naquela ocasio ele mesmo viu o corpo de Marcelo e o examinou. No h nenhuma hiptese de o menino ter sobrevivido ao acidente. 
Conforme eu pensava, Daniel est sendo enganado grosseiramente e no percebe isso.
        - No haveria um jeito de faz-lo entender?
        - Bem que eu tentei. Mas ele est obstinado. Quero ver o que far quando perder a ao e ficar desmoralizado.
        - No posso entender. Como ele, sempre to ponderado, foi entrar em uma coisa dessas?
        - Para voc ver. Estamos vivendo em um tempo terrvel. Os filhos hoje no ouvem mais os pais.
        - O que mais Jos Lus disse?
        - Bom, ele estava indignado. Era de se esperar. Qualquer um teria tido essa reao se estivesse em seu lugar.
        - Apesar disso, eles continuam freqentando a sociedade como se nada estivesse acontecendo. Ainda ontem estavam na festa de quinze anos da filha do Dr. Hortnsio.
        - Por que deveriam agir diferente? Eles esto sendo vtimas, no tm por que se afastar. Ao contrrio, as pessoas esto demonstrando-lhes sua solidariedade.
        - Na frente deles. Mas eu vi: quando eles viravam as costas, as pessoas faziam comentrios em voz baixa. Sabe de uma coisa? Eu acho at que muitos gostariam 
que fosse verdade s para v-los humilhados.
        - Que bobagem. Eles so estimados, ricos.
        - Por isso mesmo. Os invejosos e os medocres gostam de ver cair os que esto por cima.
        - Infelizmente voc tem razo. Sinto isso at entre os correligionrios de nosso partido. H alguns que gostariam de me derrubar. S no o fazem porque no 
podem. Eu sou mais esperto e mais forte do que eles.
        Abaixando a voz, Maria Alice tornou:
        - Voc no percebeu que Gabriel se afastou de Lanira? Nunca mais
        saram juntos. Teria sido por causa de Daniel?
        .- Com certeza. A loucura dele est prejudicando at a irm. Alis,
        entre os jovens esses assuntos impressionam mais. Eu percebi que os filhos Je los Lus como que desapareceram de nossas rodas. Voc os tem visto?
        -No. Gabriel no era muito assduo, mas Laura nunca deixava de
        ir a uma festa.  verdade, eles no apareceram mais em pblico depois da malfadada ao.
        - para voc ver a situao que a irresponsabilidade de Daniel criou.
        O pior  que ele est convencido de estar fazendo uma grande coisa. Um ato herico de justia!
        - Concordo. No posso permitir isso. Vou procurar Daniel e tentar demov-lo.
        - Voc pode tentar. Mas no creio que ele atenda.
        - Amanh  tarde irei procur-lo.
        Mudaram de assunto. Lanira deu-se por satisfeita e foi para o quarto. Ela precisava falar com Daniel, saber como as coisas estavam caminhando.
        Daniel chegou em casa cansado. Passara a tarde toda com Rubinho estudando. Na tarde do dia seguinte teria lugar a primeira audincia do Dr. Jos Lus para 
ouvir a queixa e prestar os primeiros esclarecimentos sobre o assunto. Nesse primeiro encontro, eles no estariam presentes. Se o juiz entendesse que as provas eram 
irrelevantes, era possvel que indeferisse o pedido e tudo terminasse a. Ainda o Dr. Jos Lus poderia process-los por difamao e calnia e eles teriam que pagar 
todas as custas, inclusive os honorrios do advogado dele, que deveriam ser altos.
        Apesar disso, Daniel sentia-se confiante. Quanto mais estudava o caso de Alberto, mais as provas pareciam-lhe irrecusveis. Se o juiz no se impressionasse 
com o nome nem com a fortuna de Jos Lus e fosse imparcial, teria que pelo menos dar prosseguimento  ao a fim de que se esclarecesse melhor o assunto. Conseguido 
isso, eles teriam maiores chances de investigar e buscar mais provas.
        Deitou-se e repassou mais uma vez todas as providncias legais concernentes ao caso e, satisfeito, adormeceu.
        Sonhou que estava em uma sala antiga examinando atentamente alguns papis. Estava mais velho e de luto fechado. Sentia-se angustiado, triste. A porta abriu-se 
e surgiu um homem um pouco mais jovem do que ele. Inquieto, Daniel reconheceu Alberto. Um pouco diferente do que era agora, mas tinha certeza de que era ele.
        Levantou-se aflito. O outro aproximou-se fitando-o rancoroso.
        - Vim para lhe dizer que voc vai pagar por tudo quanto fez a ela!
        - No tem esse direito. Sabe que eu a amava mais do que tudo na mundo!
        - E mentira! Ela o odiava! Saiba disso. No descansarei enquanto voc no pagar por seu crime. Voc a matou!
        - No seja louco!
        - Voc, sim. Tenho a certeza de que provocou o acidente. Estava com raiva porque era a mim que ela amava! Era a mim que ela queria! Nunca se deu conta de 
que ela se casou com voc para obedecer aos pais e que o teria deixado se voc no a tivesse obrigado a viver de seu lado. Voc no a amava. Casou-se com ela por 
causa do dinheiro!
        Daniel levantou-se e ameaou agredi-lo. Mas parou. Fez tremendo esforo para conter-se.
        - V embora daqui antes que eu acabe com sua vida! No est contente com o que fez? Deseja mais?
        - Vou dar queixa de voc na justia. Voc a matou para herdar todo o dinheiro dela. No vou consentir que depois de tudo fique em liberdade usufruindo da 
fortuna que lhe roubou! Assassino! Assassino!
        Os olhos dele fitavam-no acusadores e cheios de dio e Daniel sentiu seu corao descompassar, quis fugir.
        -  um pesadelo! - pensou fazendo fora para acordar. Abriu os olhos ainda ouvindo a voz de Alberto repetindo:
        - Assassino! Assassino!
        Acendeu a luz e sentou-se na cama. Estava banhado de suor. Levantou-se e foi  cozinha tomar um copo de gua. Por que esse pesadelo teria voltado? Estaria 
ele to preocupado com a audincia que provocara aquele sonho desagradvel?
        O pior era que tudo aquilo parecia-lhe ter acontecido realmente. Alguma coisa dentro dele sabia que aquelas cenas eram verdadeiras. Como explicar? Jlio 
teria razo? Teria ele vivido outras vidas em que Alberto teria participado?
        Se isso fosse verdade, eles haviam sido inimigos. Por que agora ele o escolhera para defend-lo na justia? Como ele se sentiria ao v-lo? Teria alguma sensao 
desagradvel?
        Se Alberto antipatizara com ele, no demonstrava. Alis estava colocando seu futuro, todas as suas esperanas em suas mos. Por qu? Eram perguntas que o 
faziam duvidar da veracidade de tudo quanto Jlio dissera. Apesar disso, no conseguia esquecer o sonho. Por mais que repetisse que isso no passava de um pesadelo 
criado pela tenso da audincia, a sensao de angstia reaparecia. A lembrana daquela mulher que morrera em seus braos o comovia e entristecia.
        Reconheceu que fatos estranhos estavam acontecendo com ele. Iria procurar Jlio para tentar esclarec-los. No podia continuar sentindo-se mal desse jeito. 
Precisava de toda a sua calma para estudar e levar a bom termo o caso. Eles estavam jogando tudo nesse trabalho. Rubinho confiava e ele queria fazer seu melhor.
        Quando Rubinho levantou-se, j o encontrou na cozinha tomando caf. Haviam alugado aquele apartamento e estavam morando juntos h duas semanas.
        - Voc levantou cedo! No conseguiu dormir?
        - Dormi, mas tive o pesadelo de novo. Rubinho meneou a cabea negativamente:
        -  o diabo! Bem que Jlio avisou que poderia acontecer. Enquanto Rubinho se sentava para o caf, Daniel narrou o sonho, finalizando:
        - No sei o que pensar. A presena de Alberto provoca em mim uma certa inquietao, algo desagradvel que no sei explicar. Mas, segundo o que Jlio disse, 
ele teria sido um inimigo meu. Em meus sonhos est sempre me acusando. Eu noto que ele no sente o mesmo por mim. Nunca deixou transparecer nenhum sentimento desagradvel. 
Ao contrrio, me escolheu como seu advogado. Tudo isso no ser apenas uma fantasia de minha parte?
        - Por que  que voc quando sonha fica com a sensao de que est acontecendo de verdade?
        -  isso que me intriga. Sinto as emoes, fortes, vivas, como se tudo fosse mesmo verdade. Mas alm disso, naquele momento, eu "sei" que tudo aconteceu 
mesmo.
        - A dvida surge quando voc acorda. A entra seu raciocnio e, como no acredita em vidas passadas, duvida de tudo.
        - Se fomos inimigos, por que ele confia em mim e no me odeia? Alguma coisa no bate nessa histria.
        - Se eu fosse voc, procuraria Jlio e tentaria descobrir o que . Se no levar a nada, pelo menos voc pode ter certeza de que foi fantasia sua mesmo.
        - . Vou fazer isso. Vamos para o escritrio? O dia hoje vai custar a passar.
        -  mesmo. O melhor ser falar com Alberto. Temos que estar preparados para o caso de o juiz deferir a ao e instaurar o processo.
        - Jonas vai chegar hoje. Vamos ver se tem novidades.
        Terminaram o caf e foram juntos para o escritrio. Haviam marcado com Alberto uma reunio s dez horas. Enquanto esperavam, mergulharam no trabalho.
        
        Lenira decidiu faltar s duas ltimas aulas e ir falar com Daniel. Estava preocupada. Quando entrou no prdio, um rapaz aguardava o elevador. Estava bem 
vestido e cumprimentou-a. A princpio Lanira no o reconheceu, mas quando entraram no elevador e ele apertou o mesmo nmero que ela, lembrou-se. Era Alberto.
        - Desculpe - disse ela. - No o reconheci. Ele sorriu.
        - Vimo-nos muito rapidamente naquele dia, mas no esqueci seu rosto. Como vai, Lanira?
        - Bem. Vejo que guardou meu nome.
        - Eu tinha certeza de voltar a v-la! Esperava este momento com ansiedade.
        Ele a fixava com admirao e Lanira sentiu-se aliviada quando chegaram ao destino. Alberto abriu a porta esperando gentilmente que ela sasse.
        Ela no era tmida. Por isso olhou-o nos olhos dizendo com voz firme, em que havia uma ponta de malcia:
        - Voc melhorou sua aparncia, veste-se melhor, na moda. Est gastando por conta da herana?
        Ele riu bem-humorado, mostrando duas fileiras de dentes alvos e bem distribudos.
        - No. Ainda no. Arranjei um emprego melhor.
        Vendo-os entrar juntos na sala de espera do consultrio, a secretria convidou Alberto a sentar-se enquanto Lanira dirigiu-se  sala de Daniel, que, surpreendido, 
abraou-a com carinho.
        - Que bom v-la! Cabulou a aula?
        - Precisava falar com voc. Mame vai procur-lo logo mais  tarde para fazer uma tentativa de convenc-lo a desistir.
        - Terei prazer em receb-la. Ela nunca veio aqui.
        - Sua visita no ser de cortesia.
        - Eu sei. Mas mesmo assim ser bem-vinda. Tenho esperana de que um dia ele vai me compreender.
        - Esse dia est muito distante.
        - Como vo as coisas l em casa?
        - Como sempre. Tudo dentro das regras e dos horrios.
        - Parece um pouco aborrecida.
        - Entediada, talvez.
        - Tem visto Gabriel?
        - Ele desapareceu desde que o caso veio a pblico. Nunca mais me ligou. Deve estar sentido.
        - Sinto muito. Voc apreciava sua amizade. Mas eu avisei. A atitude dele era de se esperar.
        - Voc no o conhece. Ele  diferente. Eu esperava que ele conseguisse separar as coisas.
        - Nunca mais o viu?
        - Nunca. O Dr. Jos Lus e D. Maria Jlia tm freqentado todos os lugares de sempre, ido a festas, como se nada houvesse. Mas Laura desapareceu e Gabriel 
tambm. Dizem que est viajando. Penso que largou a faculdade. No  poca de frias ainda.
        Daniel passou a mo nos cabelos pensativo. Depois disse:
        -  uma pena que pessoas inocentes sejam envolvidas. Voc compreende que ns precisvamos fazer o que estamos fazendo.
        - Claro. Voc tem uma causa, e como advogado precisa atender os interesses de seu cliente. Depois, o que eles fizeram com Marcelo no se justifica de maneira 
alguma.
        - Ainda bem que voc sabe separar as coisas.
        - Encontrei-me com Alberto na entrada do prdio e subimos juntos no elevador. Est mudado! Elegante, bem vestido. Nem parece o mesmo. O que faz a roupa! 
Parece at que aumentou de estatura.
        - Ele est trabalhando em uma companhia inglesa. Conseguiu um cargo importante junto  diretoria. Foi educado em um bom colgio na Inglaterra e isso o ajudou.
        - Como vai o caso? A audincia  hoje!
        - . Estamos em um momento decisivo. Vamos ver o parecer do juiz. Por isso marcamos essa reunio com Alberto. Estamos esperando Jonas tambm.
        - Gostaria muito de acompanhar o caso.
        - Pode ficar e assistir  nossa reunio.
        - No vou atrapalhar?
        - No. Vai ser at bom. Voc no est to dentro do assunto como ns e poder nos dar opinio.
        - Nesse caso, eu fico. Rubinho no vai se incomodar?
        - Tenho certeza de que no. Afinal voc nos ajudou desde o comeo desse caso.
        Rubinho entreabriu a porta e, vendo Lanira, abraou-a com prazer. Ela lhe perguntou se poderia ficar para assistir  reunio e ele no s concordou como 
achou timo.
        Assim, eles se dirigiram  sala de Rubens para repassar os fatos mais uma vez, esperar Jonas e verificar o que mais ele havia conseguido descobrir.
        
        
        
Captulo 10
        
        Jonas chegou pouco depois e encontrou-os reunidos  espera.
        - E ento, como vo as coisas? - indagou Rubinho logo que o viu acomodado.
        - Fervendo. Marilena ouviu uma conversa de Eleutria com Joo, o marido. Ela reclamou dizendo que havia conversado com Bris. O Dr. Jos Lus no iria mandar 
o dinheiro enquanto no resolvesse o caso na justia. Ela disse:
        - "O que ele est pensando que ? Isso  desculpa. Ningum sabe nada sobre o que aconteceu. O idiota do Alberico j morreu. Ningum pode provar nada."
        - "Tem certeza? E se esse moo for mesmo o neto do velho?"
        - "No acredito. Na ocasio o Dr. Jos Lus afirmou que se livraria do menino para sempre. Que ningum nunca saberia de nada. Desconfio at que ele o matou. 
Por isso, esse caso no vai dar em nada."
        - "Se ele apagou mesmo o menino, como esse moo poderia conhecer essa histria? Ser que isso foi coisa da me do menino morto? Ela sumiu e vocs nunca mais 
a viram."
        - "No creio. Que interesse ela teria nisso?"
        - "Arranjar um impostor, receber a fortuna. Pode bem ser."
        - "Hum!... Acho que no. Se essa histria vier a pblico, ela ir para a cadeia. No. No acredito que tenha sido ela. Acho que deve ter morrido."
        - "Se no foi ela, ento s pode mesmo ser o verdadeiro herdeiro."
        - "Isso  que no. O Dr. Jos Lus no seria to ingnuo para deixar esse menino vivo depois de tudo! Mas, seja como for, se ele pensa que vou me conformar 
em ser posta de lado por causa do problema dele, est muito enganado. Ao contrrio, agora que ele vai precisar dobrar a bolada. Se eu abrir a boca, ele perde tudo 
que tem. Acha que ele vai facilitar?"
        - "Mas voc pode ir presa como cmplice."
        - "Ele no vai deixar as coisas chegarem a tanto. Vai querer salvar a pele. Agora  hora de pedir o quanto quisermos. Ele vai pagar, voc vai ver."
         - Pelo jeito eles vo querer tirar partido da situao - comentou Daniel.
        - Eis a prova de que eu sempre disse a verdade! - comentou Alberto emocionado.
        - Isso nos d coragem para continuar at que todos esses fatos sejam esclarecidos - respondeu Rubinho.
        - Estamos lidando com gente da pior espcie. Precisamos ter cuidado - disse Daniel.
        - Por que diz isso? - tornou Rubinho.
        - Eles faro tudo para salvar a pele. Alberto precisa se precaver - alertou Daniel. - Eles podem tentar alguma coisa contra ele.
        - No tenho medo. Que venham. Assim poderemos esclarecer esse assunto de vez.
        - Nada disso. Queremos fazer tudo dentro da lei, sem violncia - contraps Rubinho.
        - Eu tambm acho - tornou Daniel. - Tenho certeza de que eles nunca o atacariam pela frente. Mas nunca se sabe o que fariam pelas costas. S falei para que 
Alberto fique atento. Tome cuidado. Seria bom que no facilitasse andando por ruas desertas  noite, etc.
        - Daniel tem razo - considerou Jonas. - Pelo que tenho observado, eles so perigosos. Depois, tenho experincia. Para encobrir um crime, o assassino no 
se importa em cometer outros. Eu estive pensando: talvez possamos armar uma cilada para Eleutria e o marido.
        Todos o olharam com interesse. Rubinho indagou:
        - Como?
        - Com um gravador de som escondido. Seria uma boa gravar as conversas dos dois.
        - Acha que Marilena saberia fazer isso? - perguntou Daniel.
        - Posso ensin-la. Tenho um amigo que sabe direitinho como fazer. Uma vez ele gravou uma conversa de um chantagista fazendo a extorso. Foi sopa depois fazer 
ele confessar.
        - Isso seria excelente. Pode cuidar disso. Acha que Marilena vai concordar? - indagou Rubinho.
        - Vai. Ela est revoltada com o que tem ouvido. Agora est muito interessada em ajudar Alberto e a justia.
        - Nesse caso, vamos tentar. Vai ficar muito caro para montar tudo? - perguntou Daniel.
        - No. Acho que no. Meu amigo tem a aparelhagem. Pode deixar que sei como fazer isso.
        - Pode ter certeza de que, quando eu receber o que me pertence, no vou me esquecer de todos que esto me ajudando agora - garantiu Alberto emocionado.
        - E bom continuarmos a vigiar Bris e Pola. Eles podem dar uma boa pista - tornou Rubinho.
        - Claro. Preparo todo o material e levo para Marilena amanh mesmo. Enquanto ela cuida das gravaes, eu volto e vou vigiar Bris.
        - Seria bom que arranjasse algum para ficar vigiando enquanto voc estiver fora. Algo me diz que no devemos deixar Bris sem vigilncia - disse Rubinho.
        - Eu tambm acho. Falarei com um amigo e faremos tudo. Qualquer novidade, eu entro em contato.
        Ele se despediu e saiu. Alberto sentia-se nervoso, inquieto:
        - Gostaria que esse dia acabasse logo e pudssemos saber o resultado da audincia. O juiz despacha na hora?
        - Nem sempre. Ele pode querer estudar melhor os fatos e demorar para dar o despacho - esclareceu Daniel, que tambm se sentia ansioso.
        - Nesse caso, como vamos saber?
        - Calma, Alberto - esclareceu Rubinho. - A partir de amanh iremos todos os dias ao frum tentar descobrir.
        Ele passou a mo pelos cabelos num gesto nervoso.
        - Vai ser difcil esperar.
        Lanira aproximou-se dele, dizendo:
        - Como no tem outro remdio, que tal tentar no se atormentar e procurar confiar na justia?
        - Diante do que tem acontecido, eu diria que seria bom confiar em Deus.
        Lanira olhou Daniel admirada. Ela nunca o ouvira mencionar Deus. Ele era retrado com religio. No se conteve:
        - Por que diz isso?
        - Por nada.
        - Ns temos conversado com Jlio sobre espiritismo. Ultimamente temos pensado no assunto - esclareceu Rubinho.
        - No diga! Deixe mame saber disso!
        - Voc no vai dizer nada. Chega j os problemas que tenho arranjado com ela.
        - Claro que no. Para dizer a verdade, sempre tive curiosidade. Tia Josefa sempre me falava que via os espritos. Voc sabia que ela faz sesses em casa 
com alguns amigos? Eu queria ir assistir, mas ela nunca deixou por causa da mame.
        - Tia Josefa? Tem certeza?
        - Tenho. Ela sempre conversa comigo a respeito. Ela conversa com vov Augusto e com tia Norma. Eles contam a ela coisas que vo acontecer.
        - E acontecem? - indagou Rubinho interessado.
        - Ela diz que sim. Jlio nunca me disse nada sobre isso. Ele faz sesses tambm?
        . - Ele faz regresso. Atravs da hipnose a pessoa volta no tempo e se recorda de fatos de outras vidas - esclareceu Daniel.
        - Mesmo? Puxa! Que interessante. Por que  que vocs nunca me contaram nada? - considerou Alberto.
        - No pensei que se interessasse - justificou-se Daniel.
        - Eu me interesso muito por esse assunto. Na Inglaterra h grandes pesquisadores. Desde o sculo passado eles vm fazendo experimentaes com mdiuns, com 
resultados maravilhosos. Quando eu morava l, freqentava sesses em casa de amigos muito srios e cultos.
        Os trs olharam-no surpreendidos. Alberto continuou:
        - Para dizer a verdade, se resolvi voltar ao Brasil, procurar reaver o que me pertence, foi inspirado por algum que j no  mais deste mundo.
        Vendo que os trs o observavam com interesse, ele continuou:
        - Quando eu era ainda adolescente, costumava sonhar com um senhor muito bondoso que vinha me buscar no quarto, passava o brao por minha cintura e me levava 
para lugares maravilhosos. Eu sentia uma sensao incrvel de leveza, bem-estar, enquanto deslizvamos por lugares, como se estivssemos voando, sobre cidades cujas 
luzes acesas eu podia ver l do alto. Eu acordava com pena, sentindo que meu corpo era pesado e muitas vezes lhe dizia que gostaria de ficar l com ele para sempre 
e no acordar mais. Ele, porm, no concordava e respondia: "No  sua hora. Voc tem ainda muito o que fazer no mundo".
        - Sei o que quer dizer. E um sonho diferente dos outros - tornou Daniel.
        - Isso mesmo.  muito diferente. s vezes eu falava sobre isso com algum colega ou com algum professor, mas eles repetiam que era s um sonho e que eu no 
deveria me impressionar tanto. Quando deixei o colgio e ingressei na universidade, conheci alguns colegas que conheciam esses fenmenos e me convidaram a estud-los 
com eles. Compareci s sesses que se realizavam uma vez por semana e os fatos que aconteceram comigo fizeram com que eu acreditasse na continuidade da vida aps 
a morte e na comunicao dos espritos.
        - Voc acha que quem j morreu pode vir e se comunicar conosco? - perguntou Daniel.
        - Tenho certeza. Certa vez eu compareci a uma sesso e, quando comeou, uma mdium me disse que estava vendo um homem de meia-idade perto de mim que desejava 
falar comigo. Pela descrio dela, reconheci o mesmo homem com o qual eu sonhava e, emocionado, disse que estava pronto a ouvi-lo. Ele se aproximou da mdium e falou 
comigo por intermdio dela.
        - O que foi que ele disse? - indagou Lanira.
        - Disse que se chamava Antnio, que me amava muito e que estava sempre comigo. Que ramos ligados por laos muito fortes do passado e que iria me ajudar. 
Que eu tivesse confiana e continuasse indo s sesses, que ele voltaria a falar comigo. Naquela hora, senti uma emoo incontrolvel. As lgrimas caam de meus 
olhos sem que eu pudesse conter. Nossos encontros se repetiram e ele me falou do passado, dizendo que estava na hora de eu voltar ao Brasil, onde eu tinha coisas 
importantes a realizar. Eu no queria voltar antes de me graduar, mas quando parei de receber dinheiro fui forado a interromper os estudos. Ele insistiu que eu 
nada mais tinha a fazer na Inglaterra e que deveria voltar ao Brasil. Eu no queria tambm interromper as sesses, nas quais recebia tanta ajuda espiritual, tanto 
conforto. Uma vez no Brasil, como poderia conversar novamente com ele? Mas ele disse que nunca me abandonaria e eu acabei aceitando e voltando. Mesmo sem ir s sesses, 
tenho certeza de que ele tem cumprido a promessa. s vezes sinto sua presena a meu lado, inspirando-me. Para ser franco, sinto que sem ele eu no teria descoberto 
a trama de meu passado. Agora eu sei que ele  o esprito de meu av que sempre me amou e com o qual eu tenho grande afinidade espiritual.
        Daniel ouvia calado, pensativo. Comeava a pensar que seus sonhos deveriam ter algo a ver com essa situao, uma vez que eles haviam comeado quando Alberto 
apareceu em sua vida. No disse nada, mas pelo olhar de Rubinho percebeu que ele estava pensando a mesma coisa.
        - Tenho uma idia! Vamos falar com tia Josefa, contar-lhe tudo. Podemos ir s sesses em casa dela, tentar conversar com esse esprito. Do jeito que as coisas 
esto, vamos precisar muito da ajuda dele - sugeriu Lanira.
        - Ele poder nos orientar - disse Rubinho.
        - No sei se faremos bem envolvendo-nos com essas coisas - respondeu Daniel.
        - Eu acho bom. Desde que voltei ao Brasil no fui procurar ajuda
        espiritual com os espritos porque no queria que ningum soubesse de meu caso antes da hora. Depois, aqui as pessoas praticam um espiritismo diferente do 
que eu estava acostumado. Em Londres, as sesses eram sempre de estudos, pesquisa, visando aprender alguma coisa. Aqui, cuidam mais de atender espritos sofredores 
e ningum faz pesquisa. No era esse meu objetivo.
        - Jlio  um estudioso e faz trabalho de pesquisa - informou Rubinho.
        - Isso  interessante. Ajudar espritos sofredores que incomodam pessoas, doutrin-los,  uma ajuda passageira. O bom  ensinar as pessoas a lidar com as 
prprias emoes, com os desafios da vida, para que se equilibrem. Desta forma se libertam para sempre das influncias de espritos sofredores. Na Inglaterra, h 
mdiuns de cura, mas eles trabalham apenas com imposio das mos. No recebem nem doutrinam espritos perturbados. Dizem que  preciso melhorar a sintonia e ligar-se 
com os espritos superiores - esclareceu Alberto.
        - Estou vendo que voc conhece o assunto - tornou Lanira com interesse. - Tia Josefa  pessoa muito equilibrada e isso sempre me impressionou. Mame vive 
dizendo que essa histria de espritos  perigosa e leva  loucura. Nunca acreditei nisso. Dizem que a tia  mdium desde criana, e, pelo que tenho observado,  
a pessoa mais tranqila e serena que j vi. Muito mais do que mame, papai e at que ns todos.
        -  sinal de que ela se ligou com espritos superiores e sabe o que est fazendo. A mediunidade  uma porta preciosa para a conquista da sabedoria e da paz. 
Mas  preciso aprender a usar - explicou Alberto. - Se vocs conseguissem combinar com ela, eu gostaria muito de ir assistir a uma sesso.
        - Eu prefiro tratar do assunto com Jlio - disse Daniel.
        - Vamos fazer o seguinte, hoje mesmo falarei com tia Josefa. Vocs me autorizam a contar o que se passa? - perguntou Lanira.
        - Seria melhor voc dizer a ela que estamos estudando a comunicao com os espritos e gostaramos de ir a uma sesso em sua casa - sugeriu Alberto.
        - No seria melhor contar-lhe tudo? - interveio Rubinho.
        - No. O melhor  no dizer nada e esperar pelos acontecimentos. Os espritos falam o que precisamos ouvir. Eles sabem ler nosso pensamento, e so mais espontneos 
quando o mdium ignora o assunto-esclareceu Alberto.
        - E verdade. Se ela ficar conhecendo toda a histria com antecipao, tudo quanto os espritos disserem a respeito vai nos parecer opinio dela - tornou 
Rubinho.
        - Por isso  melhor no dizer nada e deixar acontecer. Sei por experincia prpria que eles, quando querem, fazem coisas incrveis que acabam com todas as 
nossas dvidas - disse Alberto.
        - Ento est combinado. Falarei com ela e depois darei a resposta - tornou Lanira.
        - O que voc vai lhe dizer? - perguntou Rubinho.
        - Que queremos estudar o assunto. Apenas isso. Preciso contornar a situao de famlia. Ela sabe que mame no gosta e pode negar permisso.
        - Tenho certeza de que voc saber convenc-la - disse Alberto olhando-a nos olhos. - Voc sempre consegue o que quer!
        Daniel olhou-o surpreendido. Como ele podia saber desse trao de Lanira? Concluiu que, como toda pessoa que fala pouco, Alberto era muito observador.
        - Tem razo. Lanira consegue mesmo.
        - Ento - tornou Rubinho - contamos com voc.
        - Pode deixar. Sei como fazer isso.
        Eles riram alegres. Lanira notou que Alberto mudava completamente a fisionomia quando sorria e seus olhos perdiam aquele brilho duro, sofrido que por vezes 
fazia-a desviar os olhos quando ele a fitava.
        - Tenho que ir trabalhar agora. - Alberto tirou um carto do bolso e deu-o a Lanira, dizendo: - Aqui tem meu telefone. Assim que combinar tudo, pode ligar. 
Estarei esperando com ansiedade.  muito importante para mim ir a essa sesso.
        Lanira pegou o carto e guardou-o na bolsa prometendo avisar assim que tivesse a data. Depois que Alberto se despediu e saiu, Rubinho no se conteve:
        - Daniel, aqui tem o dedo de Deus. No  possvel! Quem poderia imaginar que Alberto estivesse to ligado aos espritos? Voc pensou o que eu pensei?
        - Claro. Tudo comeou um dia antes de meu contato com Alberto. Comeo a achar coincidncia demais.  perturbador.
        - O que est acontecendo que eu no sei? - perguntou Lanira. 
        Rubinho olhou para Daniel:
        - Coisas de seu irmo.
        - O que ?
        - Voc agora no vai me dar paz enquanto eu no contar. Essa histria comea a me incomodar.
        - No  melhor contar logo? - sugeriu Lanira.
        Em poucas palavras Daniel contou o que estava acontecendo com ele. Quando ele finalizou, Lanira no se conteve:
        - Estou toda arrepiada! Puxa! E voc ainda duvida? Eu j teria ido ao consultrio de Jlio fazer uma regresso para descobrir a verdade. Essa de sonhar com 
Alberto antes mesmo de conhec-lo  demais! Como pode acontecer isso?
        - No sei... Isso pode ser apenas uma coincidncia. Preocupao com o caso. Por mais que eu queira negar, minha vida mudou radicalmente nos ltimos tempos. 
Deixei a famlia, estou enfrentando um caso profissional difcil, todos esto contra ns, a vitria  incerta. Tudo isso pode ter me impressionado e feito com que 
eu tivesse aqueles pesadelos.
        Lanira sacudiu a cabea negativamente:
        - No acredito.  coincidncia demais. Depois, Alberto est envolvido com o esprito do av. Ele parece estar interessado em fazer justia. Em devolver ao 
neto tudo quanto lhe foi roubado. Isso sim faz sentido para mim. Estou pensando que, se vocs esto sendo ajudados por espritos interessados em mostrar a verdade, 
vocs vo ganhar esta causa, por mais poder que o Dr. Jos Lus tenha.
        - Agora quem est arrepiado sou eu - disse Rubinho. - E verdade. Contar com uma ajuda dessas d coragem.
        - Vamos ver o que o juiz vai determinar. Nosso caso pode acabar aqui.
        - No seja to pessimista, Daniel. Nunca vi ningum ganhar nada acreditando na derrota.
        - Lanira tem razo, Daniel. Precisamos conservar o otimismo. Logo agora que Jonas vai tentar obter uma grande prova! Comeo a pensar que voc tem tanto medo 
de confrontar o passado em uma regresso que prefere perder a causa, acabar logo com essa histria para poder ficar em paz.
        - Sempre ouvi dizer que ningum pode segurar uma verdade quando  hora dela. Voc vai sofrer e tudo vai continuar. Quem pode lutar contra a fora das coisas?
        - Vocs dois esto exagerando. J  tarde e estou com fome. Vamos almoar? - props Daniel.
        - Est bem. Vamos. Mas depois irei embora. Mame vai vir ao escritrio e no quero que saiba que tenho vindo aqui.
        -  melhor mesmo - concordou Daniel. - E que ela no saiba tambm dessa histria de sesso esprita. Seno vai ter uma crise.
        - Pode deixar que eu sei como fazer as coisas.
        Eles riram e conversando animadamente saram para o restaurante. Almoaram e estavam na sobremesa quando Lanira sentiu um baque no corao. Gabriel veio 
do fundo do salo, passou por eles e saiu. Ela o viu de costas, mas reconheceu-o imediatamente.
        Ele passara por eles e no os cumprimentara. Ele os teria visto e evitado cumprimentar? O restaurante estava lotado. Era possvel no t-los visto. Mas ela 
no tinha certeza. Quando ele teria voltado?
        - O que aconteceu? Nem fomos  sesso e voc est com cara de quem viu fantasma - disse Daniel.
        - Voc no viu? Gabriel acabou de passar por aqui.
        - No vi. Tambm, h tanta gente...
        - Ser que ele no nos viu ou no quis cumprimentar? - indagou Lanira.
        -  difcil dizer. Assim como eu no o vi, ele pode no nos ter visto - respondeu Daniel.
        - Voc est apaixonada por ele? - indagou Rubinho.
        - Por que diz isso?
        - Por sua expresso. Ficou plida, triste, mudou de fisionomia - explicou Rubinho.
        - No. Apaixonada, no. Gosto dele, isso sim. Como um bom amigo. At como um companheiro. Ele  muito especial, inteligente, bom. Apesar de tudo, eu tinha 
esperana de que ele soubesse separar as coisas e continussemos amigos. Mas parece que ele no quer mais a minha amizade.
        - No seja precipitada. Por que no conversa com ele francamente? Se preza tanto sua amizade, deve brigar por ela. Tenho aprendido que com as pessoas que 
queremos bem no devemos deixar assuntos mal explicados, coisas no resolvidas. Se conversar com ele, mostrar que valoriza sua amizade, ele vai dizer o que pensa 
e voc vai poder avaliar os fatos com clareza. Saber a verdade.
        - , vou pensar. Vamos ver.
        - Ele pode estar envergonhado com o escndalo e ter se afastado por causa disso imaginando que voc o esteja desprezando - sugeriu Rubinho.
        - Voc acha que ele pode estar sentindo isso? - disse ela assustada.
        - Por que no? Qualquer um sentiria vergonha diante de um problema desses. Mesmo que ele no acredite que seja verdade.
        - Rubinho est certo. Se eu fosse filho deles, desapareceria do mapa at que tudo ficasse esclarecido. J pensou os comentrios que devem estar circulando 
 boca pequena? Infelizmente no podemos evitar isso.
        - Estou comeando a pensar que vocs tm razo. Ele pode mesmo estar se escondendo. Deixou a faculdade. Certamente por causa dos falatrios.
        - Nesse caso o melhor seria ele ter ficado e enfrentado os fatos com coragem. Se fosse comigo, eu os teria enfrentado.  melhor do que fugir. Depois, ele 
 ele, os pais so os pais. Ele no  responsvel pelos atos deles. Acho engraado como as pessoas pensam. Elas se envergonham pelos que bebem, pelos viciados, pelos 
desbocados, pelos desonestos. Carregam nas costas o peso do comportamento de toda a famlia. No  loucura? Quem pode ser responsvel pelos atos dos outros? S porque 
voc tem parentes, precisa responder por tudo quanto eles fazem? - considerou Rubinho.
        - Isso  verdade. Meus pais se envergonharam de mim s porque resolvi cuidar de minha vida de outra forma e assumir o caso contra os Camargo. Para mim, fiz 
o melhor e o que me parece certo.
        - A  que est, Daniel. Quem se embriaga, joga, est fazendo o que acredita que seja bom para si. Pode estar equivocado em sua forma de perceber, mas tem 
todo o direito de experimentar aquele caminho. Quando sa de casa, foi pelo mesmo motivo. Meus pais tambm disseram-se envergonhados por nossa atitude profissional. 
Mas eu continuo achando que foi a melhor coisa que fiz na vida. Gostaria que eles compreendessem, mas apesar disso sinto-me melhor fazendo o que eu acho certo do 
que fechando os olhos s porque os Camargo so pessoas importantes. Depois, estou cuidando de minha vida do meu jeito. Nunca pensei em envergonh-los. Eles se envergonharam 
porque esto iludidos com as aparncias, cultivando amizades falsas, gastando tempo em futilidades, a ponto de no perceber certos valores importantes da vida. Eu 
desejo mais do que isso. Tenho visto pessoas da sociedade, ricas, bem-postas, que acabam vazias por dentro, sem objetivos, mergulhadas no tdio e na desiluso.
        - Tem razo. Eu no quero isso para mim - concordou Daniel. - Pode ser que eu no consiga ser mais feliz do que eles. Entretanto, estou tentando um outro 
caminho, j que eu tenho certeza de que no desejo acabar como eles.
        - Eu concordo. Tambm no quero isso. S que ainda no sei como fazer - disse Lanira pensativa.
        - Deixe o tempo correr. Ele  sbio e traz tudo na hora mais adequada. Voc  muito jovem. Pode esperar - tornou Rubinho.
        Continuaram conversando mais alguns minutos e depois de deixarem o restaurante separaram-se. Lanira foi para casa pensativa. Ela deveria tentar se aproximar 
de Gabriel? E se ele se recusasse a v-la? Ele teria viajado mesmo ou estaria em casa sem querer atender o telefone? Mil perguntas cruzavam seu crebro. Sentia vontade 
de ligar para ele.
        Foi para seu quarto e l resolveu. Apanhou o telefone e ligou. Uma voz feminina atendeu.
        - Gabriel est?
        - Quem deseja falar?
        - Lanira.
        - Vou ver se ele est.
        Lanira esperou sustendo a respirao.
        - Ele saiu cedo e ainda no voltou.
        - Obrigada.
        Lanira desligou decepcionada. Ele no queria falar com ela. Precisava render-se  verdade. Ele a estava evitando. Sendo assim, no mais o procuraria. Resolveu 
esquecer aquele assunto.
        Quando Maria Alice chegou em casa no fim da tarde, Lanira, que lia um livro sentada na sala de estar, olhou-a curiosa. Como teria sido seu encontro com Daniel?
        A mesa do jantar ela no tocou no assunto, como de hbito. Lanira sabia que ela nunca conversava os assuntos de famlia diante dos criados. Por isso, foi 
para o quarto depois do jantar e desceu em seguida com o livro e sentou-se calmamente no lugar de sempre, de onde podia ouvir o que eles conversavam na outra sala.
        - Conforme falei, fui ver Daniel - comeou Maria Alice.
        - Por sua cara j sei que no conseguiu nada - respondeu Antnio
        - . Ele est determinado. Fala com tanta certeza sobre a culpa dos Camargo! Voc acha que ele pode estar falando a verdade?
        - Qual nada! Ele est mais  sendo iludido por algum aventureiro.
        - Ele tem vrias provas! No sei, no. Fiquei na dvida. O neto do Dr. Camargo pode estar vivo mesmo.
        - E muita imaginao. Fomos ao enterro, lembra-se?
        - Com o caixo lacrado. Quem pode afirmar que o corpo do menino que estava naquele caixo era o de Marcelo?
        - Ora, ele foi reconhecido pelas pessoas da famlia!
        - Daniel disse que foi apenas pela ama e pelo chofer. O Dr. Camargo estava chocado e os pais do menino tambm. No quiseram olhar.
        - Claro que eles devem ter reconhecido Marcelo. E fcil dizer isso agora que todos eles esto mortos.
        - E se eles no olharam direito? E se essa histria for mesmo verdadeira? Daniel pode estar certo!
        - O que  isso, Maria Alice? Voc foi tentar convenc-lo e ele a convenceu? Pelo jeito, Daniel est se revelando um bom advogado. Como voc  ingnua! Alis, 
acho que se deixou enganar s para justificar o comportamento dele. Pensa que no observei? Desde que ele foi embora que voc no tem a mesma alegria de antes. Vive 
pensando nele. s vezes surpreendo-a olhando-me de maneira estranha. Tenho a impresso de que est me culpando por ele ter sado de casa.
        - No  nada disso. Eu lamento que ele tenha tomado essa atitude, sinto sua falta. Ele sempre foi meu orgulho. E fique sabendo que no sou to ingnua como 
voc acredita. Por vezes posso fingir que no sei, que no vejo, porque me convm, para no ter que tomar nenhuma atitude e para levar nossa vida para a frente. 
Mas eu vejo tudo que acontece  minha volta.
        Antnio remexeu-se na poltrona. O que ela queria dizer com isso? Estaria se referindo a ele?
        - Por que est irritada? O que quer dizer com isso?
        - Melhor ficarmos por aqui. No me agrada discutir com voc. Somos pessoas educadas.
        Ele mudou de tom:
        - No tive a inteno de ofend-la.  que Daniel quase conseguiu convenc-la daquele absurdo.
        - No falemos mais nisso.
        - Ele lhe pediu dinheiro?
        - Absolutamente. O escritrio  simples mas agradvel, e ele estava bem vestido, como sempre. Deve estar ganhando o suficiente para viver.
        - Voc est dizendo isso s para me contrariar. Eu sei que ele deve estar lutando com dificuldades.
        - No foi o que me pareceu. Vamos mudar de assunto. Estou cansada e vou subir.
        Maria Alice deixou a sala, passou por Lanira sem v-la e subiu para o quarto. A moa esperou alguns minutos e depois tambm foi para seu quarto. A atitude 
da me surpreendeu-a. Sempre pensou que ela e seu pai vivessem muito bem. Entretanto, ela sentiu perfeitamente o dio velado e a insinuao a alguma coisa desagradvel 
entre os dois. O que seria? Alguma coisa referente  poltica? Lanira sabia que por trs de tudo quanto ele fazia havia um jogo de interesses. Mas o tom que ela 
usara fora muito pessoal. Haveria alguma coisa que ela no sabia?
        Sua me era muito fechada e nunca falava de seus sentimentos. Pela primeira vez Lanira comeou a se perguntar como seria a mulher que se escondia atrs daquela 
postura sempre discreta, serena e de classe. O que haveria sob o verniz das aparncias?
        Por outro lado, sabia que Maria Alice era perspicaz, muito mais inteligente do que seu pai, e se ela comeava a acreditar em Daniel, era muito provvel que 
outras pessoas, at o juiz, fizessem o mesmo.
        Apesar de se preocupar com Gabriel, ela se sentia feliz por pensar que o irmo estava certo, fazendo as coisas do seu jeito, sem ouvir ningum. Se sua me 
no era feliz com seu pai e escondia sua infelicidade, sujeitando-se a fingir s para manter as aparncias, estava sendo covarde, pagando um preo muito alto pela 
posio social que ocupava.
        Pela primeira vez pensou na me com tristeza. Ela no era nada daquilo que lutava para aparentar. Estava oprimida, revoltada, infeliz. At quando conseguiria 
ocultar seus verdadeiros sentimentos? Lanira resolveu ficar alerta e observar.
        
Captulo 11
        
        Gabriel entrou em casa aborrecido. O encontro com Lanira no restaurante transtornara-o. Ele estava apaixonado por ela. Seu rosto bonito, seu olhar inteligente, 
suas atitudes, diferentes das moas que conhecia, haviam-no impressionado a princpio e, depois, com a convivncia, sentira-se atrado, acabando por descobrir que 
pela primeira vez estava enamorado.
        Habituado a ser muito paparicado pelas mulheres que circulavam  sua volta disputando sua preferncia, Gabriel vivia sempre procurando maneiras de escapar 
delas, a fim de garantir sua privacidade. Com Lanira no acontecera isso. Ela agia com naturalidade, sem os joguinhos e circunlquios, colocando francamente suas 
idias.
        No fora a atitude dela esclarecendo que no desejava namorar e ele j teria se declarado. Ao lado dela, quase no resistia ao desejo de tom-la nos braos, 
de beijar sua boca carnuda, de perguntar se ela sentia alguma coisa por ele.
        Percebia que ela gostava de sua companhia, que a seu lado sentia-se  vontade, olhando-o com carinho e prazer. Gabriel tinha esperanas de vir a conquist-la 
vencendo a barreira que ela havia colocado.
        Foi na faculdade que ouviu algum comentar sobre o escndalo envolvendo seu pai. Imediatamente comprou o jornal e o que leu deixou-o estarrecido. Nunca se 
dera bem com o pai. Apesar de ele tentar se aproximar, acabavam sempre no se entendendo.
        Gabriel admirava apaixonadamente a me. Quando menino, ouvira uma conversa entre ela e o pai e descobrira que eles no viviam bem. Jos Lus tinha negcios 
com os quais sua me no concordava. Ouvira-o claramente amea-la.
        - Se voc abrir sua boca, nunca mais ver seu filho.
        - Voc no far isso! No seria capaz!
        - Experimente me desafiar! Garanto que vai se arrepender.
        - O que voc pode fazer?
        - Voc sabe que tenho meios de separar voc dele! No me obrigue a fazer isso. Se for razovel, continuaremos nossa vida e ningum saber de nada.
        Escondido atrs da porta, Gabriel ouviu que o pai saiu enquanto sua me chorava copiosamente. Ficou com medo de ser castigado pelo pai e no teve coragem 
de sair de seu esconderijo. Mas a partir daquele dia comeou a observar o pai e notou que ele no amava sua me como parecia. Diante das pessoas ele mudava completamente, 
tratando-a com carinho e deferncia. Assim que ficavam a ss, mal se falavam. Maria Jlia assumia aquela fisionomia triste e Gabriel percebia que ela sofria. Nunca 
teve coragem para conversar com ela sobre o assunto, mas rodeava-a de carinho, na tentativa de compensar a frieza do marido.
        No dia em que os jornais publicaram as declaraes de Daniel, Ru-binho e Alberto, seu pai fechara-se no escritrio com sua me e Bris, durante muito tempo. 
Maria Jlia havia sado de l plida, enquanto Jos Lus, com ar preocupado, sara com Bris.
        Gabriel aproximara-se de Maria Jlia, com o jornal nas mos.
        - Me, isto  verdade? Ela o olhou assustada.
        - Voc acha que seramos capazes disso? Gabriel hesitou.
        - No sei. Voc, no. Mas... papai...
        Ela se aproximou dele colocando a mo em seu brao.
        - Seu pai no faria isso. Esquea essa histria.
        - Nesse caso, por que esto to preocupados? Vocs ficaram no escritrio mais de duas horas.
        - Sabe como , um escndalo desses  sempre preocupante. A maldade das pessoas, os invejosos vo atirar lama em nossa famlia. Temos que nos defender.
        - Ser fcil provar que isso  uma calnia. Vocs devem possuir todos os documentos, testemunho de pessoas, tudo.
        - J faz muito tempo. As pessoas que poderiam testemunhar dispersaram-se. Seu pai vai falar com o Dr. Loureiro. Ele vai imediatamente dar um basta neste 
assunto.
        - Por que ser que Daniel e Rubinho prestaram-se a esse papel? Nossas famlias so amigas. Houve algum problema entre vocs?
        - Absolutamente nenhum. Seu pai vai imediatamente conversar com Antnio e Ernesto para exigir que os filhos retirem essa queixa.
        - Quer dizer que  uma calnia?
        - Claro! Como pode acreditar em uma coisa dessas?
        Gabriel acalmou-se um pouco, entretanto na faculdade os comentrios maldosos incomodavam-no. E Lanira, o que estaria pensando? Estaria do lado do irmo? 
Teria acreditado naquela histria? Sentiu vontade de falar com ela, mas no teve coragem. Resolveu esperar para ver como as coisas se sucederiam.
        Dali a alguns dias, o jornal relatou minuciosamente a histria de Alberto com todos os detalhes, e, lendo-a, Gabriel comeou a juntar algumas lembranas 
de sua infncia. Muitas vezes saa com a me a pretexto de fazer compras, e ela ia a uma agncia de correio em que despachava um envelope para a Inglaterra. Ele 
lera o endereo e ela lhe pedira que no contasse a ningum.
        - Esse ser nosso segredo - dissera. - Ningum pode saber que escrevi esta carta.
        - Por qu?
        - Trata-se de uma amiga muito querida que mora na Inglaterra. Brigou com nossa famlia, mas eu continuo a me relacionar com ela. Precisa de ajuda e eu lhe 
mando dinheiro. Se seu pai descobrir, vai brigar comigo. Ele a odeia. Por isso, peo-lhe que guarde segredo!
        Gabriel estremeceu ao se recordar. E se ao invs dessa amiga ela mandasse dinheiro para sustentar o neto do Dr. Camargo? No podia acreditar que sua me 
tivesse participado de um negcio desses, mas por que ela mandaria dinheiro para a Inglaterra, escondido do marido? Seria muita coincidncia.
        Sabia que Maria Jlia no gostava de Bris. Entretanto suportava sua presena. Ele percebia o quanto o russo era intrometido e ousado. Usufrua de regalias 
que nenhum mordomo que ele conhecia tinha. Notara que at seu pai contemporizava com Bris, submetendo-se a seus caprichos.
        Pensando nisso, Gabriel sentia aumentar suas suspeitas. Bris estava na casa desde aqueles tempos. Teria alguma coisa a ver com essa histria? Estaria seu 
pai sendo chantageado pelo criado?
        A cada dia suas suspeitas aumentavam. A firmeza dos dois advogados que enfrentavam tudo para apoiar aquele caso fazia-o desconfiar que eles possuam dados 
e provas conclusivas.
        A cada dia notava que seu pai ficava mais nervoso com o assunto e muitas vezes fechava-se com Bris no escritrio por largo tempo.
        Se ele tivesse certeza de que seu pai era inocente, teria enfrentado todos os comentrios sem se preocupar. Mas, pensando na culpa deles, perdia toda a coragem. 
Como proceder se ficasse provada a culpabilidade de seu pai?
        No podendo suportar a situao, Gabriel trancou a matrcula e afastou-se da faculdade.
        Sua me chorou, mas compreendeu que ele preferia esperar tudo passar para voltar a estudar. Gabriel foi para o barco e durante mais de quinze dias circulou 
pelas praias das pequenas cidades vizinhas, ancorando aqui e ali, para abastecer, voltando  sua solido. Fazia dois dias que havia regressado. Recebera os recados 
de Lanira, mas no se sentia com coragem de conversar com ela. O que lhe diria?
        Sua irm, Laura, no escondia sua revolta para com os dois advogados. Chamava-os de invejosos e oportunistas, querendo fazer carreira a custo do sensacionalismo 
barato. Tinha certeza de que logo eles seriam desmascarados e tudo voltaria a ser como antes. Apesar disso, tinha resolvido dar um tempo, no aparecer em pblico, 
para no ter que discutir com as pessoas, nem suportar sua curiosidade.
        Maria Jlia, vendo Gabriel entrar com ar preocupado, aproximou-se:
        - O que foi, Gabriel? Voc parece aborrecido. Aconteceu alguma coisa?
        - Nada de mais. Estava acabando de almoar quando Rubinho, Daniel e Lanira entraram no restaurante.
        - Voc falou com eles?
        - No. Eu estava no fundo e eles no me viram. O restaurante estava cheio e fiz de conta que no os tinha visto. Sa logo.
        - No foi agradvel. Voc gostava de sair com Lanira. Estavam namorando?
        - No, me. Era apenas amizade. Ela acha que  cedo para namorar.
        - Naquele tempo cheguei a pensar que estivesse apaixonado por ela. Seus olhos brilhavam quando falava nela.
        Gabriel suspirou, ficou silencioso por alguns segundos, depois disse:
        - Eu gosto dela.  diferente das moas que tenho conhecido. Inteligente, alegre, tivemos bons momentos juntos.
        - Vocs continuam saindo? Ela tem ligado para voc.
        - No. No h clima. Eu no saberia o que lhe dizer.
        - E uma situao constrangedora. Por isso ficou triste? Gabriel abraou-a com carinho:
        - O que posso fazer? Enquanto essa situao no ficar devidamente esclarecida, no sei o que falar com ela. O que diz o Dr. Loureiro? Que providncias tomou 
para acabar com isso?
        - Seu pai no foi  audincia, mandou o Dr. Loureiro. Ele levou os documentos que comprovam a morte de Marcelo, e tudo o mais. Estamos esperando a deciso 
do juiz. Com certeza vai indeferir a queixa e encerrar o caso.
        - Tem certeza?
        - Claro. No h nada que prove o contrrio.
        - Me, e se no for assim? E se o juiz der andamento ao processo? Maria Jlia estremeceu:
        - Isso no vai acontecer. Eles nunca podero provar que esse moo  Marcelo.
        Gabriel ficou calado por alguns instantes. Por fim, no resistiu e disse  queima-roupa:
        - Me, por que  que voc mandava sempre aquele dinheiro para a Inglaterra?
        Ela se sobressaltou:
        - Psiu! No fale nisso, por favor. Seu pai no pode saber nunca, principalmente agora.
        - Porqu?
        - Ele no concordaria. J lhe disse, era para uma amiga. Ela brigou com nossa famlia. O que est querendo insinuar?
        - Marcelo viveu na Inglaterra. No era para sustent-lo que voc mandava aquele dinheiro?
        Maria Jlia empalideceu e teria cado se Gabriel no a tivesse abraado assustado:
        - Me, o que foi? Voc est plida!
        - Por favor, meu filho! Nunca mais repita isso! J pensou se algum o escuta? Seu pai nunca pode saber disso. Jure que nunca vai contar!
        - Eu juro. No vou contar nada. Acalme-se! Sente-se no sof. Ela se sentou e, segurando as mos dele, disse nervosa:
        - Nunca mais repita isso, peo-lhe. Jure que nunca mais voltar ao assunto!
        - Fique tranqila, no vou falar com ningum.
        - Jure.
        - Me, eu toquei neste assunto porque algumas lembranas esto me preocupando desde que comeou esta histria. Percebo que h alguma coisa que eu no sei 
e que voc no quer me contar. Eu preciso saber. Seja o que for que tenha acontecido, eu estou do seu lado, farei tudo que puder para ajud-la. Mas tenho que saber 
a verdade. Todos esses anos tenho observado seu sofrimento. Sei que tem sido ameaada por papai, e sinto que at Bris pode estar envolvido.
        - Voc me assusta. No queria que meus filhos se envolvessem nessa histria. Peo-lhe, fique fora disso!
        - No posso, me. Por que no me conta tudo? Do que tem medo? Esse moo pode mesmo ser Marcelo?
        Maria Jlia, torcia as mos nervosamente quando disse:
        - Eu pensei que tudo tivesse acabado! Meu Deus! Estou sendo castigada!
        - Ento  verdade? Marcelo est vivo?
        Maria Jlia levantou-se e olhando-o nos olhos tornou:
        - Prometa que nunca mais falar sobre isso aqui em casa! Por favor! Eu prometo que quando puder contarei toda a verdade. No aqui. As paredes tm ouvidos. 
Vamos, prometa.
        - Est bem, prometo. Mas voc tem que me dizer tudo.
        - Direi, desde que atenda meu pedido.
        - Quando?
        - Tem que esperar. Ningum pode saber que voc sabe de alguma coisa. Entendeu?
        - Entendi. Poderemos nos encontrar fora daqui e conversar. No agento mais esperar.
        - s vezes  melhor no saber.
        - Tudo  melhor do que a dvida.
        - Precisa ser em um lugar sossegado, onde ningum possa nos ouvir.
        - Deixe comigo. Sei como arranjar tudo.
        - Sinto-me cansada...
        - Voc est abatida.
        - Vou para o quarto me arrumar um pouco.
        Quando ela saiu, Gabriel sentou-se pensativo. Era evidente que havia um segredo e era muito provvel que Marcelo estivesse vivo mesmo. A atitude de sua me 
no deixava margem a dvida. Por que seu pai no podia saber que ela mandava o dinheiro para a Inglaterra? Ardia de curiosidade para conhecer a verdade.
        No acreditava que sua me fosse culpada. Era uma mulher de princpios. Se ela ajudara o marido encobrindo essa farsa, foi por ter sido ameaada de alguma 
forma. Talvez at para salvar os filhos. No ouvira o pai amea-la de tirar-lhe os filhos? Era difcil acreditar que um pai ameaaria a prpria famlia. Seria verdade 
o que ele ouvira quando criana?
        Resolveu que naquele dia mesmo daria um jeito para sair com a me sem despertar suspeitas. No jantar, comentou diante de todos que a estava achando um pouco 
abatida, ao que ela respondeu:
        - Estou um pouco adoentada. No  nada.
        - Voc precisa de ar puro. Ningum consegue respirar mais nesse
        Rio de Janeiro. Amanh cedo vamos dar uma volta de barco. Quero mostrar-lhe algumas mudanas que fiz. Garanto que o ar do mar lhe far bem.
        - No posso, meu filho. Temos alguns compromissos.
        - Sua sade  mais importante. Suspenda os compromissos e vamos passear um pouco. Garanto que lhe far bem, que voltar mais corada e disposta.
        - Gabriel tem razo. Voc tem estado muito deprimida. Um pouco de ar puro far bem a voc - tornou Jos Lus.
        - Est bem, iremos.
        - Isso mesmo, me. Passaremos o dia inteiro no mar. Voltaremos ao entardecer.
        Na manh do dia seguinte, Gabriel levantou-se cedo. Estava ansioso, mas teve que esperar a me despachar seus compromissos. Eram mais de dez horas quando 
finalmente saram.
        O motorista deixou-os no cais, onde o barco estava ancorado. Na embarcao estava apenas o encarregado de cuidar de tudo, que muitas vezes acompanhava Gabriel 
em suas viagens, dividindo o leme e fazendo a manuteno.
        - Bom dia, Joo - disse Gabriel entrando no barco. - Est tudo em ordem? Podemos zarpar?
        - Bom dia. Podemos sim. Bom dia, D. Maria Jlia.
        - Bom dia, Joo.
        - Estou feliz por ter a senhora a bordo.
        - Minha me precisa respirar um pouco de ar puro. Vamos passear o dia inteiro. Tem comida?
        - Tem, sim. Podemos ir at Angra. Gostaria de fazer um almoo gostoso para D. Jlia.
        - Est bem, Joo. Por enquanto, vamos dar uma volta.
        Era um barco muito bonito, com duas cabines embaixo e uma boa sala de estar em cima, no meio do convs. Maria Jlia guardou a bolsa na cabine, trocou de 
roupa. Fazia tudo maquinalmente. No queria dar a perceber o quanto estava nervosa.
        Gabriel serviu um refrigerante  me, colocou salgadinhos na bandeja, apanhou um copo de cerveja, sentou-se a seu lado na pequena saleta dizendo:
        - Relaxe, me. Veja que dia lindo.
        -  verdade. Estou to agoniada que nem reparei.
        - Eu queria traz-la aqui para que renove suas energias. No gosto de v-la triste, abatida. Seja o que for que houver acontecido, ficarei do seu lado. Farei 
tudo para que fique bem.
        Maria Jlia suspirou:
        - Obrigada, meu filho. Quanto mais voc me d carinho, mais eu me arrependo do que fiz. Pode ter certeza de que estou sendo muito castigada por minha fraqueza.
        Gabriel segurou as mos frias da me, apertando-as com fora:
        - Eu estou aqui, me. Do seu lado. Pronto para defend-la de tudo, contra todos.
        - Obrigada, meu filho.
        - Agora, fale.
        - Tem certeza de que Joo  de confiana?
        - Absoluta. De onde ele est, no pode nos ouvir, e, mesmo que pudesse, garanto que faria tudo para nos ajudar. No  apenas um empregado,  um amigo dedicado 
que tenho.
        - Est bem. O que quer saber?
        - Tudo. Desde o comeo. Voc se casou por amor?
        - No. Mas seu pai era um homem bonito, galante, atencioso e eu o aceitei. Mas no  de nossa vida que eu quero falar.
        - Eu noto que vocs no se do bem.
        - Essa  uma outra histria. Vim aqui para falar sobre Marcelo.
        - O que aconteceu realmente? Esse moo pode estar dizendo a verdade ?
        Maria Jlia olhou para o filho agoniada. Era-lhe muito difcil falar nesse assunto.
        - Eu gostaria muito que voc me poupasse e esquecesse o assunto. Ele meneou a cabea negativamente.
        - No posso, me. Seja o que for que tiver acontecido, eu j disse: vou ficar do seu lado, dar meu apoio, mas eu quero a verdade. Tenho o direito de saber. 
Do que tem medo?
        - No  por mim que temo. Incomoda-me perceber sua animosidade com seu pai.
        - Ele no se importa, me. Alis, nunca se preocupou com o que eu sinto.
        -  porque voc o ignora.
        - No viemos aqui para falar de meu relacionamento com papai. Voc sabe que no concordo com a maneira que ele a trata na intimidade. Afasto-me para no 
brigar com ele em respeito a voc, para no desgost-la. Mas agora no se trata mais de nossa intimidade. Fatos graves esto sendo levados a pblico e no posso 
contemporizar. Tenho que saber a verdade, ainda que ela seja dura, para poder preservar nossa dignidade. No posso fechar os olhos e fingir que nada est acontecendo. 
Maria Jlia ficou silenciosa por alguns instantes, depois disse:
        - Pensei que tudo estivesse acabado. Nunca imaginei que depois de tantos anos a vida viesse nos pedir contas.
        - Ento  verdade. Esse moo pode ser Marcelo mesmo.
        - Pode, meu filho. E seu pai nunca poder descobrir minha participao nessa histria, seno vai acabar comigo.
        Gabriel levantou-se e abraou-a com carinho.
        - Nunca permitirei que ele toque em voc, seja o que for que tenha feito. Estou aqui para defend-la. Voc pode contar comigo incondicionalmente.
        - Obrigada, meu filho - disse ela com voz que a emoo embargava. - Eu sei que posso contar com voc. Vou contar-lhe tudo. Na verdade, no agento mais manter 
esse segredo.
        Emocionada, Maria Jlia iniciou seu relato:
        - Como voc sabe, sempre tratei nossos empregados com respeito e considerao. Logo que nos casamos tivemos uma empregada que nos serviu durante alguns anos. 
Veio para nossa casa com quinze anos. Era dedicada e eu gostava muito dela. Porm apaixonou-se por um dos amigos de seu pai que freqentava nossa casa. Sem pensar 
em nada, entregou-se a ele e ficou grvida. Ele pertence a uma famlia muito importante e, claro, exigiu que ela fizesse um aborto. Mas Maria recusou-se e a famlia 
dele, quando descobriu, passou a amea-la, exigindo que deixasse seu filho em paz. Jos Lus ficou muito irritado. Mantinha boas relaes com essa famlia, no 
se conteve e exigiu que Maria fizesse o aborto. Pressionada, ela me procurou pedindo ajuda e eu condoda dei-lhe dinheiro para fugir. Ela foi para Petrpolis e eu 
a ajudei at que nascesse o menino e ela pudesse trabalhar. A criana nasceu alguns dias depois de Marcelo. Era um lindo menino. Ela arrumou emprego em uma fbrica 
e foi vivendo. Jos Lus descobriu que eu a ajudava e ficou muito zangado comigo. Foi ele que uma noite atendeu o telefonema de Maria desesperada. O menino havia 
cado de uma janela do segundo andar, onde ela morava, e havia morrido. Ela no tinha dinheiro para o enterro.
        - Era noite e eu, chocada, decidi viajar para Petrpolis para socorr-la. Jos Lus no queria, mas, como eu disse que iria de qualquer forma, mandou Bris 
me levar. Fiquei contrariada, sempre achei que ele me vigiava, mas, naquelas circunstncias, o que eu queria era ver Maria e fazer o possvel para ajud-la.
        - Fomos. Chegando l, o corpo do menino ainda no havia sido liberado do hospital. Bris foi v-lo e no me deixou entrar, dizendo que ele cara com o rosto 
nas pedras e ficara completamente irreconhecvel. Tratei de confortar a me e quando o dia amanheceu conseguimos liberar o corpo para o enterro.
        - Quando samos, estranhei. Quem estava nos esperando era o carro do Dr. Camargo com Alberico, o motorista dele, na direo. Maria estava to abalada que 
nem percebeu. Em vez de irmos para a casa de Maria, fomos direto para a manso dos Camargo. Jos Lus nos esperava na entrada, o que muito me surpreendeu.
        - A famlia estava passando as frias de vero em Petrpolis, como faziam todos os anos. Marcelo estava dormindo, os pais haviam ido ao Rio para uma recepo. 
Na casa estavam apenas Eleutria, a ama de Marcelo, e Alberico, o motorista.
        - Entramos e eu no me contive:
        - "O que estamos fazendo aqui? O que est acontecendo?"
        - "Tenho um plano que vou pr em ao. Estou cansado de ficar em segundo lugar enquanto eles desfrutam do bom e do melhor. Meu pai sempre me dizia que havia 
sido lesado por tio Antnio na herana de famlia. Chegou a hora de ter de volta com juros o que me pertence."
        - Assustada perguntei:
        - "O que voc vai fazer?"
        - "Vou cuidar de tudo e voc vai fechar a boca. Se abrir, vai se arrepender."
        - "Onde est Maria?"
        - "Dei-lhe um calmante e est dormindo. Estava muito nervosa. Quando acordar estar melhor."
        - "E o enterro?"
        - "Deixe por minha conta. Vai ser o maior enterro que voc j viu. Com tudo de primeira."
        - Eu estava cansada. Havia passado a noite, em claro e resolvi descansar um pouco. Tio Antnio nos oferecia a casa sempre que quisssemos, por isso fui para 
o quarto de hspedes e deitei um pouco tentando dormir.
        - No consegui. Estava muito tensa. Ouvi vozes no quarto ao lado, levantei-me e apurei o ouvido.
        - Alberico e Eleutria conversavam.
        - " pegar ou largar.  a chance de nossas vidas. O menino j morreu mesmo. No vamos matar ningum" - dizia Eleutria.
        - "No sei, no. Vai ser uma tragdia. O Dr. Antnio  louco pelo menino. Vai sofrer muito. No  justo fazer isso com ele" - respondeu Alberico.
        - "Qual nada. Gente rica logo esquece. Isso passa. E ns vamos ficar ricos! Sem falar que nossa fortuna nunca vai acabar. Eles vo ter que pagar sempre para 
nos manter com a boca fechada. Voc vai poder comprar aquela casa que andava namorando. J pensou?"
        - Fiquei assustada. O que eles estavam tramando? Custou, mas Eleutria convenceu Alberico.
        - "Vamos levar Marcelo para a casa de D. Diva. Quando ela viajou, deixou a chave comigo para molhar as plantas e cuidar dos passarinhos."
        - "O que vo fazer com ele? No quero que nada de mal acontea."
        - "No vo fazer nada. S sumir com ele."
        - "Sumir como?"
        - "Sei l, homem. Isso no me interessa."
        - Fiquei horrorizada. Fui procurar Jos Lus. Ele estava reunido com Bris a portas fechadas. Entrei na sala ao lado e tentei ouvir o que diziam:
        - "Vai dar tudo certo, voc vai ver" - dizia Bris.
        - "No sei, no. Estou preocupado com minha mulher. Nunca vai aceitar uma coisa dessas. Pode dar com a lngua nos dentes."
        - "Ela sempre faz o que voc quer. Use o mesmo argumento de sempre. Ela ficar calada. Depois, vai usufruir de tudo tambm. Ser cmplice e nunca abrir 
a boca."
        - ". Voc est certo. Mas e o menino? O que faremos com ele?"
        - "O melhor  acabar com ele."
        - "Isso, no. E uma criana. Repugna-me fazer isso. Vamos lev-lo a um lugar de onde nunca poder sair."
        - "Mas ele tem quatro anos. Fala e pode nos delatar. O melhor  mesmo acabar com ele. Para vencer  preciso ter coragem. J combinei com Eleutria e Alberico, 
que levaro Marcelo para uma casa cujos donos viajaram e ela tem a chave. L veremos quem vai cuidar de sumir com ele."
        - "No quero mais gente metida nisso. Ningum mais pode saber de nossos planos."
        - "E quanto a Maria?"
        - "Vai dormir por algum tempo. Quando acordar, inform-la-emos que enterramos o menino."
        - "Ela vai querer saber onde. Eu posso arranjar isso no cemitrio local. S preciso do nome todo dele."
        - "Temos no atestado de bito."
        - Eu estava apavorada. Percebi que a vida de Marcelo corria perigo. Mas eu ainda no havia entendido o que eles iam fazer. Esperei Bris sair da sala para 
que eles no desconfiassem de mim e abordei Jos Lus.
        - "Quero saber o que vocs esto tentando fazer."
        - "No precisa. S tem que ficar calada."
        - "Estou metida nisto e tenho o direito de saber."
        - "Est certo. Voc vai ter que cooperar mesmo. Marcelo acaba de morrer em um acidente de carro. O corpo ficou irreconhecvel. Eleutria e Alberico vo testemunhar 
e eu vou dar o atestado de bito. Por acaso ns viemos hoje a Petrpolis e ao chegar soubemos da tragdia. Tentamos socorr-lo, mas a morte foi instantnea. Bateu 
o rosto nas pedras."
        - "Isso  uma loucura! Ele est vivo!"
        - "Vamos enterrar o corpo do filho de Maria como sendo ele."
        - "Isso nunca dar certo.  um horror! J pensou na dor da famlia? O que espera ganhar com isso? Com a morte dele voc no herda nada. Ainda h Cludio 
e Carolina! S uma cabea doente poderia pensar uma coisa dessas!"
        - "Voc vai calar e fazer tudo direitinho, seno j sabe o que vai lhe acontecer."
        Gabriel no se conteve:
        - Por que ele domina voc desse jeito? Do que tem medo?
        - Trata-se de um segredo de minha famlia que no posso revelar. Prefiro morrer a que algum descubra.
        - Por causa disso voc concordou em fazer o que ele queria!
        - Foi. Concordei. S Deus sabe como foi horrvel. Fizeram tudo de tal forma que ningum desconfiou de nada. Eu estava atormentada. Sabia que Bris era perverso 
e eu temia pela vida de Marcelo. Depois do enterro do corpo como sendo o de Marcelo, procurei Alberico sem que ningum soubesse. Ele gostava muito do menino.
        - "Voc tem que me ajudar. Marcelo corre perigo. Ns temos que salv-lo."
        - "D. Maria Jlia, no quero levar isso na conscincia. J chega o que eles fizeram."
        - "Voc sabe onde ele est?"
        - "Sei. Mas eles podem tir-lo de l."
        - "Precisamos agir depressa. Se me ajudar, no se arrepender."
        - "O que quer fazer?"
        - "Salvar Marcelo. Lev-lo para longe, onde ningum possa fazer-lhe mal."
        - "Deixe comigo."
        - Depois ele me contou que se comprometera com Bris a matar o menino, na inteno de proteg-lo. Recebeu dinheiro por isso e ficou satisfeito de poder engan-los. 
Escondeu-o de todos alguns dias. Eu, pretextando abalo nervoso, convenci Jos Lus de que queria ficar algum tempo no convento das irms onde eu fora educada e ele 
concordou de bom grado. Temia que eu no suportasse e acabasse pondo tudo a perder. Combinando com elas a pretexto de ver uma amiga doente na Inglaterra, ajudaram-me 
a preparar a viagem sem contar para minha famlia.
        - Essa  a mesma histria que voc me contava quando mandava dinheiro.
        - Isso. Alberico me ajudou levando Marcelo ao aeroporto na hora do embarque. Fizemos tudo de tal jeito que ningum desconfiou. Deixei-o no melhor colgio 
da Inglaterra, recomendando uma educao esmerada. Era o mnimo que eu podia fazer por ele depois de haver compactuado com aquela infmia.
        - Voc lhe salvou a vida!
        - Graas a Deus. Apesar de tudo,  isso que me conforta. Mandei-lhe dinheiro durante muitos anos. Ele estava j na universidade quando Bris descobriu que 
eu remetia esse dinheiro e Jos Lus me pressionou para saber por que e para quem eu o mandava. Fiquei apavorada. Se eles soubessem o que eu havia feito, certamente 
me castigariam. Suspendi a remessa do dinheiro. Eu havia deixado um recado para que ele nunca voltasse ao Brasil. Agora vejo que ele no atendeu.
        Gabriel, plido, segurava as mos da me penalizado. Ela se arriscara para salvar a vida de Marcelo.
        - Me, ele tem o direito de reivindicar sua herana. Vocs lhe roubaram tudo, o amor da famlia, os bens, at o pas. Tenho a impresso de que ningum vai 
poder impedir agora que a verdade aparea. Vocs no vo poder fazer nada! E Maria? O que houve com ela? Tomou conhecimento do que aconteceu?
        - No. Jos Lus, a pretexto de poup-la, internou-a em um hospital psiquitrico onde fez sonoterapia por um ms. Saiu de l arrasada, visitou o tmulo em 
Petrpolis cuja lpide tem o nome de seu filho e sumiu.
        - Voc sabe onde se encontra?
        - No. Ela desapareceu. Nunca mais soube dela.
        Maria Jlia segurou as mos do filho apertando-as com fora e olhando-o emocionada:
        - Est decepcionado comigo, meu filho?
        - No, me. Voc foi mais vtima do que culpada. S no entendo por que se submete a ele. Conheo seu corao nobre, sua postura tica, seus sentimentos 
bons. Que segredo  esse que a acovarda desse jeito, fazendo-a suportar uma situao to contra seus princpios?
        - Sinto muito, meu filho, mas no estou ainda preparada para falar sobre isso.
        - S quero ajudar. Estou e sempre estarei do seu lado. Eu a amo incondicionalmente. Por que no confia em mim?
        - Um dia, talvez. Agora no posso falar. Estou esgotada.
        - Estou pensando... uma desconfiana comeou a me incomodar.
        - O que foi?
        - A morte de Marcelo no era suficiente para fazer papai receber a herana. Tio Antnio era vivo e havia seu filho e a nora, que eram herdeiros diretos. 
O que eles tinham em mente quando fizeram isso? Ser...
        Maria Jlia sobressaltou-se tapando a boca de Gabriel com a mo:
        - No diga isso. Essa suspeita tem me incomodado a vida inteira. Tenho pesadelos com ela, no quero pensar que possa ser verdade.
        - Claro, me. Quando eles planejaram essa fraude, pensaram tambm em eliminar os outros herdeiros.
        - No, meu filho. Seria demais!
        - Seria muita coincidncia pensar que todos os trs morreram em menos de dois anos.
        - Jos Lus no seria capaz disso.  mdico!
        - Um mdico tem muitos recursos para acabar com quem quiser. Ele era o mdico de tio Antnio.
        Maria Jlia mergulhou a cabea nas mos arrasada. Gabriel continuou pensando alto:
        - Claro. Teria sido fcil acabar com a sade de algum que j estava deprimido.
        Maria Jlia levantou a cabea:
        - Mas e os outros dois? Eles morreram em um acidente de barco na Itlia. Seu pai estava comigo em Paris e nunca se ausentou.
        - E Bris, onde estava?
        - Ele viajou conosco para Europa.
        - Esteve o tempo todo com vocs?
        - No. Ele tinha alguns amigos russos e foi passar algum tempo com eles.
        - Voc consegue se recordar se ele estava fora quando aconteceu esse acidente?
        - Deixe-me ver... sim, estava. Voc acha que ele...
        - Pode perfeitamente ter se ausentado para "providenciar". Que tipo de acidente foi?
        - O motor do barco explodiu e incendiou-se. Os policiais disseram que foi um curto-circuito na parte eltrica.
        Gabriel segurou as mos da me dizendo plido:
        - Me, essa situao  muito suspeita. Se eles cometeram todos esses crimes, temos que descobrir.
        - Isso, no. Se isso for verdade, o que ser de ns? Podemos ser arrolados como cmplices. Eu sabia que Marcelo estava vivo e fiquei calada. Posso ser presa 
por causa disso. Eu no quero ser presa. Prefiro morrer a passar essa vergonha. Seu nome e o de sua irm estariam para sempre na lama. A sociedade no perdoa.
        - Me, no importa o que a sociedade pensa. Minha conscincia no consegue calar diante dessa suspeita.
        - Prometa que no vai fazer nada. Vai esquecer isso e pronto.
        - No posso, me.
        -  apenas uma suspeita. No podemos levar isso adiante.
        - Uma suspeita muito justificada. Tanto que se encaixa perfeitamente aos fatos. Entretanto, concordo que antes de qualquer coisa temos que descobrir a verdade.
        - Isso  impossvel. Bris  perigoso. Se desconfiar, sua vida corre perigo.
        - O que no podemos  ficar  merc de um assassino que a qualquer momento pode querer nos matar para salvar a pele.
        - Meu filho, nunca deveria ter contado.
        - Ao contrrio, me. Agora estarei de olho neles para defend-la.
        - Prometa que no far nada sem falar comigo antes.
        - Prometo. No pretendo fazer nada de mais. Apenas observar e investigar. Se tudo o que imagino for verdade, papai tambm est nas mos desse marginal. Eu 
j suspeitava que Bris estivesse fazendo alguma chantagem. Nunca vi nenhum mordomo ter tantas regalias e fazer o que ele faz. Praticamente manda em tudo e em todos. 
Nem voc faz o que quer dentro de sua prpria casa.
        - Se eu pudesse, j o teria despedido. Mas seu pai no quer nem ouvir falar nisso. ,
        - Claro. Tem medo de que ele d com a lngua nos dentes.
        - Pensando nisso sinto o corao apertado. Meu Deus, aonde nos levar essa desgraa?
        - No ser compactuando com os erros que eles fizeram que ns vamos nos livrar. Penso at que est na hora de dar um basta e ir para o lado oposto.
        - No est pensando em fazer isso!!
        - No, me. O que eu quero  ir para o lado do que  certo e justo. Oprime-me ficar conivente com a maldade deles.
        - A mim tambm.
        - Nesse caso, vou investigar. Se tudo que suspeitamos for verdade, tomarei providncias.
        - O que pensa fazer?
        - Ir viver minha vida longe daqui. Eu, voc e Laura poderamos ir morar em outra cidade e sair da vida dos dois.
        - E nos separarmos de seu pai? Ele jamais vai concordar.
        - No faz mal. Iremos assim mesmo. Ele no vai poder fazer nada.
        - Ser um escndalo. No podemos fazer isso. Toda a sociedade vai falar.
        - A nossa felicidade vale mais do que o falatrio dos desocupados. Me, se eles praticaram esses crimes, como poderemos viver l com esse peso no corao? 
No me sinto capaz. Voc tem sofrido ao lado dele durante todos esses anos. No se queixa, mas eu sei. Por que quer continuar um relacionamento que s lhe causa 
dor?
        Maria Jlia apertou as mos com fora. Havia infinita tristeza em sua voz quando disse:
        - Se eu pudesse, h muito teria feito isso. Infelizmente, no d para fazer.
        Gabriel ia retrucar, mas ela continuou:
        - Voc nunca gostou de seu pai, no ? Desde pequeno no o suporta. Ele tem se esforado em conquistar sua estima, mas nunca conseguiu. Porqu?
        - No sei explicar. A proximidade dele me causa sensao desagradvel. Ns no temos nenhuma afinidade. - Ele fez ligeira pausa, abraou a me com carinho 
e prosseguiu: - J com voc  diferente. Gosto de ficar a seu lado, sentir seu perfume, beijar seu rosto, abra-la. Compreendemo-nos.
        Maria Jlia apertou o filho nos braos com amor:
        - Voc  meu tesouro. Por mim, voc nunca tomaria conhecimento dessas coisas.
        - No sou ingnuo. Cresci, me. Sou um homem, quero estar a par de tudo, defend-la como merece, cuidar de sua felicidade. Seja o que for que acontecer, 
nunca a deixarei.
        Os dois permaneceram silenciosos, abraados, sentindo-se bem dentro do afeto que os unia.
        
Captulo 12
        
        Daniel entrou no escritrio eufrico.
        - Elza, conseguimos. O juiz deferiu nosso pedido. Rubinho apareceu na porta de sua sala:
        - Verdade? Voc leu o parecer?
        - Li. Marcou prazo para apresentao das provas em juzo para serem analisadas.
        - Puxa! Finalmente. No agentava mais esperar. Temos que avisar Alberto. Ele vai ficar radiante.
        - Vou telefonar a Lanira.
        - Faa isso. Agora temos que seguir adiante. Se Jonas obtiver aquelas provas, estamos feitos.
        - Ele deu notcias?
        - Por enquanto, no. Vou telefonar a ele para contar a novidade e saber como vo as investigaes.
        - Se ele tivesse conseguido as provas, j teria nos procurado.
        - . Mas no custa tentar.
        Na hora do almoo, quando os dois conversavam com Alberto, Lanira apareceu:
        - Vim almoar com vocs para comemorar.
        - Fao questo de pagar esse almoo - disse Alberto.
        - No posso sair agora. Marquei com um cliente. Vo vocs - respondeu Rubinho.
        - De modo nenhum. Sem voc, nada feito - disse Lanira.
        - Nesse caso, convido-os para um jantar, onde quiserem.
        - Pretendia sair com Marilda - respondeu Rubinho. - Ela est com uma amiga que chegou do exterior e combinamos jantar juntos.
        - Se no se importa, poderemos lev-las conosco. Fica por minha conta - sugeriu Alberto.
        - No teremos liberdade para falar de nossos assuntos - comentou Daniel.
        - Vamos conversar agora.  noite poderemos ir a um lugar alegre, danar, ouvir msica. Estou precisando espairecer, aliviar a tenso - tornou Alberto.
        - Boa idia - interveio Lanira. - Vocs tm trabalhado muito e tero ainda muito mais a fazer daqui para a frente. Marilda  a filha do Dr. Edmundo?
        Foi Daniel quem respondeu:
        - . Ela anda dando voltas  cabea de Rubinho.
        - Ela d voltas  cabea da maioria dos rapazes do Rio de Janeiro.  muito bonita, elegante, mas muito reservada. Nunca conversei com ela - considerou Lanira.
        - E muito agradvel. Temos nos encontrado algumas vezes, como amigos - esclareceu Rubinho.
        - Fale a verdade - disse Daniel sorrindo.
        - Estou dizendo. Por enquanto somos s amigos.
        - Bem, eu gostaria muito - disse Alberto. - Acho que seria bom aparecer publicamente. Ainda ontem, na empresa onde trabalho, um amigo do diretor quis conhecer-me. 
Quando fui apresentado ele disse: "Fui amigo do Dr. Camargo. Voc me recorda muito ele. Seu sorriso, seu jeito de olhar, seu andar. Estou impressionado". Meu av 
tinha muitos amigos. Era querido, admirado. Essa semelhana  uma prova de que sou mesmo Marcelo.
        - Acho que tem razo. Alis, muitos amigos meus tm pedido para conhec-lo. Esto morrendo de curiosidade. Muito bem. Falarei com Marilda. Se ela concordar, 
iremos.
        Marilda concordou e combinaram jantar em uma boate. s oito, Daniel foi buscar Lanira em casa. No entrou para no encontrar o pai. Mandou a criada avis-la 
e Maria Alice ficou olhando atrs da cortina quando Lanira, linda em seu vestido verde-escuro, saiu e entrou no carro. O marido no havia chegado ainda. Daniel poderia 
ter entrado para abra-la. Sentia o corao oprimido.
        Essa situao era insustentvel. Sentiu raiva do marido. Ele no tinha moral para expulsar o filho de casa. Era um homem de aparncia. Por fora, irrepreensvel; 
por dentro, cheio de hipocrisia. Ela estava cansada de tolerar aquela ligao com a secretria. Todo o Rio de Janeiro sabia que eram amantes. Ela fingia ignorar 
na tentativa de conservar a dignidade. Mas sentia-se humilhada, deprimida, desvalorizada. At quando suportaria?
        Tinha uma filha para casar. Precisava manter as aparncias para no prejudic-la. Depois, enquanto fingia no saber, no era obrigada a tomar nenhuma atitude. 
Era uma vtima e eles  que eram os culpados.
        Ela estava torcendo para Daniel ganhar aquela causa s para ver a cara de Antnio. Ele ficara contra o filho, do lado errado. Se isso acontecesse, ele com 
certeza procuraria Daniel para prestigi-lo e usufruir do sucesso dele.
        Suspirou angustiada. Sentia-se s e deprimida. O que seria de sua vida quando Lanira se casasse e deixasse a casa? Onde encontrar foras para manter um casamento 
fracassado como o seu? As lgrimas estavam prestes a cair e Maria Alice reagiu. No queria que nenhum dos criados a visse chorar. Respirou fundo, apanhou uma revista 
e acomodou-se no sof tentando ler.
        Quando Daniel e Lanira chegaram na boate, Alberto j estava l, muito elegante. Lanira admirou-se:
        - Como voc est elegante! - comentou.
        Ele sorriu e ela notou que mesmo sorrindo seus olhos continuavam tristes.
        - Para sair com vocs eu precisava caprichar. Voc est bonita como sempre.
        Daniel olhou-os surpreendido. Vira um brilho de admirao nos olhos de Alberto e inquietou-se um pouco. Ele estaria interessado em Lanira? No gostaria que 
ela se envolvesse com ele. Arrependeu-se de haver concordado com esse jantar. Porm Alberto adotara uma postura discreta e Daniel acalmou-se. Ele estava apenas sendo 
educado.
        O lugar era fino e bonito. Iluminao discreta, msica ao vivo, ambiente requintado e agradvel. Alguns pares danavam na pista.
        - Que bom estar aqui! - comentou Lanira.
        - Vamos danar? - pediu Alberto.
        Ela concordou e saram danando enquanto Daniel deixava-se ficar ouvindo a beleza do blues e tomando seu aperitivo. Estava to absorto em seus pensamentos 
que s percebeu a chegada de Rubinho acompanhado das duas moas quando ele tocou levemente seu ombro. Levantou-se imediatamente, cumprimentando Marilda.
        - Quero apresentar-lhe minha amiga Ldia Vasconcelos.
        Daniel fixou os olhos nela e o sangue fugiu de seu rosto. Estaria sonhando? A mulher de seu sonho estava diante dele. Mais jovem, mas os mesmos cabelos dourados, 
os mesmos olhos verdes. Atordoado, balbuciou:
        - Como disse?
        - Esta  Ldia, minha amiga de infncia.
        Daniel respirou fundo tentando dominar-se. O mesmo nome! Estaria enlouquecendo?
        - O que foi? - estranhou Rubinho. - Voc parece que viu fantasma. Aconteceu alguma coisa?
        - No. Nada. Desculpe. Estava distrado. Muito prazer - disse ele estendendo a mo que ela apertou olhando-o nos olhos.
        - No nos conhecemos de algum lugar? - perguntou admirada. Daniel estremeceu:
        - No. Acho que no.
        - Voc j esteve em Nova York? Eu morei l durante muitos anos.
        - Conheo Nova York, mas no tive o prazer de encontr-la.
        - Tenho a sensao de conhec-lo.
        Sentaram-se. O corao de Daniel batia descompassado. O que estava acontecendo com ele? Por que o destino colocara a seu lado aquela mulher que era igual 
 de seu sonho? Ela dissera odi-lo. E se fosse verdade a histria de vidas passadas? E se a Ldia de seus sonhos existisse mesmo e tivesse reencarnado?
        Tentou dissimular sua inquietao e conversar normalmente, embora as perguntas continuassem em sua mente sem encontrar resposta. Haviam se sentado, e, depois 
de pedirem bebidas, Rubinho e Marilda foram danar. Daniel ficou sozinho com Ldia.
        Sentia-se emocionado. Ele era um homem de sociedade, habituado ao convvio com moas bonitas e educadas. Ficava muito  vontade com elas e tinha completo 
domnio de si. Entretanto, diante dessa, no sabia o que dizer nem fazer.
        Ela estava linda em seu vestido cor de prata deixando ver as formas perfeitas de seu corpo, e usava um perfume delicado e to agradvel que Daniel aspirou 
deliciado. Tentou reagir. Ele estava exagerando. Era apenas uma coincidncia. Tentou conversar:
        - Quantos anos voc morou no exterior?
        - Samos do Brasil quando eu tinha sete anos e estou voltando agora. Ficamos quinze anos fora. Meu pai  diplomata e tem servido no Itamarati. Agora conseguiu 
transferncia para o Brasil. Minha me queria muito voltar. Temos famlia aqui.
        - Fica difcil depois de tantos anos. Voc deixou amigos e talvez at algum apaixonado l.
        - Deixei amigos, sim. Mas quando a saudade bater vou at l. No momento preciso me ambientar aqui. Depois de tanto tempo fora, ningum me conhece mais.
        - Marilda conservou a amizade.
        - . Nossas famlias so muito amigas. Eles nos visitavam e Marilda passava frias em minha casa.
        Eles continuaram conversando e Daniel chegou a esquecer os dois casais que danavam olhando-os surpreendidos quando se sentaram  mesa novamente e a conversa 
generalizou-se. Rubinho s tinha olhos para Marilda, enquanto Alberto e Lanira danavam com animao.
        - Para quem foi educado na Inglaterra voc dana samba muito bem - comentou ela.
        Alberto sorriu.
        - Acho que est no sangue. Apesar de viver longe, sempre me interessei por tudo que se refere ao Brasil. Adoro nossa msica.
        - O que pretende fazer quando esse seu caso acabar?
        - Quando eu ganhar e tiver em mos os bens de meu av, pretendo cuidar de tudo como ele gostaria que eu fizesse.
        - Voc fala nele como se sempre tivesse estado com ele.
        - Gosto muito dele. Depois, ele sempre esteve comigo, mesmo quando eu no sabia nada sobre o passado.
        - Voc fala isso com tanta certeza!
        -  difcil explicar. Mas eu sei que ele continua me ajudando, protegendo, amando, e isso me comove.
        - No ser sua necessidade de afeto que o faz criar essa iluso para fugir de sua solido?
        - No. Eu o vi vrias vezes e sei que ele est comigo. Iluso  pensar que quem morre acaba. A vida continua e eu tenho provas disso.
        -  um assunto delicado. Poucas pessoas acreditam nisso.
        - Engana-se. Muitos crem, mas no falam por medo dos preconceitos sociais.
        - Pode ser mesmo. Nossa sociedade  muito preconceituosa. As aparncias  que importam. A verdade  sonegada, encoberta, a tal ponto que chega uma hora em 
que ningum mais sabe distinguir o falso do verdadeiro.
        - Quando resolvi reclamar meus direitos, pensei nisso e achei que a minha verdade seria tambm uma contribuio para desmascarar essa hipocrisia.
        - , voc j balanou a vida de muita gente. At eu acabei entrando na berlinda.
        - Voc? Por causa de seu irmo haver sado de casa?
        - No. Por causa de Gabriel. O filho de D. Maria Jlia. ramos
        muito amigos. Depois do escndalo ele cortou relaes comigo.
        - Voc estava namorando-o?
        - No. Mas apreciava sua amizade.  um rapaz inteligente, culto, muito diferente dos almofadinhas que andam por a.
        - Est apaixonada por ele?
        - No. Mas prezo sua amizade.
        - Um escndalo desses atinge a famlia inteira. Os filhos no so culpados pelo que os pais fizeram. Acho mesmo que no sabiam de nada. Quando decidi mover 
a ao, sabia que isso seria inevitvel. Ele falou com voc sobre o assunto?
        - No. Simplesmente afastou-se, sem dizer nada. Quando telefono, nunca est. Gostaria de ter conversado com ele, dizer que continuo prezando sua amizade. 
Esperava que ele soubesse separar as coisas.
        - Ele pode estar chocado, envergonhado.
        - . Daniel disse a mesma coisa.
        Rubinho conversava com Marilda enquanto danavam:
        - Muito bonita sua amiga. Daniel ficou em estado de choque. Marilda sorriu:
        - Ela no  s bonita. Tem outros atributos. Tenho certeza de que sua presena marcar poca em todo o Rio de Janeiro. Estou at vendo. Dentro de pouco tempo 
os admiradores no vo dar-lhe sossego.
        - Daniel ter que ser rpido.
        - Ele est apenas sendo gentil. Alis, ele tem fama de ser sempre amvel, mas de escapar de todas sem se envolver.
        Quando voltaram  mesa, Rubinho no se conteve:
        - Vocs no danam?
        Daniel estremeceu e olhou o amigo admirado. Ele havia se esquecido completamente do lugar onde estavam. Estava sendo deselegante com a moa.
        - Estvamos conversando. - Virando-se para ela: - Voc gosta de danar?
        - Gosto de conversar tambm - respondeu ela sorrindo. - No se preocupe. Se eu quisesse danar, teria dito.
        Daniel perdeu o jeito. As moas que conhecia jamais teriam dito isso. Marilda sorriu com um brilho malicioso no olhar.
        - Em Nova York os costumes so diferentes. As mulheres so mais naturais. Dizem o que querem sem rodeios.
        - Daniel desejou cumprir o protocolo social. Comigo no precisa. Meu conceito de respeito  outro, vai alm do formalismo de salo. No estvamos com vontade 
de danar, por que haveramos de fazer isso?
        - E sempre franca desse jeito? - perguntou Daniel.
        - Sou. Sempre fao as coisas do meu jeito, como eu gosto. Lanira chegou com Alberto e a conversa generalizou-se. Passava das trs quando eles resolveram 
ir embora. No carro com Lanira, Daniel estava pensativo. Ela se admirou:
        - Voc est to calado... no gostou do jantar?
        - Ao contrrio. Foi uma noite muito agradvel.
        - Pois no parece. Est com uma cara esquisita...
        - A vida est brincando comigo. Ainda no voltei a mim da surpresa. Parece que no aconteceu. Ldia  a mulher que tem me aparecido em sonhos.
        - O qu? Estou toda arrepiada! Meu Deus, isso  coisa do outro mundo!
        - S pode ser coincidncia. Quando olhei para ela, no sabia o que dizer. At o nome  o mesmo. No sonho ela se chamava Ldia.
        - Coisas estranhas esto se passando conosco. Alberto jura que v a alma do av perto dele. Voc sonha com a moa antes de conhec-la. Isso s pode ter uma 
explicao sobrenatural. Amanh mesmo falarei com tia Josefa.
        - No sei se devemos...
        - Claro que sim. E coincidncia demais, voc no acha?
        - Bom, no nego que  intrigante.
        - No outro dia conversei com ela e pedi para nos deixar assistir a uma sesso esprita. Mas ela desconversou, alegando que mame pode no gostar.
        - Nisso ela tem razo. Ela nunca vai concordar.
        - Ela no precisa saber. Somos adultos para decidir o que queremos ou no fazer. Depois, em casa de tia Josefa, o que pode nos acontecer?
        - Est certo. Trate de convenc-la e iremos.
        - Vamos convidar Alberto e Rubinho.
        - Para qu?
        - Eles esto interessados nesses assuntos. Depois, se o av de Alberto est mesmo com ele, vai ter uma chance de se comunicar. Estou curiosa para ver como 
 isso.
        - Converse com tia Josefa. Diga-lhe que estamos muito interessados em estudar esse assunto. Tenho certeza que ela concordar.
        Despediram-se. Daniel foi para casa, deitou-se, mas o sono no vinha. No conseguia esquecer o rosto expressivo de Ldia. E ao recordar-se dela, seu corao 
batia descompassado. Ela o atraa intensamente. Estaria impressionado pelo sonho? No era possvel estar apaixonado por algum que acabara de conhecer. Mas apesar 
de lutar contra, sentia que desejava estar com ela, abra-la e t-la junto de si. Era madrugada quando, vencido pelo cansao, finalmente adormeceu.
        No dia seguinte no escritrio, Rubinho no se conteve:
        - Confesse, voc ficou sem flego ao conhecer Ldia. Nunca o vi to emocionado.
        - Pudera, ela  a moa que me apareceu em sonhos! Rubinho olhou-o assustado:
        - Tem certeza? Ela acabou de chegar ao Brasil.
        - Eu sei. Isso est me intrigando muito. Tenho certeza de que era ela. At o nome  o mesmo!
        - Vamos falar com Julinho.
        - Resolvi ir a uma sesso esprita em casa de tia Josefa.
        - Gostaria de ir.
        - Se ela concordar, tudo bem. Lanira quer convidar Alberto tambm, por causa do av dele.
        O telefone tocou e Rubinho atendeu. Era Jonas, que havia chegado de viagem e queria passar no escritrio logo aps o almoo.
        Passava das duas quando ele entrou na sala em que Daniel e Rubinho conversavam.
        - E ento? - indagou Rubinho.
        - Boas notcias. Marilena est trabalhando bem. Gravou uma conversa interessante entre Eleutria e Joo.
        Animados, os dois dispuseram-se a ouvir.
        - "Ele no pode fazer isso comigo" - dizia ela.
        - "Estamos tendo pacincia demais."
        - "Ele alega que no pode despertar suspeitas. Que, se algum souber do dinheiro que ele me manda, vai desconfiar. Que no momento  tambm de meu interesse 
ficar calada. Fez questo de dizer para eu no esquecer que tambm estou atolada at o pescoo nessa histria. Que se eu falar vou me arrepender."
        - "O cachorro pode dizer que voc fez tudo e que ele no sabia de nada! Sabe como , ele tem o dinheiro, tem poder.  a palavra dele contra a sua. Acho mie 
estamos de mos amarradas mesmo."
        - "Isso no vai ficar assim. No tenho medo dele. As coisas que eu sei sobre ele valem muito dinheiro. Pola me contou uma poro delas."
        - "O que Pola sabe?"
        - "Conversas que ela ouviu entre Bris e algumas pessoas. Se ele quiser me azarar, vai ver s uma coisa."
        - "O que voc sabe que eu no sei?"
        - "O que ele fez com o neto do Dr. Camargo foi pouco perto do que ele fez depois."
        Rudo de uma campainha. Jonas desligou a fita.
        - Acabou a. Foi bastante revelador, no acham?
        - O que ser que ela queria dizer? - indagou Daniel pensativo.
        - Eu tenho minhas suspeitas - tornou Jonas. - Tenho experincia. Um criminoso, quando tem um objetivo, afasta todos os obstculos do caminho. Ele queria 
a herana. Havia pessoas entre ele e seu objetivo. Ele as eliminou.
        - Acha que ele poderia ter matado os pais de Marcelo? - indagou Rubinho.
        -  provvel. Quando ele decidiu fazer aquela farsa com o menino, sabia que precisava fazer mais para conseguir o que queria. E ele fez.  a isso que Eleutria 
se refere.
        - Por mais incrvel que possa parecer, Jonas tem razo - concordou Daniel.
        - Nesse caso, no se trata apenas da usurpao da herana, mas de assassinato - tornou Rubinho.
        - Temos que investigar mais. Se as provas aparecerem, tomaremos providncias. A situao pode ser pior do que pensvamos. Em todo caso, Marilena est trabalhando 
bem - disse Daniel.
        - Minha intuio no falha. Eu disse que ela era inteligente. Ela vai continuar investigando. Tambm conversei com um amigo meu da polcia internacional. 
Ele tem conhecidos e ficou de investigar o acidente que matou os pais de Marcelo.
        - Isso ser timo. Sabe que agora no temos dinheiro para grandes pesquisas - esclareceu Rubinho. - Quando vencermos, todos sero gratificados.
        - Meu amigo est investigando outro caso e a pista que tem levou-o at Bris. Quando lhe contei que o estvamos vigiando, prontificou-se em nos ajudar em 
troca das informaes que temos sobre Bris.
        - Esse caso teria alguma coisa a ver com o nosso? - perguntou Daniel.
        - Parece que no. Trata-se de algo que ele fez na Europa, antes de vir para o Brasil. Meu amigo  agente internacional.
        - Nosso homem  perigoso - tornou Rubinho.
        - Percebi isso desde que o vi. Precisamos ter cautela - disse Jonas. - Marcelo tem que ser protegido. Eles tiraram do caminho todos os obstculos  fortuna 
que desejavam. Marcelo agora  o nico que falta.
        - Acha que ele pode tentar alguma coisa contra Alberto? - perguntou Daniel.
        - Acho. Seria prudente ter algum protegendo-o.
        - No temos dinheiro para isso. E muito caro - disse Rubinho.
        - Converse com ele. No deve sair  noite e andar por lugares ermos. Verei se posso fazer alguma coisa - disse Jonas. - Quanto  fita, guarde-a no cofre. 
Vamos ver se conseguimos algo mais.
        Quando Jonas saiu, Daniel comentou:
        - Jonas pode estar certo. Bris pode ter causado o acidente que vitimou os pais de Marcelo. Ele entendia de barcos, trabalhou em um.
        Rubinho ficou pensativo durante alguns instantes, depois disse:
        - Estou pensando no que Jonas disse. Se eles causaram o acidente do barco, teriam provocado a morte do Dr. Camargo? Ele tambm era um obstculo.
        - Dessa forma todas as peas do quebra-cabeas se completam. S assim o que eles fizeram com o menino poderia ter sentido. Ao substituir o corpo, eles j 
tinham decidido assassinar os demais.
        - Que horror, Daniel! Mas o que voc diz tem lgica. S assim iriam obter os resultados desejados. O que de fato aconteceu.
        - Como  que vamos encontrar provas para botar esse pessoal na cadeia?
        - Essa  a parte que nos cabe.
        - Vamos investigar a morte do Dr. Camargo.
        - Jonas disse que iria fazer isso. Podemos recorrer aos jornais da poca.
        Lanira bateu levemente, abriu a porta, enfiou a cabea e indagou:
        - Posso entrar?
        - Entre. Chegou em boa hora - disse Rubinho. Ela entrou e depois de abra-los foi dizendo:
        - Vim para dizer que tia Josefa concordou. A sesso  amanh s oito.
        - Posso ir tambm? - indagou Rubinho.
        - Voc e Alberto.
        Colocada a par das novidades, ela no se conteve:
        - Puxa! A coisa pode ser pior do que pensvamos. Acham mesmo que ele poderia ter assassinado toda a famlia?
        - A lgica aponta essa suspeita. Precisamos de provas - respondeu Rubinho.
        - J se passaram muitos anos. Como pensam consegui-las?
        - Vamos tentar - esclareceu Daniel. - Se nossas suspeitas se confirmarem e conseguirmos provas, iremos apresent-las na justia.
        Lanira ficou pensativa, depois perguntou:
        - Uma coisa me intriga nesta histria. Se eles mataram todo mundo, por que no acabaram com Marcelo?
        - J me fiz essa pergunta - respondeu Daniel. - O fato  que D. Maria Jlia levou o menino para o colgio e sustentou-o durante anos, permanecendo no anonimato.
        - Ela disse  diretora do colgio que a vida do menino corria perigo - lembrou Rubinho.
        - Teria ela feito isso para salv-lo? Nesse caso, nem o marido nem Bris sabiam. Ela fez isso por conta prpria - disse Lanira.
        - E quando eles desconfiaram por causa do dinheiro que ela mandava todos os meses, ela parou de mandar. Faz sentido, Lanira - disse Daniel. - Por que no 
pensamos nisso antes?
        - Sempre tive de D. Maria Jlia uma boa impresso. Foi um choque descobrir que ela era cmplice do marido nessa histria. Pensando bem, se ela salvou a vida 
de Alberto, comeo a me perguntar: teria ela sido cmplice mesmo ou uma vtima? - disse Rubinho.
        - Ela estava com eles naquela noite em que tudo comeou - lembrou Daniel. - Se ela fosse honesta, no teria permitido. Ficou calada, ajudou. No, Rubinho, 
ela  cmplice.
        - Seja como for, ela levou Marcelo para longe e isso impediu que eles o matassem.
        - Puxa! No vejo a hora em que tudo se esclarea.  uma histria e tanto.
        Lanira despediu-se combinando com Daniel para apanh-la em casa na noite do dia seguinte.
        
        Na noite seguinte, quando Lanira desceu arrumada para sair, Maria Alice perguntou:
        - Onde vai, Lanira?
        - Sair com Daniel. Ele ficou de passar aqui s sete meia.
        - Aonde vo?
        - A casa de alguns amigos.
        - Antes vocs nunca saam juntos. Depois que ele se mudou, vocs esto sempre juntos. Voc est namorando Rubinho?
        Lanira riu gostosamente:
        - Rubinho? Que idia, mame. No estou namorando ningum.
        - Pensei que estivesse namorando Gabriel.
        - Pensou errado. ramos apenas bons amigos.
        - Ele no telefonou mais. Deve estar sentido por causa de Daniel. Por falar nisso, como est a situao do Dr. Jos Lus?
        - No sei, mame. No me envolvo no trabalho de Daniel. Saio com eles porque gosto da companhia. Ouvi um carro parar, acho que eles chegaram.
        Ela apanhou a bolsa que estava sobre a cadeira e foi saindo. Maria Alice tornou:
        - No volte tarde. Amanh voc tem aula cedo. Diga a Daniel que eu ainda estou viva. Ele pode entrar quando passar por aqui.
        Lanira no respondeu. Quando entrou no carro, Daniel perguntou:
        - O que voc disse a mame?
        - Que iramos visitar alguns amigos. Ela est intrigada com o fato de estarmos saindo juntos. Perguntou sobre o caso de Alberto. Claro que eu despistei.
        -  melhor ser discreta - concordou Rubinho. - Por enquanto, temos que ser cautelosos para no prejudicar as investigaes.
        - No vejo a hora de poder gritar a verdade aos quatro ventos - disse Alberto.
        - Calma - aconselhou Rubinho. - Sua hora chegar, se Deus quiser.
        -  que durante tantos anos me senti um enjeitado, sem famlia, sem origem, e me emociona muito assumir o lugar que  meu na sociedade.
        - Infelizmente, mesmo vencendo a causa, voc continuar sem famlia - tornou Daniel.
        - E verdade - ajuntou Lanira. - Os mais chegados morreram, e os que ficaram so seus inimigos. Mesmo vencendo, voc estar s.
        - Um dia ainda terei minha prpria famlia. Garanto que saberei valoriz-la.
        - Jonas est preocupado com voc. Acha que nossos inimigos so muito perigosos e faro qualquer coisa para tir-lo do caminho. Pediu que tenha cuidado, no 
ande por lugares ermos  noite.
        - Sei que se eles pudessem acabariam comigo - respondeu Alberto. - Mas tenho confiana na proteo espiritual que recebo. Meu av me protege e nada de mal 
vai me acontecer.
        - Sei - objetou Rubinho -, mas apesar disso nunca  demais tomar cuidado.
        A casa de tia Josefa era um sobrado antigo, sem jardim, com altas janelas dando para a calada, com caixilho de vidro por fora e portas de madeira abrindo 
para dentro. Uma entrada lateral para garagem e o porto social, alguns degraus de mrmore branco e o pequeno terrao onde havia a porta principal.
        Foram recebidos carinhosamente por tia Josefa, uma mulher elegante, de cabelos castanhos cortados curtos e naturalmente ondulados, bonita, desembaraada, 
cheia de classe. Beijou os sobrinhos, foi apresentada aos outros dois e conduziu-os a uma sala onde j havia algumas pessoas s quais foram apresentados.
        Conversaram durante alguns minutos, chegou mais uma pessoa e por fim Josefa levantou-se dizendo:
        - Passemos para a outra sala. Est na hora.
        Ela os conduziu a uma sala onde havia uma mesa grande, coberta por uma toalha bordada e sobre ela uma rica bandeja de prata com alguns copos, uma jarra de 
gua e alguns livros.
        Alm dos rapazes e Lanira, havia mais seis pessoas. Todos sentaram-se ao redor da mesa com Josefa na cabeceira.
        - Antes de comearmos, devo esclarecer a vocs que vm pela primeira vez que permaneam em silncio e nos ajudem com suas oraes. Os espritos que viro 
conversar conosco so pessoas como ns, j viveram aqui e agora esto morando em outro lugar, em um mundo diferente do nosso. Por isso, vamos receb-los com naturalidade 
e respeito. Eles podem ler nossos pensamentos, enxergar dentro de nossos corpos, perceber coisas que no vemos. Algumas pessoas tm sensibilidade e conseguem v-los, 
perceber sua presena, conversar com eles. So os mdiuns. Os bons espritos vm at ns para nos esclarecer e ajudar. Vamos receb-los com alegria e serenidade.
        Ela apagou a luz e deixou acesa apenas uma pequena luz vermelha em um abajur. Josefa explicou:
        - A luz vermelha favorece a que eles se aproximem e possam manipular o ectoplasma, que  a energia que possibilita que eles obtenham efeitos fsicos. A luz 
branca queima grande quantidade de energia e dificulta a comunicao.
        Ela proferiu uma prece, solicitando a presena dos espritos amigos. De repente, Daniel sentiu-se dominado por uma sensao muito agradvel. Apesar da sala 
fechada, ele se sentiu envolvido por uma brisa leve, suave. Ao mesmo tempo foi dominado pelo sono. Ele nem notou que sua cabea pendeu e ele adormeceu.
        Lanira olhava-o preocupada, mas Josefa, imperturbvel, disse:
        - Continuemos orando.
        Daniel viu-se em uma sala muito espaosa, mobiliada com gosto, e um homem de meia-idade, sentado atrs de uma escrivaninha, lia uma carta com ateno. De 
onde o conhecia? Vendo-o entrar, o homem levantou-se dizendo:
        - H muito o esperava. Ainda bem que veio. Sente-se, precisamos conversar.
        Daniel obedeceu, fixando seus olhos nos dele, perguntando-se o que estava acontecendo. Ele se sentou por sua vez e continuou:
        - Voc no vai lembrar-se do passado agora. Chamei-o aqui porque preciso de sua ajuda. H muitos anos demos ouvidos a uma intriga que nos trouxe muita infelicidade. 
Voc expulsou de sua casa seu filho adotivo, e eu tirei-lhe todos os bens. Mais tarde arrependemo-nos e o remorso  a maior tortura que nosso esprito pode sofrer. 
Querendo nos libertar dele, resolvemos juntar nossas foras para tentar refazer nossas vidas e reaver todo o bem que atiramos fora. Voc, a mulher amada, eu, a famlia 
e o respeito prprio. Est entendendo o que estou falando?
        Daniel queria responder mas no conseguia articular palavra. O outro continuou:
        - Quero que preste muita ateno para se lembrar de tudo quando voltar ao corpo. Muitas coisas vo acontecer. Voc j reencontrou Ldia, e os outros j esto 
todos  sua volta.  preciso que no se deixe levar pelas emoes e que desta vez consiga bom senso para fazer o que combinamos. Foi muito penoso para mim ter suportado 
o que suportei tendo que acreditar que meu neto querido estava morto, e depois, quando cheguei aqui, descobrir que havia sido enganado cruelmente pela mesma pessoa 
que eu havia perdoado e desejado ajudar. Devo dizer que fracassei em meus propsitos de reajustar o passado. Voc no pode querer fazer com que os outros mudem s 
porque voc se disps a perdoar seus erros e pretendeu esquecer. Eu confiei em quem ainda no estava maduro para uma vida digna e acabei aqui, lamentando minha ingenuidade. 
Alm disso, fui obrigado a presenciar os crimes que eles cometeram sem que eu pudesse intervir. Confesso que no esperava isso. Pensei que minha boa inteno, meus 
propsitos do bem, seriam suficientes para faz-los mudar, mas no consegui. Por causa disso, hoje a situao tornou-se ainda mais complicada. Quando tudo acontecer, 
eu queria que voc se lembrasse de que, seja o que for que houver, deve ajudar Maria Jlia e Gabriel. Eles precisam muito de nosso apoio.
        Daniel, surpreendido, queria falar, mas no conseguiu.
        - Voc no est conseguindo responder, mas eu posso ler seus pensamentos. Quer saber por que estou lhe pedindo isso. Porque eles continuam vitimados por 
Jos Lus e j tm condies de se libertar. Se quer levar a bom termo esse caso de Marcelo, tem que procurar pelos dois e conversar.
        Daniel pensou que nunca faria isso. Eles no iriam confiar. O Dr. Camargo continuou:
        - No julgue pelas aparncias. Eles esto em dificuldade. Voc  a porta da libertao deles. Chamei-o aqui para pedir-lhe que os ajude. S voc pode fazer 
isso. No se esquea: s voc pode fazer isso. Essa  sua parte. No se esquea.
        Daniel sentiu como se estivesse caindo. Seu corpo ficou pesado. A luz da sala se acendeu e ele abriu os olhos. A sesso havia terminado e as pessoas olhavam-no. 
Ele endireitou o corpo e tentou recordar-se de onde estava. As ltimas palavras do homem ainda ecoavam em seus ouvidos.
        Ele passou a mo pelos cabelos e remexeu-se na cadeira. Fundo suspiro saiu de seu peito.
        - Desde quando voc percebe que sai do corpo? - indagou Josefa com interesse.
        - Eu sa do corpo? - respondeu ele assustado.
        - Saiu. Desde quando vem sentindo essas sensaes? - repetiu ela.
        - H algum tempo tenho tido sonhos esquisitos.
        - Esquisitos, como?
        -  melhor contar - interveio Lanira.
        - Se ele no quer, no precisa. O que eu desejo  que Daniel perceba que tem essa capacidade. Que pode deixar o corpo, encontrar-se com pessoas, deste mundo 
e do astral, e lembrar-se depois. O que aconteceu esta noite? No precisa explicar, s contar o que foi.
        Daniel inquietou-se um pouco:
        - Explicar eu no saberia mesmo. Dormi e sonhei que estava em uma sala onde encontrei...
        - Quem? - indagou Josefa com naturalidade.
        - Bem, por mais estranho que possa parecer, com o Dr. Camargo. Alberto estremeceu. Ele bem que sentira a presena do av. Daniel
        continuou:
        - Ele disse coisas estranhas que no entendi muito bem. Disse que eu no estava me lembrando do passado.
        - E natural. Voc est reencarnado. No se preocupe com as explicaes. Descreva s as palavras que ouviu.
        - No sei se devo. Ele tratou de um assunto muito particular que envolve outras pessoas e que eu no me sinto autorizado a falar.
        - Nesse caso - disse Josefa -, o melhor  voc apanhar uma folha desse papel e escrever tudo que se lembra. No omita nada.  provvel que muitas coisas 
que ele lhe disse voc esquea amanh. Faa isso apenas para fixar a memria. Enquanto isso, passemos para a outra sala, vamos tomar nosso caf.
        Enquanto eles se dirigiram  sala ao lado, Daniel apanhou o papel e o lpis, procurando lembrar-se do que ele dissera. Foi fcil. Pareceu-lhe estar novamente 
naquela sala e ouvir tudo de novo. Escreveu tudo, dobrou o papel e guardou-o no bolso.
        Embora Marcelo, Rubinho e Lanira estivessem curiosos para saber o que o Dr. Camargo tinha dito, tiveram que esperar at que todos os presentes se despedissem. 
Quando se viram a ss com Josefa, Marcelo pediu:
        - Agora conte o que disse meu av.
        - Nesse caso, vou at a cozinha - disse Josefa.
        - Prefiro que fique - tornou Marcelo. - Conto com sua ajuda para nossa causa.
        - Ele tem razo. Precisamos da opinio de quem entende desse assunto - concordou Rubinho.
        - Tia Josefa  perfeita para nos ajudar - confirmou Lanira. Daniel tirou o papel do bolso, leu tudo e finalizou:
        - O mais engraado  que eu queria falar e no podia, mas ele sabia tudo que eu estava pensando e respondia. Chegou a falar de Ldia. Isso me emocionou muito. 
Ele disse que eu era a porta para a libertao de D. Maria Jlia e de Gabriel. No acreditei, mas ele confirmou vrias vezes.
        - Eu senti que D. Maria Jlia podia no ser cmplice - lembrou Rubinho.
        - Eu gosto muito de Gabriel. Ele  uma pessoa especial - declarou Lanira.
        - Mas continuo no entendendo por que eu. Ele quer que eu me aproxime deles. Depois que abrimos o caso na justia, eles esto contra mim. No vo confiar, 
por mais boa vontade que eu tenha. Ele pediu, mas no vai dar certo.
        - Se ele pediu - interveio Josefa com voz firme -,  porque vai ajudar. Quando os espritos querem, eles fazem acontecer. No duvide. Fique atento. Quando 
chegar a hora, no perca a oportunidade.
        - S se for um milagre - tornou Daniel.
        - Vocs aqui em uma sesso j  um milagre. Daniel com essa mediunidade! Que beleza!
        - Preferiria no ter que passar por essas emoes. Fico inseguro, no consigo controlar.
        - E natural. Voc foi criado dentro de regras e de conceitos racionais. Tem medo de tudo que sua cabea no consiga explicar. Quando estudar melhor a natureza, 
descobrir os potenciais do esprito, suas possibilidades, perceber a riqueza da vida e como voc  privilegiado por j estar maduro a ponto de desfrutar desses 
conhecimentos.
        Eles continuaram conversando um pouco mais e combinaram voltar na semana seguinte e participar de outra sesso. Nessa noite, Daniel, deitado em sua cama, 
rememorando tudo quanto havia acontecido, percebeu que a vida era muito mais do que ele acreditava que fosse.
        O passado, embora esquecido, ainda repercutia no presente. Atitudes antigas ainda se repetiam atraindo os problemas no resolvidos. Pessoas e fatos novos 
apareciam em seu caminho, desafiando suas emoes, obrigando-o a rever conceitos, modificar crenas, confrontar sentimentos. Mas apesar de tudo isso, ele sentia 
que era um caminho sem volta que, uma vez aberto  sua frente, ele teria que trilhar.
        
Captulo 13
        
        Alberto saiu do escritrio da empresa em que trabalhava e olhou o relgio. Passava das oito. Tivera uma reunio importante com os membros da diretoria e, 
apesar de cansado, sentia-se muito satisfeito. Fora promovido e alm do salrio*bom havia ainda a possibilidade de progredir muito.
        Sentiu vontade de dividir com algum aquela alegria. Pensou em Lanira. Ela o atraa muito. Bonita, elegante, alegre, inteligente. Tinha todas as qualidades 
que ele desejava em uma mulher.
        Chegou em seu apartamento dez minutos depois e ligou para ela convidando-a para dar uma volta.
        - Eu vou. S que no posso voltar tarde. Est bem?
        - Est. Passarei em sua casa dentro de dez minutos.
        Ela foi se arrumar. Seus pais haviam ido a uma recepo e s estariam de volta depois da meia-noite. Ela pretendia chegar antes deles para no ter que dar 
explicaes. Sabia que eles no concordariam que ela sasse com Alberto. Principalmente o pai, que o tinha como falsrio.
        Uma vez no carro com ele, Lanira disse:
        - Hoje estou como cinderela. Terei que voltar antes da meia-noite. Ele riu alegre. Ela continuou:
        - Voc deveria rir mais. Fica muito melhor sem aquele ar de tragdia que costuma ter.
        -  que estou alegre. Fui promovido hoje. Vou poder comprar aquele carro novo que eu queria.
        - Parabns! Por isso quis sair.
        - Foi. Queria dividir com algum minha alegria. Sempre fui tmido, nunca tive com quem compartilhar minhas emoes. Vocs so meus nicos amigos.
        - Deve ter sido duro para voc ter vivido toda a sua vida sozinho, sem famlia.
        - Foi. Durante muitos anos acreditei ter sido rejeitado por meus pais. Isso me tornou retrado, desconfiado. Apesar de tudo, fiquei aliviado ao descobrir 
a verdade.
        Ao lado de Lanira, Alberto sentia vontade de falar de sua vida, de seus sentimentos. O olhar dela como que penetrava nele de tal sorte que ele se sentia 
seguro o bastante para fazer confidencias como nunca fizera com ningum antes.
        Lanira sentia que ele se posicionava com sinceridade e isso a emocionava. Sentia que podia confiar nele. Desde que comearam a ir todas as semanas s sesses 
em casa de tia Josefa, eles haviam se aproximado mais. A tia os convidava para o ch nas tardes de domingo ou para conversar aos sbados  noite quando reunia em 
casa alguns amigos.
        Como Daniel no comparecia e Rubinho preferia sair com Marilda, apenas Alberto e Lanira gostavam desses encontros em que se podia conversar de tudo, principalmente 
de assuntos espirituais.
        Naquela noite eles conversaram muito no s sobre o trabalho dele como tambm sobre sua forma de ver a vida. Percebendo o interesse dele, que vrias vezes 
segurara sua mo e fizera meno de abra-la e at de beij-la, Lanira resolveu conversar.
        - Gosto muito de voc - disse de repente. - Mas no estou pronta para namorar.
        - O qu? - disse ele surpreendido.
        - O que voc ouviu. Gosto de voc, mas no pretendo namorar ningum. Tenho horror ao casamento, pelo menos por enquanto. Noto que voc est sentindo atrao 
por mim. No desejo que nossa amizade acabe.
        - Quer dizer que se eu quiser namorar voc, acaba nossa amizade?
        - Se voc se apaixonar, vai querer controlar minha vida, insistir, e no vai dar mais para sermos amigos. Eu quero manter nossa amizade.
        Sem que ela esperasse Alberto abraou-a e beijou-a longamente nos lbios. Apanhada de surpresa, Lanira sentiu o corao disparar e um forte rubor subiu-lhe 
nas faces. Ele a largou, respirou fundo, depois abraou-a novamente, beijando-a apaixonadamente.
        Lanira no soube o que dizer. A surpresa paralisara-a. Nunca ningum fizera isso com ela. Ficou sem ar e no conseguiu articular palavra. Alberto apertava 
sua mo e iria beij-la de novo quando ela conseguiu dizer:
        - Por que fez isso?
        - Porque no consegui me controlar. Desde que a conheci, desejava beij-la.
        - Voc no devia ter feito isso. No ouviu o que eu disse? No pretendo namorar.
        - Se no quer me namorar, o que posso fazer? O que eu no pude foi olhar para voc sem beij-la.
        Olhando-a nos olhos, ele fez meno de beij-la novamente. Ela o empurrou dizendo:
        - Vamos embora. Leve-me para casa. Voc no deveria ter feito isso. Ele ligou o carro e levou-a para casa. Foram em silncio durante todo
        o trajeto.
        - Voc est zangada?
        - Estou.
        - No tem razo - apanhou a mo dela e levou-a aos lbios com carinho. - No quis ofend-la. Foi mais forte do que eu. Ainda agora sinto uma vontade louca 
de beij-la de novo.
        - Vou entrar. Boa noite.
        Ela abriu a porta do carro e saiu apressada. Seu corao batia forte e ela correu para dentro sem olhar para trs.
        Alberto suspirou fundo. Aquele beijo deixara-o excitado e ele intimamente sentiu que faria tudo para ter aquela mulher. Acionou o carro pensando no que faria 
para conquistar definitivamente o amor de Lanira. Ia to distrado que nem percebeu que seu carro estava sendo seguido.
        Ao chegar diante do prdio de apartamentos em que morava, colocou o carro na garagem e foi esperar o elevador quando, de repente, surgiram dois homens mascarados 
apontando um revlver e agarraram-no. Um deles disse:
        - Fique calado seno voc morre!  um assalto. Alberto sentiu um arrepio de medo.
        - O que vocs querem? Podem levar o dinheiro.
        - Ns queremos voc. Vamos andando.
        Empurraram-no e um deles imediatamente colocou um capuz na cabea de Alberto, que, atordoado pela surpresa, foi jogado para dentro de um carro que arrancou 
em alta velocidade.
        Rodaram durante algum tempo em silncio, sem responder as perguntas que Alberto de quando em quando fazia. Por fim pararam e ele foi puxado para fora. Entraram 
em uma casa e ele sentiu um cheiro forte de mofo. Tiraram seu capuz e um deles o empurrou para dentro de um pequeno aposento, fechando a porta pelo lado de fora.
        Alberto passou os olhos pelo quarto. A casa era antiga. Havia uma janela de madeira, com uma trava de ferro e um cadeado. Uma cama de solteiro, um criado-mudo 
com um abajur barato, o mesmo cheiro desagradvel de mofo. Havia outra porta que Alberto abriu. Era um pequeno banheiro. No alto um pequeno vitr que ele imediatamente 
abriu para que entrasse um pouco de ar.
        A noite estava quente. Alberto tirou o palet e a gravata, abrindo a torneira da pia e molhando o rosto na tentativa de refrescar um pouco.
        Quem seriam aqueles homens? Se fosse um assalto, teriam levado seu carro, seu dinheiro, at subido a seu apartamento para roubar. Mas no. Angustiado, ele 
se lembrou do pedido de Jonas para que tivesse cuidado.
        Por que no lhe dera ouvidos? Aqueles homens s podiam ser mandados por Jos Lus e Bris. Se isso fosse verdade, sua vida estava correndo srio perigo. 
Eles fariam tudo para livrar-se dele. Se no o mataram  queima-roupa foi porque pretendiam faz-lo de forma a no despertar nenhuma suspeita.
        Tentou forar a porta do quarto, mas foi intil. Ele ouvira o rudo do carro saindo. Eles o haviam deixado s. Foi at a janela, mas no tinha como abri-la.
        Em sua angstia, lembrou-se do av. Ajoelhou-se ao lado da cama e rezou pedindo ajuda. S Deus poderia socorr-lo naquela hora difcil.
        Lanira entrou em casa nervosa. At ento Alberto havia sido comedido, respeitoso. O que dera nele para beij-la daquele jeito? Apesar de tudo, ela sentia 
o corao bater descompassado quando recordava aqueles beijos. Sempre se julgara imune  tentao e ria quando os rapazes lhe dirigiam galanteios.
        Deveria ter reagido com mais fora. Mas ao mesmo tempo estremecia lembrando-se do brilho dos olhos dele, do beijo carinhoso em sua mo. O que estaria acontecendo 
com ela? Estaria ficando fraca?
        Deitou-se mas custou a dormir. A lembrana dos beijos de Alberto no a deixava e ela se inquietava, virando na cama, tentando encontrar uma explicao para 
o que estava sentindo.
        Na manh do dia seguinte Rubinho procurou Daniel dizendo:
        - Estou esperando Alberto para fazermos aquela reunio sobre a audincia e ele no apareceu. Liguei para o escritrio dele: no foi trabalhar.
        - Ligou para o apartamento ?
        - Ningum atende.
        - Estranho. Ele nunca faltou a nenhuma reunio nossa. Tem certeza de que ele sabia que era hoje?
        - Tenho. Ontem falei com ele para confirmar.
        - Vou ligar para o apartamento novamente.
        Daniel tentou mas o telefone tocou, tocou e ningum atendeu.
        - Vai ver que ele saiu. Logo deve estar chegando.
        Mas chegou a hora de almoo e ele no apareceu. Rubinho ficou preocupado:
        - Vou at a casa dele.
        - Vou com voc.
        Chegaram ao prdio onde Alberto morava e falaram com o porteiro. Ele s vira Alberto sair para o trabalho no dia anterior.
        - Eu fui bater no apartamento porque achei a chave do carro dele no cho da garagem, perto do elevador. Mas ningum atendeu. Como o carro dele est na garagem, 
pensei que ele deve ter sado com algum amigo e nem percebeu que derrubou a chave.
        Os dois advogados olharam-se assustados.
        - Tem certeza de que o carro dele est na garagem?
        - Tenho. Vocs podem ver.
        Os trs foram ao subsolo e viram o carro.
        - O zelador tem as chaves dos apartamentos. Somos os advogados dele. Achamos que ele est correndo perigo de vida. Vamos examinar o apartamento.
        O zelador imediatamente abriu o apartamento, mas l no havia ningum.
        - O que faremos? - disse Daniel. - Vamos chamar a polcia?
        - Vamos avisar Jonas.
        Dali mesmo ligaram para Jonas informando-o do ocorrido. Em menos de meia hora ele estava no apartamento de Alberto com um investigador. Examinaram tudo e 
no encontraram nada.
        - Ao que parece ele no entrou em casa. Tudo indica que chegou aqui, colocou o carro na garagem e quando ia tomar o elevador deve ter sido agredido e levado 
para algum lugar - concluiu o investigador.
        - Espero que no o tenham matado - disse Jonas. - Eu preveni. Estamos lidando com assassinos da pior espcie. Ns o vigiamos, mas nem sempre pudemos estar 
ao lado dele.
        - O que faremos? - perguntou Daniel inquieto.
        - Marcos vai avisar no departamento dele para que dem uma busca. Precisamos de fotos.
        Eles procuraram no apartamento e encontraram algumas em um lbum.
        - A audincia ser dentro de uma semana. Foi por causa disso que eles agiram - lembrou Rubinho.
        - Se ele no comparecer, o trabalho ser prejudicado - comentou Daniel.
        - Se ele estiver morto, eles sero indiciados. Isso eu prometo. Com as provas que tenho, ns os colocaremos na cadeia - disse Jonas.
        - Se ele estiver vivo em algum lugar, ns o acharemos. Estou comeando a implicar com esses malvados. Depois de tudo quanto fizeram com o moo, ainda querem 
dar cabo dele. Vou me empenhar, vocs vo ver.
        - Vou redobrar a vigilncia em Bris. No podemos perder um minuto. O Dr. Jos Lus nunca faria nada pessoalmente. Bris  quem d as cartas para ele.  
nele que precisamos centrar nossa ateno.
        - Voc est certo, Jonas - concordou Daniel. - A amante dele tambm tem que ser vigiada.
        - Pode deixar - garantiu Jonas. - Vamos embora. Nada mais temos que fazer aqui.
        Deu um carto ao zelador, dizendo:
        - Qualquer coisa estranha que acontea, ligue para ns. Qualquer pista pode ser a chave para salvar Alberto.
        Rubinho e Daniel voltaram ao escritrio preocupados. Daniel ligou para Lanira e contou-lhe o que havia acontecido.
        - Estivemos juntos ontem at as onze e meia - disse ela assustada.
        - Verdade? Seria bom que viesse at aqui para nos contar tudo.
        - Irei. Pode esperar.
        Naquela tarde, Maria Jlia procurou Gabriel.
        - Queria que voc me acompanhasse a uma visita a Carolina. Ele a olhou admirado, mas ela lhe fez pequeno sinal e ele respondeu:
        - Est certo. Quando quer ir?
        - Agora. Prometi estar l antes das quatro. Quando se viram no carro, ela disse:
        - Precisamos conversar. Estou preocupada.
        - Aconteceu alguma coisa?
        - Aconteceu. Ouvi Jos Lus conversando com Bris. Eles pretendem resolver definitivamente o caso com Marcelo.
        - Como assim? Ele vai dizer a verdade?
        - Nada disso. Eles querem acabar com ele. Gabriel parou o carro dizendo nervoso.
        - Um crime? Com isso ns no podemos consentir. Temos que dar parte na polcia.
        Maria Jlia agarrou o brao do filho dizendo aflita:
        - Isso no! Voc no vai fazer isso.
        - Me, no podemos permitir que eles tirem a vida de uma pessoa. Isso  crime e no estou disposto a carregar esse peso.
        - Polcia, no. De forma alguma. Temos que arranjar outro jeito.
        - Tem certeza do que est dizendo? O que voc ouviu?
        - Eles estavam falando em voz baixa. No me viram. Eu ia ao cabeleireiro, cheguei a ir at o carro, mas mudei de idia, voltei e sentei-me na poltrona do 
hall para descansar m pouco. A porta do escritrio estava aberta e eles conversavam. Bris dizia:
        - "Ele j est preso l. Temos que decidir como vamos fazer. Ele no pode comparecer  audincia de jeito nenhum. Estive lendo os autos. Eles tm inmeras 
provas. Temos que agir depressa. Vou falar com Antunes e faremos tudo de jeito que parea acidente."
        - "No quero mais gente metida nisso. Voc pode fazer tudo sozinho."
        - "No d. Antunes ajudou-me a apanhar o pato, no vai abrir o bico. Tem mais interesse em ficar calado do que ns. Depois, ele gosta muito de dinheiro."
        - "Esse  meu medo. Dinheiro. Ele pode querer chantagear, como Eleutria."
        - "Antunes no far isso. J tem trabalhado para ns e fez tudo direitinho. Aceita o dinheiro e pronto. Nunca fez chantagem."
        - "Est bem. Faa isso. Mas no quero que ningum desconfie."
        - Ento, meu filho - finalizou * -aria Jlia -, eu sa dali e fui esconder-me no quarto.
        - Me,  fora de dvida que eles pretendem acabar com o moo. Temos que ir  polcia. No podemos deixar isso acontecer. Estou chocado. Ele ameaou voc! 
Quer vingar-se. Temos que denunci-lo.
        - Prometa que no far isso. Pelo amor de Deus!
        - Por que tem tanto medo assim, me? H alguma coisa que no me contou?
        - E que, quando a polcia descobrir a verdade, serei presa como cmplice. Fiquei calada durante todos esses anos.
        - Arranjaremos bons advogados. Voc foi coagida. Teve medo.
        - Ainda assim, no quero que v  polcia.
        Ela apertava o brao dele desesperada. Vendo sua aflio, ele no insistiu.
        - Acalme-se. Vamos pensar em outra coisa. Voc no pode deixar que eles saibam que escutou a conversa. Tenho medo de que se voltem mais ainda contra voc. 
Vamos nos acalmar e pensar em outra soluo.
        - Isso sim.
        - Enquanto isso procure se acalmar. Trate de controlar-se para que em casa ningum note nada.
        Gabriel fez o que pde para que Maria Jlia ficasse mais calma, entretanto ele se sentia preocupado, aflito.
        - Seria bom que voc fosse mesmo ao cabeleireiro, porque assim ningum desconfiaria de nada.
        - No estou com disposio para isso.
        - Por isso mesmo. Vai fazer-lhe bem e no despertar suspeitas. Deix-la-ei l e mais tarde virei busc-la.
        Depois de deix-la no cabeleireiro, Gabriel entrou no carro preocupado. Ele precisava fazer alguma coisa. Mas o qu? Sua me temia a polcia. O jeito era 
tentar encontrar Marcelo e libert-lo. Mas para onde o teriam levado? Precisava descobrir.
        Inquieto, no conseguia deixar de pensar, tentando encontrar uma soluo satisfatria. A cabea doa-lhe, e quanto mais pensava menos encontrava sada. A 
nica coisa que ele sabia era que no queria que esse crime se consumasse. Precisava fazer alguma coisa, mas o qu?
        Passava das seis quando apanhou a me no cabeleireiro e voltaram para casa. Ele, recomendando-lhe calma, foi para o quarto. Precisava pensar, encontrar uma 
alternativa. Precisava vigiar Bris. Ele estava em casa, ficaria atento, no iria dormir. Se ele sasse, iria atrs sem que ele notasse.
        Apesar disso, Gabriel no conseguia acalmar-se. De repente um temor o assaltou. E se Antunes fizesse tudo sem Bris, para no despertar suspeitas? Levantou-se 
da poltrona e comeou a andar de um lado a outro do quarto. Ele no podia esperar. Um minuto poderia ser tarde demais. Tinha que fazer alguma coisa.
        Decidido, apanhou o telefone e ligou para Lanira. Pouco depois ela estava ao telefone:
        - Al.
        - Como vai, Lanira?
        - Gabriel!!
        - Sim. Desculpe incomod-la, mas preciso conversar com voc urgente. Por favor.
        - Est certo.
        - Vou passar a dentro de dez minutos. Obrigado por me atender.
        - Estarei esperando.
        Ela desligou e Maria Alice aproximou-se interessada:
        - Era o Gabriel?
        - Era. Vamos dar uma volta. Ele quer conversar.
        - Vai ver que se arrependeu e deseja reatar a amizade.
        - Pode ser, mame.
        Lanira no disse que percebera o nervosismo dele. Sua voz estava trmula. O que ele desejaria? Teria alguma coisa a ver com Alberto?
        Quando ele passou, ela j estava no porto esperando. Ele desceu do carro e, depois de cumpriment-la, disse:
        - Vamos dar uma volta.
        Ela entrou no carro e ele tornou:
        - Estou muito angustiado e, nesse momento, a nica pessoa que eu senti que poderia ajudar-me  voc. Por isso, apesar de tudo resolvi procur-la. Voc ainda 
sente alguma amizade por mim?
        - Claro. Devo lembrar que telefonei vrias vezes e foi voc quem nunca quis me atender.
        - Eu sentia vergonha. Entretanto, hoje, em minha angstia, voc no me saiu do pensamento. Eu preciso que me ajude. Eu queria ir  polcia, mas minha me 
no quer de forma alguma. Ela tem medo. E eu no quero que nada de mal lhe acontea.
        - Voc sabe alguma coisa sobre o desaparecimento de Alberto?
        - Sei o suficiente para ficar apavorado. Temos que fazer alguma coisa. Impedir que eles cometam esse crime.
        - Temos que pedir ajuda para Daniel e Rubinho. Sozinhos no podemos fazer nada. E bom que saiba... que estamos lidando com criminosos.. . - ela parou com 
medo de mago-lo.
        Ele finalizou:
        - Perigosos. Ningum mais do que eu sabe disso. Antes eu nada sabia, mas, agora que eu sei, no desejo de forma alguma ser cmplice desse crime. Temos que 
impedir, e no sei como.  melhor no falar com Daniel e Rubinho. Eles iro  polcia e tudo estar perdido. Minha me no vai suportar.
        - No h outro jeito. Infelizmente sua me foi cmplice deles e por causa disso voc no pode deixar que outro crime acontea. Ela precisa reconhecer isso.
        - Ela no foi cmplice. Foi coagida por eles. Ameaada. Arriscou a prpria vida para salvar Marcelo da morte e cuidou de seu bem-estar enquanto lhe foi possvel.
        - Nesse caso, ela deveria juntar-se a ns e no defender esse homem que infelizmente  seu pai.
        - Nunca nos demos bem. Apesar das aparncias, ele sempre maltratou minha me. Ela suportou tudo. Estou sempre me perguntando por qu. Se ela tivesse querido 
separar-se dele, eu a teria apoiado. Mas no sei, s vezes chego a pensar que existe algum segredo, alguma coisa que a impede de fazer isso e que a obriga a suportar 
tudo que ele quer.
        - Pode ser. Nunca tentou descobrir?
        - Minha me e eu nos damos muito bem. Ela confidencia muitas coisas, mas quando toco nesse ponto ela se retrai. Nunca consegui nada.
        - Rubinho acertou. Outro dia ele aventou essa hiptese.
        - Verdade?
        - Sim. Mas  difcil para ns saber como as coisas se passaram realmente. Ele sempre admirou sua me e tem dificuldade em aceitar que ela houvesse sido cmplice 
desses crimes.
        - Desses crimes?
        Lanira mordeu os lbios. No desejava que Gabriel se sentisse ainda mais por baixo, relatando as suspeitas de que eles teriam acabado com a famlia inteira. 
Por isso disse:
        - . Afastar Marcelo da famlia, tirar a herana, etc.
        - Ah!
        - Ns devemos procurar Rubinho e Daniel. Depois, h Jonas, um detetive particular nosso amigo que pode nos ajudar a encontrar onde eles esconderam Alberto 
antes que seja tarde. Alguma coisa me diz que no podemos facilitar.
        Gabriel ficou pensativo e Lanira continuou:
        - O que poderamos fazer ns dois? Juntos podemos nos dividir. Jonas pode seguir Bris.
        - H Antunes. Algum precisa vigi-lo.
        - Garanto que faremos tudo discretamente. A polcia no incomodar sua me.
        Ele resolveu:
        - Est bem. Alguma coisa tem que ser feita. No consigo ficar com isso sem tomar providncias.
        Lanira colocou a mo sobre o brao de Gabriel com carinho:
        - Gosto muito de voc, Gabriel. Pode contar comigo, acontea o que acontecer.
        Ele olhou para ela emocionado, olhos brilhantes, aproximou-se e beijou-a nos lbios demoradamente. Lanira sentiu que forte emoo tomava conta de seu corao. 
Apertou-o nos braos com fora, retribuindo o beijo. Depois, separou-se dele dizendo:
        - Vamos at a casa de Daniel. No podemos perder tempo. Daniel recebeu-os surpreendido. Lanira foi logo dizendo:
        - Gabriel precisa de ajuda.
        - Entrem, por favor.
        - Rubinho no est?
        - No. Ele saiu com Marilda. Sentem-se, por favor.
        Gabriel sentou-se no sof olhando Daniel sem coragem para falar. Estava arrasado e Lanira tentou ajud-lo.
        - Ele e D. Maria Jlia esto desesperados. Ela ouviu uma conversa entre Bris e o Dr. Jos Lus. Fale sem rodeios, Gabriel. Daniel vai fazer tudo para ajudar.
        - Isso mesmo, Gabriel. Conte o que sabe. Ns queremos a verdade.
        - A verdade - comeou ele com voz trmula - s fiquei sabendo h pouco tempo, quando o escndalo estourou e minha me, angustiada, me contou como as coisas 
haviam acontecido. Preciso dizer que ela no foi cmplice deles e tudo fez para salvar Marcelo e foi atravs da ajuda de Alberico, o motorista, que ela conseguiu 
fazer isso. Eles armaram um plano e ela o levou para a Inglaterra, esperando que um dia pudesse desmascarar os culpados e faz-lo voltar para sua famlia. Mas as 
mortes do Dr. Camargo e dos pais de Marcelo impediram-na de fazer isso.
        - Por que ela no foi  polcia? Se tivesse feito isso, no seria arrolada como cmplice.
        - Eis o que ainda no posso compreender, Daniel. Minha me tem muito medo de meu pai. Ele a domina completamente. Nunca suportei a maneira como ele a trata 
na intimidade. Nunca nos demos bem. Se ainda no deixei a casa, foi para ficar perto dela e defend-la, principalmente de Bris, a quem no toleramos e que goza 
de todas as regalias, chegando a mandar em tudo, at em meu pai.
        - Temos informaes de que  um aventureiro da pior espcie - esclareceu Daniel. - Ele ajudou seu pai no caso de Marcelo e deve ter feito muitas outras coisas. 
 um sujeito perigoso. Voc sabe alguma coisa sobre o desaparecimento de Alberto?
        Daniel relatou tudo que tinha acontecido, finalizando:
        - Estamos desesperados. No podemos permitir que esse crime ocorra. Minha me tem medo da polcia. Lanira no me saa da cabea. Conhec-la foi a melhor 
coisa que aconteceu em minha vida. Por isso, procurei-a e ela me garantiu que voc pode ajudar-nos. De minha parte, quero colaborar. Farei qualquer coisa para salvar 
Alberto, mas preciso proteger minha me. Eles a ameaaram. Se descobrirem que ela ouviu tudo e me contou, podero maltrat-la. E isso no posso permitir.
        - Compreendo, Gabriel. Voc tem razo quanto ao perigo que esto correndo. Teria condies de sair de casa com ela, viajar para algum lugar sem que eles 
suspeitassem? Assim, estariam protegidos.
        - Gostaria de v-la longe deles mesmo. No sei se ela vai aceitar. Laura no sabe de nada e se deixar a faculdade vai despertar suspeitas. No gostaramos 
de deix-la sozinha com eles, principalmente por causa de Bris. Ele  capaz de tudo. Quanto a mim, prefiro ficar por perto e ajudar a esclarecer tudo. Seja o que 
for que tiver que enfrentar na justia,  melhor do que esta sensao de vergonha, culpa, cumplicidade.
        - O mais urgente  descobrir o paradeiro de Alberto. Os minutos so preciosos levando-se em conta que eles podem agir de uma hora para outra - ponderou Daniel.
        Apanhou o telefone e ligou para Jonas, pedindo-lhe que fosse imediatamente a seu apartamento. Enquanto esperavam, Lanira preparou um caf e Daniel tentou 
acalmar Gabriel, que estava muito nervoso.
        Jonas chegou quinze minutos depois e inteirado de tudo imediatamente telefonou para o investigador que estava acompanhando o caso e pediu-lhe que vigiasse 
Antunes.
        Quando desligou o telefone, tornou:
        - Esse malandro do Antunes tem ludibriado a polcia durante muitos anos. Acho que chegou a hora de o colocarmos atrs das grades. Se o apanharmos em flagrante, 
no ter como escapar. O danado tem as costas quentes. Polticos importantes protegem-no porque, se ele abrir o bico, muitas cabeas podero rolar, a julgar pelo 
que se diz por a,  boca pequena...
        - Nesse caso ser intil prend-lo. Logo estar de novo em liberdade - concluiu Daniel.
        - No se tivermos provas concludentes. Seqestro  crime, e se o apanharmos com a boca na botija, no haver influncia de nenhum "padrinho poltico" que 
o liberte.
        Dirigindo-se a Gabriel, Jonas prosseguiu:
        - Voc foi corajoso, meu rapaz. Garanto que no se arrepender de haver-nos procurado.
        - Farei tudo para poupar minha me. Nisso tudo ela tem sido mais uma vtima. Quanto a mim, estou disposto a ajudar. Quero salvar Alberto e devolver-lhe o 
que lhe  de direito. No quero nada desse dinheiro que foi conseguido de forma to vil.
        Jonas olhou-o admirado. E no se conteve:
        - No tem receio de ficar pobre? Sempre viveu no luxo.
        - Sou jovem e posso trabalhar, recomear minha vida de maneira digna. Tenho certeza de que conseguirei sustentar minha me e minha irm.
        Lanira aproximou-se e segurou a mo de Gabriel, apertando-a com fora. Tinha os olhos midos. Daniel sentiu-se comovido tambm com a atitude digna que ele 
conseguia assumir em um momento to difcil como o que estava enfrentando. Aproximou-se dele, abraando-o e dizendo:
        - Voc tem todo o nosso respeito. Estamos orgulhosos de contar com sua confiana. Pode ter certeza de que tudo faremos para defender D. Maria Jlia. Alm 
da ajuda profissional, gostaria de ser seu amigo.
        Gabriel retribuiu o abrao de Daniel, sentindo os olhos marejarem. Fez grande esforo para conter as lgrimas.
        Jonas pigarreou tentando esconder a comoo e disse com voz que se esforou para tornar firme:
        - Sua ajuda nos ser de grande valia. Quero que vigie Bris, procure ouvir tudo quanto ele fala com seu pai, ou ao telefone, etc. Qualquer novidade, comunique-nos. 
Vou dar-lhe os nmeros de telefone de contato em que pode ligar para mim ou para Marcos. Se no estivermos, deixe o recado. Tome cuidado. Eles so perigosos. Agora 
eu vou indo.
        Depois que Jonas se foi, Lanira tornou:
        - Precisamos telefonar para tia Josefa. Ela pode nos ajudar. - Voltando-se para Gabriel, continuou: - Ela faz sesses espritas em sua casa. Ns temos ido 
assistir. E pessoa de muita f. Alberto afirma que o esprito de seu av o tem seguido e ajudado. Podemos tentar falar com ele. Talvez nos conte onde Alberto est.
        - Voc acha isso possvel? - indagou Daniel. Foi Gabriel quem respondeu:
        - E possvel, sim, se ele puder responder.
        - Voc acredita nos espritos? - disse Lanira surpresa. - Nunca me disse nada.
        - S falo nesse assunto quando as pessoas mencionam-no. E assunto delicado e controverso. S para os que entendem.
        - Voc parece que  um deles - tornou Daniel admirado.
        - Desde criana sinto a presena dos seres de outras dimenses. Quando era adolescente, minha sensibilidade aumentou e eu me senti muito perturbado. Ia da 
euforia  depresso, passava mal sem que os mdicos conseguissem diagnosticar a doena. Por fim, conheci uma pessoa que me ajudou muito explicando o que estava acontecendo 
comigo, indicando-me livros srios para que eu estudasse o assunto. Isso me ajudou e consegui me equilibrar. Eu sei que todos ns somos bombardeados por energias 
das pessoas que esto  nossa volta e tambm pelos espritos dos que j morreram. Tive inmeras provas. Vamos conversar com sua tia. A ajuda espiritual  fundamental 
em um caso como o nosso.
        Daniel sacudiu a cabea e sorriu. Aquela era a noite das surpresas.
        - J passa das dez. No  tarde para falar com ela? - objetou.
        - No - contraps Lanira.-Tia Josefa nunca dorme antes da meia-noite.
        - Nesse caso, faa isso - concordou Daniel.
        Lanira ligou para Josefa como o objetivo de coloc-la a par dos ltimos acontecimentos.
        - Hoje mesmo vou telefonar para os mdiuns e pedir oraes. O momento  de f e de confiana. Amanh  dia de nossa reunio. Traga tambm Gabriel. Sinto 
que esse moo est realmente abalado. Vamos confiar em Deus, que tudo dar certo.
        Lanira combinou fazer o possvel para comparecer  sesso na noite seguinte. Gabriel lembrou:
        - Talvez eu tenha que ficar em casa vigiando os passos de Bris. Ser que ele saiu hoje?
        - No se preocupe com isso agora. Bris est sendo vigiado. Se ele saiu, foi seguido. Quanto a Antunes, precisamos torcer para que ele no tenha feito nada 
at o momento em que voc nos procurou e Marcos colocou uma pessoa para segui-lo.
        - E melhor eu ir embora. Vamos, Lanira, eu a deixarei em casa.
        Eles saram e Daniel, pensativo, sentou-se no sof. A vida tinha surpresas e ele se perguntava o que viria ainda. Lembrou-se da primeira sesso em casa de 
tia Josefa, quando o Dr. Camargo lhe pedira para proteger Maria Jlia e Gabriel. Ele no atendera seu pedido e no fora procur-los, mas ele acabou sendo procurado. 
O esprito do Dr. Camargo teria alguma coisa a ver com isso? Era muito provvel que sim.
        No pde deixar de pensar em Ldia e nas emoes que a presena dela lhe causava, nos misteriosos sonhos que tanto o impressionaram e, principalmente, no 
sentimento de amor que, embora Daniel fizesse muito esforo para reprimir, teimava em descompassar seu corao quando pensava nela.
        Levantou-se e procurou o papel em que anotara as palavras do Dr. Camargo. Com ele nas mos, sentou-se no sof e leu novamente. Conforme
        dissera Gabriel, Maria Jlia deveria ser vtima do marido para que o Dr. Camargo intercedesse em seu favor.
        Ela deveria ser inocente, e, nesse caso, ele deveria mesmo defend-la dali para a frente. Pensou no esprito do Dr. Camargo e pediu-lhe ajuda para que encontrasse 
a maneira mais adequada de fazer isso.
        
        
        
Captulo 14
        
        Gabriel chegou em casa preocupado. Procurou pela me.
        - Voc est bem?
        - Preocupada com voc. Aonde foi?
        - Depois eu conto. Aqui tudo est em paz?
        - Est.
        Maria Jlia fez-lhe pequeno sinal para que no dissesse nada. Ela vivia atormentada. Bris sempre descobria tudo que ela fazia ou dizia dentro de casa. s 
vezes desconfiava que ele houvesse colocado alguma escuta nos aposentos s para vigi-la. Ele sabia que ela no concordava com o que eles faziam. Sabia que ela era 
sua inimiga e que gostaria de v-lo pelas costas.
        Gabriel assentiu de leve com a cabea, apanhou um papel na gaveta e escreveu:
        "Venha a meu quarto  noite quando todos estiverem dormindo. Temos que conversar."
        Ela leu, concordou com a cabea e ele amassou o papel e guardou-o no bolso.
        - J jantou?
        - No, mas estou sem fome.
        Mas Maria Jlia insistiu e levou-o  copa, onde preparou um lanche, forando-o a comer. Conversaram de assuntos triviais e depois cada um foi para seu quarto.
        Passava das duas da madrugada quando Maria Jlia procurou Gabriel em seu quarto. Aproximou-se do leito dizendo baixinho:
        - Gabriel.
        - Estou acordado, me. No consigo dormir.
        - Afaste-se. Vou deitar a seu lado. Depois de acomodar-se, ela pediu:
        - Conte tudo.
        Em poucas palavras Gabriel contou o que havia feito e Maria Jlia assustou-se:
        - Meu filho! No podia ter feito isso! Se eles descobrem, nem sei o que faro!
        - Foi preciso, me. No podemos pactuar com um crime. Lanira  minha amiga de verdade e Daniel  um homem de bem. Compreendeu nossa situao e vai nos ajudar. 
Jonas  investigador particular e amigo da polcia. Faro tudo discretamente.
        Maria Jlia estava apavorada. Tremia e esfregava as mos aflita.
        - Calma, me. Fiz o que tinha que ser feito. Nada nos acontecer. Eu sei. Deus vai nos ajudar. Ns estamos do lado do bem.
        - A vergonha, o descrdito... Nosso nome na lama...
        - Infelizmente no  nossa culpa. Sempre temos sido pessoas de bem.  melhor suportar a maldade alheia do que pratic-la. S peo a Deus que ainda haja tempo 
de salvar Marcelo e que no tenhamos que lamentar e carregar o peso desse crime.
        Maria Jlia rompeu em soluos e Gabriel abraou-a fortemente, tentando confort-la:
        - Me, no fique assim. Tudo vai dar certo.
        - Teremos que deixar esta casa, devolver o dinheiro, suportar a vergonha, a pobreza. No sei se resistirei vendo vocs passarem por tudo isso.
        - Claro que resistir. Vamos superar este momento difcil. Sou jovem, forte, posso trabalhar. Garanto que nada vai faltar a vocs.
        - Sonhei para voc um brilhante futuro!
        - Eu sei, me. Mas com pacincia e honestidade chegaremos l. Tenho certeza de que tudo vai passar e ns trs reconstruiremos nossas vidas. Podemos nos mudar 
para outra cidade, outro pas, viveremos felizes e livres. Nossa conscincia estar em paz. Vamos, no chore mais. Quer que eles desconfiem? Conto com sua ajuda. 
Chegou a hora de nos livrarmos de Bris e das maldades de meu pai.
        Maria Jlia suspirou profundamente. Apertou Gabriel nos braos, dizendo:
        - Seja o que for que venha a acontecer, lembre-se de que eu amo muito voc e sempre fiz tudo para v-lo feliz.
        - Eu sei, me. Eu tambm amo voc e no gosto de v-la sofrer. Vamos, enxugue as lgrimas e trate de se acalmar. Tudo vai dar certo, voc vai ver. Quero 
que me ajude a vigiar os dois e me conte tudo que observar. Depois que eu sa, percebeu alguma coisa diferente?
        - No. Bris foi para o quarto e Jos Lus para a clnica. Laura para o quarto. O que far quando souber?
        - Por enquanto vamos deix-la fora disso. E melhor poup-la.
        - Concordo. Fui para meu quarto, apaguei a luz e esperei que Jos Lus se recolhesse para o quarto dele. Quando tudo estava silencioso, vim para c.
        - Agora, v descansar. Vou tentar dormir. Quero levantar cedo amanh para observar. No esquea: qualquer coisa diferente, um telefonema, uma conversa entre 
eles, comunique-me imediatamente.
        Ela se levantou, beijou o rosto de Gabriel com carinho.
        - Durma bem, meu filho.
        - Est mais calma?
        - Estou. Com voc do meu lado, est tudo bem.
        - Sempre estarei do seu lado, acontea o que acontecer. Procure descansar. Amanh  outro dia.
        Depois que ela se foi procurando no fazer barulho, Gabriel levantou-se, entreabriu a porta e ficou olhando o corredor, at a me entrar no quarto e fechar 
a porta. Quando ia deitar-se, novamente sentiu sede e no escuro foi at a cozinha para tomar gua. Notou que a luz do quarto de Bris estava acesa. O que estaria 
fazendo quela hora da madrugada?
        Precisava saber. Encostou o ouvido na porta e ouviu que ele conversava ao telefone, mas por mais que se esforasse no conseguiu entender o que dizia. P 
ante p, abriu a porta da cozinha, deu a volta pelo jardim at a janela do quarto de Bris e encostou o ouvido na veneziana.
        - Precisamos fazer bem-feito - dizia ele. - Ningum pode desconfiar de nada. Por causa da audincia, vo suspeitar de Jos Lus. Isso no pode ocorrer. Tem 
que parecer acidente.
        Ele fez uma pausa, depois continuou:
        - Eu sei... eu sei... Est certo. Vou ajudar. Bem que voc podia fazer tudo sozinho. Afinal, pelo dinheiro que estamos pagando... No... no. No quero ningum 
mais na jogada. Eu sei... eu sei... Est bem. Melhor ser no fim de semana. Claro... Est certo. Estarei l para conversar. Pode esperar. V se no me liga para c. 
Sabe como . No convm. Ela anda muito nervosa. Se desconfiar, tudo pode ir por gua abaixo. Eu sei... Mas s em ltimo caso. Est bem. Irei, sim. Agora vou desligar.
        Ele ouviu o rudo de desligar o telefone e em seguida a luz se apagou. Procurando no fazer rudo, Gabriel foi para o quarto, fechou a porta, corao batendo 
forte. Era evidente que falavam de Alberto. Sentiu-se aliviado. Ele estava vivo! Havia tempo de salv-lo.
        Imediatamente ligou para Jonas, que atendeu com voz de sono. Deu um salto quando entendeu que era Gabriel.
        - Tenho novidades. Ouvi uma conversa de Bris ao telefone. Alberto ainda est vivo!
        - Boa notcia! Conte tudo.
        Gabriel contou e Jonas anotou tudo e garantiu:
        - Com certeza ele conversava com seu cmplice, Antunes. Sero vigiados o tempo todo. Vamos peg-los. Bom trabalho, Gabriel.
        - Minha me est muito nervosa.
        - Ela no pode deixar que eles notem nada. Entendeu? E fundamental para nosso sucesso e para a segurana de vocs.
        - Eu sei. Pode confiar, ela sabe controlar-se muito bem diante deles.
        - Est certo. Cuide-se. Trate de descansar. Poupe suas foras. Ele no vai fazer nada por enquanto. E quando sair, estaremos seguindo-o.
        - Est certo. Boa noite.
        - Boa noite.
        Gabriel desligou e respirou fundo. Estirou-se no leito, mas estava tenso. As emoes das ltimas horas no o deixavam relaxar. Precisava serenar o esprito. 
Lembrou-se de Deus e, fechando os olhos, comeou a rezar pedindo ajuda.
        Aos poucos foi se acalmando e j estava quase pegando no sono quando viu um homem de meia-idade ao lado de sua cama olhando-o com carinho. Tentou abrir os 
olhos mas no conseguiu:
        - Estou fora do corpo - pensou ele.
        O homem aproximou-se dele dizendo com voz firme:
        - Obrigado, Gabriel. Deus o abenoe.
        Emocionado, Gabriel lembrou-se do retrato do Dr. Camargo que havia visto no escritrio da empresa que pertencera a ele e que seu pai vendera quando de posse 
da herana. Era ele!
        - Ajude-nos, por favor! - pediu Gabriel em pensamento.
        - Acalme-se. Sou muito grato a Maria Jlia por tudo quanto fez a Marcelo. Confie em Deus. No tema.
        Gabriel tentou falar e abriu os olhos acendendo a luz do abajur. Dr. Camargo havia desaparecido. Teria sonhado? Estaria to preocupado com o que estava acontecendo 
que teria fantasiado isso?
        A imagem dele voltou-lhe  lembrana e Gabriel sentiu que ele es-tivera ali para inspirar-lhe confiana e dizer que estava satisfeito com o que ele fizera. 
Respirou aliviado. Agradeceu a Deus pela ajuda que estava recebendo, deitou-se novamente e desta vez adormeceu.
        Na manh seguinte acordou assustado. Olhou o relgio e levantou-se imediatamente. Passava das dez. Arrumou-se rapidamente e desceu preocupado. Maria Jlia 
esperava-o na copa.
        - Sente-se, meu filho, vou mandar servir o caf.
        - Perdi a hora. Desejava levantar cedo. - Percebendo a presena de Bris na outra sala, completou: - Havia combinado ir ao clube com alguns amigos.
        - Talvez ainda tenha tempo.
        - No sei... vamos ver.
        Ele tomou o caf enquanto conversavam sobre assuntos triviais. Gabriel apanhou um papel, um lpis e escreveu:
        - Notou alguma novidade?
        Maria Jlia leu e fez leve sinal negativo com a cabea.
        - Hoje est um dia calmo, bonito. Estou pensando em dar uma volta, talvez ir s compras. Chegaram algumas novidades na Casa Cintra.
        - Pois eu acho que ficarei em casa. Est calor e estou com preguia. Se o tempo continuar bom, talvez amanh eu saia com o barco.
        Apesar de estar atento, Gabriel no observou nada diferente durante o dia inteiro. Passava das seis quando ligou para Lanira a fim de combinar a hora em 
que deveriam ir a casa de Josefa.
        Passou pela casa de Lanira para apanh-la e Maria Alice vendo-o chegar ficou um pouco apreensiva. Pelo apuro com que Lanira se vestira, desconfiava que ela 
estaria interessada em Gabriel. Fosse antes, teria ficado alegre, mas agora, com o escndalo, tudo era diferente. Era verdade que o Dr. Jos Lus continuava bem-visto, 
apesar de tudo, e a maioria das pessoas preferiu fingir que ignorava a ao que corria na justia. A princpio, ela tambm no acreditara naquela histria, mas depois 
que falara com Daniel, que o juiz deferira a petio inicial, pedindo provas, ela sentira abalar sua confiana.
        E se ele fosse culpado mesmo? E se as provas que Daniel possua fossem convincentes e o juiz as acatasse como verdadeiras? Nesse caso, o Jos Lus desacreditado, 
preso, obrigado a devolver toda a fortuna, seria execrado pela sociedade. No tinha nenhuma dvida quanto a isso. Gabriel, alm de ficar pobre, seria coberto de 
vergonha. No, ela no queria que sua filha corresse o risco de namor-lo. Essa relao podia trazer-lhe futuros aborrecimentos.
        Procurou o marido, que, sentado na sala, lia com prazer um discurso que deveria proferir na tarde seguinte. Alicia redigira-o e ela era magistral. Sabia 
valorizar seus dons de oratria, bem como as frases de efeito que comoviam a platia.
        - Antnio, estou preocupada com Lanira.
        Sem levantar os olhos da leitura, Antnio respondeu:
        - Com qu?
        - Pare um pouco de ler. Temos que conversar.
        - Estou estudando meu discurso.  muito importante.
        - Eu sei. Mas a felicidade de Lanira  muito mais.
        - O qu? - desta vez ele olhou para ela admirado.
        - Ela saiu com Gabriel. Reataram a amizade.
        - No estou entendendo. Onde quer chegar?
        - Estive pensando. Se Jos Lus for condenado, alm de ficar pobre ele pode ser preso e ficar desonrado. Lanira no pode se envolver com o filho dele.
        Antnio olhou-a com ar de incredulidade:
        - O qu? Vai me dizer que entrou na fantasia de Daniel? Jos Lus est sendo vtima da ambio de um falsrio. Tenho certeza disso. Todos em nossa roda dizem 
isso.
        - No sei, no. Daniel me garantiu que tem provas convincentes, e depois o juiz deferiu o pedido deles, o que significa que tudo pode ser verdade.
        - Deferiu? Tem certeza?
        - Tenho. Lanira me contou que Daniel e Rubinho estavam radiantes e convidaram-na para comemorar.
        - Quem ser esse juiz? Voc sabe o nome dele?
        - No. Mas que importncia tem isso? Eles conseguiram, no ? J pensou que tudo isso pode ser verdade?
        - No. No creio. Infelizmente ainda h juizes cretinos neste pas. Algum idiota que quis aparecer nos jornais, graas ao nome de Jos Lus. S pode ser 
isso. Amanh vou ligar para Mendes e pedir que interceda. Ele  desembargador.
        - Eu achava bom voc no se envolver. E se tudo for verdade e voc for visto defendendo um criminoso? J pensou como seria ruim para seu prestgio? O povinho 
com certeza vai ficar do lado do "pobre moo" rfo, espoliado, sem famlia... E uma histria e tanto para a gentinha.
        - Voc acha mesmo que ele pode ser culpado?
        - No sei. Mas por via das dvidas  melhor esperar as coisas ficarem mais claras. Nunca pensei que a justia fosse deferir o pedido deles. Agora tudo pode 
acontecer. E prudente no aparecer tomando partido.
        - , nisso voc tem razo. Nunca se sabe o que pode acontecer. A opinio pblica adora essas histrias em que o rico  o vilo. Numa dessas, Jos Lus pode 
at entrar de bode expiatrio.
        - Seja como for, voc deve ter cautela e aguardar os acontecimento. Enquanto isso, Lanira no deve sair mais com Gabriel. Voc deveria conversar com ela.
        - Eu? Ela nunca me d ouvidos! Essas coisas de namoro competem a voc, que  a me. E melhor falar logo antes que eles se envolvam mais.
        - Tentarei.
        Faltavam dez para as oito quando Lanira chegou com Gabriel em casa de Josefa. Cumprimentou os conhecidos, abraou a tia, apresentando Gabriel.
        - Seja bem-vindo, meu filho - disse ela estendendo a mo.
        - Obrigado por permitir que eu participe da reunio - disse ele depois de retribuir ao cumprimento.
        - Acomodem-se, por favor.
        Daniel e Rubinho chegaram, acompanhados de Marilda e Ldia. Naquela tarde, Rubinho pedira a Daniel que perguntasse a tia Josefa se as duas poderiam acompanh-los.
        Daniel surpreendeu-se:
        - Vamos tratar de assuntos pessoais e sigilosos. No acho uma boa idia lev-las. Depois, minha tia pode no gostar.
        - Marilda convidou-me para uma reunio e eu lhe disse que estava comprometido. Ns estamos namorando, ela ficou com cime. Zangou-se. Ento contei-lhe que 
era uma sesso esprita. A ela se conformou, mas contou a Ldia, que ficou entusiasmada. Ela costumava freqentar sesses e desde que chegou ao Brasil no tinha 
aonde ir. Elas querem ir conosco hoje  noite.
        - No acho uma boa idia.
        - Em todo caso, telefone para sua tia e pea-lhe permisso. Marilda  curiosa, mas Ldia  uma estudiosa desses assuntos. Se sua tia disser no, ns respeitamos. 
Mas pelo menos consulte.
        A contragosto, Daniel telefonou  tia, que para sua surpresa concordou imediatamente.
        Alm deles havia mais seis pessoas, e s oito em ponto j estavam todos sentados em volta da mesa. Josefa fez ligeira prece e pediu que se concentrassem. 
Logo um mdium comeou a falar, saudando os presentes e dizendo:
        - Finalmente conseguimos reuni-los aqui esta noite. H muito espervamos por esta oportunidade e queremos agradecer a Deus por nos ter permitido essa to 
esperada reunio. Vamos orar porque a graa divina  abenoada e prdiga em bondade e luz.
        Ele continuou falando, mas Daniel sentiu uma sonolncia incontro-lvel. Esforou-se para reagir, mas no conseguiu. Sua cabea pendeu e ele se debruou sobre 
a mesa e adormeceu.
        Josefa pediu que continuassem orando e no se preocupassem com ele. Daniel, de repente, viu-se andando por uma rua diferente. Sentia o corao oprimido, 
como se alguma coisa ruim estivesse para acontecer.
        Chegando em frente a uma casa, parou. Entrou. Tudo ali era-lhe familiar. Foi direto ao quarto, onde procurou ansiosamente por algum e no encontrou. A cama 
de casal estava vazia.
        Angustiado, sentou-se em uma cadeira e de repente recordou-se: Ldia havia partido para sempre. Ele estava s com sua dor. O que fazer de sua vida dali em 
diante? Como suportar a solido na casa vazia e triste?
        Lgrimas corriam pelo seu rosto. Ele se levantou e comeou a andar de um lado a outro. Foi quando Alberto entrou no quarto olhando-o com raiva e dizendo:
        - Voc foi o culpado pela morte dela. Assassino. Vai pagar por tudo que fez a ela!
        Daniel olhou-o admirado. Apesar de estar vivenciando esses fatos, ele estava perfeitamente consciente da atualidade e por isso indagou:
        - Por que me acusa? O que aconteceu entre ns no passado? Por que sonhei com voc mesmo antes de conhec-lo? Como explicar o que sinto ao lado de Ldia?
        Alberto imediatamente desapareceu e Daniel viu-se transportado para uma sala clara e agradvel. Olhou em volta e no havia ningum. Sentou-se na poltrona 
macia sentindo uma brisa leve e perfumada acariciando-lhe o rosto.
        Fechou os olhos e respirou deliciado. Quando os abriu, uma mulher de meia-idade, rosto sereno, estava diante de si. De onde a conhecia?
        - Voc no vai se lembrar - disse ela.
        - Eu a conheo.
        - E verdade. Temos pouco tempo. Vamos aproveit-lo.
        - Voc sabe o que est acontecendo comigo? Por que esses sonhos?
        - So recordaes de suas vidas passadas. No momento voc no tem como se lembrar de tudo.
        - Sinto que o cerco ao meu redor est apertando. Que preciso fazer alguma coisa importante mas no sei o que seja.
        - No se preocupe. Tudo caminha muito bem. Confie na vida, que sempre faz o melhor. O importante  procurar ligar-se com o espiritual.
        - O que  ligar-se com o espiritual? No sou religioso.
        - No falo de religio. Falo da essncia das coisas. Falo dos valores eternos do esprito. De conhecer a fora imutvel que rege o universo. Estar nela  
estar seguro, preservar sua serenidade, recompor seu caminho de progresso, encontrar felicidade e paz.
        - Neste instante estou sentindo uma alegria que h muito no tenho sentido. Sua presena est me fazendo muito bem.
        - No  minha presena, mas o encontro de sua alma com a verdade espiritual. Este lugar  o paraso, o nirvana, a felicidade eterna. E a essncia divina 
que est dentro de voc e que pode dar-lhe essa alegria sempre que voc se refugiar nela. Por isso eu disse: confie na vida e ligue-se com seu eu espiritual. Esse 
 o segredo da serenidade e da paz.
        - Desejo saber por que a presena de Ldia me emociona e a de Alberto me oprime.
        - Reflexos de um tempo que j passou. Agora vocs esto juntos novamente para experimentarem renovao e progresso. No se deixe dominar pelo emocional. 
O passado est morto. O que aconteceu naqueles tempos no vai acontecer de novo. Tudo mudou. Vocs aprenderam, renovaram-se, entenderam-se. Portanto siga em frente 
e no tema. Ligue-se com o espiritual. Se continuar vindo aqui, vai encontrar todas as respostas que deseja. Agora v. Lembre-se: quando sentir uma emoo desagradvel, 
repita essas palavras: o passado acabou. O que aconteceu naqueles tempos no vai acontecer de novo. Hoje tudo  diferente!
        Daniel estremeceu e acordou sentindo ainda o perfume gostoso e a sensao deliciosa daquela presena.
        - No v embora! - implorou ele ainda envolto na magia daquele encontro.
        Ouvindo o som de sua voz quebrando o silncio da sala s escuras, Daniel respirou fundo um pouco assustado.
        - Agradea a Deus a ddiva que voc recebeu - disse Josefa. Em seguida fez ligeira orao de agradecimento e encerrou a sesso.
        As luzes foram acesas enquanto as pessoas comentavam entre si algumas passagens da reunio.
        Daniel passou a mo nos cabelos dizendo:
        - Desculpe, tia, mas eu adormeci. No ouvi nada do que aconteceu aqui.
        - Voc saiu do corpo. Ou melhor, foi conduzido em esprito a um lugar muito especial. Como se sente?
        - Muito bem.
        - Ao chegar aqui voc estava angustiado, preocupado. Recebeu ajuda.
        - Foi maravilhoso. Nunca senti emoo igual. Gostaria que nunca se acabasse.
        - Hoje voc se encontrou com uma pessoa que o quer muito bem e o tem ajudado muito.
        -  estranho, mas quando a vi senti que a conhecia. Como pode ser isso? Eu nunca a tinha visto antes.
        - Nesta encarnao, no. Mas vocs so velhos conhecidos de outras vidas.
        - Que mulher! Nunca conheci ningum assim!
        - Ela era bonita? - perguntou Lanira.
        - Linda. Era um misto de suavidade e energia, de fora e delicadeza, fica difcil explicar.
        -  um esprito lcido - esclareceu Josefa.
        - Voc a conhece? - perguntou Daniel.
        - E uma amiga espiritual que tem nos ajudado muito. Seu nome  Norma.
        A conversa generalizou-se. Uma senhora serviu um pouco de gua da jarra para cada pessoa e Daniel ficou olhando admirado as borbulhas que havia em seu copo.
        - E gua energizada - esclareceu Josefa sorrindo. - Beba, vai fazer-lhe bem.
        Ldia aproximou-se deles dizendo:
        - Desejo agradecer-lhe haver permitido minha presena. Estava sentindo muita falta desses encontros espirituais. Estou me sentindo alimentada.
        - Voc est ligada ao nosso grupo. Fico feliz que esteja conosco - respondeu Josefa.
        Daniel olhou Ldia e recordou-se da emoo que sentira momentos antes, pensando nela, como se houvesse morrido. Sentiu vontade de abra-la, de dizer-lhe 
o quanto sentira sua falta e o quanto a amava. Conteve-se. Ela no sabia de nada. Iria julg-lo louco.
        Percebendo seu olhar emocionado, Ldia colocou a mo no brao dele perguntando:
        - O que voc viu quando saiu do corpo?
        - Norma disse que voltei no tempo e vi pedaos de minhas vidas passadas.
        - No vai nos contar? - pediu ela.
        Daniel perdeu o jeito. Como falar o que se passava dentro dele desde que a conhecera?
        - No foram lembranas agradveis. Sofri a perda de algum que muito amava e ao recordar senti de novo todo o sofrimento daqueles tempos. Com a ajuda de 
Norma passei da dor  alegria.
        - Pergunto porque durante todo o tempo em que esteve adormecido no consegui desviar meu pensamento de voc. Senti que precisava ir ter com voc e dizer-lhe 
algo, que no sei o que seja. Fiquei ansiosa e s ao pensar nisso sinto uma energia inquietante.
        Josefa olhou-os e sorriu. Depois esclareceu:
        - Daniel tambm pertence a nosso grupo astral, assim como voc. No tenho dvidas em afirmar que j se conheceram em outras vidas.
        Daniel no disse nada, mas seus olhos brilharam emocionados. Ldia estremeceu ligeiramente e respondeu:
        - Quando nos encontramos pela primeira vez, senti que j o conhecia antes.
        Lanira aproximou-se, perguntando  tia:
        - No falaram nada quanto a Alberto. Viemos para pedir ajuda.
        - No mencionaram o nome dele, porm a mensagem da noite foi sobre confiana. Estou certa de que eles esto cuidando. Vamos manter o otimismo e a alegria.
        Gabriel, que se aproximara, interveio:
        - Apesar disso estou ansioso, preocupado. Minha me est passando por um problema muito difcil. Eles no disseram nada com relao a nosso caso.
        - O que significa que esto trabalhando e que ainda no havia nada para dizer. Pelo que observei, sua me est tendo a ajuda de uma mulher clara, de cabelos 
ligeiramente ondulados, magra, de pele delicada e sorriso doce. No deu o nome. Sua me sabe quem ela . Quanto a voc, est acompanhado pelo Dr. Camargo. Esse eu 
conheci bem. Ele os estima muito e est ajudando. Pediu que lhe desse o recado: que tudo est sob controle. Pede que cooperem mantendo pensamentos positivos.
        Gabriel emocionou-se. A atitude do Dr. Camargo ajudando-os era uma indicao segura de que ele perdoara a fraqueza de sua me mantendo segredo sobre a morte 
de Marcelo, e no a culpava.
        - Ele est me dizendo - continuou Josefa - que  muito grato  sua me por ter salvo a vida de Marcelo. Que podem contar com ele e que far o que puder para 
que sejam felizes.
        Gabriel lembrou-se da viso que tivera na qual ele lhe dissera as mesmas palavras. Sentiu um n na garganta e no conseguiu responder. Lanira pegou a mo 
dele e apertou-a com fora.
        As pessoas foram se despedindo e Gabriel prontificou-se a levar Lanira para casa. Depois que eles se foram, Ldia despediu-se dizendo a Rubinho:
        - Podem ir que eu vou tomar um txi.
        - De forma alguma - objetou ele. - Viemos juntos e terei prazer em deix-la em casa.
        Ela sorriu e ia responder quando Daniel interveio:
        - Quem deseja ter esse prazer sou eu.
        - Nesse caso, tudo bem - concordou Rubinho trocando disfaradamente um olhar intencional com Marilda.
        Quando se viu sentado no carro ao lado de Ldia, Daniel respirou fundo. A proximidade dela, seu perfume, mexia com sua emoo como nunca, se lembrava de 
haver sentido diante de uma mulher.
        Ela deu o endereo e ele ligou o carro, andando devagar.
        -  adorvel sua tia Josefa. No me recordava bem de como ela era.
        - Minha me  muito catlica e nunca aceitou a crena da tia. Assim, privou-nos de conviver mais com ela. Somente agora, por causa de alguns acontecimentos 
especiais, foi que recorremos a ela.
        - Eu pretendo continuar freqentando essas reunies. A mediunidade, quando exercida com conhecimento, torna-se uma maravilhosa ferramenta de ajuda espiritual 
para quem a cultiva.
        - Voc tem mediunidade?
        - Intuio. Sinto quando devo ou no fazer as coisas. Ao conhecer pessoas, sei se so confiveis ou no.
        - Como acontece?
        - No me pergunte, porque no sei. Sinto e pronto. E. Nunca d errado. Sempre que eu sinto o que devo fazer e no fao, me arrependo.  difcil explicar, 
mas isso  muito forte em mim.
        - s vezes tambm tenho essa sensao. Mas controlo. Fui educado para racionalizar, agir de acordo com as regras. E muitas vezes o que voc sente vontade 
de fazer  completamente contra todas elas.
        - Nunca experimentou agir de acordo com o que sente? Daniel encostou o carro e parou, olhando-a nos olhos. Sua proximidade, seu perfume embriagavam-no e 
ele no se conteve:
        - Voc acha que eu posso?
        - Por que no?
        Daniel no esperou mais, abraou-a com fora, apertando-a de encontro ao peito, beijando-a nos lbios. A emoo de seu sonho reapareceu, num misto de sofrimento 
e alegria, de deslumbramento e paixo.
        Ldia retribuiu seus beijos e durante alguns minutos eles se beijaram tentando controlar um pouco a tremenda emoo que os acometeu, assustados com o volume 
inusitado do que sentiam.
        Entre um beijo e outro Daniel disse baixinho:
        - Eu amo voc. Nunca senti isso por mulher nenhuma.
        - Eu tambm o amo. Sei que voc  o amor de minha vida. Ficaram abraados, sem falar, sentindo apenas a emoo que flua
        dentro de seus coraes, beijando-se de vez em quando, esquecidos de tudo e de todos, tendo apenas aquele sentimento imenso gritando dentro de si.
        
Captulo 15
        
        Gabriel parou o carro em frente a casa de Lanira.
        - Voc falou pouco, est pensativo. No est bem? - indagou ela.
        - No nego que estou preocupado. Eu esperava que os espritos falassem mais claro sobre Alberto.
        - Voc est ansioso. A situao  mesmo delicada. Eu tambm esperava uma resposta mais clara. Mas o Dr. Camargo est do nosso lado, ajudando. Isso me parece 
bom.
        - Muito bom. Contudo, s em pensar que Alberto pode ser morto e que ns no temos como fazer nada para impedir deixa-me nervoso.
        Lanira colocou a mo sobre o brao de Gabriel num gesto carinhoso:
        - No fique assim. Voc fez tudo quanto podia. Est se arriscando para salv-lo. Precisa manter a calma.
        - Obrigado, Lanira. Se no fosse por voc, eu teria cometido alguma loucura.
        Passou a mo pelo rosto dela com carinho:
        - Voc  linda! Tem tudo quanto eu aprecio em uma mulher!
        - Voc tambm. E bonito por fora e por dentro. Ele a abraou, apertando-a de encontro ao peito.
        - Perto de voc sinto paz. Queria poder lev-la comigo esta noite e ficar assim, abraado, sentindo seu corao bater junto ao meu, o pulsar de seu corpo, 
seu hlito quente, o perfume delicioso de seus cabelos.
        Gabriel comeou a beijar os cabelos dela, depois sua face, at encontrar seus lbios entreabertos.
        - Lanira - disse baixinho -, vem comigo. Eu preciso de voc. Fica comigo nesta noite.
        Emocionada, ela retribua os beijos apertando-o de encontro ao peito. Ela tambm desejava ficar com ele, fosse onde fosse, e queria que aquela noite nunca 
acabasse.
        De repente, ele ligou o carro saindo em alta velocidade. Chegou no ancoradouro de seu barco. Parou e pegando Lanira pela mo conduziu-a para dentro. Uma 
vez l, abraou-a, beijando-a repetidas vezes.
        Sem pensar em mais nada, levou-a at a cabine e juntos entregaram-se ao sentimento que no conseguiam conter.
        Uma hora depois, deitados um ao lado do outro, Gabriel abraou Lanira, beijando-a levemente na face, dizendo:
        - Perdoe-me. No consegui me conter.
        - Eu vim porque quis. No tem do que se culpar.
        - Eu amo voc. Quando tudo isso passar, podemos nos casar. Ela se sentou na cama.
        - Casamento no estava em meus planos to cedo.
        - Eu tambm no havia pensado nisso. Porm, agora...
        - Sou adulta e mulher o suficiente para arcar com a responsabilidade pelo que fiz. Voc no precisa casar comigo por causa do que aconteceu esta noite.
        - Voc nunca tinha tido uma relao. Depois, h sua famlia.
        - Esquea, Gabriel. No desejo casar porque voc me deflorou, nem porque minha famlia pode descobrir. Se um dia me casar, ter que ser por amor. S por 
amor.
        - Eu amo voc. Falei em casamento por amor.
        - No foi o que me pareceu.
        - Voc no me ama?
        - Eu gosto de voc. Nesta noite voc me fez sentir emoes que nunca havia sentido. No sei se isso  amor. S no quero que se sinta obrigado a casar comigo 
por causa das convenes sociais. Isso, no. Jamais me transformarei em uma matrona como h muitas por este Rio de Janeiro. Bonecas sociais, a servio das futilidades 
e das intrigas.
        - Voc nunca ser uma delas.
        - No serei mesmo. Ns no planejamos o que aconteceu esta noite. Vamos deixar assim. Precisamos de tempo para perceber o que realmente desejamos. Eu quero 
ser feliz e tenho a certeza de que serei. Se essa felicidade for ao seu lado, ser bom; mas se estiver em outro lugar, quero descobrir.
        - Voc  uma mulher diferente. Nunca conheci ningum como voc. Ela sorriu alegre:
        - Vamos embora. J passa das duas. Preciso dar um jeito de entrar em casa sem que mame perceba.
        Eles se vestiram e saram. Uma vez no carro, fizeram o percurso sem conversar, cada um imerso nos prprios pensamentos. Quando pararam em frente a casa de 
Lanira, Gabriel pegou a mo dela dizendo comovido:
        - Obrigado, Lanira. Eu estava inquieto, nervoso, indisposto. Voc me devolveu a calma. Estou me sentindo muito melhor. Voc fez por mim nesta noite o maior 
bem que poderia ter feito. Eu amo voc!
        Ela sorriu e beijou-o levemente na face, saindo do carro. Na porta de casa, tirou os sapatos, enfiou a chave na fechadura, abriu a porta, acenou e entrou. 
Gabriel ligou o carro e saiu, sentindo-se bem como h muitos dias no se sentia.
        A casa estava s escuras e Lanira no acendeu a luz. P ante p foi para seu quarto. Tirou a maquiagem, tomou um banho e se deitou. Ento rememorou tudo 
quanto havia acontecido naquela noite.
        Ela gostava de Gabriel. Mas casar era outra coisa. Tinha receio de que com o tempo ele se transformasse como seu pai. Ela tinha horror de tornar-se igual 
 sua me, uma figura de aparncia, sem emoes, representando um papel.
        Com ela no aconteceria isso. No desejava confundir seus sentimentos. Gabriel atraa-a fisicamente. Era um belo homem. Porm ela desejava descobrir por 
que se entregara a ele. Fora por amor ou por desejo sexual? As emoes confundiam-se dentro dela e Lanira no conseguia perceber claramente.
        Contudo, sentia que agira certo no tomando nenhuma deciso de compromisso. O tempo diria a verdade. Era preciso deixar acontecer. Tendo decidido isso, ajeitou-se 
na cama e adormeceu.
        Gabriel chegou em casa, entrou sem acender nenhuma luz, tentando no fazer rudo. Uma vez em seu quarto, fechou a porta, acendeu a luz e preparou-se para 
dormir. Ia deitar-se quando bateram levemente na porta.
        Quando ele abriu, Maria Jlia entrou rpido, fechando a porta atrs de si.
        - Voc demorou! Estava ansiosamente esperando.
        - Aconteceu alguma coisa?
        - Bris saiu e no voltou at agora. Ter ido atrs de Marcelo?
        - Pode ser. Vou ligar para Jonas. Temos que avis-lo. Apanhou o telefone e discou. Uma voz de mulher atendeu. Gabriel tornou:
        - Desculpe a hora. Preciso falar com Jonas.  urgente.
        - Ele saiu a trabalho. Voc tem o outro telefone?
        - Tenho. Desculpe. Pensei que ele estivesse em casa.
        Gabriel desligou, procurou seu caderno de anotaes, localizou o nmero e discou. Desta vez uma voz de homem atendeu e Gabriel perguntou por Jonas:
        - Ele no est.
        -  urgente. Tenho que encontr-lo imediatamente.
        - Deixe o recado e verei o que posso fazer.
        - Diga-lhe que Bris saiu.
        - Mais ou menos s nove horas - completou Maria Jlia, inquieta.
        - Eram nove horas - repetiu Gabriel. E continuou: - Ele sabe do que se trata.
        - Est bem. Darei o recado. Gabriel desligou pensativo.
        - E ento?
        - No sei, me. Pode ser que ele esteja justamente tratando do caso neste momento.
        - E se no estiver? E se eles fizerem alguma coisa a Marcelo?
        - No adianta agora ficar nervosa. Ns fizemos tudo quanto nos foi possvel fazer para evitar essa tragdia. O momento  de confiar em Deus e esperar.
        - No consigo ficar calma. Estou agoniada.
        - Papai est em casa?
        - Est dormindo.
        - Sente-se aqui, me, vamos rezar. E o que podemos fazer agora.
        - J nem sei como se reza, Gabriel. Deus no vai ouvir uma peca-dora como eu.
        - No diga isso. Por que se subestima? Voc deseja o bem tanto quanto eu.
        - Depois de tudo que eu fiz?
        - A culpa no vai ajudar em nada. Por que s v o lado ruim? Voc arriscou sua vida para salvar Marcelo. O esprito do Dr. Camargo disse que  muito grato 
a voc por isso e que est nos ajudando.
        - Ele no est com raiva de mim?
        - No, me. Ele est do nosso lado. E por isso que eu confio na ajuda espiritual. Ns estamos do lado do bem. Deus est conosco e os bons espritos tambm.
        Maria Jlia no respondeu. A comoo no a deixava falar. Gabriel segurou sua mo e com voz comovida conversou com Deus, pedindo ajuda para eles todos e 
proteo para Marcelo.
        As lgrimas desciam pelos olhos de Maria Jlia, tocada pelas palavras confiantes do filho. Quando ele se calou, ela se sentiu aliviada.
        - Obrigada, meu filho. Sinto-me melhor agora. Acho que vou me deitar. Seu pai pode acordar e desconfiar.
        - Isso mesmo, me. Procure descansar. Vou tentar fazer o mesmo.
        Depois que ela se foi, Gabriel deitou-se e tentou dormir. A lembrana de Lanira no lhe saa do pensamento. Que mulher! Apesar do que acontecera entre eles, 
ela recusara compromisso. Ele sentia que estava apaixonado. No desejava perd-la. Decidiu que daquele dia em diante tudo faria para conquist-la definitivamente.
        
        Daniel chegou em seu apartamento passava da uma. Ldia no lhe saa do pensamento. Ao recordar-se de seus beijos, seu corao se descompassava e ele estremecia 
de prazer. Deitou-se, mas no conseguia pegar no sono. As emoes daquela noite foram muito fortes. Tinha que se render  evidncia. Algum dia, em algum lugar, de 
alguma forma, ele conhecera Ldia e a havia amado.
        A reencarnao! Seria mesmo verdade? Era a nica explicao possvel para os fatos que estavam acontecendo em sua vida. Ele j havia vivido antes com Ldia, 
amado, sofrido.
        Lembrou-se da cena em que ela morria, de seu desespero, e sentiu um aperto no corao. As palavras de Norma voltaram-lhe  memria:
        - "O que aconteceu naqueles tempos no vai acontecer de novo!"
        - Espero que agora tudo seja diferente. Se acontecesse de novo, no conseguiria suportar aquela dor. Tenho que me acalmar. No posso me deixar envolver pelo 
emocional. Foi o que ela me recomendou.
        Lembrou-se da sensao gostosa que sentiu naquela sala ao lado de Norma. Era assim que gostaria de sentir-se sempre. Firmou o propsito de voltar s sesses 
em casa de Josefa.
        Rubinho chegou procurando entrar sem fazer rudo e foi para seu quarto. Daniel tentava pegar no sono quando o telefone soou. Atendeu:
        - Daniel?  Jonas. Prendemos o pssaro com a boca na botija. Est tudo bem.
        - E Alberto?
        - Est aqui na delegacia prestando declaraes. Voc precisa vir agora. H algumas formalidades.
        - Iremos imediatamente. Ele est bem?
        - Abatido,  claro. Mas inteiro.
        Daniel pulou da cama e foi ter com Rubinho:
        - Acorde, Rubinho! Jonas prendeu o homem. Temos que ir  delegacia.
        Rubinho levantou-se de um salto:
        - No diga! E Alberto?
        - Est bem. Vamos embora logo.
        Os dois vestiram-se apressados e dirigiram-se  delegacia, onde Jonas esperava-os: i
        - E ento? - indagou Daniel assim que o viu.
        - Est tudo bem. Estamos formalizando a queixa, o flagrante. Alberto est prestando declaraes para abertura do inqurito.
        - Podemos v-lo? - perguntou Rubinho.
        - Claro. So seus advogados. Vamos entrar.
        Jonas conduziu-os a uma sala onde o delegado fazia as perguntas, Alberto respondia e o escrevente anotava. Vendo-os entrar, Alberto levantou-se emocionado.
        - So os advogados dele - esclareceu Jonas ao delegado. Depois das devidas apresentaes, Alberto abraou-os comovido.
        - Fiquei com medo de nunca mais ver vocs - disse.
        - Felizmente voc est aqui - disse Rubinho abraando-o.
        -  um alvio v-lo, Alberto! - tornou Daniel juntando-se no mesmo abrao.
        - O que aconteceu? - perguntou Rubinho.
        - O escrivo vai ler as declaraes que Alberto fez, para vocs tomarem conhecimento.
        Ele comeou a ler e eles souberam como ele havia sido seqestrado e conduzido quela casa onde estava preso.
        - Ele vai continuar o relato. Vocs podem sentar-se. Vendo-os acomodados, o delegado perguntou:
        - Voc chegou a ver o rosto de algum enquanto ficou naquela casa?
        - Era sempre o mesmo que aparecia de vez em quando para trazer algum alimento. Mas sempre usava mscara. Apesar disso, eu o reconheci depois que me libertaram. 
Sua voz, a estatura, os cabelos, tudo.
        - Voc acha que eram apenas dois os seqestradores?
        - Acredito que sim. No vi mais ningum. Hoje  noite, ouvi quando eles chegaram. Conversavam em voz baixa, no consegui entender o que diziam. Depois ouvi 
fortes batidas na porta da rua e algum gritando: "Polcia! Abra em nome da lei!" Eles arrastaram mveis, depois ouvi passos, acho que eles estavam correndo tentando 
escapar. Meu corao batia to forte que parecia querer sair pela boca.
        Jonas interveio:
        - Eu gritei na porta de entrada, mas tinha quase certeza de que eles iam tentar fugir pelos fundos. Foi o que eles fizeram. Saram, mas meus homens estavam 
escondidos e os prenderam.
        - Fizeram um bom trabalho - disse o delegado.
        - Com licena, doutor?
        - Entre, Nestor. Ento, o que descobriu?
        - Bom, um  Antunes, nosso antigo conhecido. Desta vez est enroscado. O outro  um estrangeiro. Estamos levantando a ficha dele. Trabalha para um tal de 
Dr. Jos Lus Camargo de Melo.
        - Trancafie os dois.
        - Antunes exige que procuremos pelo senador Medeiros. Bris mostra-se indignado e diz que estamos enganados. Nega participao no seqestro. Chama pelo Dr. 
Jos Lus, alegando que trabalha como secretrio dele.
        - Deixe-os gritar e prenda-os. Quanto a chamar seus padrinhos, veremos amanh. Desta vez Antunes est encrencado e nenhum poltico poder ajud-lo. O outro 
tambm. Foram presos em flagrante. No h defesa.
        Nestor saiu. O delegado tornou:
        - Para vocs esse fato foi concludente. Vale como uma confisso do Dr. Jos Lus a respeito da herana. Vocs tiveram muita sorte. Eles mesmos se condenaram.
        - Apesar do susto, agora reconheo que foi bom ter acontecido - acrescentou Alberto.
        - Dentro de mais algum tempo, vocs vo ganhar essa. Parabns. Vai ser uma bomba na sociedade! Poucos advogados teriam coragem de fazer o que vocs fizeram. 
Eu mesmo ouvi muitos comentrios contra vocs. Diziam que s aceitaram essa causa porque eram inexperientes. Iriam quebrar a cara. Nunca mais fariam carreira - disse 
o delegado. - Estou satisfeito com esse resultado. Essas pessoas que abusam do poder, que passam por cima de tudo, que se valem at do crime para ter dinheiro, precisam 
responder por seus atos.
        - A lei vai resolver o assunto. Agora  com vocs - disse Jonas com satisfao.
        Depois das providncias legais, Alberto finalmente foi liberado. Na sada da delegacia, perguntou a Jonas:
        - Como foi que descobriu onde eu estava?
        - Bom, depois que Gabriel nos procurou, passamos a vigiar Bris e Antunes mais de perto. Assim, hoje  noite, quando Bris saiu e foi encontrar-se com seu 
comparsa, meus homens os seguiram. Suspeitaram e me avisaram. O resto voc j sabe.
        - Gabriel, filho de Maria Jlia? Ele nos ajudou? Ele sabia de alguma coisa?
        - A me se abriu com ele. Contou tudo quanto aconteceu no passado. Ele ficou arrasado e procurou Lanira pedindo ajuda. Ela o aconselhou a procurar-nos - 
explicou Rubinho.
        - Gabriel contou-nos que Maria Jlia no foi cmplice do marido. Teve medo deles, mas ainda assim salvou sua vida. Eles pretendiam mat-lo. Ela tem muito 
medo deles - completou Daniel.
        - Assim tudo fica mais claro. Nunca entendi a atitude dela. Por que ela suspendeu a mesada?
        - Bris descobriu e contou a Jos Lus. Ela, com medo de que eles descobrissem seu paradeiro e tentassem alguma coisa contra voc, suspendeu o dinheiro.
        - Puxa! Agora estou entendendo.
        - Vamos deix-lo em casa. Precisamos descansar. So cinco horas da manh - resolveu Rubinho.
        - E verdade. Hoje teremos um dia cheio - concordou Daniel.
        - Nada antes do meio-dia - acrescentou Rubinho. - Precisamos dormir.
        -  o que vou fazer agora - disse Jonas despedindo-se.
        - Nunca esquecerei o que esto fazendo por mim - disse Alberto emocionado.
        - Vamos embora - props Rubinho.
        Os dois deixaram Alberto em casa e s se despediram depois de o deixarem dentro do apartamento. Estavam exaustos porm felizes. As coisas comeavam a se 
esclarecer.
        No dia seguinte Lanira acordou com o som do telefone. Ainda meio sonada, atendeu:
        - Al.
        - Al! Lanira?
        - Gabriel? Aconteceu alguma coisa?
        - Aconteceu. Estou preocupado. Bris no dormiu em casa e no voltou at agora. Aonde ter ido? Ser que Jonas recebeu nosso recado ontem?
        Lanira pulou da cama:
        - No convm falar neste assunto pelo telefone. O melhor ser irmos at o apartamento de Daniel. Voc pode passar aqui agora?
        - Dentro de dez minutos estarei a.
        Lanira desligou e tratou de arrumar-se. Antes dos dez minutos combinados ela j estava na copa, depois de olhar pela janela da sala e ver que Gabriel ainda 
no havia chegado.
        Maria Alice olhou-a admirada:
        - Aonde voc vai to cedo?
        - J passa das dez, me.
        - No vi a que horas voc chegou ontem  noite. Passava da uma e voc ainda no estava em casa.
        - Estivemos com Daniel e alguns amigos. Esquecemos da hora.
        - Tome seu caf. Ultimamente voc no tem se alimentado direito. Vive distrada, no mundo da lua.
        Lanira engoliu uma xcara de caf com leite e beliscou um pedao de bolo. Acabara de ouvir a buzina de Gabriel. Levantou-se, apanhou a bolsa e foi saindo.
        Maria Alice seguiu-a inconformada:
        - Voc no disse aonde vai. De novo com Gabriel? No vai me dizer que esto namorando.
        Lanira parou, olhou-a e respondeu:
        - No, me. Estamos apenas nos conhecendo melhor.
        - Tinha que se envolver logo com ele? J pensou se Daniel estiver certo?
        - Daniel est certo, mas Gabriel no tem nada a ver com as atitudes do pai.  um moo de bem, pode ter certeza disso.
        - No me agrada que esteja se relacionando com ele.  melhor acabar logo com isso antes que a situao se complique. Eu e seu pai no queremos v-la envolvida 
com pessoas duvidosas.
        - Gabriel  pessoa digna e fora de qualquer suspeita, pode ter certeza disso.
        - Afaste-se dele. Ser melhor para todos.
        - No vou fazer isso. E digo mais: se um dia eu resolver que gosto dele o bastante, me casarei.
        Maria Alice levou as mos  cabea:
        - O qu? Anda pensando em casar-se com ele? Falarei com seu pai hoje mesmo.
        - No vou me casar com ele, me. S disse que, se um dia eu vier a am-lo, me casarei com ele. Por enquanto ainda no estou pensando nisso.
        Ela saiu e fechou a porta antes que Maria Alice tivesse tempo de responder. Vendo-a entrar no carro de Gabriel e sarem, ela torceu as mos aflita.
        Ela sofrer a vida inteira para manter as aparncias, conservar a famlia, pensando no futuro dos filhos. Engolira a amante do marido, seu desinteresse pessoal, 
trancara o corao ao amor e a seus anseios de mulher, tudo em nome dos filhos, para que eles fossem poupados da maledicncia.
        Se Lanira fizesse um casamento desastroso, de que teria servido seu sacrifcio? Daniel recusara-se a seguir os passos do pai e preferira o confronto, a desobedincia, 
pondo em risco o prestgio do nome que usava. Agora Lanira ameaava-os com um casamento desonroso.
        Aflita, telefonou para o marido. Precisava desabafar.
        Alicia atendeu:
        - D. Maria Alice? O deputado est em reunio com o secretrio geral do partido. Quer deixar recado?
        Maria Alice perdeu a calma. Para falar com o marido tinha que pedir permisso  sua rival?
        - Passe a ligao a ele. No perguntei com quem ele est agora. Alicia estranhou. Nunca a vira sair da classe costumeira.
        - Vou passar - respondeu com voz fria. Ligou para Antnio e disse:
        - D. Maria Alice ao telefone.
        - Estou em reunio, voc sabe. Diga-lhe que ligo depois.
        - E melhor atender. E urgente. Ela me pareceu nervosa.
        - Est bem. Al... Aconteceu alguma coisa?
        - Aconteceu, sim. Precisamos conversar urgente. Seria melhor voc vir almoar em casa.
        -  assim to urgente? No pode esperar at a noite?
        - No. Se no pode vir at aqui, irei at a. Temos que conversar.
        - Eu tenho compromissos urgentes. No poderei ir almoar em casa.
        - Nesse caso, passarei a. At logo.
        Ela desligou e ele, embora quisesse convenc-la a no ir, no teve outro remdio seno desligar. O que teria acontecido?
        Maria Alice chamou o motorista e preparou-se para sair. Meia hora depois estava entrando no escritrio de Antnio. De repente, sentiu aumentar sua raiva 
contra Alicia e o marido. Estava cansada de fingir que ignorava a ligao deles e de reprimir seus sentimentos.
        A atitude dos filhos, que ela considerava ingrata, havia ressaltado a inutilidade de seu sacrifcio. Sentia no peito a frustrao de perceber que todos os
seus sonhos de me corriam o risco de naufragarem. Eles representavam seu porto de salvao no caos em que sua vida havia se transformado. Havia transferido para
eles todos os seus sonhos e eles haviam alimentado sua sede de felicidade durante todos aqueles anos.
        O que fazer agora se eles viessem a ruir? Onde se segurar depois que eles a abandonassem? No. Ela no podia consentir em perder tambm com os filhos.
        Havia se dedicado a eles toda a vida e merecia que eles correspondessem s suas expectativas.'Se isso tambm desse errado, o que restaria?
        Entrou na sala de Alicia e, vendo-a elegante, bonita e bem tratada, sentiu aumentar seu rancor.
        Alicia levantou-se:
        - Bom dia, D. Maria Alice. O deputado est com o Dr. Mendes. Sente-se um pouco. Vou avisar que a senhora est aqui.
        Maria Alice respondeu o cumprimento com um leve aceno de cabea e tornou:
        - No se incomode.
        E de cabea erguida dirigiu-se  porta da sala do marido. Alicia tentou impedi-la:
        - O deputado vai me repreender. Por favor. Deixe-me avis-lo.
        - Sente-se e no se meta. No preciso de intermedirios para entrar no escritrio de meu marido.
        Alicia abriu a boca e tornou a fech-la. Sentou-se e ficou muda. O que teria acontecido? Ela teria descoberto tudo? Suas pernas tremeram e, vendo-a entrar 
na sala do marido e fechar a porta, apressou-se a ir apanhar um copo com gua e beber tentando acalmar-se.
        Algo de muito grave deveria ter acontecido para que Maria Alice sasse da costumeira classe e tivesse sido to dura com ela.
        Sentiu vontade de sair dali correndo. Se ela soubesse a verdade e viesse exigir satisfaes, o que lhe diria? No se sentia disposta a enfrent-la.
        Um agudo sentimento de culpa a acometeu. Tinha horror a disputas e a escndalos.
        Vendo Maria Alice entrar, Antnio levantou-se surpreendido. Mendes levantou-se tambm com gentileza.
        - Maria Alice! Por que no me avisou que havia chegado?
        - No preciso de sua secretria para falar com voc. Ele enrubesceu admirado pelo tom que ela usara:
        - Claro... claro... Conhece Mendes, no?
        - Como vai, Dr. Mendes? Estou sendo importuna? Interrompo algo importante?
        Ele apanhou delicadamente a mo que ela lhe estendia e beijou-a cortesmente.
        - No interrompe nada, senhora. Sua presena  sempre um encanto. Ns j havamos terminado nosso assunto.
        - Ainda bem - disse ela.
        - Eu j estava me despedindo. Tive imenso prazer em v-la.
        - Estamos combinados, ento - disse Antnio.
        - Estamos. Amanh mesmo darei notcias.
        Depois que ele saiu, Antnio olhou a mulher, que havia se sentado na cadeira em frente  sua escrivaninha.
        - Agora voc pode me explicar por que veio aqui desta forma inusitada e invadiu meu escritrio sem respeitar minha privacidade?
        - Achei que no tinha nenhum problema em falar com voc. Se sua secretria estivesse aqui a ss com voc, eu teria batido na porta antes de entrar. Mas como 
era um homem...
        A surpresa fez Antnio emudecer. Ela teria descoberto sua ligao com Alicia? Tentou dissimular:
        - O que quer insinuar?
        - Nada que voc no saiba. Mas o assunto que me trouxe aqui  relacionado com Lanira. Ela levantou cedo e saiu com Gabriel. Quando chamei sua ateno, respondeu 
que, se resolver casar com ele, ningum vai poder impedir.
        - Como ? Ela disse casar?
        - Disse.
        Ele se remexeu na cadeira tentando entender. De certa forma estava aliviado por desviar o assunto de sua secretria.
        - Bom... ela est namorando-o?
        - Disse que no, mas suspeito que as coisas esto mais adiantadas do que ela quer mostrar.
        - Voc est exagerando. No vejo motivos de preocupao. Gabriel  moo de uma das melhores famlias do Rio de Janeiro.
        - Em vias de ser transformada em um bando de ladres. Antnio abanou a cabea negativamente:
        - Isso a preocupa? Esse caso no vai dar em nada, pode crer. Se o louco do Daniel no tivesse dado ouvidos a Rubinho, no estaramos nesta situao. Onde 
j se viu? Querer ser a palmatria do mundo! Eles vo quebrar a cara, voc vai ver.
        - No  isso o que parece. Lanira afirmou categoricamente que Daniel est certo. Ela tem sado muito com ele e Rubinho. Sabe exatamente o que est acontecendo 
por l.
        - Seja como for, no vejo motivo para tanto alarde, nem para voc perder a linha.
        Maria Alice sentiu sua irritao voltar.
        - No v? Mas eu tenho me questionado ultimamente se vale a pena continuar a ser uma pessoa de classe, guardar as aparncias mesmo quando se tem vontade 
de gritar e espancar todo mundo.
        Antnio olhou-a boquiaberto. A mulher que tinha diante de si no era a que estava habituado a ver. Era outra, olhos cintilantes de rancor, rosto contrado, 
boca arqueada em ricto de ironia. Tentou contemporizar:
        - O que est havendo com voc? Est doente? Nunca a vi to nervosa. Acho melhor marcar uma consulta com o Dr. Malheiros.
        - No preciso. Do que se admira? O fato de eu controlar meus sentimentos no significa que eu esteja imune s emoes que brotam em meu corao. J vivemos 
mais da metade de nossa vida e  duro perceber que no estamos indo a lugar nenhum. Que todos os sacrifcios que fizemos no tinham finalidade. Foram inteis. No 
passavam de iluses sem sentido. Tenho medo de acordar e descobrir que perdemos tempo, que nossa vida toda foi um engano, um pulo no vazio, uma inutilidade.
        Antnio assustou-se vendo o rosto dela determinado, abatido, seu corpo curvado ao peso dos prprios pensamentos.
        Aproximou-se e passou o brao pelas costas dela tentando confort-la. Maria Alice continuou sentada, parecendo no registrar a atitude dele, que no sabia 
o que dizer.
        De repente, ela se levantou, olhou-o e ele notou que ela recuperara a postura de sempre:
        - Antnio, voc tem que falar com Lanira e exigir que ela deixe de ver Gabriel.
        Ele no achou prudente contrari-la.
        - Verei o que posso fazer. Hoje  noite irei mais cedo para casa e conversaremos. Voc quer que a acompanhe at em casa?
        - Para qu? J disse o que tinha a dizer. No quero interromper seu dia de trabalho. O motorista est me esperando.
        Ela se levantou e saiu. Passou por Alicia sem olh-la sequer. Assim que ela fechou a porta atrs de si, a secretria foi ter com Antnio. Estava plida:
        - E ento? O que foi que ela disse?
        - Nada de mais. Queria falar sobre Lanira. Alicia respirou fundo.
        - Tive a impresso que ela ia me agredir. Nunca a vi desse jeito. Acho que ela sabe de tudo sobre ns.
        Ele balanou a cabea pensativo, depois disse:
        - Pode ser. Em todo caso, no falou diretamente no assunto.
        - Acho melhor dar um tempo... S nos falarmos aqui... Antnio abraou-a com carinho:
        - Que bobagem! Ela no sabe de nada. E se sabe vai fingir que ignora. Sei como ela pensa. As aparncias em primeiro lugar.
        - Pode ser, mas estamos nos arriscando muito. E se seus filhos descobrirem? Vou morrer de vergonha.
        - Nem pense nisso. Voc tem sido a luz de minha vida. Tem me apoiado, dado muitas alegrias. No saberia mais viver sem voc.
        Apertou-a de encontro ao peito, beijando-a nos lbios com amor. Ela se deixou ficar ali, sentindo o medo e a culpa dentro do corao, mas sem nimo de deixar 
a segurana  qual se habituara dentro daqueles braos carinhosos e protetores.
        
        
      Captulo 16
        
        Lanira e Gabriel chegaram ao apartamento de Daniel e tocaram a campainha com insistncia. Rubinho abriu a porta com cara de sono.
        - Desculpe, acordamos voc - foi dizendo Lanira. - Estamos preocupados porque Bris saiu ontem e ainda no voltou para casa.
        - Nem vai voltar to cedo. Entrem. Eles entraram enquanto Gabriel dizia:
        - Voc sabe o que aconteceu?
        - Bris foi preso durante esta madrugada. Est tudo bem. Alberto foi libertado.
        Os dois bateram palmas de alegria.
        - Puxa! Preso? - disse Gabriel
        - Alberto est bem? - indagou Lanira.
        - Est tudo bem. No tivemos tempo de avis-los. Chegamos em casa passava das cinco da manh. Vamos at a cozinha. Vou fazer um caf e contarei tudo.
        Eles se sentaram e enquanto Rubinho servia o caf foi relatando os acontecimentos. Finalizou:
        - Como v, voc estava certo. Conseguimos salvar Alberto e prender aqueles malandros, graas  sua- ajuda. Ele j sabe e est muito agradecido.
        - Vou ligar e dar a notcia  minha me. Ela vai ficar aliviada e feliz. Depois que ele falou com Maria Jlia, voltou  cozinha.
        - Finalmente uma boa notcia! Ela ficou aliviada. Entretanto, no nego que por outro lado ela se preocupa com as conseqncias. Sabemos que agora a histria 
toda vai vir a pblico.
        Lanira segurou a mo de Gabriel tentando confort-lo.
        - Estamos do seu lado - disse.
        - Ns tambm - concordou Rubinho. - Faremos tudo que pudermos para proteg-los.
        - Seja como for, estamos livres de Bris e do perigo que ele representa. Mas ainda temos que enfrentar a desonra de meu pai e da famlia.
        - Infelizmente, quanto a isso nada poderemos fazer. Eles erraram e agora esto colhendo as conseqncias de suas atitudes - tornou Rubinho.
        - Sei disso. Quando resolvemos apoiar Alberto, ns sabamos das conseqncias.
        - Esse  o maior mrito do que esto fazendo - disse Lanira.
        - No estou questionando o mrito. No momento estou mais interessado em escapar com um mnimo de dignidade de toda essa sujeira em que nos meteram, proteger 
minha me para que ela sofra menos.
        - Infelizmente a situao  delicada. No poderemos evitar o depoimento dela.
        - Isso ser terrvel para ela - considerou Gabriel com tristeza.
        - Reconheo. No entanto, h as atenuantes. Se ela se calou diante das ameaas do marido, fez tudo para evitar um mal maior. Protegeu a vida de Alberto sempre. 
Pode ter certeza de que faremos tudo para defend-la em juzo e provar que no foi cmplice.
        - O medo que ela tem de Bris e de meu pai por vezes parece-me exagerado. Eles tm enorme ascendncia sobre ela.
        - Podem estar fazendo alguma chantagem com ela. Alguma coisa que ela no deseja revelar com a qual eles a dominam.
        - Essa sempre foi minha impresso. Voc confirma o que tenho sentido nestes anos todos. Mas quando toco no assunto ela garante que estou enganado.
        - Pode ser que ela no queira contar nem mesmo a voc - aventou Lanira.
        - Seja como for, na prxima semana teremos a audincia em que seu pai precisa apresentar sua defesa. Hoje mesmo formalizaremos os documentos com os ltimos 
acontecimentos e a acusao de seqestro para juntar aos autos. Alm disso, o delegado instaurou inqurito, e como houve o flagrante, tudo correr rapidamente. Hoje 
 tarde, enquanto dou entrada nos documentos, Daniel acompanhar o interrogatrio dos prisioneiros. Nossa causa agora ganhou muito mais fora.
        - Vou para casa conversar com minha me. No sei qual ser a reao de meu pai quando descobrir que seus cmplices foram presos e puseram tudo a perder.
        - Pode ir. Eu pretendo ficar por aqui para ajudar no que precisar.
        - O delegado vai intimar seu pai para comparecer hoje  delegacia e prestar declaraes, uma vez que Bris  seu empregado.
        Gabriel suspirou preocupado.
        - No vai ser nada agradvel para ele.
        - Claro que no. Mas penso que ele ir tentar inocentar-se de qualquer suspeita. Vai fingir que ignorava tudo. Dizer que Bris perdeu a cabea por causa 
da calnia que feria a honra da famlia que ele tanto ama e que o acolheu com tanto carinho. Vai lamentar e repreender o criado diante do delegado.
        - Acho que ele far isso mesmo. Resta saber o que ele far em casa, com mame. L ele no tem tantos cuidados. Quero estar presente quando ele receber a 
notcia.
        - A esta altura pode j ter recebido. Bris queria que o acordssemos em plena madrugada.
        - Ningum ligou para casa at a hora em que eu sa.
        - O delegado disse que preferiria esperar e fazer primeiro algumas investigaes.
        Gabriel despediu-se e saiu preocupado.
        - Ele est sofrendo muito - considerou Lanira.
        - E um moo de bem. Nunca poderia concordar com tanta desonestidade. E duro ver a famlia envolvida em tantos problemas.
        Daniel entrou na cozinha dizendo contente:
        - Estava pensando em ligar para voc.
        - Gabriel estava preocupado. Bris no dormiu em casa e ele pensou que tivesse acontecido alguma coisa com Alberto. Viemos saber.
        - Ele foi para casa. Deseja proteger a me - ajuntou Rubinho.
        - Vamos ver o que o Dr. Jos Lus far.
        - Vai tentar se defender. Mas as provas que temos agora so muito fortes - acrescentou Rubinho.
        - Eu suspeito que ainda teremos outras novidades nesse caso. Tenho pensado muito a respeito. A morte dos pais de Marcelo em um acidente no exterior enquanto 
eles estavam na Europa pode ter sido provocada. Alm do caso de Alberto, pode haver ainda os outros crimes que com persistncia poderemos desvendar.
        Lanira surpreendeu-se:
        - Voc acha que isso  possvel? Eles teriam chegado a tanto?
        - Veja - esclareceu Daniel -, a morte do menino no lhes dava a posse da herana enquanto o av e os pais estivessem vivos.  muito suspeito que em menos 
de dois anos todos eles tivessem morrido.
        - O Dr. Camargo morreu do corao. E o que diz em seu atestado de bito - lembrou Lanira. - Ele ficou muito desgostoso com a morte do menino. Laura me contou 
que ele no se alimentava, retirou-se da vida social, nunca mais foi o mesmo.
        - Gostaria de ver esse atestado de bito - disse Rubinho. - Alis, no s o dele mas o dos pais de Marcelo.
        -  fcil. Basta ir ao cemitrio e ver a data do falecimento. Depois  s descobrir o cartrio - ajuntou Daniel.
        - Vou pedir a Jonas para ver se consegue isso - disse Rubinho pensativo. - Pode ser que tenhamos alguma pista nova. Vamos juntar aos autos o endereo da 
ama e indici-la como cmplice de Jos Lus. Est na hora de Eleutria ser chamada a depor.
        - Vai ser um bomba - concluiu Lanira.
        - Alm daquela fita gravada, Marilena tem algumas provas que Jonas nos dar para juntar ao processo - lembrou Daniel.
        - Sim: outras fitas que ela conseguiu gravar das conversas de Eleutria com o marido. Alm disso, j preparei um dossi dos bens que ela adquiriu depois 
da morte do menino.
        - Nesse caso, penso que tudo acabar mais depressa do que poderamos supor - tornou Lanira com satisfao. - Com a soluo do caso, muitas coisas voltaro 
 normalidade.
        - . Alberto toma posse do nome e da fortuna que lhe pertencem de direito, ns teremos conquistado credibilidade profissional e melhorado nossa situao 
financeira - disse Daniel com satisfao.
        - Eu pretendo me casar. No tenho como fugir. Estou apaixonado por Marilda e ela j deu o sim. Logo que eu melhorar de situao financeira, nos casaremos.
        Os dois o abraaram com alegria. Nos olhos de Daniel havia certa ansiedade. Ele tambm gostaria de se casar com Ldia. Sentia que seu amor por ela despontava 
forte e profundo. Mas ao mesmo tempo uma sensao de medo envolvia-o quando pensava nisso. Por qu?
        Lanira pensou em seu envolvimento com Gabriel. Seria suficiente para casar? Gostava dele o bastante para abdicar de sua liberdade e assumir uma famlia? 
No. Sentia que no estava pronta para isso.
        
        Gabriel chegou em casa e foi direto ao quarto da me. Maria Jlia, vendo-o, levantou-se da cama onde se estendera esperando a volta do filho.
        Preocupada, insone, levantara-se quando Gabriel sara e no conseguira descansar. A cada rudo, seu corao se descompassava e ela temia a volta de Bris.
        Quando Gabriel telefonou informando que ele fora preso, sentiu imediato alvio, mas ao mesmo tempo outra espcie de medo a acometeu. O que aconteceria quando 
toda a trama do passado viesse  tona? O que seria de sua famlia, do nome conceituado dos seus? Como seus filhos enfrentariam uma situao dessas? Estava calma 
quanto a Gabriel, mas e Laura? Sempre fora muito voltada s rodas sociais, dando grande importncia aos sobrenomes e s posies de cada um. Para ela seria um drama 
sem soluo.
        E se seu segredo viesse  tona? E se, descobrindo que ela ajudara o lado contrrio, Bris resolvesse falar? Como aparecer diante dos filhos como leviana 
e infiel?
        Maria Jlia torcia as mos angustiada. Rezar ela no conseguia mais. S fazia pensar no que poderia acontecer dali para a frente. Era muito bonito Gabriel 
dizer que trabalharia para sustent-las. Mas ele nunca havia trabalhado antes. Eles teriam que enfrentar a pobreza e isso a assustava tambm.
        - E ento? - perguntou ela aflita.
        - Est tudo bem, me. Alberto est em segurana, Bris e Antunes esto presos. Agora  s esperar pelas conseqncias.
        - Estou nervosa, meu filho. O que nos acontecer se seu pai for preso? Sem dinheiro, como vamos sobreviver? Laura vai se revoltar, ela no  como voc.
        Gabriel segurou as mos frias da me tentando esquent-las com seu carinho.
        - Acalme-se, me. Ns estamos do lado certo, portanto Deus est do nosso lado. Em meio ao mal que nos circunda, temos que ficar no bem a fim de nos proteger. 
Encontraremos uma forma de resolver nossos problemas. No tenho medo de nada. No queria carregar o peso de um crime. Conseguimos evit-lo. S isso  motivo de alegria 
e de gratido. Seja o que for que precisarmos enfrentar, estaremos juntos.
        Maria Jlia abraou o filho com carinho.
        - Ainda bem que tenho voc do meu lado nesta hora.
        - Como  que esto as coisas aqui em casa? Papai j sabe que Bris est preso?
        - No sei. Jacira me disse que ele tomou o caf e fechou-se no escritrio avisando que no queria ser interrompido. Se algum telefonasse, era para dizer 
que ele no estava.
        - Vou descer e perguntar a Jacira se algum telefonou. Pode ser que o delegado ainda no tenha ligado. Ele havia decidido interrogar Bris antes de chamar 
papai.
        - Agora que ele est preso, posso falar. Espero que todos os seus crimes sejam descobertos e que ele nunca mais saia da cadeia.
        - Voc sabe de alguma coisa que possa incrimin-lo?
        - No. Durante estes anos de convivncia, ouvi e vi muitas coisas, mas no posso provar nada. Espero que a polcia consiga mant-lo preso.
        - Acha que ele cometeu crimes mesmo depois que estava em nossa casa?
        - Quando o conhecemos, ele era procurado pela polcia russa. Na Alemanha ele no podia entrar porque havia uma ordem de priso contra ele. Usava nome falso 
e papis que forjara com um traficante de drogas na Frana.
        - Mesmo assim, papai trouxe-o para morar em nossa casa! No lhe parece leviandade da parte dele?
        - No o teria trazido se no estivesse preso a ele por um negcio que fizeram juntos na Europa. Bris fez chantagem e Jos Lus o trouxe. Depois, penso que 
estavam presos um ao outro pela cumplicidade, no s pelo que haviam feito antes como pelo caso de Marcelo. Eles o maquinaram juntos. Bris levou muito dinheiro, 
mas preferiu ficar aqui, como mordomo, acobertado pela respeitabilidade de nosso nome.
        - Ele nunca foi realmente um mordomo. Sempre mandou em nossos criados e at em ns. Na verdade, muitas vezes me pareceu que o patro era ele.
        - Tem razo. E agora?
        - No sei, me.
        - Seu pai far tudo para libert-lo, a fim de impedir que ele d com a lngua nos dentes e incrimine-o. Tenho medo de que, quando ele perceber que est perdido, 
queira nos arrastar a todos em sua queda.
        - Ele s conseguir arrastar quem cometeu algum crime. Ns no fizemos nada. Voc salvou Marcelo. No se esquea disso. Ele  muito grato a tudo quanto voc 
fez, custeando seus estudos, cuidando de sua segurana. Ele ir defend-la, no tema.
        Vendo-a mais calma, Gabriel desceu e foi falar com a empregada. Ficou sabendo que uma pessoa havia telefonado, conversado com Jos Lus e que depois disso 
ele se fechara no escritrio dizendo que no queria ver ningum.
        - Quem era no telefone?
        - No sei. Era uma voz de homem. Quando perguntei quem era, seu pai, que estava tomando caf, ouviu e imediatamente veio atender sem deixar que eu falasse 
mais. Mandou-me sair e no ouvi mais nada.
        Gabriel subiu ao quarto da me pensativo. Teria sido o delegado quem telefonara? O que seu pai estaria fazendo fechado no escritrio sem querer atender ningum?
        -Algum ligou para papai - disse Gabriel assim que entrou no quarto. - Foi depois disso que ele se fechou no escritrio.
        - Teria sido Pola?
        - No. Era voz de homem. Os dois esto presos. S pode ter sido o delegado. Por que ser que ele se fechou l?
        - Deve estar examinando tudo e destruindo qualquer papel ou prova que possa incrimin-lo. Ele guarda muitos documentos naquele cofre. Nunca consegui saber 
quais.
        - No adianta ele destruir papis. Bris foi preso em flagrante. Os advogados de Alberto tm muitas outras provas contra eles.
        - O que faremos agora?
        - Nada. Temos que esperar.
        - Eu no quero que seu pai saiba que ns colaboramos com a priso de Bris.
        - Quando a justia nos chamar para depor no processo, ele saber de que lado estamos.
        Maria Jlia torceu as mos nervosamente:
        - Espero que esse tempo demore bastante.
        - Do que tem medo? Bris est preso e por certo ficar muito tempo na cadeia.
        - Ele no ter nenhum escrpulo em arrastar todos ns em sua queda.  perverso e vingativo.
        Gabriel segurou as mos da me apertando-as com fora.
        - Ns no fizemos nada errado. Voc no deve ter medo de nada.
        - Jos Lus fez.
        - Infelizmente. Ter que responder por isso. No vamos poder evitar que ele seja preso.
        - Meu Deus! O que ainda falta nos acontecer?
        - Seja o que for, estaremos juntos, enfrentaremos a situao de cabea erguida. Voc vai ser beneficiada pelos depoimentos de Alberto e a proteo dos advogados. 
Tenho certeza de que sair livre de tudo isso.
        - No  por mim que eu temo. Penso em Laura. Ela no  como voc. No tem estrutura para agentar o descrdito social, a pobreza.
        - Ter que aprender os verdadeiros valores da vida. Tem a cabea cheia de iluses, prende-se s aparncias.
        - Ela vai sofrer.
        - Vai tornar-se mais forte, amadurecer. E isso que a vida quer. Algumas batidas na porta do quarto interromperam o dilogo. Gabriel foi abrir e Jos Lus 
estava diante deles.
        - Preciso conversar com voc, Maria Jlia, a ss.
        - J estava saindo, papai.
        Gabriel retirou-se, Jos Lus entrou e fechou a porta, olhando-a srio. 
        - Sobre o que conversavam?
        - Sobre os problemas de Gabriel com a namorada. No sei se voc sabe, mas ele tem sado com Lanira e parece que esto se gostando.
        - Tinha que ser logo com ela, cujos irmos esto me processando? O sbito interesse dessa moa por Gabriel  no mnimo suspeito. Tenho notado que nos ltimos 
tempos ele no larga de voc. Est sempre circulando, observando tudo quanto voc faz.
        - Pelo que sei dessa moa, ela no sabe de nada daquele caso. Voc se esquece de que o deputado mandou o filho embora de casa? Gabriel se preocupa com minha 
sade. Tem me acompanhado ao mdico. Minha presso no anda muito boa.
        - Espero que seja s isso.
        - O que mais poderia ser? Gabriel no sabe nada sobre o passado.
        - Melhor para ele que continue ignorando. Mas o assunto que me trouxe aqui  outro. Bris meteu-se em confuso e foi detido pela polcia.
        - O que foi que ele fez?
        - Nada de mais. Saiu com Antunes, acho que para fazer alguma coisa de um deputado. No sei bem. Como  nosso empregado, o delegado ligou me chamando. Quero 
que durante minha ausncia voc no saia de casa para nada.
        - Porqu?
        - Aqueles advogados esto me irritando muito. Podem bem querer complicar nossa vida. Se eles aparecerem por aqui, no atenda nem deixe ningum atender. Cuide 
para que Gabriel ou Laura no os receba.
        - Vocs esto encrencados. Eles podem ter provas contra vocs. Jos Lus segurou o brao de Maria Jlia, apertando-o com fora. Seus olhos brilhavam rancorosos 
quando respondeu:
        - Provas eles no tm. Agora, se voc tentar alguma coisa contra mim, pode ter certeza de que saberei como agir.
        - Voc no me envolver em seus negcios. Sabe muito bem que nunca tive nada a ver com suas falcatruas.
        - Vai ser difcil provar que no  minha cmplice. Se eu cair, no irei sozinho. Voc e seu filho iro comigo.
        - Deixe Gabriel fora disso. Ele no sabe de nada.
        - Depende s de voc. Cuide para que esses advogados de meia tigela no consigam nenhuma prova, caso contrrio voc ver.
        - Deixe-me em paz.
        - Quero que feche toda a casa e que os criados no atendam ningum at minha volta. Essa ordem estende-se a Laura e Gabriel. Vou sair agora. Cuide para que 
tudo seja feito como eu quero.
        - Est bem.
        Maria Jlia ficou observando da janela e quando o carro do marido saiu ela foi ter com Gabriel para contar-lhe a novidade:
        - Ele quer que a casa permanea fechada at ele voltar da delegacia. No quer que recebamos ningum, seja quem for. Laura est em casa de uma amiga e eu 
esqueci de lhe dizer.
        - Melhor ligar para ela e pedir que fique l at a noite. Conforme forem as coisas, eu mesmo passarei l para apanh-la. Acho melhor ela ficar fora disso.
        -  melhor, pelo menos por enquanto. O que direi a ela?
        - Arranje alguma desculpa. Vou ligar para Lanira e contar-lhe como esto as coisas.
        - Jos Lus est desconfiado de sua amizade com Lanira.
        - Um dia ele ter que saber a verdade.
        - Que no seja agora!
        - As vezes penso que voc tem algum segredo e que ele a chantageia.
        - No se trata disso. Eles so muito cruis. Tenho medo de que eles tentem alguma coisa contra vocs.
        - Acha que papai seria capaz de fazer mal a seus prprios filhos?
        - No sei. Estou confusa. s vezes no sei o que digo. Gabriel abraou-a tentando confort-la.
        
        Jos Lus chegou  delegacia e foi encaminhado para o delegado. Depois dos cumprimentos ele tornou:
        - Fui informado que meu mordomo encontra-se detido nesta delegacia, juntamente com outro homem. O que aconteceu?
        - O outro  Antunes. O senhor o conhece?
        - Conheo apenas de vista um ex-policial que tem esse nome. Ser o mesmo?
        - E o mesmo. Bris trabalha para o senhor?
        - Sim. E esse o nome de meu mordomo.
        - Eles foram presos em flagrante por seqestro. Jos Lus levantou-se exclamando:
        - No poder ser! Deve haver algum engano. Bris trabalha para minha famlia h muitos anos e sempre foi um empregado exemplar.
        - No sei como conseguiu esse milagre. Pedi sua ficha na polcia internacional e posso assegurar que se trata de um perigoso aventureiro que responde por 
alguns crimes no exterior.
        Jos Lus sentou-se novamente dizendo com voz que procurou tornar calma:
        - Pelo que sei, ele sofreu muito durante a guerra. Teve toda a sua famlia morta. Ficou desequilibrado e cometeu alguns erros. Arrependeu-se. Quando o conheci, 
estava regenerado. Posso garantir que, durante os anos que viveu em minha casa, portou-se bem. Tenho certeza de que sua ficha no Brasil est limpa.
        - Estava, doutor. Antes de cometer seqestro. Quero advertir que mandei abrir inqurito e decretei a priso, uma vez que houve o flagrante. O senhor ter 
muito trabalho para provar o que diz na justia.
        - No entendo por que ele cometeu esse deslize. No tem problemas de dinheiro.
        - Bris no fez isso por dinheiro. Ele pretendia resolver um problema do patro. Isto , do senhor.
        - Meu? No tenho nada a ver com esse caso.
        - Ele seqestrou Alberto, que est movendo na justia um processo contra o senhor.
        - No  possvel que ele tenha cometido essa loucura. Sua dedicao no tem limites.
        - Ele estava sendo dedicado ou cumprindo uma ordem sua? Jos Lus levantou-se de novo indignado:
        - Como ousa pensar uma coisa dessas? Sou um mdico. Uma pessoa de bem. Nunca iria compactuar com uma coisa dessas! Ser que algum vai dar crdito a esse 
aventureiro que est levantando essa calnia? Meu nome e o de minha famlia esto acima de qualquer suspeita.
        - Para a polcia s as provas tm valor. E confesso que esse seqestro veio agravar muito a sua situao perante a justia.
        - O senhor est depreciando minha inteligncia. Acha que eu seria to idiota a ponto de seqestrar esse rapaz e me incriminar?
        - Eu no acho nada. Estou apenas falando da situao em si. O rapaz que foi vtima prestou depoimento em que contou que foi ameaado por diversas vezes. 
Tinha certeza de que pretendiam mat-lo.
        - Isso  mentira. Ele est tirando proveito da situao, pretendendo incriminar-me. O senhor no percebe o que aconteceu? Bris  muito dedicado. Minha mulher 
e meus filhos andam envergonhados com toda essa publicidade em torno do caso e esto sofrendo muito. Bris no agentou ver minha tristeza com o sofrimento deles. 
S pode ter acontecido isso. Sem me falar nada, ele resolveu dar um susto nesse rapaz para que ele desistisse dessa ao. Nunca pretendeu mat-lo, tenho certeza 
disso.
        - Se foi s isso, o senhor ter que provar na justia. Devo esclarecer que eles esto encrencados e ser muito difcil libert-los.
        Jos Lus olhou-o nos olhos enquanto dizia:
        - Se o senhor for compreensivo, ns poderemos resolver tudo agora. Saberei recompensar sua generosidade.
        Sem desviar os olhos,, o delegado respondeu:
        - No se trata de minha compreenso. Trata-se do cumprimento da lei. No que depender de mim, garanto que ela ser cumprida. Ser melhor o senhor procurar 
um bom advogado, porque os advogados de Alberto esto muito bem fundamentados.
        - Gostaria de falar com Bris.
        O delegado chamou um funcionrio e mandou que conduzisse Jos Lus at uma sala e que levassem o prisioneiro.
        Uma vez a ss com Bris, Jos Lus tirou um papel do bolso, no qual escreveu algumas palavras e mostrou a Bris: "Podem estar ouvindo. Fique firme. No conte 
nada. Vou tir-lo daqui".
        Em voz alta, fingia-se surpreendido e repreendia o mordomo por sua atitude, mas ao mesmo tempo sabia que ele fizera tudo por excesso de zelo. Entrando na 
farsa, Bris chorou, disse estar arrependido, confessou ter feito tudo sem conhecimento do patro. Jos Lus prometeu arranjar um bom advogado.
        Quando ele saiu, encontrou-se com Alberto, Daniel e Rubinho, que conversavam com o delegado. Ignorando a presena deles, limitou-se a dizer ao delegado que 
mandaria um advogado tratar do caso e saiu.
        Daniel e Rubinho leram as declaraes de Jos Lus que o escrevente anotara.
        - Ele est tentando salvar a pele - comentou Daniel.
        - Com as provas que temos, ser difcil - respondeu Rubinho.
        - Para ganhar a causa, vocs precisam que essas provas sejam convincentes. A famlia dele tem prestgio e  muito conceituada - lembrou o delegado.
        - Garanto que desta vez a justia ser feita - disse Daniel.
        - Ele tentou me comprar. Deve pensar como muitos que todos os delegados so corruptos. Terei imenso prazer em mostrar a ele o quanto est enganado.
        - Felizmente h muitos policiais honestos. Esses nem sempre aparecem nos noticirios - comentou Rubinho.
        - E ento - perguntou Daniel -, Bris acrescentou alguma coisa s suas declaraes de ontem?
        - No. Penso que no dir mais nada - respondeu o delegado.
        - Pelo menos enquanto pensar que est protegido pelo patro - tornou Rubinho.
        - Claro - concordou o delegado. - Ele sabe que seu patro tem interesse em libert-lo para se proteger. Ainda bem que foi feito o flagrante, seno eu no 
teria como decretar a priso preventiva. Ele teria que esperar a sentena em liberdade.
        - Nesse caso, poderia fugir - comentou Alberto.
        - Bem, ns vamos embora, Dr. Marques. Se houver alguma novidade, por favor, telefone-me. Seno, amanh cedo passaremos aqui - despediu-se Rubinho estendendo 
a mo ao delegado.
        De volta ao escritrio, eles estudaram os prximos passos. Fizeram uma petio para ser includa nos autos do processo, denunciando Eleutria como cmplice 
de Jos Lus e solicitando que ela fosse chamada a depor. Juntaram tambm aos autos o boletim de ocorrncia lavrado na delegacia sobre o seqestro de Alberto e a 
priso em flagrante dos dois envolvidos, e a queixa crime contra Jos Lus como mandante.
        Naquela tarde mesmo eles deram entrada em justia desses documentos, pedindo fossem anexados aos autos.
        Um advogado presente quando Daniel registrou os documentos interessou-se e descobriu o que eles continham. A princpio, os outros advogados no estavam levando 
os dois jovens muito a srio. Entretanto, quando eles conseguiram a abertura do processo, passaram a interessar-se mais, principalmente por envolver pessoas de prestgio 
social.
        Por isso, quando um deles apareceu contando as novidades, os comentrios se espalharam como uma bomba. Aquele seqestro era quase uma confisso.
        O Dr. Eugnio Loureiro, advogado de Jos Lus e que fora contratado para libertar Bris, foi procur-lo em casa naquela noite. Fechados no escritrio, ele 
foi logo dizendo:
        - O que vocs fizeram foi uma loucura! No frum no se fala em outra coisa. Seqestrar esse rapaz foi seu maior erro.
        - Isso foi coisa de Bris. Eu no queria nada disso.
        - No precisa esconder, Jos Lus. Bris me contou tudo.  um homem perigoso. Precisamos ser muito hbeis. Ele pode pr tudo a perder.
        - Ele est mentindo. Quer se aproveitar da situao para salvar a pele.
        - Seja como for, a situao  grave. Os comentrios esto fervendo. Muitos que no acreditavam em sua culpa no caso de Marcelo mudaram de opinio. O juiz 
pode ser influenciado. Sabe como .
        - Estou sendo vtima da burrice de Bris. Ele nunca deveria ter feito nada a esse moo.
        - Mas fez. Fez e voc foi envolvido at o pescoo.
        - Sou um homem de bem. Conceituado. Ningum vai acreditar que eu estou envolvido nisso;
        - Essa ocorrncia  uma prova muito forte contra voc. Amanh irei ler o processo e estudar os documentos que foram acrescentados e que provocaram tantos 
comentrios.
        - Falta uma semana para a fatdica audincia e at l precisamos encontrar jeito de provar que estou inocente.
        - Como?
        - Eles no tm nenhuma prova contra mim. Ser minha palavra contra a deles.
        - Eles tm vrias evidncias que juntaram ao processo. E agora o seqestro.
        - Esto querendo me destruir, ficar com meu dinheiro. Esse moo  um aventureiro.
        Eugnio olhou-o srio. Ficou silencioso alguns segundos, depois disse:
        - Eu ficaria mais tranqilo se voc me contasse toda a verdade.
        - Voc  meu amigo, meu advogado. Precisa confiar em mim. Eugnio abanou a cabea:
        - No sei, no. Esse moo parece muito com o Dr. Camargo. Minha me tem uma foto de famlia em que ele aparece muito jovem, em uma festa em sua casa. Confesso 
que fiquei chocado com a semelhana.
        Jos Lus remexeu-se na cadeira inquieto.
        - Ele  um impostor.
        - Voc tem uma foto de seu tio mais jovem?
        - No.
        - Tenho pensado nesse caso. Estou empenhado em defend-lo na justia. Sou um profissional. Voc me contratou e pretendo fazer jus  sua confiana. Entretanto, 
se no me falar a verdade, corro o risco de ser surpreendido por provas para as quais no estou preparado, e ento minha defesa ser ineficiente. Para seu prprio 
bem, peo-lhe que confie em mim e conte a verdade. Voc fraudou documentos e afastou Marcelo para ficar com a fortuna?
        - Se eu disser que sim, voc continuar me defendendo?
        - Claro. Sou seu advogado. Devo-lhe lealdade. Espero lealdade tambm de sua parte. Sabendo toda a verdade, estarei mais preparado para sua defesa.
        - Est bem. Voc tem razo. O que eles dizem  verdade.
        - Agora, voc vai me contar tudo quanto aconteceu naquele tempo. Recordar os fatos minuciosamente. Preciso saber com o que eles podem contar. Quais as armas 
que eles tm.
        Eugnio pediu papel e, enquanto Jos Lus contava os fatos, ele tomava notas, perguntando alguns detalhes de vez em quando.
        Quando Jos Lus falou da chantagem de Eleutria, Eugnio no se conteve:
        - Esse  o ponto fraco do processo. Se essa mulher resolver falar...
        - No vai. E muito ambiciosa e no vai querer perder o dinheiro que recebe todos os meses.
        - Como  que faz esse pagamento?
        - Em dinheiro, para no deixar nenhuma prova.
        - Mesmo assim, isso  perigoso.
        - No acredito. Ela  cmplice. Participou de tudo. Se falar, vai se complicar.
        - Voc no sabe o que uma pessoa pode fazer quando est sob presso. A polcia pressiona de todo jeito.
        - Ela no mora mais aqui no Rio e ningum, a no ser Bris e eu, sabe onde ela est. Por esse lado, no corremos nenhum risco.
        - Espero que esteja certo. Se ela aparecer e confessar, voc estar perdido. No poderei fazer nada.
        - Isso nunca acontecer. Tenho certeza.
        - Bem, tenho que ir. Amanh irei ao frum ver o processo e voltarei para estudarmos as prximas providncias.
        - A audincia  na prxima semana. No gostaria de ir. Voc, como meu advogado, pode me representar.
        - Voc pode alegar problemas de sade, mas no acho bom fazer isso. J faltou na primeira audincia e o juiz no gostou. Parece descaso com a justia ou 
medo de enfrentar o problema. Em ambos os casos, s prejudica. Voc precisa ir, mostrar-se interessado em prestar esclarecimentos. Provar que no tem nada a temer.
        - Est certo. Irei.
        -  melhor assim. Amanh, assim que tiver o processo, virei procur-lo para traarmos a defesa.
        - Acha que conseguiremos?
        - Nada posso dizer antes de ler as alegaes dos adversrios e saber quais as provas que eles apresentam. Poderei dizer alguma coisa amanh.
        Depois que o advogado se foi, Jos Lus fechou-se no escritrio e mergulhou a cabea entre as mos. Tudo parecia ir to bem! Nunca imaginou que depois de 
tantos anos Marcelo aparecesse vivo. Tinha a certeza de que Alberico fizera o servio, conforme o combinado. Pagara muito dinheiro por isso!
        Levantou-se e comeou.a andar de um lado a outro da sala, nervoso. Se Alberico no tivesse morrido, acabaria com a vida dele. Bris no perdia os dois cmplices 
de vista e lhe contara que o motorista morrera na misria em um asilo em So Paulo.
        De repente tudo ficou claro em sua cabea. Maria Jlia nunca concordara com o que eles haviam feito. Obrigara-a a aceitar, a calar, mas em seus olhos havia 
sempre uma reprovao. Fora ela que induzira Alberico a poupar a vida de Marcelo. Ela que o mantivera escondido na Inglaterra. As constantes remessas de dinheiro 
para aquele pas eram para sustentar Marcelo. Por que no pensara nisso antes?
        Trincou os dentes com raiva. Ela era culpada por ele estar naquela situao. Sempre com cara de vtima, chorando pelos cantos. Olhando-o como se ele fosse 
um monstro. Claro que diante dos outros representava seu papel de esposa com perfeio, mas na intimidade repudiava-o. A condenao que lia nos olhos dela irritava-o.
        H muito deixara de ter relaes ntimas com ela. Amava-a com paixo. Fizera tudo imaginando que ela iria entender seus motivos e agradecer a fortuna que 
ele conquistara para que a famlia pudesse desfrutar de luxo e prazer.
        Mas no. Ela o repudiara, mostrando-se horrorizada com o que ele fizera. Desprezava-o. Era-lhe penoso manter relaes com ele. Essa situao levara-o ao 
desespero. Quanto mais ela o repudiava, mais ele a desejava, tornando a vida deles um inferno. Louco de cime, vigiava-a constantemente. Contudo, a conduta dela 
era exemplar. Ele nunca tivera nenhum motivo para duvidar de sua fidelidade.
        Vendo-os juntos em sociedade, ningum poderia imaginar o inferno que eles estavam vivendo. Ele buscara outros relacionamentos na tentativa de abrandar esse 
sentimento, mas foi intil. A paixo ainda continuava l.
        Passou a mo pelos cabelos em um gesto desesperado. Tudo poderia ter sido muito diferente se ela no tivesse interferido. Marcelo era o ltimo da famlia. 
Com sua morte, todos os obstculos teriam sado de seu caminho e nenhuma ameaa colocaria em risco sua segurana.
        Jos Lus mal conseguia controlar o dio. A culpa era s dela. Ele havia sido muito paciente todos esses anos. Estava na hora de Maria Jlia pagar por tudo 
quanto o havia feito sofrer. Se ele fosse penalizado por causa dela, no iria sozinho. Ela iria com ele. Saberia arrast-la na queda. Essa seria sua vingana e sua 
compensao.
        
        
      Captulo 17
        
        De volta ao escritrio, depois de darem entrada nos documentos nos autos do processo contra Jos Lus, Rubinho perguntou:
        - Vou jantar esta noite com Marilda e Ldia. Voc vem conosco?
        - No.
        - Por qu? Vocs me pareceram to interessados um no outro. Estarei enganado?
        - No. Ldia me interessa muito. Tanto que preciso pensar antes de encontrar-me com ela novamente.
        - Pensar? Em amor, quanto menos pensar, melhor. Daniel suspirou pensativo, depois respondeu:
        - Tenho que tomar uma deciso a respeito.
        - Voc est levando isso a srio demais. Vocs se conhecem h pouco tempo. Viram-se algumas vezes. No ser melhor conviver um pouco mais para poder decidir 
alguma coisa?
        - Agradeo o convite, mas hoje, no.
        - Ela vai ficar triste. Marilda disse que est muito interessada. S fala em voc, desde aquela noite em que voc a levou para casa.
        - Foi maravilhoso. Nenhuma mulher me emocionou tanto quanto ela. Por isso, antes de me envolver mais, preciso ir com calma.
        - Hum!... Acho que voc est mais do que envolvido. E se ela perguntar?
        - No se preocupe. Vou ligar para ela e conversar.
        - Est bem. J estou indo embora. Amanh teremos um dia cheio.
        - Virei cedo.
        Depois que Rubinho saiu, Daniel deixou-se cair em uma cadeira pensativo. O que estava acontecendo com ele era algo muito estranho. No fora os sonhos to 
dolorosos que tivera com Ldia, teria se entregado quele relacionamento sem pensar em mais nada.
        Mas havia em torno deles um mistrio que, quanto mais pensava, mais se sentia intrigado. Teria mesmo a ver com vidas passadas, conforme dissera tia Josefa?
        Precisava conhecer mais a respeito. Talvez ela pudesse esclarec-lo. Tomou o telefone e ligou.
        A criada atendeu e ele pediu para falar com a tia. Depois dos cumprimentos ele tornou:
        - Tia, estou confuso com tudo que est acontecendo comigo. Gostaria de conversar com a senhora. Poderia me atender?
        - Claro, meu filho. Quando quiser.
        - Estou inquieto. Pode ser hoje mesmo?
        - Claro. Venha jantar comigo e conversaremos.
        Ele desligou satisfeito. Precisava entender o que se passava com ele. Por que tantas emoes, tanta angstia e receio? A voz de Alberto chamando-o de assassino 
incomodava-o. A cena da morte de Ldia fazia-o estremecer de dor e receio. Isso no era normal. Tinha que resolver esse mistrio.
        Apanhou o telefone e ligou para Ldia. Ela atendeu amvel. Depois dos cumprimentos, Daniel tomou:
        - Rubinho convidou-me para jantar com vocs hoje  noite. Infelizmente, tenho um compromisso e no poderei ir.
        - Que pena. Nesse caso, jantarei em casa.
        - Espero que no se prive desse prazer por minha causa.
        - No  por isso. Penso que eles se sentiro melhor sozinhos. Tm muito que conversar. Se voc fosse, seria diferente, eu no estaria atrapalhando. Estava 
ansiosa para encontr-lo depois daquela noite. Agora, pensando melhor, acho que para voc no foi a mesma coisa.
        - Foi mais do que voc poderia pensar. Sinto vontade de ir correndo at voc e apert-la em meus braos, beijar sua boca, sentir seu corpo junto ao meu. 
Eu amo voc, Ldia. Acho que a amei mesmo antes de conhec-la.
        - No entanto, percebo que me evita. Esperei que me ligasse no dia seguinte, no outro, e nada. Agora recusa-se a sair comigo. Seja sincero. Eu gosto de voc. 
Confesso mesmo que nunca senti tanta emoo em um beijo. Notei que se emocionou tambm. Mas posso estar enganada. Voc pode apenas ter ficado excitado, como ficaria 
ao contato com qualquer mulher.
        - No diga isso, por favor. Estou sendo sincero. Nunca senti por mulher nenhuma o que estou sentindo por voc. Mas esse sentimento  to intenso que me assusta. 
Tenho medo de assumir e sofrer.
        - Eu prefiro arriscar. O medo inibe e infelicita. S os que ousam conquistam a felicidade.
        - Tem razo, Ldia. Se eu fosse fazer o que estou sentindo agora, iria correndo at a e cobriria-a de carcias. Mas sinto que preciso me conter por enquanto.
        - Tenho a impresso de que alguma coisa o incomoda e o segura. O que ?
        - No momento, nem eu mesmo sei. Preciso pensar, encontrar a chave para os sentimentos desencontrados que esto dentro de mim. Peo-lhe um pouco de pacincia. 
No me julgue indiferente. Voc  muito importante para mim. Pode acreditar.
        - Est bem. Eu acredito. Voc tem todo o tempo do mundo para avaliar e entender o que vai dentro de seu corao. Sinto que est sendo sincero. Aprecio sua 
atitude franca. Quando sentir que est na hora de me procurar para conversar, venha.
        - Obrigado, Ldia.
        Depois de desligar, Daniel ainda ficou alguns instantes pensando. Tudo em Ldia o emocionava. Sua voz, seu jeito de se expressar, as lembranas dos momentos 
que haviam desfrutado juntos faziam seu corao bater mais forte. A certeza de que era correspondido impulsionava-o a ir correndo para o lado dela.
        Controlou-se. Sentia que antes de se entregar a esse relacionamento precisava encontrar as respostas para o que lhe acontecera. Tia Josefa esperava-o e talvez 
o ajudasse a compreender.
        Foi com prazer que Daniel recebeu o abrao carinhoso da tia e informou-a do que estava acontecendo no caso de Alberto.
        - Graas a Deus, meu filho. Eu sabia que nada de mal lhe aconteceria. O Dr. Camargo est sempre ao lado dele protegendo-o.
        - Espero que ele nos ajude a ganhar essa causa.
        - Chegou a hora da justia. Tudo vai dar certo.
        - Assim espero. Tia, tenho andado angustiado. H muitas perguntas confundindo minha cabea.
        - O que o incomoda?
        - Meus estranhos sonhos e meus sentimentos por Ldia.
        - J disse, meu filho. Voc tem lembranas de alguns fatos de suas vidas passadas.
        - Fica confuso. Sempre fui racional, equilibrado. Mas como entender haver sonhado com Alberto e com Ldia antes de conhec-los?
        - Eu no sei o que aconteceu com vocs no passado. Mas se a vida os uniu novamente despertando emoes mal resolvidas, renovando sentimentos, chamando-os 
a uma situao de conflito interior,  que est na hora de crescer, dar um passo  frente, identificar a atitude causadora dos problemas passados, para que, modificando-a, 
vocs obtenham resultados melhores e mais felizes.
        - Sem saber o que de fato aconteceu fica difcil.
        - Voc se engana. Se prestar ateno s emoes que sente, conseguir identificar o que o incomoda. Da,  um passo para perceber quais atitudes suas ocasionaram 
os resultados desagradveis.
        - Esses sonhos so dolorosos. Alberto me chama de assassino. Diz que matei Ldia, entretanto fico desesperado porque ela est morrendo e no consigo evitar 
isso. Claro que no a matei. Ao contrrio, sofro muito para evitar que ela morra. Depois, sinto muita dor, saudade, solido.  difcil explicar.
        - O que me parece  que vocs trs estiveram estreitamente ligados em outra vida. Separaram-se conservando mgoas recprocas, assuntos mal resolvidos. A 
natureza no gosta de coisas inacabadas. Est unindo-os para que venam esse conflito.
        - Aquela noite, quando samos daqui, levei Ldia para casa. No resistimos  atrao que sentimos um pelo outro. Beijamo-nos com ardor. Senti que a amo e 
que sou correspondido. Mas ao mesmo tempo, ao pensar em levar adiante esse namoro, um medo terrvel me sufoca como se algo horrvel fosse acontecer. Ento procuro 
dominar meus sentimentos e afastar-me dela.
        - Est se atormentando  toa. No percebeu ainda que voc, Ldia e Alberto esto unidos pela fora das coisas? No adianta fugir,  preciso enfrentar. No 
se recorda do que Norma disse-lhe naquela noite? "O que aconteceu naqueles tempos no vai acontecer de novo."
        - E verdade. Ela disse isso.
        - Ento. E por causa desse seu medo. Vocs viveram experincias dolorosas. Voc sofreu. Mas hoje tudo ser diferente. Vocs mudaram, amadureceram. E se voc 
est tendo esse desafio,  porque j tem condies de vencer.
        - Voc acha mesmo?
        - Claro. A vida  bondosa e justa. Nunca colocaria em seu caminho uma situao em que fosse fatal voc perder. Naturalmente ter que se esforar, enfrentar 
seus medos, puxar para fora sua coragem. Mas se fizer isso, vencer.
        - Vai depender de mim.
        - Isso mesmo. Tudo em sua vida s depende de voc. Deus est dentro de cada um,  espera que a pessoa ande, perceba, queira, conquiste o prprio bem-estar 
e a prpria felicidade.
        - Todas as pessoas desejam ser felizes. Por que h tanto sofrimento no mundo?
        - Por causa das iluses, da vaidade, do medo de cuidar de si. H em nossa sociedade uma inverso de valores to grande que s podia dar no que deu. As pessoas 
correm, atropelam-se para cuidar dos outros e abandonam sua prpria alma. Assim geram os conflitos, as depresses, as doenas, a infelicidade.
        - As religies ensinam que devemos trabalhar em favor dos outros. Amar o prximo como a si mesmo.
        - As pessoas no amam a si mesmas, como podem amar o prximo? Ainda esto muito longe do amor verdadeiro. O que se v no mundo  o bem por obrigao, pelo 
medo de ir para o inferno,  a vontade de ganhar alguns pontos diante da sociedade e de Deus. Contudo, a alma deles est abandonada, sem conforto, sem alegria, sem 
carinho, sem amor. Como algum pode ser bom sem sentir amor? Como algum pode dar aos outros o que no tm? E por isso que a violncia, a crueldade andam soltas 
no mundo.
        -  mesmo, tia. Por ter observado isso  que eu nunca me interessei pela religio. Nossos conhecidos vivem pregando o amor ao prximo, mas entregam-se  
mesquinhez,  desonestidade. Por toda parte tenho visto o descaso com tudo que  de interesse pblico. Parece at que o que  da comunidade no  de ningum. Pode 
ser destrudo.
        - Isso  falta de amor. Essa  a maior chaga da humanidade. O amor pressupe o capricho, o trabalho bem-feito, o prazer de cooperar, o respeito pelo bem 
comum.
        - O governo no coopera.
        - No  um problema do governo.  um problema de cada um. O que acontece na sociedade  reflexo do que vai dentro do corao das pessoas.
        - Mas todos pregam o bem e as boas aes. Desde o colgio ouo falar nisso.
        - Intelectualmente todos sabem, mas raros tentam fazer. Afundam na descrena. A pretexto de prevenir, salientam o mal; pensando valorizar a cincia, mergulham 
no materialismo, acabam frustrados e deprimidos, inseguros e alienados.
        - Conheo vrias pessoas assim.
        - Nossa sociedade est doente e infeliz.
        - E difcil consertar isso.
        - Nada  difcil quando a vida quer. E ela trabalha para isso o tempo todo.
        - De que forma?
        - Fazendo cada pessoa colher os resultados de suas atitudes. Se a violncia e a crueldade refletem a falta de amor dos coraes, a dor, as tragdias, as 
doenas so meios que a vida usa para sensibilizar, abrir as conscincias e mostrar os verdadeiros valores. Tenho a certeza de que um dia todos iremos aprender.
        - Voc fala com uma certeza que eu gostaria de possuir. Tenho me sentido inseguro, incapaz de lidar com minhas emoes. Como poderei recuperar o equilbrio?
        - Ficando atento, observando seus sentimentos. O conflito aparece quando voc se reprime e no age de acordo com o que sente. Ainda agora reconhece que est 
amando Ldia, deseja estar com ela, trocar carcias, extravasar seu amor. Entretanto, ao invs de fazer isso voc preferiu questionar o que sente, a pretexto de 
evitar um sofrimento que nem sabe se vir. Eis a o que o est desequilibrando neste momento. Voc estaria muito mais feliz se estivesse ao lado dela do que se perguntando 
o que esse relacionamento pode lhe trazer.
        - Mas eu sinto esse medo.
        - No duvido. Mas ele no vem de sua alma, com certeza. Ela quer ser feliz e est disposta a pagar o preo. O medo  sempre resultado da represso interior. 
De como voc se violenta, sufocando sua verdadeira natureza, talvez para entrar no modelo que a sociedade convencionou como certo. Voc rompeu um pouco com isso 
quando ousou defender Alberto nos tribunais. Mas ainda no conseguiu vencer o preconceito contra a espiritualidade. -lhe difcil aceitar que o que viu e sentiu 
em sonhos foram recordaes de suas vidas passadas.
        - Reconheo que  difcil mesmo.
        - Por isso no consegue seguir o conselho de Norma, separar o passado do presente.
        - Est tudo misturado em minha cabea.
        - Esse  seu engano. No  a cabea que decide seu caso. Ela est demasiado cheia de racionalidade, de idias e regras que aprendeu na sociedade. Voc acredita 
que precisa resolver suas emoes por meio do raciocnio. Que isso  ter bom senso. Que fazer o que sente pode ser ruim. No confia em si mesmo. S acredita no que 
lhe disseram ser o melhor.
        - Tenho receio de entrar na iluso. Preciso ser racional, sensato.
        -  verdade. Mas nunca conseguir isso sufocando seus sentimentos.
        - Minha vida decorria normal. De repente, emoes novas e fortes comearam a brotar dentro de mim. Isso me assusta. No consigo compreender.
        - No adianta querer explicar sentimentos atravs do raciocnio. Emoes talvez possam ser entendidas, mas sentimentos, no. Eles surgem e no tm explicao. 
O amor, as afinidades e preferncias, as vocaes so manifestaes da alma. Quando voc tenta reprimi-las, anula-se, deprime, cria conflitos, empobrece.
        - Como diferenciar emoes de sentimentos?
        - Emoes so reaes de pensamentos, refletem a maneira com que voc v e julga determinados fatos. Os sentimentos, no. Eles vm da alma. Aparecem e extravasam 
simplesmente. Refletem-se no cultivo do belo, no capricho de fazer coisas, no carinho e na ternura por tudo e por todos.  o prazer exteriorizado. Quando voc ama 
e expressa livremente esse sentimento, seu carisma envolve tudo que voc toca e o prazer, a alegria que voc sente faz sua felicidade.
        - Deve ser maravilhoso poder se sentir assim.
        - E. s vezes, em alguns momentos, todos j nos sentimos. Precisamos aprender a manter continuamente esse estado de esprito.
        - Quer dizer que as emoes desagradveis que venho sentindo, esse medo de me entregar ao amor de Ldia, no representam um pressentimento? Uma previso 
do futuro?
        - No. Se isso fosse verdade, Norma no o teria aconselhado a largar o passado. Quero crer que voc passou por problemas dolorosos em outra vida, ao lado 
de Ldia e Alberto. Conservou impresses fortes desses acontecimentos.
        - Mesmo depois de ter nascido de novo e esquecido esse passado?
        - Mesmo assim. Voc guarda no inconsciente o registro de todos aqueles fatos, e quando alguma coisa lembra esse tempo, as impresses dolorosas reaparecem.
        - Isso tem lgica. Nesse caso, tia, o que fazer para melhorar?
        - Fazendo exatamente o que teme. Enfrentando seu medo. Se fizer isso, descobrir que nada do que temia aconteceu. As impresses dolorosas desaparecero  
medida que as boas e agradveis iro se verificando.
        - Acha mesmo que serei feliz ao lado de Ldia?
        - No sei. Vai depender de vocs. Mas levando em conta os sentimentos que percebo em ambos, acredito que dar tudo certo.
        Daniel suspirou aliviado:
        - Ouvindo-a falar assim j me sinto melhor.
        - Preste ateno, perceba como voc entra no medo do passado. Quando acontecer isso, repita a frase que Norma ensinou: "O que aconteceu naqueles tempos no 
vai acontecer de novo".
        - Comeo a entender por que ela disse isso.
        Josefa sorriu e Daniel notou que ela ficava muito mais bonita quando sorria. No se conteve. Levantou-se e beijou-a levemente no rosto.
        - Obrigado, tia. S no entendo uma coisa...
        - O qu?
        - Por que passei tanto tempo sem vir aqui em sua casa desfrutar de sua companhia?
        - Ainda pode recuperar o tempo perdido. Venha sempre. Agora vamos jantar. Voc deve estar com fome.
        Daniel levantou-se oferecendo galantemente o brao para conduzi-la  sala de jantar.
        Passava das onze quando Daniel voltou para casa. A conversa com a tia fizera-lhe muito bem.
        Gostaria de falar com Ldia, abrir o corao. Apanhou o telefone e ligou. Reconheceu a voz logo que ela atendeu:
        - Desculpe ligar a esta hora. Acordei voc?
        - No.
        - Acabei de chegar, no quis me deitar sem lhe desejar uma boa noite, dizer que a amo e que neste momento gostaria de estar a seu lado. Precisamos conversar. 
Posso passar a amanh  noite?
        - Pode.
        - Passarei l pelas oito.
        - Estarei esperando. Sente-se melhor?
        - Sim. Estive em casa de tia Josefa. Nossa conversa fez-me um bem enorme.
        - Ela  maravilhosa.
        Os dois continuaram conversando e passava da meia-noite quando finalmente Daniel desligou e preparou-se para dormir. O dia seguinte seria de muito trabalho 
e ele precisava estar muito bem.
        
        Na tarde do dia seguinte, o Dr. Eugnio procurou Jos Lus em casa e foram para o escritrio. Depois de fechar a porta e sentar-se em frente ao advogado, 
perguntou ansioso:
        - E ento? O que descobriu?
        - A situao est muito pior do que eu supunha. O que eu temia aconteceu. Eles pediram o depoimento de Eleutria no processo.
        Jos Lus levantou-se de um salto:
        - Como? Eles sabem a respeito dela?
        - Tudo. Juntaram aos autos o endereo de Eleutria e um depoimento assinado do motorista em que ele confessa o embuste.
        - Vou avis-la e faz-la desaparecer.
        - No vai dar para fazer isso. Eles investigaram tudo, os pagamentos que Bris fazia a Pola e ela depositava no banco em nome da bab. As propriedades que 
ela comprou depois de sair do emprego. Tudo est l documentado. Devo dizer-lhe que ser muito difcil fazer frente a essas provas.
        Jos Lus fez um gesto de desespero, passando a mo pelos cabelos e andando de um lado a outro. Por fim parou em frente ao advogado dizendo:
        - Isso no pode ser verdade! Temos que dar um jeito. Voc precisa achar uma soluo!
        - No p em que as coisas esto, s vejo uma.
        - Qual? Fale, farei qualquer coisa.
        - Chamar Alberto e fazer um acordo com ele.
        - Isso  impossvel! Nunca farei isso. Ser como confessar.
        - E o nico jeito que eu vejo de evitar a vergonha, talvez at a priso. Podemos cham-lo e tentar convenc-lo a retirar a queixa, at a dizer que estava 
enganado.
        - Ele nunca aceitar isso.
        - O dinheiro tem grande poder. Se oferecer a maior parte de sua fortuna, ele aceitar. Afinal, o que ele deve mesmo estar querendo  o dinheiro. Assim, evitaremos 
que ele se apresente na audincia e teremos chance de negar tudo perante a justia.
        - Acha que ele faria isso?
        - Acho. Se me autorizar, procurarei os advogados dele para uma reunio.
        - Com aqueles dois, no. Eles no vo querer aceitar. Esto em busca de notoriedade. Para eles interessa ganhar a causa.  com Marcelo que voc precisa negociar 
sigilosamente.
        - Tentarei. Vou procur-lo hoje mesmo.
        - Faa isso e depois me telefone. Conforme for, terei que arrumar meus papis e ver de quanto poderei dispor para dar a esse aventureiro.
        - Faa isso. Garanto que hoje mesmo resolveremos esse assunto.
        - Est certo. Estarei esperando sua resposta.
        Eugnio saiu e foi at o apartamento de Alberto, onde foi informado pelo porteiro que ele estava trabalhando e no sabia a que horas regressaria. Por isso, 
o advogado decidiu esper-lo na porta do prdio em que ele trabalhava.
        Assim que Alberto saiu, ele se apresentou dizendo:
        - Sou o advogado do Dr. Jos Lus. Gostaria de conversar com voc em um lugar discreto.
        - Vou ligar para meus advogados para ver se ainda esto no escritrio. Poderemos ir at l.
        - No. O que tenho a conversar  s com voc. Poderemos tomar alguma coisa em um bar.
        - H uma casa de lanches na esquina.
        Uma vez acomodados em uma mesa discreta, pediram refrigerantes e quando se viram a ss Eugnio foi direto ao assunto:
        - Vim agora da casa de meu cliente. Ele est muito aborrecido com essa situao. Quer propor um acordo.
        - De que forma?
        - Est muito arrependido do que fez no passado. Na verdade anda at doente. Reconhece que voc tem razo. Que est reclamando o que tem direito. Entretanto, 
sua famlia no sabe de nada. Ele disse que prefere morrer a contar-lhes tudo. Particularmente, posso afirmar que ele est to desesperado que me assusta. Se no 
houver acordo com voc, tenho certeza de que ele dar cabo da vida.
        - Ele no pensou em nada quando fez o que fez.
        - E verdade. Ele estava louco. Mas agora est arrependido. Quer refazer o mal. Devolver toda a fortuna a voc.
        - A troco de qu?
        - De retirar a queixa na justia. De no levar adiante o processo. De no ir quela audincia. Ele quer poupar a famlia. No se importa em perder o dinheiro, 
que afinal no lhe pertencia, mas quer pelo menos que seu nome fique limpo. Por causa dos filhos. Da vergonha. Acha que sua esposa vai morrer de desgosto se essa 
histria se confirmar.
        Alberto no respondeu logo. Ficou pensativo, calado. Eugnio esperou alguns instantes depois perguntou:
        - E ento, aceita?
        Alberto olhou-o e levantou-se dizendo com olhos brilhantes de tanta indignao:
        - Voc acha que depois de tudo quanto eu passei, de viver minha vida inteira longe de meu pas, sem ningum, de haver sido privado da companhia de minha 
famlia, do sofrimento de meus pais e de meu av me julgando morto, eu faria um acordo desses? Depois de haver passado por humilhaes e incertezas na busca de minha 
verdadeira identidade enquanto ele desfrutava tranqilamente do produto que havia roubado de ns, eu iria pensar em poup-lo da vergonha de assumir a responsabilidade 
por seus atos? Nunca farei com ele qualquer espcie de acordo. Ele deve  ir para a cadeia, pagar pelos crimes que cometeu. Eu quero meu nome de volta, limpo, como 
sempre foi. Diga-lhe isso, doutor.
        Alberto afastou-se e o advogado tirou um leno do bolso para limpar o suor que lhe escorria pelas faces. Reconhecia que a situao era difcil para seu cliente 
e comeou a se arrepender de haver se metido naquele caso.
        Quando o aceitou, nunca imaginou nem por um instante que Jos Lus fosse culpado. Seja pelos jovens advogados que no mereciam sua confiana, seja pela fama 
de pessoa de bem que o mdico gozava perante a sociedade, ele acreditou que lhe seria fcil ganhar essa causa,  qual no dava muita importncia.
        Sabia que as pessoas ricas, famosas em sociedade, eram vtimas das artimanhas dos que visavam tirar-lhes dinheiro.
        Julgara mal e agora via-se envolvido em uma causa  qual a opinio pblica estava dando imensa importncia. Alm de perd-la, seria visto como defensor de 
uma enorme falcatrua.
        No se sentia confortvel. Se nada viesse a pblico, faria qualquer coisa. J passara por situaes delicadas e sara-se bem. O que no podia era ver seu 
nome associado a uma patifaria dessas publicamente.
        Falaria com Jos Lus para que encontrasse outro advogado. Ele subestabeleceria o caso e pronto. Estaria fora.
        Chegou em casa e ligou para Jos Lus. Assim que ele atendeu, foi logo dizendo:
        - Ele no aceitou. Nem quis ouvir os detalhes. Faz questo de usar o nome da famlia e no est disposto a perdoar o que voc lhe fez.
        - Voc no tentou convenc-lo? Estive fazendo as contas, posso dar-lhe muito dinheiro. Inclusive seus honorrios sero elevados.
        - No adianta. Ele no quer mesmo. Ficou to irritado que quase me agrediu. Sa de l passando mal. Voc no sabe, mas sou cardaco. Minha presso deve ter 
subido. Amanh vou consultar meu cardiologista. Nem sei se poderei comparecer  audincia.
        - Quer me deixar na mo!  isso.
        - No. Sou seu amigo.  que estou doente mesmo. Aconselho-o a procurar outro advogado o quanto antes.
        Jos Lus desligou o telefone com raiva. Estava consumado. Diante dos fatos, ele no tinha mais esperanas de sair dessa. Mas ele havia planejado o que faria 
se tudo isso acontecesse.
        Enquanto o Dr. Eugnio procurava Marcelo, ele avaliara todo o dinheiro com que poderia contar e fizera um plano para o caso de Marcelo recusar a proposta. 
Tinha ainda um prazo de dois dias para colocar esse plano em ao.
        Sua cabea doa e ele tentava controlar a raiva. No iria ser preso nem viveria na pobreza. Ningum poria as mos nele.
        No dia seguinte, quando Daniel chegou ao escritrio, j encontrou Alberto.
        - Temos novidades - disse Rubinho assim que ele entrou. - O advogado de Jos Lus procurou Alberto para fazer um acordo.
        -  mesmo?
        Foi Alberto quem respondeu:
        - E. Ele quer dar-me o dinheiro com a condio de que eu desista da ao. Deu-me vontade de esmurr-lo.
        - Voc no aceitou - tornou Daniel.
        - Claro que no! Eu quero minha identidade, usar o nome que tenho por direito. Quero colocar tudo nos devidos lugares. Meu av sempre me diz isso.
        - Voc fala com ele? - indagou Rubinho.
        - Sim. Sinto sua presena e o que ele pensa a respeito. Sinto que ele ainda se angustia com o que nos aconteceu. Desejo que ele possa ficar em paz.
        - Agiu muito bem. Essa proposta indica que Jos Lus est desesperado. Ele sabe que vai perder a causa, que pode ser preso. Ainda mais com Bris na cadeia 
- disse Daniel.
        - Quando Bris descobrir que seu cmplice no ir defend-lo, vai jogar toda a responsabilidade em cima dele para tentar diminuir sua pena. Jos Lus sabe 
disso - garantiu Rubinho.
        Continuaram conversando para ultimar alguns detalhes para a audincia dali a dois dias.
        Quase na hora do almoo, Jonas apareceu:
        - Tenho novidades. Marilena me contou que Eleutria j foi intimada e ficou apavorada. Conversou com o marido e eles planejaram no comparecer  audincia 
e viajar para o exterior.
        - No podemos deix-la fazer isso! Seu testemunho  fundamental! - disse Daniel preocupado.
        - Ela tentou, mas no conseguiu. Conversei com o delegado e ele alertou a Polcia Federal, dando os dados do casal. No conseguiram tirar passaporte. Foram 
barrados.
        - Ainda bem - desabafou Rubinho. - Mas eles podem no comparecer e se esconderem dentro do pas mesmo.
        - Nada disso vai acontecer. Esto sendo vigiados. Meus homens me informam de todos os seus passos. Depois, Marilena est atenta. Se eles no comparecerem 
para prestar depoimento, a polcia ir busc-los. J arrumei tudo. O delegado est interrogando Bris, mas j pediu abertura de inqurito, porquanto ele foi preso 
em flagrante. Trouxe este documento para vocs juntarem aos autos.
        - timo. J relatamos esse fato e juntamos ao processo. Esse documento torn-lo- inquestionvel - disse Rubinho satisfeito.
        - Nesse interrogatrio, ele disse mais alguma coisa? - indagou Daniel.
        - Sabe como ... Ele  esperto e no se deixa apanhar com facilidade. O delegado est acenando com sua proteo, caso ele conte a verdade, sugerindo que 
sua pena pode ser diminuda se ajudar a polcia a desvendar tudo. Mas ele est arisco. Nega tudo. Diz que fez isso porque no suportava ver o sofrimento da famlia 
de seu patro. No pretendia fazer mal a Alberto. Apenas assust-lo.
        - Quando me ameaaram no estavam brincando. Tenho certeza de que, se vocs no tivessem me encontrado, eles teriam me matado.
        - A polcia sabe disso. Se ele no confessar por bem, eles tm outros mtodos. Garanto que ele vai falar - afirmou Jonas.
        - O delegado pode faz-lo acreditar que Jos Lus o abandonou - disse Rubinho
        - Fica difcil, porquanto Jos Lus mandou seu advogado cuidar do caso dele e afirma que vai fazer tudo para libert-lo - informou Jonas.
        - Ele  esperto. Sabe que enquanto Bris pensar que est fazendo tudo para ajud-lo no dir nada - tornou Daniel.
        - Em todo caso,  apenas uma questo de tempo. Diante de tantas provas, no h como duvidar - disse Jonas. - Em breve tudo estar resolvido. Vocs ganharo 
a causa.
        Alberto baixou a cabea para esconder o brilho de algumas lgrimas que ele tentava evitar cair. E os outros trs se entreolharam sentindo o reflexo daquela 
emoo e, naquele momento, guardaram silncio. Nenhum deles sentia vontade de falar.
        
        
Captulo 18
        
        Na vspera da audincia, Daniel e Rubinho trabalharam o dia inteiro, revendo os pontos importantes. Se o juiz aceitasse as provas, alm de determinar que 
Alberto fosse reconhecido como Marcelo Camargo de Melo e legtimo herdeiro de todos os bens de famlia, indiciaria Jos Lus instaurando processo crime com base 
no inqurito policial de seqestro e nas provas apresentadas nos autos.
        Daniel chegou em casa passava das oito. Apesar de cansado, foi com disposio que tomou um banho rpido, arrumou-se e foi encontrar-se com Ldia. Haviam 
combinado jantar juntos.
        Depois da conversa com tia Josefa, Daniel sentira-se menos preocupado. O que ele sentia por Ldia nunca havia sentido por ningum. Estar a seu lado era to 
prazeroso que ele resolveu esquecer seus receios. Afinal, toda aquela histria podia ser apenas uma fantasia de sua cabea. Mas ainda que fosse verdade que eles 
tivessem vivido outras vidas, as palavras de Norma diziam para confiar no presente, porque o que aconteceu naqueles tempos no se repetiria.
        Na noite anterior haviam sado juntos e conversado muito sobre os sentimentos que os unia. Ele se sentia feliz e alegre. Aquela causa iria dar-lhe credibilidade 
profissional e dinheiro. O entusiasmo de Rubinho falando de seu casamento com Marilda estimulava-o a fazer o mesmo. As coisas comeavam a melhorar e ele fazia planos 
para o futuro.
        O jantar decorreu agradvel, depois foram para o carro. Daniel parou em uma rua tranqila e deserta. Trocaram beijos, juras e carinhos, falando de seus sentimentos.
        Passava da meia-noite quando Daniel chegou em casa. Rubinho j havia se recolhido. Ele se preparou e deitou. O dia seguinte seria decisivo e ele queria estar 
bem-disposto.
        Embalado em seus pensamentos com Ldia, adormeceu. Viu-se entrando na mesma casa onde j estivera em sonhos, procurando por Ldia. Encontrou-a na sala, porm 
no estava s. Alberto estava a seu lado, segurando sua mo.
        Daniel sentiu agudo cime apertar seu corao. Arrependeu-se de ter adotado seu afilhado quando o pai morreu. Ele era ento uma criana, que Ldia ajudara 
a criar com muito carinho.
        Ela no tivera filhos e dedicara-se ao menino com amor. Daniel achava que ela o mimava excessivamente, mas ela se desculpava dizendo que ele no tinha famlia 
e por isso precisava muito de proteo e afeto.
        Agora ele tinha dezenove anos e cada dia estava mais agarrado a Ldia. Daniel vinha notando esse apego com preocupao. Naquele dia, notou que a atitude 
dele no era de um filho. Em seus olhos havia a admirao de um homem por uma mulher.
        Louco de cime, escondeu-se e procurou ouvir o que conversavam. Ele dizia:
        - Madrinha, no posso suportar mais esse sentimento. Sinto que  maior do que eu.
        - Calma, meu filho. Voc est confundindo as coisas. Chama de amor o que  apenas gratido, amizade. Logo achar uma moa boa que o ame de verdade e perceber 
que tudo isso no passou de uma iluso.
        - No me chame de filho! Sou um homem que sente, e meu corao pulsa por voc. Diga que me ama como eu a amo! Deixe-me mostrar-lhe o quanto eu a quero e 
como posso fazer a sua felicidade.
        Alberto sem se conter abraou-a e tentou beijar-lhe os lbios. Ela lutava para desvencilhar-se. Daniel no mais se conteve. Entrou na sala agarrando Alberto, 
sacudindo-o e dizendo:
        - Miservel. Como ousa fazer isso? Ns o criamos com amor. Eu o protegi quando ficou s e sem um nquel. Paguei seus estudos, dei-lhe dinheiro, fiz de voc 
nosso nico herdeiro. Tratei-o como um filho!
        - Mentira. A vida no deu filhos a vocs e me pegaram para satisfazer esse desejo. Vocs precisavam de algum para serem uma famlia e eu vim a calhar.
        Daniel olhou-o indignado:
        - O que est dizendo? Depois de tudo que fizemos por voc? Depois do amor e do carinho com o qual foi criado?
        - Eu me apaixonei por ela desde o primeiro dia. Cada vez que voc a abraava eu quase morria de cime. Quantas vezes, imaginando o que vocs estavam fazendo 
sozinhos no quarto, bati na porta dizendo que estava com medo...
        - Cale-se - disse Ldia. - Voc no sabe o que est dizendo. Isso no pode ser verdade.
        -  verdade - garantiu Alberto, olhando-a com olhos de adorao. - Eu sei que voc tambm me ama.
        - Nem mais uma palavra - gritou Daniel. - Junte todas as suas coisas e v embora desta casa. Nunca mais quero v-lo.
        Ldia abraou Daniel chorando e dizendo:
        - No faa isso. Ele est transtornado. No pode mand-lo embora. No tem para onde ir.
        - Depois do que ele disse, no vou tolerar mais sua presena aqui. Ele tem quinze minutos para deixar esta casa para sempre.
        - No quero mesmo ficar aqui. Mas eu volto. Vou sair, trabalhar e voltar para busc-la. Tenho certeza de que ir comigo.
        Subiu as escadas correndo enquanto Ldia chorava e pedia:
        - No o deixe ir. Por favor. No posso v-lo partir assim. Angustiado, Daniel segurou o brao dela com fora:
        - Voc o ama! No quer que v porque est apaixonada por ele!
        - Vocs esto loucos. No  nada disso. Vocs tm que se entender. Tudo isso  um mal-entendido. Por favor, no o deixe ir.
        Alberto voltou segurando uma mala e Ldia vendo-o disse nervosa:
        - Voc no ir. No o deixarei sair. Isso  uma loucura.
        - Tenho que ir. No suportaria mais ver voc ao lado dele. Logo virei busc-la. Ficaremos juntos para sempre.
        Ela tentou segur-lo, mas ele pegou a mala e saiu batendo a porta. Ldia aproximou-se de Daniel dizendo:
        - Voc no vai fazer nada para impedir? Vai deix-lo ir?
        - Ele j foi e nunca mais o deixarei entrar nesta casa.
        Ldia olhou-o plida. Seus olhos se fecharam e ela caiu ao cho. Daniel correu assustado. Ela parecia no respirar. Levantou-a e colocou-a no sof. Sentia 
um aperto no corao e uma vontade muito grande de chorar.
        Acordou angustiado e suando frio. Levantou-se, foi apanhar um copo de gua e bebeu alguns goles. Dentro de seu corao tinha certeza de ter vivido essa cena 
e sua repetio fizera voltar o medo que sentia.
        Seria mesmo verdade? Alberto havia sido seu afilhado e criado como um filho? Teria se apaixonado por Ldia como dissera? Ele sentia que a cada dia mais se 
juntavam as peas desse quebra-cabeas.
        A impresso penosa que Alberto lhe causara quando o conhecera seria por causa daquele passado? Passou a mo pelos cabelos preocupado. E se Alberto se apaixonasse 
novamente por Ldia? Se naquele tempo ele fora pobre e muito mais jovem do que ela, agora a situao havia mudado.
        Dentro de pouco tempo ele seria rico, teria um nome importante e era um pouco mais velho do que ela. Se ele se apaixonasse por ela de novo, poderia ser um 
srio concorrente a seu amor.
        E ela? Como reagiria? O afeto que sentia por ele teria mudado? Daniel deitou-se novamente, mas no conseguiu dormir. Remexia-se no leito e aquelas cenas 
no lhe saam do pensamento.
        A angstia voltara e ele se sentiu atormentado. Decidiu reagir. Aquilo poderia ser apenas uma coisa de sua cabea. Quem garantiria que acontecera mesmo? 
Contudo, por mais que tentasse negar a veracidade de seu sonho, ele sentia que j vivera aquela situao.
        Ento resolveu. Falaria com tia Josefa e iria assistir  prxima sesso esprita em sua casa. Talvez l encontrasse as respostas que procurava.
        
        Jos Lus, depois que desligou o telefone, fechou-se no escritrio andando de um lado para outro preocupado. No tinha outra sada. Reconhecia que havia 
sido derrotado. Tudo por causa de Maria Jlia.
        No iria pagar sozinho pelo que fizera. Era cmodo para ela fingir-se penalizada, mas durante todos aqueles anos usufrura do conforto e do dinheiro que 
ele conseguira. Seu plano estava feito e a resoluo, tomada.
        Ningum poria as mos nele. Desde que esse processo surgira na justia, ele fora colocando dinheiro no exterior para qualquer eventualidade. S ficaram as 
propriedades e a empresa do velho Dr. Camargo, da qual ele tirou o que pde.
        Tinha tudo preparado, inclusive duas passagens para Roma. Uma vez l, tomaria outro rumo e tinha certeza de que ningum conseguiria encontr-los. Maria Jlia 
iria acompanh-lo. Tinha como obrig-la.
        Ela s saberia tudo na hora de sair para embarcar. No podia correr nenhum risco. Nos ltimos tempos Gabriel andava muito com ela. Jos Lus sabia que ele 
faria tudo para impedi-los de deixar o Brasil.
        Foi a seus aposentos, arrumou uma mala de porte mdio. No queria dificuldades com bagagem. O dinheiro que tinha l fora daria para comprar o que precisasse. 
Quanto a Maria Jlia, faria-a arrumar o estritamente necessrio. Depois que lhe comunicasse sua deciso, ficaria a seu lado o tempo todo para evitar que ela o delatasse.
        Tinha certeza de que ela ficaria contra essa fuga. Apesar do relacionamento entre eles h muito ter estado estremecido, ele no queria deix-la. Uma vez 
longe e dependente dele para tudo, ela se tornaria mais dcil.
        Na hora do jantar, j tinha tudo pronto. Partiriam naquela mesma noite. O vo sairia de madrugada. Havia tempo para tudo. Foi com prazer que depois do jantar 
viu Gabriel sair. Laura estava em casa de uma amiga e s voltaria no dia seguinte. Ele estava livre portanto para fazer o que planejara.
        Passava das onze quando Jos Lus bateu no quarto de Maria Jlia, que estava preparando-se para dormir. Vendo-o, ela estremeceu:
        - O que deseja?
        Ele entrou, fechou a porta a chave, dizendo com voz firme:
        - Apronte-se, temos que sair.
        - Sair? A esta hora?
        - Sim. Vamos viajar.
        - Viajar? Para onde?
        - Para longe, at que essa onda passe.
        - Eu no irei com voc, Jos Lus. Vou ficar e enfrentar seja o que for que acontecer.
        - Voc  minha cmplice e pode ser presa se ficar.
        - No importa. Fugir eu no vou. Ser pior. O melhor  ficar, entregar a Marcelo aquilo a que ele tem direito e pronto.
        Jos Lus olhou-a com raiva quando disse:
        - Se voc no tivesse se metido no meio salvando a vida daquele menino, hoje no estaramos passando por esse vexame.
        - Estamos passando por isso por culpa sua. Nunca concordei com o que vocs fizeram.
        - Mas usufruiu de tudo at hoje.
        - Voc sabe que me calei por outro motivo.
        Jos Lus aproximou-se dela olhando-a nos olhos com determinao e ordenou:
        - Voc vai j arrumar alguns pertences e vamos embora. Temos meia hora para sair daqui.
        - Se quer ir, v. Eu no irei com voc.
        Ele segurou o brao dela com fora dizendo entre dentes:
        - Ah, vai! Vai mesmo! Vamos depressa. No temos muito tempo.
        - Deixe-me ficar. Ns nunca nos amamos. Nosso casamento foi um engano. No posso abandonar Laura e Gabriel para que assumam sozinhos o peso do escndalo. 
Preciso ficar com eles, apoi-los.
        - Eles que se arranjem. So adultos. No podemos esperar para sermos presos e perdermos tudo. Isso, no.
        - Que voc faa isso com Gabriel, eu entendo. Voc nunca o suportou. Mas com Laura! Ela  sua filha!
        Por um instante um brilho emocionado passou pelos olhos de Jos Lus. Mas ele se controlou.
        - Mais tarde mandarei busc-la. Tenho meios para isso. Maria Jlia olhou-o, respirou fundo e resolveu:
        - Faa o que quiser, mas eu no irei.
        Ele tirou um revlver do bolso, apontou-o e disse:
        -  melhor que obedea. No vou deix-la aqui sozinha, para entregar-se quele conquistador barato. Ele agora est livre. Se no quiser me acompanhar, dou 
cabo de sua vida. Um crime a mais ou a menos j no importa agora. Depois escrevo uma carta contando toda a verdade a Gabriel. Ele precisa saber que espcie de mulher 
 sua me.
        Maria Jlia empalideceu. Os olhos de Jos Lus estavam fixos e determinados. Ela sabia que ele cumpriria o que estava dizendo. Precisava contemporizar.
        - Est bem - concordou ela com voz apagada. - Eu vou. Agora saia que eu preciso me vestir.
        - Ainda bem que resolveu. Mas ter que suportar minha presena. Vou esperar. S sairemos daqui juntos.
        Maria Jlia percebeu que no tinha outra alternativa. Tratou de obedecer. Com mos trmulas procurou uma mala e comeou a arrumar as coisas. O olhar dele 
seguia todos os seus gestos.
        
        Gabriel saiu para encontrar-se com Lanira. Eles precisavam conversar. Depois do que acontecera entre eles, ela estava evitando-o. Ele estava arrependido 
de haver perdido a cabea naquela noite. No por haver se comprometido e agora sentir que precisava casar com ela. Amava-a, casar com ela era um prmio. Mas havia 
o outro lado da questo. Depois que a verdade aparecesse, ele ficaria pobre e com o nome sujo. Certamente a famlia dela, importante e da melhor sociedade, opor-se-ia 
ao casamento.
        Seria justo para ela um casamento com ele nas presentes circunstncias? Sabia que se ela o amasse de verdade no se importaria com nada disso. Alis, ela 
sempre o apoiara, porque sabia que ele era inocente nessa histria toda.
        Se ele no se casasse com ela, perderia a nica mulher que amara e ainda ficaria com a conscincia pesada. Se ela o aceitasse, estaria arrastando-a para 
uma vida difcil, que ele mesmo ainda no sabia como seria. Ainda havia sua me e sua irm, que ele precisava ajudar a manter.
        Logo que Lanira entrou no carro, percebeu que Gabriel estava angustiado. Depois dos cumprimentos, ele desabafou:
        - Ainda bem que voc veio, Lanira. Pensei que no quisesse mais sair comigo.
        - Se isso fosse verdade eu teria dito logo. Voc me parece nervoso.
        Aconteceu alguma coisa?
        - Vamos procurar um lugar sossegado para conversar.
        Gabriel parou o carro em uma rua tranqila e Lanira tentou deix-lo mais  vontade:
        - Hum! Voc est com uma cara...
        - Estou preocupado com o que aconteceu entre ns. Agi mal.
        - Eu no estou arrependida.
        Ele a olhou com olhos brilhantes e respondeu:
        - Verdade? Voc no ficou pensando que abusei de sua amizade, de sua confiana?
        Lanira passou a mo levemente pelo rosto dele, acariciando-o.
        - No. Sempre sei o que quero. E eu queria voc naquela hora. Ele a abraou sentindo o perfume gostoso que vinha dela e beijou-a
        nos lbios com carinho. Depois disse:
        - E agora, no me quer mais?
        - Quero. Eu gosto de voc. Sinto prazer em estar a seu lado, em trocar carcias, em beij-lo.
        Ele abaixou a cabea triste. Ela prosseguiu:
        - O que foi? No acha bom eu gostar de voc?
        - O que voc disse fez meu corao disparar de alegria. E tudo que eu queria ouvir de seus lbios.
        - Ento, por que est triste?
        - Pela situao. Estamos em vias de perder tudo, at o nome honesto de nossa famlia. Meu pai vai ser preso, teremos que enfrentar a opinio pblica, que, 
voc sabe, no poupa ningum. Os mesmos jornalistas que sempre nos prestigiaram, comeram em nossa mesa, brigavam para obter um convite para nossas festas, vo fazer 
desse escndalo alguma coisa maior do que .
        - Voc precisa ser forte. Agora  hora de se unirem e enfrentarem a verdade.
        - A opinio deles no me importa. Meu pai fez o que fez, merece ser responsabilizado pelas conseqncias. O que me di  ver a angstia de minha me e de 
Laura, que ainda nada sabe.  to orgulhosa de sua linhagem...
        - Vocs no tm culpa do que seu pai fez.
        - Mas vamos todos pagar por isso. No tenho medo da pobreza nem de precisar trabalhar. Tenho certeza de que encontrarei um jeito de ganhar o sustento dos 
meus. O que me entristece  pensar que no posso oferecer nada a voc. Queria que se casasse comigo, que ficasse a meu lado por toda a vida, mas no posso pedir-lhe 
esse sacrifcio. Sua famlia nunca consentiria. Nem eu teria como tir-la de sua casa, de seu conforto, e nem um nome honrado poder lhe oferecer.
        Lanira ficou calada por alguns instantes, depois respondeu:
        - Olha, Gabriel, casamento ainda no est em minhas cogitaes. Estamos nos gostando, temos prazer em ficar juntos, o que aconteceu entre ns foi maravilhoso. 
Ainda estremeo quando me recordo daqueles momentos. Gostaria de repeti-los. Entretanto, manda a prudncia que saibamos nos conter.
        - E melhor assim, pelo menos por enquanto.
        - No se angustie pensando no que foi. Agimos pelo corao. Vamos guardar com carinho esses momentos. Vamos dar um tempo a essa questo. Voc agora tem assuntos 
de grande importncia para resolver.
        - Voc no vai mais querer sair comigo?
        - Voc no entendeu. Eu disse que vamos dar um tempo a esse assunto de casamento e controlar nossas emoes. Sairei com voc sempre que quiser. Voc est 
se portando com muita dignidade nessa histria toda. Desejo apoi-lo de todas as formas.
        Ele tomou a mo dela e beijou-a com carinho:
        - Obrigado, Lanira. Quanto mais a conheo, mais a admiro. Acontea o que acontecer daqui para a frente, lembre-se de que eu a amo muito. Estou sendo sincero. 
Em mim, voc ter sempre, alm de todo o meu amor, um amigo dedicado.
        - Eu sei - disse ela com voz suave, apertando com carinho a mo dele que segurava a sua.
        
        Maria Alice andava de um lado para outro em sua sala de estar. Sentia-se angustiada, triste. Seu peito doa e ela j tomara um calmante sem nenhum resultado. 
Apanhou novamente a carta que amarrotara e tornou a ler:
        "Enquanto voc fica em casa tapando o sol com a peneira, seu marido est se deliciando com aquela secretria na sute de um hotel de luxo em So Paulo. Na 
semana passada ele deu a ela um anel de esmeraldas. Consulte a joalheria e ficar assustada com o preo. At quando vai ser cmplice dessa falta de vergonha com 
o dinheiro pblico? Se tem um pouco de dignidade como parece, denuncie e acabe com essa pouca vergonha, No seja conivente, Reaja!!"
        Estava sem assinatura. Maria Alice estava indignada. A vida toda ela fizera o possvel para manter a dignidade da famlia, e agora o comportamento vergonhoso 
do marido j era do domnio pblico. Isso ela no poderia tolerar.
        Enquanto ele havia sido discreto, ela havia se calado para manter a famlia unida. Acreditava que fosse uma aventura e que logo ele acabaria com aquela situao 
constrangedora.
        Entretanto, isso no aconteceu. A cada dia ele parecia mais ligado a Alicia. Agora as pessoas estavam sabendo e isso era insuportvel. Estava sendo vista 
como conivente, como covarde.
        Precisava fazer alguma coisa. Mas o qu? Durante a vida inteira se submetera  sociedade, s regras, s convenincias.
        De que lhe valera isso? S conseguira se tornar uma escrava da carreira do marido. "A poltica exige isso", " A sociedade quer aquilo", "Temos que obedecer 
s regras", "O eleitor tem prioridade".
        Aquela carta estava mostrando que o eleitor j sabia o que estava atrs do "bom comportamento" de Antnio. As pessoas estavam abrindo os olhos e no se deixavam 
mais enganar pelo faz-de-conta de seu marido.
        Maria Alice sentia que estava no auge de sua indignao. Todas as coisas a que havia renunciado durante aqueles anos para entrar nas regras do marido passavam 
por sua cabea e pela primeira vez comeou a questionar:
        O que estava fazendo com sua vida? Se o sacrifcio de suas aspiraes como pessoa no foi suficiente para preservar o ambiente familiar, teria valido a pena?
        No. Ela se anulara em vo. O filho, para poder fazer o que queria de sua vida, tivera que deixar a casa paterna. Lanira no parecia disposta a ser como 
ela. H muito percebera que a filha, ao invs de valorizar o sacrifcio da me, olhava-a com certa complacncia. Tratava-a com delicadeza e respeito, mas Maria Alice 
percebia que Lanira tinha horror de um dia ser igual a ela.
        Sentia-se s, muito s naquela hora. Todos os que amava haviam de uma forma ou de outra se afastado dela.
        Sentou-se em uma poltrona e no se importou quando as lgrimas desceram por suas faces. Deixou-as cair como se estivessem lavando sua amargura. Sentia-se 
cansada. Muito cansada. No tinha mais foras para fingir nem para sufocar o prprio corao oprimido e desiludido.
        Deixou-se ficar ali, revendo toda a sua vida, e pouco a pouco percebeu com clareza como foi sepultando seus sentimentos, seus sonhos, suas aspiraes. Fora 
uma moa cheia de vida, de alegria, de bondade no corao.
        Desejava fazer de sua vida uma coisa boa, ter uma famlia amorosa, um marido justo, honesto, trabalhador. No conseguira nada disso. Seu marido era um poltico 
mentiroso, cheio de negociatas ilcitas, mantinha a amante diante de todos e da prpria famlia, viajava com ela. Colocava-se como um grande homem e era um ditador 
familiar, um vaidoso, um desonesto.
        Ela compactuara com tudo isso. O que conseguira para si? Nada. O vazio do corao, a solido, e agora at a fama de cmplice das velhaca-rias dele. Nunca 
Maria Alice viu to claro.
        Nem percebeu o tempo passar e assustou-se quando Lanira entrou na sala dizendo surpreendida:
        - Ainda acordada, mame? Aconteceu alguma coisa? Maria Alice encarou a filha de frente. Lanira continuou:
        - Me! O que foi?
        Maria Alice tomou uma resoluo. Levantou-se, pegou a mo de Lanira e disse:
        - Sente-se aqui, minha filha. Quero conversar com voc. Leia isso. Apanhou a carta e entregou-a  filha. Lanira apanhou-a e  medida que lia sua fisionomia 
foi ficando preocupada. Quando acabou, olhou a me dizendo:
        - E uma carta annima. No deve dar importncia a isso.
        - Pode ser annima, mas  verdadeira. H muito tempo eu sei que seu pai  amante de Alicia.
        Lanira abriu a boca e fechou-a novamente. Sua me estava diferente. No soube o que responder. Maria Alice prosseguiu:
        - Estou decidida. Vou ter uma conversa muito sria com seu pai. Se ele no modificar sua maneira de ser, vou deix-lo.
        Lanira arregalou os olhos admirada. A firmeza de Maria Alice demonstrava que ela falava srio. Nunca a vira daquele jeito. Seus olhos tinham um brilho mais 
verdadeiro, mais humano, mais firme.
        Ela se levantou, aproximou-se da me e abraou-a dizendo:
        - Voc est certa. Tem todo o direito de colocar essa questo para ele.
        - Obrigada, minha filha, por me apoiar. Sempre achei que para manter a dignidade da famlia tinha que ocultar meus sentimentos, valorizar as aparncias. 
Estava enganada. Agora que eu sei, nunca mais farei isso. Quero ser verdadeira. Quem ficar a meu lado ter que respeitar o que sinto e o que eu acredito ser justo.
        Lanira emocionou-se. Pela primeira vez Maria Alice falava de seus sentimentos, e sua sinceridade tocou seu corao. Aproximou-se dela e beijou-a na face, 
dizendo:
        - Fico feliz que tenha acordado. Voc  uma mulher maravilhosa. Digna, inteligente, honesta, de classe. Nunca entendi como podia suportar as futilidades 
de um mundo de aparncias onde todos mentem e por isso ningum confia em ningum. Tem todo o direito de fazer o que sente e dar um basta a essa situao constrangedora.
        - Obrigada, minha filha, pelo apoio.
        - Acontea o que acontecer, estarei do seu lado.
        Maria Alice abraou-a emocionada. Naquele momento sentiu que no estava mais s.
        - Quando seu pai voltar depois de amanh, terei uma conversa definitiva com ele. Agora falemos de voc. Est apaixonada por Gabriel?
        - Eu gosto dele.
        - Em outros tempos no teria mencionado este assunto, mas no posso sepultar mais meus sentimentos. Esse namoro com ele tem me preocupado.
        - Por qu? Gabriel  um moo bom, correto e cheio de qualidades.
        - No duvido. Mas pelo que Daniel tem me contado, seu pai est nas malhas da justia. Alm de perder tudo, pode at ser preso.
        - Gabriel havia me pedido em casamento. Mas agora, diante desses fatos, ele discretamente espera que tudo se resolva. Ainda hoje me disse que me ama, mas 
que no tem coragem de casar comigo porque no tem nada para me oferecer.
        -  o que se pode esperar de um moo de bem.
        - No  por causa da situao de sua famlia que eu no resolvi aceitar seu pedido. Se eu tivesse certeza de que o amava, me casaria com ele de qualquer 
jeito. Para mim, as qualidades de corao, os valores que ele tem so mais importantes do que tudo. Ele no sabia das falcatruas do pai, nem tem culpa de nada. Quando 
tudo acabar, ter que recomear a vida. E se eu perceber que o que sinto  amor, me casarei com ele.
        - Pense bem, minha filha. Voc est habituada ao conforto, ao luxo, ser difcil enfrentar uma vida de pobreza.
        - Voc se casou por convenincia, com um homem fino, culto, rico, cheio de poder, e o que conseguiu?
        Maria Alice baixou a cabea sem saber o que responder. 
        Lanira prosseguiu:
        -  meu pai, mas todos reconhecemos que seu comportamento demonstra que ele est carente dos valores verdadeiros, da tica de honestidade e respeito para 
com os compromissos que assumiu. Neste momento, para todos ns, seria mais importante poder reconhecer nele sentimentos bons, seramos muito mais felizes se ele 
estivesse ao nosso lado, nos amando e sendo verdadeiro, do que tendo tudo quanto temos e recebermos uma carta como essa, principalmente porque fala verdades que 
no podemos refutar.
        Maria Alice sentiu que novamente as lgrimas desciam por suas faces e as deixou correr sentindo que Lanira falava a verdade. Preferiria mil vezes ter menos 
posio, menos dinheiro, menos nome na sociedade, mas ser mais feliz, tendo um marido sincero, interessado no bem da famlia e da sociedade, honrando o mandato que 
o povo lhe conferira.
        Depois de alguns segundos de silncio, Maria Alice passou o leno sobre os olhos e considerou:
        - Voc est sendo dura, mas tem toda razo. De nada vale o que os outros pensam se voc por dentro est angustiada, infeliz, deprimida.
        - Creia, me: quando eu me casar, ser com algum que eu ame de verdade. Algum que eu possa respeitar, que me respeite, que seja sincero e verdadeiro.
        - Tem razo, minha filha. As qualidades e o carter valem mais do que qualquer outra coisa.
        - Por isso, me, no se preocupe com meu relacionamento com Gabriel. Ele tem essas qualidades. Vou lhe contar algumas coisas para que perceba o quanto ele 
 nobre e sincero. Daniel, Rubinho e eu temos muita admirao por ele.
        Maria Alice olhou-a surpreendida. Daniel e Rubinho? Lanira sentou-se ao lado da me e comeou a contar tudo quanto eles sabiam sobre o caso, desde o princpio. 
Como ela ajudara Daniel a montar o escritrio, o seqestro de Alberto, a priso de Bris. No omitiu nenhum detalhe.
        Maria Alice ouvia com interesse. Em seu corao brotou um sentimento de orgulho e de admirao. Quando Lanira terminou, ela considerou:
        - Estou orgulhosa de vocs. De fato, Gabriel  um moo digno. Se quer saber, diante do que me contou, no creio que Maria Jlia tenha sido cmplice do marido 
nessa falcatrua.
        - Ns tambm achamos isso. Contudo no podemos esquecer que ela guardou silncio sobre os fatos. Diante da justia ela tambm  responsvel.
        - Isso torna mais importante o fato de ela ter cooperado com vocs, apesar de saber que pode ser presa como cmplice do marido.
        - E, sem falar que ela salvou a vida de Marcelo. Daniel e Rubinho, at Alberto, vo fazer tudo para ajud-la a sair livre.
        - Foi muito bom ter conversado com voc. Sinto-me mais calma e com coragem para fazer o que quero.
        - Tem mais uma coisa que preciso contar-lhe.
        - O que ?
        - Temos ido a casa de tia Josefa.
        - Josefa? Fazer o que l?
        - Temos freqentado suas sesses espritas. Maria Alice levantou-se assustada:
        - O qu ? Isso  perigoso demais.
        - Ao contrrio. Para ns tem sido muito bom. Tem nos dado paz, bem-estar. Quando estvamos preocupados e a vida de Alberto corria perigo, foi l que encontramos 
ajuda e conforto.
        Maria Alice deixou-se cair novamente na cadeira, sem saber o que dizer. Parecia-lhe que de repente estava diante de outra realidade. Tudo estava diferente.
        - Daniel e Rubinho tambm vo?
        - Vo e adoram. Levaram Marilda, que est namorando Rubinho. Eles pretendem se casar logo.
        - E Daniel? Est namorando?
        Lanira sorriu, e havia um brilho malicioso em seus olhos quando respondeu:
        - Ele est caidinho por Ldia, uma amiga de Marilda que vivia nos Estados Unidos e que agora voltou a morar no Brasil. Mas no sei se esto namorando.
        - Acha que  srio? Daniel nunca se interessou por moa nenhuma.
        - No sei. O que tenho visto  que ele fica diferente quando est ao lado dela. Rubinho acha que ele est apaixonado mesmo.
        - Como  essa moa? Voc a conhece?
        - Sim. Tem classe, cultura,  muito bonita e agradvel. Para ser sincera, gosto dela.
        Maria Alice deu um suspiro de alvio:
        - Ainda bem. Desejo que vocs sejam muito felizes. Lanira abraou a me dizendo:
        - Seremos, sim. Sente-se melhor?
        - Sim. Decididamente essa conversa fez-me muito bem. Mostrou-me que ainda estou viva e que tenho tempo de participar com vocs das alegrias da vida.
        - Assim  que se fala. Sinto que pela primeira vez estamos juntas e que assim ficaremos de agora em diante.
        Maria Alice beijou a face da filha com doura e respondeu:
        - Bendita hora que essa carta me mostrou a verdade.
        - Bendita hora que voc resolveu enfrentar seus medos e buscar a sua verdade. Isso fez a diferena.
        
        
        
      Captulo 19
        
        Gabriel chegou em casa pensando na conversa que tivera com Lanira. Sabia que ela estava dizendo a verdade. Se o amasse, casar-se-ia com ele em qualquer situao.
        Subiu as escadas e bateu no quarto da me. No obteve resposta. Girou o trinco, mas a porta estava fechada a chave. Ficou preocupado. Ela nunca fechava a 
porta a chave enquanto ele estava fora, principalmente depois que Bris havia sido preso.
        Ele nunca ia deitar-se sem antes ver como ela se sentia. Bateu vrias vezes sem obter resposta. Alguma coisa havia acontecido. Talvez ela tivesse se sentido 
mal e no tivesse tido tempo de chamar ningum.
        Os quartos dos empregados ficavam fora da casa. Vendo que no obtinha resposta, foi at o quarto da arrumadeira e bateu vrias vezes. Esperou que ela entreabrisse 
a porta assustada:
        - O que foi? Aconteceu alguma coisa?
        - Aconteceu, sim, Jazilda. Voc tem a chave do quarto de minha me?
        - No. D. Maria Jlia nunca fecha a porta a chave quando eu tenho que arrumar.
        - Sabe onde esto as chaves de reserva da casa?
        - Acho que no escritrio do Dr. Jos Lus.
        Sem esperar mais, Gabriel foi ao escritrio do pai, abriu a porta e comeou a procurar. Como no encontrou foi at o quarto do pai e bateu. No obtendo resposta, 
girou a maaneta. Felizmente estava aberta. Porm Jos Lus no estava l. A cama no fora desfeita.
        Gabriel olhou o relgio. Passava da uma. Onde teriam ido? As gavetas da escrivaninha estavam fechadas a chave. Angustiado, Gabriel sentiu um aperto no corao. 
O que teria acontecido?
        A camareira havia se vestido e apareceu na porta olhando-o curiosa. Vendo-a, Gabriel pediu:
        - Ajude-me, Jazilda. Aqui aconteceu alguma coisa muito sria. Sinto que a vida de minha me corre perigo.
        - E o Dr. Jos Lus?
        - No est. Ajude-me a procurar a chave do quarto dela. Temos que abrir aquela porta o quanto antes.
        Ela comeou a busca. Gabriel foi  cozinha, apanhou uma faca de ponta, foi at a escrivaninha e tentou abrir as gavetas. Finalmente conseguiu. As chaves 
no estavam l. Foi abrindo as outras e finalmente encontrou uma caixa cheia de chaves.
        Apanhou-a e foi at o quarto de Maria Jlia, experimentando uma a uma. Finalmente encontrou, ela girou e a porta abriu. Porm o quarto estava vazio. Maria 
Jlia havia desaparecido.
        - No pode ser - disse Gabriel nervoso. - Voc viu alguma coisa? Viu se ela saiu com meu pai?
        - No vi, no, senhor. Depois do jantar ajudei a arrumar a cozinha e fomos nos deitar. Vai ver que ela saiu com o doutor para fazer algum passeio. Logo estaro 
de volta - respondeu ela querendo acalm-lo.
        Gabriel no sabia o que fazer. Se tivesse acontecido alguma coisa, ela no teria sado sem deixar alguma pista para ele. Comeou a procurar. Abriu as gavetas, 
revistou tudo, nada encontrou.
        Foi ao banheiro, abriu a gaveta de maquiagem e encontrou um leno de papel escrito com um lpis preto. Apanhou-o e leu:
        "Gabriel, seu pai est fugindo e obrigando-me acompanh-lo. Est armado. Falou em aeroporto. No sei para onde vamos. Assim que puder, escrevo."
        Notava-se que ela usara esse recurso como medida extrema. Precisava fazer alguma coisa. Pensou na polcia. Ligou para Jonas, rezando para que ele atendesse.
        Quando ouviu sua voz do outro lado do fio, sentiu um pouco de alvio:
        - Jonas,  Gabriel. Meu pai fugiu e levou minha me com ele. Temos que fazer alguma coisa. Temo pela vida dela.
        - Como soube?
        - Minha me deixou um bilhete no banheiro escrito com crayon. Diz que ele est armado e falou em aeroporto.
        - Tudo bem. Agora mesmo vou me comunicar com os aeroportos. Vamos ver se conseguimos peg-los.
        - Ele est desesperado e com raiva dela. Pode querer vingar-se. Tenham cuidado. Ele tem uma arma.
        - Tomaremos cuidado. Fique calmo. Sei como fazer.
        - Acho que vou at a delegacia. Estou muito nervoso.
        - E melhor ficar a. Ela pode encontrar jeito de se comunicar com voc. Se eu tiver qualquer notcia, aviso.
        - Est certo.
        Jazilda aproximou-se de Gabriel dizendo:
        - Vou fazer um ch para voc. Est plido. Vai ver que no aconteceu nada e logo estaro de volta.
        - No quero nada, no. Pode ir se deitar.
        - Eu vou. Se precisar, chame-me.
        Ela saiu e Gabriel pensou em Lanira. Estaria dormindo? Apanhou o telefone e ligou. Ela atendeu:
        - Gabriel? O que foi?
        - Acordei voc?
        - No. Fiquei conversando com mame e iria deitar-me agora. Gabriel contou-lhe o que tinha acontecido e finalizou:
        - Falei com Jonas e a esta hora ele j est tentando localiz-los.
        - Avisou Daniel?
        - No. Ele deve estar dormindo. E no vai poder fazer nada uma hora dessas. Acho melhor esperar amanhecer.
        - Est certo. Mas se precisar ns os chamaremos. Estou pensando em uma coisa.
        - O qu?
        - Vou ligar para ria Josefa.
        -  tarde. No vamos incomod-la. Sabe o que eu penso? Ns podemos falar com os bons espritos e pedir ajuda.
        - Tem certeza?
        - Tenho. Eu vou desligar e rezar aqui. Voc faa o mesmo.
        - Quero que me prometa uma coisa. Depois de rezar, se no puder dormir, ligue novamente.
        - Por mais que sinta vontade de ficar conversando com voc, no farei isso. Voc precisa dormir, e, depois, minha me pode querer se comunicar e tenho que 
deixar o telefone desligado.
        - Eu compreendo. Mas quero que saiba que estarei pensando em voc. Tenho certeza de que tudo vai dar certo. Qualquer notcia, me ligue seja a hora que for.
        - Ligarei. Um beijo e obrigado.
        Lanira desligou e ia deitar-se quando Maria Alice entreabriu a porta do quarto perguntando:
        - Telefone a esta hora? Quem era?
        - Gabriel.
        Em poucas palavras Lanira contou o que havia acontecido, ao que Maria Alice comentou:
        - Eu tambm vou rezar para eles. A f quando sincera  muito poderosa. Quem sabe eu tambm possa aprender como  isso.
        Lanira sorriu e deitou-se. Apesar dos problemas de seus pais, ela sentia que eles estavam tendo uma chance de mudar e melhorar sua maneira de viver.
        Gabriel estirou-se na cama, ao lado do telefone no quarto da me, e rezou pedindo ajuda espiritual. Apesar disso, sentia-se inquieto. Por que sara de perto 
dela? Para abandonar tudo e fugir, seu pai deveria ter perdido qualquer esperana de reverter a situao.
        Ele era orgulhoso. Nunca aceitaria a humilhao, o descrdito, a priso. Planejara a fuga e certamente tinha recursos no exterior. Como no pensara nessa 
possibilidade? Por que arrastara Maria Jlia com ele contra a vontade? Talvez na tentativa de incrimin-la tambm. De dividir a responsabilidade.
        Sentiu uma onda de rancor contra ele. Nunca haviam se dado bem. No havia nenhuma afinidade entre eles. Desde muito cedo Gabriel fazia tudo para fugir de 
sua companhia.
        Percebia claramente o quanto ele controlava sua me, sufocando-a com suas exigncias, usando-a para representar em sociedade o papel do marido exemplar, 
do pai de famlia extremoso. Ele sabia que era tudo fingimento.
        Sempre que podia, atormentava Maria Jlia, cuja passividade sempre o deixava irritado. Por que ela no reagia? Percebia claramente que ela tinha medo do 
marido.
        Era uma mulher forte e determinada em muitas coisas, s com ele anulava-se e tornava-se passiva. Vrias vezes questionara isso com ela, mas percebendo que 
ela ficava muito triste depois dessa conversa, ele se continha.
        As horas foram passando, o dia j estava clareando, e nenhuma notcia. Gabriel levantou-se e comeou a andar pelo quarto. Jazilda apareceu na porta dizendo:
        - Nenhuma notcia?
        - Nada. Voc no observou nada ontem depois que eu sa? No ouviu nenhuma conversa entre eles, nem viu quando eles saram?
        - No. D. Maria Jlia se recolheu logo depois do jantar. Eu ajudei Dermina com a cozinha. O Dr. Jos Lus estava no escritrio. Bati na porta e perguntei 
se ele precisava de alguma coisa, como sempre fao antes de dormir.
        - A que horas foi isso?
        - Umas dez.
        - Ele abriu a porta, isto , estava l?
        - Sim. Como sempre. Disse que eu podia me deitar e que no precisava de nada.
        - Voc notou alguma coisa diferente nele?
        - No. Estava como sempre. A eu vi se estava tudo fechado e fui me deitar. Estava cansada e peguei logo no sono. Acordei quando voc bateu na porta.
        Gabriel suspirou pensativo. Jazilda continuou:
        - Voc passou a noite em claro. Vou preparar um bom caf.
        - Estou sem fome.
        - Se aconteceu algum acidente com eles, voc tem que estar firme. Precisa alimentar-se.
        Gabriel olhou mas no respondeu. Ela saiu e ele olhou no relgio. Eram quase sete horas. O telefone tocou e ele atendeu de um pulo. Era Lanira:
        - Alguma notcia?
        - Nada. Estou muito aflito. O que estar acontecendo?
        - Vou ligar para Daniel.
        - Faa isso. Jonas pediu para eu ficar aqui. No estou agentando mais. Precisamos fazer alguma coisa.
        - Deixe comigo. Vou falar com Daniel. Ele ir atrs de Jonas para saber como esto as coisas.
        Lanira desligou e ligou para Daniel e relatou o que estava acontecendo. Ele deu um pulo da cama dizendo:
        - Por que no me avisaram?
        - Gabriel avisou Jonas. Ele j deve ter tomado providncias. Pediu a Gabriel que ficasse em casa. D. Maria Jlia pode ligar.
        - Vou avisar Rubinho. Iremos imediatamente  delegacia ver quais as providncias que foram tomadas.
        - Vou at a casa de Gabriel. Ele est muito nervoso. Teme pela vida da me.
        - Diante do que sabemos a respeito, ele pode ter razo. Um homem que faz o que ele fez com uma criana,  capaz de qualquer coisa.
        - Quando estiver na delegacia, ligue para casa de Gabriel. Estaremos esperando. Mesmo que no tenha nenhuma novidade. Ele precisa saber que vocs esto se 
movimentando.
        - Est certo. Pode esperar.
        Daniel desligou o telefone e acordou Rubinho, colocando-o a par do que havia acontecido. Resolveram ir imediatamente  delegacia.
        Quando chegaram l, o Dr. Marques j havia chegado. Vendo-os, foi logo dizendo:
        - Parece que o pssaro bateu asas. Jonas me ligou logo cedo.
        - Sabe se ele conseguiu alguma pista?
        - Ainda no. S sei que ele mobilizou alguns homens e esto investigando. A audincia no  hoje?
        - E - respondeu Rubinho.
        - Para vocs foi at melhor. Quer maior confisso do que a fuga?
        - Ele obrigou a esposa a segui-lo contra a vontade. Estava armado - esclareceu Daniel.
        - Vai ver que  cmplice. Vocs podem estar se preocupando sem razo.
        - No , no. Temos certeza de que ela  inocente. Tem sido vtima do marido e ameaada por ele o tempo todo. Seu filho est muito preocupado. Ele garante 
que a me corre perigo - completou Rubinho.
        - Se ela no  cmplice, corre mesmo. Sabe demais.
        - Seria bom interrogar Bris novamente. Ele esperava que o patro o defendesse. Como ficar quando souber da fuga? - lembrou Daniel.
        - Bem lembrado. Vou apertar um pouco o homem.
        - Ele sabe tudo sobre o Dr. Jos Lus - garantiu Rubinho. - Parece at que era ele quem comandava o patro. Mandava e desmandava na casa.
        - Chantagem. Vou tratar disso. Olhe Jonas chegando. Jonas entrou na sala e vendo-os foi logo dizendo:
        - Eles sumiram. Ningum viu. Chequei todas as listas de passageiros dos vos que haviam sado e todos os que saram depois que estvamos l. Nada. Pode ser 
que no tenham viajado.
        - Pode ser que tenham usado passaportes falsos - disse Marques.
        - Pensando nisso j contatei a Interpol. Precisamos de fotos dos dois. Fiquei de arranjar.
        - Vou ligar para Gabriel e pedir - disse Daniel.
        - Faa isso. Mandarei um homem buscar.
        Daniel telefonou para Gabriel, que atendeu ao primeiro toque.
        - Al.
        - Gabriel, at agora nada. Eles desapareceram sem deixar nenhuma pista. Jonas precisa de fotos recentes dos dois para rastrear a busca.
        - Vai ver que saram do pas - disse ele nervoso. - Conheo meu pai. Ele no se arriscaria a ficar aqui depois de ter tomado uma atitude dessas.
        -  possvel que ele tenha viajado com falsa identidade. Acha que ele teria como fazer isso?
        - Acho. Vou dar uma busca no escritrio dele ver se acho alguma pista.
        - Arrume as fotos. Isso  urgente.
        - Est bem. Sei onde h algumas. Pode mandar buscar.
        Daniel desligou prometendo que ligaria a qualquer notcia. Jonas conversava com o delegado:
        - Vamos dar um aperto no malandro. Daniel, que se aproximava, avisou:
        - Gabriel disse que sabe onde esto as fotos. Pode mandar buscar. Disse tambm que vai dar uma busca no escritrio dele.
        - Vou mandar algum que possa ajud-lo nessa busca. Agora vamos ver como Bris reage  traio do cmplice.
        Marques mandou levar o russo para uma sala onde fazia os interrogatrios. Jonas entrou com ele enquanto Rubinho e Daniel em outra sala ouviam a conversa 
que estava sendo gravada.
        Ouviram o delegado dizer:
        - Tenho uma pssima notcia para voc.
        Bris olhou e no respondeu. Marques continuou:
        - Acho melhor abrir o jogo. Seu patro fugiu ontem  noite levando a mulher sob a mira de uma arma. Desapareceu. Suspeitamos que tenha viajado para o exterior. 
Abandonou voc.
        - Vocs esto mentindo. No acredito em nada disso.
        - Ligamos para o advogado dele, que respondeu que no tem mais nada a ver com ele e muito menos com voc. Ele se retirou do caso.
        - Isso no  verdade. Quero falar com meu advogado agora.
        - Vou fazer-lhe a vontade. Tem aqui um telefone. Pode ligar. Bris apanhou o telefone que o delegado havia colocado sobre a mesa e discou.
        - Quero falar com o Dr. Eugnio...  um cliente dele.
        - Al.
        - Doutor Eugnio?  Bris. Quero que venha aqui agora. O delegado est me contando uma histria e eu no acredito.
        - Sinto muito, Bris, mas no sou mais advogado do Dr. Jos Lus. Retirei-me do caso.
        - E eu?
        - Tambm. Procure outro. Estou fora.
        - No pode fazer isso comigo!
        - Quando aceitei o caso, no sabia tudo a respeito. Vocs mentiram. Tenho um nome honrado a zelar e no posso me envolver em um caso to desastroso. Passar 
bem, Bris. Faa o favor de no ligar mais para minha casa.
        Bris desligou o telefone com mos trmulas. Por mais que tentasse controlar-se, fingir, seu rosto estava plido, em seus olhos havia um brilho de rancor.
        - Acredita agora? - disse Jonas.
        - Voc est sozinho para levar a culpa de tudo. No tem ningum para defend-lo. Vai pegar muitos anos de cadeia. Alis, levantamos sua ficha e voc cometeu 
vrios delitos usando outras identidades. Chegou a hora de responder por seus crimes.
        Bris trincou os dentes com raiva. Aquele cachorro covarde tinha fugido sem pensar nele. Havia de pagar caro por essa traio.
        - Se voc confessar tudo que sabe sobre o Dr. Jos Lus, arranjaremos um advogado para voc e tentaremos reduzir sua pena.
        - Quando ele desapareceu?
        - Ontem  noite.
        - Deve ter viajado para o exterior.
        - No estava na lista de passageiros - disse Jonas.
        - Ele tinha passaportes falsos.
        - Voc sabe em nome de quem?
        - No. Ele sabe onde conseguir um e deve ter feito isso. Ele sempre pensa em tudo. Planeja com detalhes e se prepara com cuidado para nada dar errado. A 
estas horas j deve estar chegando em outro pas.
        - O que o faz ter tanta certeza? - indagou o delegado.
        - Sempre foi o plano dele. Se um dia a coisa estourasse, ele sairia do pas, mudaria a identidade e ningum nunca o encontraria.
        - Voc precisa cooperar e contar tudo que sabe. Ns temos que encontr-lo.
        - Ele s tem um ponto fraco: a paixo pela mulher. Sempre disse que isso iria lev-lo  loucura.
        - Ele a obrigou a ir junto - disse Jonas.
        - Ele deixaria tudo, menos ela. Depois, ela sabe muito.
        - Gabriel acha que ela corre perigo. Ele seria capaz de maltrat-la?
        - Ele fica furioso quando ela o despreza/  capaz de qualquer coisa nessa hora. Ele nunca deveria t-la levado junto. Assim que ele descuidar, ela vai denunci-lo. 
 agarrada aos filhos e tem raiva dele. E ela quem vai pr tudo a perder. Bem feito! Sempre disse que ele no deveria confiar nela. Separar-se. Deix-la seguir seu 
caminho. Se tivesse feito isso quando eu disse, nada disso teria acontecido.
        - Agora  tarde para falar isso. Voc est perdido.  melhor contar tudo que sabe.
        - J falei tudo.
        - Lembra-se de Alberico e de Eleutria? - perguntou Jonas.
        - O que  que tem? Alberico era o motorista e j morreu, que eu sei. Quanto a Eleutria, a ama do menino, desapareceu desde que ele morreu. Nunca mais soube 
dela.
        - Deixe de ser mentiroso - interveio o delegado. - A audincia do caso vai ser hoje  tarde. Se quer que eu faa alguma coisa em seu favor, comece a falar 
de verdade.
        - E bom saber que Eleutria foi intimada pelo juiz a comparecer na audincia de hoje - interveio Jonas.
        Bris remexeu-se na cadeira inquieto:
        - Como assim? Sabem onde ela est?
        - No s sei como tenho algumas provas contra ela. Bris levantou-se irritado:
        - No pode ser! Vocs esto querendo me enganar.
        - Acho que estamos perdendo tempo com ele - disse o delegado a Jonas. - Vamos embora.
        Os dois fizeram meno de sair. Bris no se conteve:
        - Esperem. Que provas tm contra ela?
        - Todas - respondeu Jonas. - Levantamos a vida dela desde que deixou os Camargo. Ela vai ter que provar na justia como arranjou tanto dinheiro. Alm disso, 
ela fala muito com o marido. Temos algumas gravaes dessas conversas que so muito claras.  bom dizer tambm que levantamos todos os depsitos em dinheiro que 
voc leva  casa de sua amante Pola e que ela deposita na conta de Eleutria todos os meses.
        Bris estava trmulo e plido. Foi naquela hora que tomou conscincia de que estava perdido. Eles sabiam de tudo. Fora trado por Jos Lus. Estava sozinho 
naquela enrascada.
        De repente Bris foi acometido de um acesso de raiva. Seu rosto de plido passou ao rubor e seus olhos fuzilavam de dio. Gritou nervoso:
        - Eles me pagam! Se eu cair, levo todos comigo! No vai sobrar ningum, nem a mulher intocvel, a responsvel por nossa desgraa.
        - Fale. Conte tudo. Talvez eu possa diminuir sua pena - tornou o delegado.
        Jonas aproximou-se dele e olhando-o nos olhos disse com firmeza:
        - Sabemos quem ajudou a criar a identidade falsa do menino, mas Eleutria disse para o marido que foi voc quem matou os pais do garoto naquele acidente.
        - Ela disse isso? Ela me paga! E bom saber que no fui eu quem fez isso. Foi ele quem planejou tudo nos mnimos detalhes. Eu s arranjei as pessoas para 
realizar tudo. Mas quem envenenou o Dr. Camargo foi ele. Foi ele! Ele matou o prprio tio para roubar a herana. Eu no fiz nada. S cumpri o que ele mandou para 
salvar minha pele. Creia. Ele me chantageava. Eu cometi alguns erros no passado, ele sabia. Eu fui obrigado a fazer o que ele mandou. Seno ele dizia que ia me denunciar. 
Eu seria preso e talvez expatriado para a Rssia. Eu tinha medo!
        - Saiba que tudo quanto voc disse aqui foi gravado. Vou mandar tirar uma cpia dessa confisso e voc vai assinar agora mesmo.
        Bris estremeceu e olhou-os assustado:
        - Por que no me avisaram que estavam gravando?
        - Isso no importa agora. Voc disse o essencial. Se foi obrigado a fazer tudo quanto seu patro mandou, se foi ameaado, essa confisso servir para atenuar 
sua culpa.
        A um gesto do delegado, um dos policiais que estavam guardando a porta pegou o brao de Bris, convidando-o a voltar para a cela.
        Jonas e Marques saram da sala satisfeitos e foram para a sala ao lado, onde estavam Daniel e Rubinho.
        - Deu certo - disse o delegado. - Depois de hoje, Bris no poder mais negar nada. Que trama! Vrios crimes!
        - H muito estvamos desconfiados de que a troca de identidade do menino era apenas uma parte da verdade. S a morte do garoto no daria a Jos Lus a posse 
da to cobiada fortuna. Ele precisava ir mais longe. E ele foi!
        - Ele envenenou o Dr. Camargo! - disse Rubinho admirado.
        - Acabou com os pais de Marcelo! Eles morreram em um horrvel acidente! Tudo programado por eles!
        - Chegou a hora de esclarecermos todos esses crimes - garantiu Jonas com satisfao. - Essa histria vai sacudir a alta sociedade do Rio de Janeiro. Vocs 
sero os heris!
        - Estou preocupado com a captura dele. Assim que a bomba estourar, a imprensa vai publicar em manchetes! Se ele souber, pode querer vingar-se em D. Maria 
Jlia. Em minha opinio ela tem sido uma vtima - tornou Daniel.
        - Gabriel me disse que muitas vezes pensou na possibilidade de sua me estar sendo chantageada pelo marido. Ela ficava apavorada quando pensava em desobedecer 
a suas ordens - lembrou Rubinho.
        - Se ele estiver fazendo isso, vamos descobrir. Estou sentindo que chegou a hora da verdade e que toda essa histria vai ser desvendada - garantiu Jonas.
        - Faro de policial! - comentou o delegado sorrindo. - Podem crer, nunca falha.
        - Alberto precisa saber de tudo - disse Rubinho. - Precisamos v-lo para preparar nossas providncias para a audincia de hoje  tarde. Eleutria pode no 
comparecer.
        - Meus homens esto vigiando-a de perto. Se ela tentar fugir, eles daro voz de priso - informou Jonas.
        - Gostaria de ter uma cpia da confisso de Bris - pediu Rubinho. - Vou entreg-la ao juiz durante a audincia e pedir-lhe que, aps tomar conhecimento 
dela, inclua-a no processo.
        - Acho que com isso vocs ganharam definitivamente esta causa. S vo faltar as providncias legais - disse Jonas.
        - De posse dessa confisso, farei uma investigao completa sobre as mortes dos Camargo, solicitarei a abertura de um inqurito para apurao dos fatos e 
a punio dos culpados - completou o delegado.
        - Enquanto isso, continuarei investigando o paradeiro dele - tornou Jonas.
        O escrevente entrou e entregou algumas folhas de papel ao delegado. Ele apanhou, leu e tornou:
        - Est tudo aqui. Agora vou l para que ele assine.
        - Deixe-me fazer isso - pediu Jonas -, quero conversar um pouco com ele a ss. Tenho impresso de que ele pode nos ajudar a encontrar nosso homem.
        - E uma boa idia - concordou Daniel. - Ele mentiu quando disse que estava sendo ameaado pelo Dr. Jos Lus. Pelo que sei, era o contrrio. Ele mandava 
e desmandava em casa do patro e todos faziam o que ele queria, inclusive o dono da casa. Gabriel nos contou isso vrias vezes.
        - Ele  matreiro. Mesmo na crise de dio em que se encontrava arrumou um jeito para tentar salvar a pele. Eu encorajei para que ele se abrisse, mas nunca 
acreditei nesse pedao. Trata-se de um criminoso calculista, mau. Conheo o tipo. Todo cuidado com ele  pouco - tornou o delegado.
        O investigador que fora buscar as fotos do casal entrou e entregou um grande envelope nas mos do delegado, que abriu e colocou as fotos sobre a mesa.
        - Pode escolher as que quiser. Vou mandar copi-las para distribuir aos companheiros.
        Jonas escolheu uma de cada um e respondeu:
        - Vou reproduzir estas fotos para minha equipe e nossos contatos no exterior.
        - Eu gostaria que Bris assinasse essa confisso para irmos embora logo. Estamos sem tempo de esperar mais - pediu Rubinho.
        O delegado respondeu:
        - Vou com voc, Jonas, pego a assinatura e saio. Voc fica e conversa com ele.
        Os dois foram e dentro de alguns minutos Marques voltou olhando os dois advogados com satisfao:
        - Tudo pronto. Ele relutou um pouco, quis ler, mas no fim acabou assinando. Vou tirar cpias para vocs.
        Alguns minutos depois eles saram levando o precioso papel na pasta. Conforme o combinado, Alberto j deveria estar no escritrio esperando para as ltimas 
providncias antes da audincia. Passava do meio-dia e no tinham tempo para almoar.
        - Vamos embora - disse Rubinho. - Pediremos a Elza que compre um lanche para ns.
        Ouvindo os detalhes da confisso de Bris, Alberto empalideceu e no conseguiu ocultar a emoo.
        - Sempre suspeitei da morte de meus pais, contudo nunca pensei que ele tivesse envenenado meu av. Essa revelao me choca e entristece. Que espcie de homem 
 esse, que foi capaz de tanta maldade?
        -  difcil dizer - respondeu Daniel. - Principalmente tratando-se de um mdico, que tem fama de caridoso, de homem bom, educado. Ele sempre foi muito respeitado 
na melhor sociedade do Rio de Janeiro. Era amigo de minha famlia! Meu pai tinha para com ele especial deferncia.
        - Tanto que voc precisou deixar sua casa quando resolveu assumir minha causa.
        - Para ver como eles estavam enganados - disse Rubinho. - Tambm fui pressionado por minha famlia para abandonar o caso.
        - Ainda bem que escolhi vocs. Agora posso dizer que foi o esprito de meu av, que tem me acompanhado e que aprovou essa escolha. Ele sabia que podia contar 
com a competncia e com a honestidade de vocs.
        Pode ter certeza de que no esquecerei o que vocs esto fazendo por mim. No s quanto aos honorrios, mas tambm com a amizade e gratido. Tm em mim um 
cliente para sempre.
        - Espero que no tenha mais nenhum crime para ser desvendado - brincou Daniel.
        - Mas terei os negcios para assumir e a gesto da fortuna. Vocs vo me ajudar a fazer isso.
        - Tudo bem - concordou Rubinho. - Agora vamos trabalhar. Temos a audincia logo mais. O tempo  curto.
        - Vou ligar para Gabriel e Lanira. Contar como esto as coisas.
        - Ela est com ele? - perguntou Alberto com interesse. Daniel estava ao telefone e foi Rubinho quem respondeu:
        - Est. Foi dar um apoio.
        - J notei que ele gosta dela. Esto namorando? Rubinho olhou-o curioso e respondeu:
        - Oficialmente, no. Por qu, tambm est interessado nela?
        - Confesso que ela me atrai. Acha que tenho chance?
        - No sei. Lanira  uma incgnita para mim. Sempre foi muito cortejada, mas nunca a vi dizer que estava gostando de algum. S se refere a Gabriel como amigo.
        - No  o que ele quer. Seus olhos brilham quando se fixam nela.
        - J percebi. Eles saem muito juntos. Ela diz que gosta da companhia de Gabriel. Mas vamos ao nosso assunto. Temos pouco tempo.
        Daniel telefonou para casa de Gabriel, que atendeu ao primeiro toque. Ouvindo a voz de Daniel, indagou:
        - Alguma novidade?
        - Sim. Conseguimos a confisso completa de Bris.
        - O que foi que ele contou?
        - Agora no tenho tempo. Temos a audincia daqui a pouco. Quando eu voltar, passarei em sua casa e conversaremos melhor. Quanto  sua me, ainda no temos 
nenhuma notcia. Jonas pegou as fotos e vai distribuir para todos. Ele est tentando arrancar de Bris alguma provvel pista. Agora preciso ir. Assim que sair da 
audincia, irei  sua casa.
        Daniel desligou e ficou pensando na situao de Gabriel. No teve coragem para contar-lhe pelo telefone a extenso dos crimes que seu pai cometera. Sabia 
que ele estava deprimido e preocupado, no queria perturb-lo ainda mais. Pessoalmente, com calma, revelaria a verdade.
        Gabriel desligou o telefone e Lanira perguntou:
        - E ento?
        - Bris confessou, e acho que isso resolve o caso para Alberto e para Daniel e Rubinho. Quanto  minha me, nada ainda.
        Lanira apanhou a mo dele, apertando-a com carinho e dizendo:
        - Fique calmo. Tia Josefa disse que iria reunir os mdiuns e fazer uma corrente espiritual. Ficou de ligar se tiver alguma orientao.
        - Numa hora dessas, s Deus pode nos ajudar.
        - Vamos confiar e esperar.
        - Bris confessou e por certo no poupou ningum. Ele odeia mame porque ela sempre foi contra tudo quanto eles faziam.
        - O que pode valer a palavra dele contra a do prprio Alberto? Ele  grato  sua me. Ela lhe salvou a vida e o sustentou, deu-lhe boa educao, custeou 
seus estudos e s no lhe deu um diploma universitrio porque foi impedida. Depois, Daniel e Rubinho garantiram que tudo faro para defend-la. At Jonas est do 
lado dela.
        Gabriel suspirou fundo e iria responder quando Laura entrou no quarto olhando-o assustada:
        - O que esto fazendo no quarto de mame? O que est acontecendo aqui? Jazilda disse que papai e mame sumiram, que a polcia esteve aqui. Por que no me 
avisaram?
        Gabriel pegou a irm pelo brao e f-la sentar-se. Respirou fundo e respondeu:
        - Vou contar-lhe tudo. Infelizmente estamos vivendo uma tragdia.
        - Aconteceu algum desastre com eles? Fale logo. O que Lanira est fazendo aqui?
        - Lanira est nos ajudando.
        - Acho que depois do que Daniel est fazendo contra nossa famlia, ela nunca deveria entrar nesta casa.
        - Lanira no  culpada do que nosso pai fez. Ele, sim,  o responsvel por tudo quanto estamos passando agora. Apontou uma arma e obrigou mame a acompanh-lo. 
A polcia est  procura deles. Bris est preso e confessou toda a culpa dele e de papai. Ele pode ser preso a qualquer momento.
        Laura empalideceu, passou a mo pelos cabelos enquanto sacudia a cabea negativamente:
        - No posso crer! Isso no pode ser verdade! Vocs esto todos enganados. E uma calnia. Voc no pode acreditar em uma coisa dessas.
        - Eu gostaria que no fosse verdade Laura. Infelizmente . A polcia descobriu tudo. A ama que ajudou a forjar aquela farsa, a confisso de Bris, e, como 
se isso no bastasse, a fuga de papai quando viu que estava perdido e que tudo viria  tona.
        Laura comeou a chorar e Gabriel abraou-a com carinho dizendo:
        - Laura, ns estamos juntos. No temos culpa de nada. Ele fez o
        que fez, mas ns somos pessoas de bem. Vamos erguer a cabea e seguir
        em frente. Temos que enfrentar essa situao com coragem. Deus h de
        nos ajudar.
        Lanira olhou-os emocionada. As lgrimas rolavam por suas faces e ela se deixou ficar assim, olhando-os abraados, sem saber o que dizer para confort-los. 
Aquele momento era deles e ela respeitava sua dor. Esperava que, quando tudo passasse, eles pudessem refazer suas vidas e continuar.
        
        
Captulo 20
        
        Passava das seis quando Daniel chegou em casa de Gabriel. Lanira ainda estava l tentando confortar Laura, que entrara em terrvel depresso. Para ela, era 
difcil suportar a idia da vergonha, da perda da posio de destaque que ocupavam na sociedade, do dinheiro e do poder.
        Havia momentos em que voltava a dizer que todos estavam enganados e que seu pai haveria de aparecer com provas para desmascarar toda aquela farsa que estava 
sendo urdida contra ele.
        Nesses momentos, Gabriel procurava convenc-la da inutilidade de conservar aquela iluso. Ele tinha provas de que tudo quanto Alberto afirmara em juzo era 
verdade.
        Quando Daniel entrou na sala onde os trs estavam, ela o olhou com raiva e gritou:
        - O que ele est fazendo aqui? Veio tripudiar sobre a nossa vergonha? Vangloriar-se da lama que est atirando sobre nossa famlia?
        Apanhado de surpresa, Daniel no respondeu. Foi Gabriel quem disse:
        - Cale-se, Laura. Voc no sabe de nada. Mame corre perigo e Daniel est tentando nos ajudar a encontr-la.
        - Ela nunca correria perigo ao lado de papai. Vocs esto todos loucos!
        - Ela s soube agora e ainda est em estado de choque - disse Gabriel. Voltando-se para Laura, continuou: -  melhor ir para seu quarto. Tenho que conversar 
com Daniel.
        - No. Quero ficar e escutar tudo que vo dizer. Voc acreditou em tudo porque no gosta de papai. Eu sei que voc tem raiva dele.
        - Voc no .sabe o que est dizendo. Se quer ficar, fique, mas se no ficar calada ponho-a para fora da sala. O assunto  muito srio e no temos tempo a 
perder. Sente-se, Daniel, e diga. Tem alguma notcia deles?
        - Por enquanto, no. Jonas est tentando. Esteve conversando com Bris, que lhe deu algumas informaes. Alguns dados sobre contas bancrias no exterior 
e sobre quem lhe teria fornecido passaportes falsificados. Nesta hora Jonas j deve ter feito contato com o falsrio. Pode pelo menos saber os nomes que eles devem 
estar usando.
        Laura, atenta, no perdia nada do que eles diziam e comeou a sentir que realmente algo de muito grave estava acontecendo. Tudo aquilo seria verdade?
        - Como foi a audincia? - indagou Lanira com interesse.
        - Bem, levamos a confisso de Bris e isso certamente deu fora para resolver tudo. Como prevamos, Eleutria no compareceu e assim Jonas teve o pretexto 
para prend-la. A polcia vai traz-la de So Paulo, pelo menos para prestar declaraes. O juiz ficou muito impressionado com a confisso de Bris. Vai estudar 
os autos, dar a sentena quanto ao reconhecimento de Alberto como sendo Marcelo Camargo. Depois, vai abrir um processo-crime para apurao de todos os fatos relatados 
na confisso de Bris. Aguarda apenas a concluso do inqurito policial para isso.
        - Ela ficar presa? - indagou Gabriel.
        - Pouco tempo. Ainda no temos como prend-la. No tem ainda culpa formada e mesmo que tivesse  primria. Mas isso no importa. Durante o processo, sua 
culpa ser provada e ela ter que responder pelo que fez.
        - Se ficar em liberdade, ela pode tentar fugir - disse Lanira.
        - No conseguir. A polcia est vigiando seus passos. Seria detida se tentasse deixar o pas.
        - Como conseguiram arrancar a confisso de Bris? - perguntou Gabriel.
        - Quando ele soube que seu patro havia fugido, ligou para o advogado. O Dr. Eugnio abandonou o caso, alegando que quando assumiu desconhecia a culpabilidade 
do cliente. Em vista das provas contrrias ao que seu cliente lhe dissera, ele se julgava no direito de recusar-se a continuar defendendo-o. Estava pronto a subestabelecer 
a procurao. Ento Bris teve uma crise de raiva. Sentiu-se trado, abandonado, e contou tudo.
        - Vocs acreditaram! - gritou Laura com raiva. - Ele, sim,  culpado. Papai fugiu de medo dele. Garanto que quem fez tudo foi ele.
        - Ele no merece a confiana de ningum - interveio Gabriel. - Mas nunca faria tudo isso sozinho. O que foi que ele contou?
        - Sua confisso foi alm de nossas expectativas. Disse coisas muito graves, que, se confirmadas, daro ao caso novas dimenses.
        - O que foi que ele disse?
        - Como Laura sugeriu - respondeu Daniel -, ele pode estar mentindo para vingar-se do Dr. Jos Lus. Portanto, vamos aguardar as investigaes da polcia.
        - Voc est querendo nos poupar - tornou Gabriel, preocupado. -Sei que Bris  perigoso, mas tambm sei que eles agiam de comum acordo. Ele pode estar dizendo 
a verdade. O que mais ele confessou?
        - Deixemos isso para mais tarde. E melhor.
        - No, Daniel. Temos o direito de ser informados de tudo. Por favor. Conte-nos a verdade.
        Daniel respirou fundo e depois decidiu:
        - Est bem. Ele contou que o acidente que matou os pais de Marcelo foi provocado e que a morte do Dr. Camargo no foi natural.
        Gabriel deixou-se cair em uma poltrona sem encontrar palavras para responder. Lanira interveio:
        - Trata-se apenas de uma hiptese. Bris no merece crdito.
        - Tudo  possvel - tornou Daniel. - Em todo caso, a polcia vai investigar. A verdade vai aparecer.
        Gabriel passou a mo pela testa em um gesto desesperado. A situao poderia ser pior do que ele imaginara.
        - Tantos crimes por causa de posio, dinheiro! E pensar que minha me est nas mos dele! Temos que encontr-la. Cada minuto pode ser precioso.
        - Bris disse que ele  apaixonado por D. Maria Jlia. No ter coragem de fazer nada contra ela - disse Daniel.
        - S sei que a vida inteira ele a atormentou. O que voc diz pode ser verdade, mas quando penso que ela est contra a vontade ao lado dele, fugindo, sinto 
um aperto no peito.  como se ela estivesse correndo um perigo iminente.
        - Acalme-se - tornou Lanira. - Logo eles sero encontrados e ela estar de volta, voc vai ver.
        Laura olhava-os, plida, sem saber o que dizer, em que acreditar. Aquilo s podia ser um pesadelo. Logo ela iria acordar e tudo estaria como antes.
        Daniel levantou-se dizendo:
        - Preciso ir. Se tiver alguma notcia, telefono. Voc fica, Lanira?
        - S mais um pouco. Mame est me esperando. Papai est viajando e ela se sente muito s. Voc tem andado muito ocupado. Mas se puder, passe l para v-la. 
Ela iria ficar muito feliz.
        Daniel olhou para a irm surpreso. Ela nunca se incomodara em fazer companhia para a me. Mas no disse nada. Despediu-se e saiu. Aquela noite pretendia 
encontrar-se com Ldia. Apesar de sua angstia quando pensava em Alberto, ele estava disposto a seguir os conselhos de tia Josefa e entregar-se ao amor completamente.
        
        Alberto chegou em casa pensativo. Finalmente estava conseguindo tudo quanto desejara na vida. Logo deixaria de ser filho de pai desconhecido e de me solteira 
e assumiria seu nome verdadeiro. Teria dinheiro, seria respeitado.
        Entretanto, apesar de todo o esforo para chegar at ali, no se sentia realizado completamente. Em seu peito havia um vazio que lhe parecia difcil de preencher.
        Quem lhe devolveria os dias de convivncia familiar que ele perdera, o aconchego do av querido, a companhia de amigos que ele nunca tivera?
        Ele seria rico, respeitado, mas seria feliz? Poderia reconstruir sua vida, esquecer a tragdia que vitimara seus entes queridos?
        Durante anos ele se alimentara da esperana de desmascarar seus inimigos, de recuperar o que lhe fora tirado, mas agora, que no tinha mais nada para lutar 
nem para esperar, como seria sua vida?
        A to esperada vitria no lhe proporcionara a alegria esperada. Ao contrrio. Naquele instante sentiu que a tristeza tomava conta de sua alma, e, colocando 
a cabea entre as mos, deixou que as lgrimas corressem por suas faces livremente. Ele chorava a perda dos entes queridos, os anos de orfandade sem carinho nem 
aconchego, os momentos de incerteza e de dvida, que embora tentasse esquecer ainda o machucavam.
        Pensou em Lanira. Gostaria de t-la ali, naquela hora. Havia tanta vida nela que a seu lado ele se renovava. Sentia vontade de viver, de ficar de bem com 
a vida. Ela estaria apaixonada por Gabriel?
        Que bom se ele pudesse estar com ela, dividir seus sentimentos e suas incertezas. Nunca sentira vontade de confidenciar seus problemas a ningum, mas com 
Lanira era diferente. A seu lado tudo se modificava.
        Apanhou o telefone e ligou para casa de Lanira. Maria Alice atendeu. Ela no estava. Alberto desligou desanimado. Ela estava ao lado de Gabriel. Nem sequer 
se interessara em falar com ele sobre a audincia.
        Tentou reagir. Sentou-se em sua poltrona favorita, apagou a luz e deixou-se ficar na penumbra. Sentia-se s naquele momento to importante de sua vida. Recostou-se 
e aos poucos foi relaxando.
        De repente percebeu uma claridade  sua frente e viu-se diante do esprito de seu av. Quis falar, mas no conseguiu. Os olhos dele o fitavam com imenso 
carinho. Aproximou-se, passando ligeiramente a mo sobre seus cabelos. Depois disse:
        - Por que se atormenta, meu filho? Agora que tudo est se resolvendo e sua vida vai tomar um rumo definido,  hora de ser feliz. No deixe que o passado 
o atormente. Ele est morto e nunca mais voltar. Daqui para a frente voc vai viver uma nova vida. Por que escolhe a tristeza e a infelicidade? Tudo acabou. Dentro 
em breve os culpados estaro respondendo por seus atos perante a justia dos homens e de Deus. No permita que as mgoas do passado machuquem seu corao e perturbem 
sua vida. Perdoe. Esquea. Liberte-se da dor. Deixe o passado ir embora.
        Alberto pensou:
        - Eu gostaria de esquecer. Como seria bom se pelo menos voc pudesse estar aqui comigo! Estou me sentindo to s!
        - No se deixe envolver pelo vitimismo. Note como voc tem sido protegido pela vida. Frente a criminosos da pior espcie, sua vida foi poupada. Teve estudos, 
conviveu com pessoas boas e cultas, aprendeu muitas coisas. O patrimnio que me esforcei para deixar a voc agora vai ser colocado em suas mos. E jovem, saudvel. 
Tem uma vida proveitosa e feliz pela frente. No destrua suas possibilidades lamentando o passado.
        - Bris confessou que o acidente que matou meus pais foi provocado por eles. Que Jos Lus envenenou-o! Como esquecer o que eles fizeram?
        - Quem est contra a vida s atrai infelicidade. Eles comeam a experimentar os resultados de suas atitudes. Voc no fez mal algum. No se envenene com 
a maldade deles. Liberte-se delas, perdoando-os.
        - Como posso fazer isso? Eu amo vocs e no me conformo com o que lhes fizeram.
        - Gostaria que soubesse que no universo no existe vtima. Cada um responde pelas escolhas que faz.
        - No concordo! Eles so maus.
        - Ainda so. Mas poderiam ter escolhido outras pessoas para praticar suas maldades. Por que nos escolheram? Por que a vida permitiu que eles nos atingissem?
        - No sei...
        - Porque todos ns precisvamos enfrentar esse desafio, essa dura experincia. Dela, todos sem exceo estamos extraindo preciosos conhecimentos. Por isso, 
aceitemos o que a vida nos deu e procuremos tirar proveito.
        -  difcil.
        - Basta querer. Voc ter ainda que prestar declaraes na justia, mas tudo ser esclarecido. Chegou a hora da verdade. Nada nem ningum conseguir impedir. 
Mas preciso pedir-lhe que no se deixe envolver pelo dio nem pela vingana. Os criminosos so prisioneiros da prpria maldade. Entregue seus ressentimentos, suas 
mgoas a Deus e depois desse julgamento trate de esquecer. Garanto que assim poder desfrutar de uma vida feliz e harmoniosa, por um largo perodo de tempo.
        - Sinto-me muito s.
        - No ser sempre assim. Se ficar no bem, pessoas sinceras e amigas viro a seu encontro. Depende s de voc.
        Lgrimas corriam pelas faces de Alberto e ele tornou:
        - Como voc  nobre! Depois do que lhe fizeram, ainda tem foras para perdoar!
        - Esse  o segredo de minha paz. H muito deixei de brigar com a vida ou com as pessoas. Quando me machuco com o que elas fazem, procuro descobrir que atitude 
minha est atraindo coisas que me desagradam. Sei que a causa est em mim. Quando saio do equilbrio, fatos desagradveis acontecem. Quando volto ao equilbrio, 
tudo  minha volta fica bem.
        - Eu estou desequilibrado, nervoso. Como posso ficar bem?
        - Esquecendo o mal, seja de quem for.
        - No posso me omitir. Terei que acus-los no tribunal.
        - Ter. E uma questo de ser verdadeiro. Mas faa isso sem dio. Relate os fatos e deixe que a justia faa o resto. Se conseguir, se sentir muito bem. 
Toda a sua angstia passar. Ningum pode ficar equilibrado conservando a mgoa, a raiva, a sensao de injustia no corao.
        - E isso que estou sentindo. Essa injustia me fere.
        - O sentimento de injustia aparece por nossa incapacidade de conhecer a verdade integral dos fatos. Pense nisso e no se aventure a julgar. Quando estiver 
amadurecido e esse conhecimento chegar, tenho certeza de que se sentir feliz por haver perdoado e esquecido.
        Ainda uma coisa: lembre-se que cada um s d o que tem. No espere dos outros o que ainda no tm para dar. Por isso, no exija o impossvel e compreenda. 
Aqueles dois ainda esto iludidos, desprezando os verdadeiros valores da vida. Certamente devem ficar reclusos para no prejudicarem ningum mais. L tero tempo 
para pensar e renovar seus valores. Entretanto, esse  um problema deles. Voc no tem culpa de nada e no deve carregar o peso desses crimes. Entendeu?
        - Entendi. Tentarei.
        - Agora vou tentar ajud-lo. Pense em Deus e firme o propsito de renovar sua mente. Pea-lhe que o ajude a esquecer o passado e ficar s no bem.
        Alberto respirou fundo e obedeceu. O esprito do av colocou a mo sobre a testa dele e orou. Seu peito iluminou-se e uma luz suave comeou a envolv-los. 
Enquanto ele orava, essa luz foi crescendo at iluminar toda a sala.
        As lgrimas continuavam a descer pelas faces de Alberto, mas aos poucos sua angstia foi desaparecendo e elas pararam. Ele comeou a sentir-se muito bem. 
Uma brisa leve e perfumada como que o acariciava e ele a aspirava gostosamente.
        Ento ouviu uma voz suave de mulher dizer:
        - Meu filho! Deus o abenoe!
        Alberto abriu os olhos na tentativa de ver quem estava falando, mas no havia ningum. Seu av tinha desaparecido.
        De repente, todo o seu mal-estar havia passado. Em lugar do vazio no peito, sentia uma alegria agradvel e a sensao de que nada de mal lhe aconteceria.
        Pensou em Lanira. No podia se considerar derrotado por Gabriel ainda. Envolvido pelos problemas que colocara como prioridades em sua vida, no quisera se 
envolver afetivamente com ningum. Dali para a frente, tudo poderia mudar.
        Dentro em breve, teria todo o tempo do mundo para conquist-la. Naquele instante ele percebeu o quanto desejava isso.
        No dia seguinte, pela manh, Daniel e Rubinho foram  delegacia. Marques contou-lhes que deixara Eleutria passar a noite na cadeia dizendo que ela deveria 
ficar l aguardando o momento em que o juiz a ouviria.
        No conseguindo libert-la, seu marido ficara de trazer um advogado no dia seguinte e ainda no havia chegado.
        - J a interrogou? - perguntou Rubinho.
        - Eu tentei. Mas ela se recusa a falar antes de ver seu advogado. No posso fazer nada.
        Foi Daniel quem indagou:
        - Mostrou a ela a confisso de Bris?
        - Sim. Ela de vermelha ficou branca, aterrorizada.
        - No vai poder det-la por muito tempo - lembrou Rubinho.
        - Com relao  audincia, no. Mas posso segur-la um pouco mais para prestar declaraes. H o inqurito que estou formalizando em que ela aparece como 
suspeita.
        - Devemos aproveitar para falar com ela antes de o advogado chegar - tornou Daniel.
        - Podem ir. Mas acho que no vo conseguir nada.
        Os dois entraram na sala onde Eleutria estava e apresentaram-se como advogados de Marcelo Camargo. Ela teve ligeiro sobressalto que eles perceberam, mas 
nada disse. Foi Rubinho quem falou:
        - No adiantou nada voc no comparecer para depor no processo. Temos provas de que foi voc quem simulou aquele acidente e substituiu o corpo do menino. 
De nada adianta ficar calada, esperando seu advogado. Alberico contou tudo com detalhes antes de morrer e esse documento est registrado em cartrio. Alm disso, 
sua casa estava sob controle policial. Tudo que voc e seu marido conversavam l est gravado. Portanto no adianta negar. Sua culpa est provada.
        - Isso no  verdade - disse ela com voz que tentava tornar firme. - Vocs esto me enganando.
        - Viemos conversar porque, se voc confessar tudo, poderemos ajud-la e diminuir sua pena - contraps Daniel.
        -  isso que vocs querem. Eu sei. Esto perdendo tempo.
        - Quem est perdendo tempo e agravando sua situao  voc. Bris j confessou e Marcelo est decidido a ir at o fim na apurao dos fatos. O juiz j determinou 
 polcia as investigaes, porque, alm do que fizeram a Marcelo, h outros trs crimes. O Dr. Camargo foi envenenado; os outros dois, assassinados. Se no contar 
a verdade, responder tambm por todos eles. Nunca mais sair da cadeia - lembrou Rubinho.
        Eleutria cambaleou e eles pensaram que ela fosse desmaiar. Mas ela respirou fundo e conseguiu manter-se na cadeira.
        - Como sabe, o Dr. Jos Lus fugiu, o Dr. Eugnio desistiu de defender vocs. Portanto esto sozinhos. Se Jos Lus no for encontrado, apenas voc e Bris 
pagaro por todos esses crimes, enquanto ele estar no exterior, livre - explicou Daniel.
        Foi a gota d'gua. Eleutria comeou a gritar cheia de raiva:
        - Aquele desgraado! Bem que eu no queria. Foi ele quem me tentou, ofereceu todo aquele dinheiro e eu cedi. Sempre lutei com a vida. Estava cansada de ser 
pobre. No sabia que ele iria matar toda a famlia de Marcelo! Achei que substituir o corpo do menino no era to grave assim. Ningum matou, o menino caiu da sacada 
e morreu. Foi acidente. Ns s trocamos a identidade do corpo e simulamos o acidente de carro. No posso pagar pelos crimes que no cometi.
        - Voc sabia que ele pretendia eliminar a famlia toda. Confesse - pressionou Rubinho.
        - No! Eu no sabia!
        - Como no? Como  que ele ficaria com a fortuna se os parentes estavam vivos? E claro que quando houve a troca de corpos, ele j planejava assassinar os 
outros! - concluiu Daniel.
        - No. Vocs no podem me culpar disso tambm.
        - No somos ns que a estamos culpando. Voc foi cmplice deles. Ser igualmente responsabilizada pela justia - lembrou Rubinho.
        Da raiva, Eleutria passou ao desespero. Juntou as mos e suplicou:
        - Por favor! Ajudem-me! Juro que no sabia de nada. Pensei que o Dr. Camargo tivesse morrido de tristeza. O Dr. Jos Lus disse que foi do corao. Eu vi 
o atestado de bito.
        - Assinado por ele - disse Daniel.
        - Sim. O Dr. Camargo tratava-se com ele.
        Daniel olhou para Rubinho e compreenderam como aconteceu. Claro que, como seu mdico, fora fcil ao Dr. Jos Lus favorecer a morte do tio. Eles no tinham 
nenhuma dvida de que Bris dissera a verdade. Os trs haviam sido mesmo assassinados.
        Rubinho prosseguiu:
        - E o acidente que matou os pais de Marcelo, como foi?
        - Isso eu no sei. Li nos jornais que o barco em que estavam explodiu. Nada tive a ver com isso. Foi em outro pas e eu estava no Brasil.
        - Mas o Dr. Jos Lus, a esposa e Bris estavam na Europa - tornou Daniel.
        - Pode ser. No me lembro.
        - Trate de lembrar-se. Voc ser interrogada pela polcia e pelo juiz quando forem a julgamento. Se omitir alguma coisa, se tentar encobrir seus cmplices, 
ser to culpada quanto eles - insistiu Rubinho.
        - No sei! J disse que eles estavam longe, fora do Brasil. Nem sei onde.
        - Bris deve ter-lhe contado como foi - sugeriu Daniel.
        - Vocs no conhecem Bris. Ele nunca fala nada. Se sabe quem foi que cometeu esse crime, nunca disse. Sempre me proibiu de falar na troca dos meninos. Disse 
que, se eu abrisse a boca, ele e o Dr. Jos Lus acabariam comigo.
        - Se quer atenuar sua pena, conseguir algum benefcio, fale s a verdade. No esconda nada. A polcia tem as provas de tudo como aconteceu realmente. Qualquer 
mentira pode prejudicar voc e aumentar sua pena. Por isso, aconselho-a a confessar j ao delegado toda a sua participao nessa histria. E o melhor que tem a fazer.
        Rubinho calou-se. Dois homens acabavam de entrar na sala. Eleut-ria levantou-se e agarrou-se a um deles chorando e dizendo:
        - Joo, estou perdida! Eles sabem de tudo. Querem que eu confesse!
        - Calma - respondeu Joo, abraando-a. - Voc no vai fazer nada. Este  o Dr. Nicanor de Andrade, seu advogado. S vai fazer o que ele disser.
        O advogado aproximou-se dos dois rapazes olhando-os com seriedade e dizendo:
        - Vocs no podem obrig-la a falar sem um advogado. Posso denunci-los por estarem forando minha cliente a falar contra a vontade.
        - Ns somos os advogados de Marcelo Camargo, o menino que ela ajudou a ser julgado morto quando substituiu a identidade do cadver de outra criana - esclareceu 
Rubinho, e continuou: - Voc est entrando no caso e talvez ignore os detalhes. Sua cliente est sendo acusada de trs assassinatos, fraude e usurpao do herdeiro 
legtimo do Dr. Antnio Camargo de Melo.
        Nicanor olhou assustado e respondeu:
        - Vocs tm certeza do que esto afirmando? No foi isso o que me disseram.
        - Pode informar-se de tudo com o delegado - esclareceu Daniel. - Sugerimos a Eleutria que confesse a verdade logo e no tente enganar a justia, porque 
a polcia tem em mos todas as provas irrefutveis dos crimes dela e de seus cmplices.
        - Eu no sabia que eles pretendiam matar toda a famlia - gritou Eleutria chorando. - Se eles fizeram isso, no tenho culpa.
        - Ns a aconselhamos a dizer toda a verdade sem tentar encobrir ningum. A polcia sabe de tudo, e se ela mentir, agravar sua culpa. Tenho certeza de que, 
depois de conhecer a extenso do caso, como seu advogado vai aconselh-la a fazer isso - tornou Rubinho.
        Nicanor passou a mo pelos cabelos, olhou-os tentando descobrir quem dizia a verdade, depois disse:
        - Tudo bem. Podem deixar. Agora ela ficar sob meus cuidados. Vamos conversar, verei que provas so essas, ento voltaremos ao assunto. Agora, por favor, 
saiam. Tenho que conversar com minha cliente.
        Eles saram e foram at a sala do delegado, que, vendo-os, perguntou:
        - E ento?
        - Ela falou. Ficou com medo por causa dos outros crimes. Acho que dar o servio todo sem omitir nada - respondeu Rubinho.
        - Ns a aconselhamos a dizer toda a verdade  polcia se quiser reduzir a pena. Acho que seu advogado vai dizer-lhe o mesmo. O que mais ela pode fazer diante 
de tantos crimes? - aventou Daniel.
        - Tem razo. S que precisamos obter mais provas. Por enquanto, s temos a palavra de Bris, e ele no  de confiana. - tornou Marques.
        - Tenho certeza de que o que ele afirmou  verdade. Eles cometeram todos esses crimes. De que adiantaria trocar o corpo dos meninos se havia outros herdeiros? 
Acha que eles no foram assassinados? Em menos de dois anos, todos se foram. O que por si s j  uma prova - insistiu Rubinho.
        -  verdade. De fato, tambm penso que as investigaes levaro a isso. No momento, encontrar o Dr. Jos Lus  fundamental. Com ele nas mos e diante de 
tantas provas, obteramos uma confisso completa. Ento tudo estaria resolvido - explicou o delegado.
        - Ns temos que ir - disse Daniel levantando-se. - Qualquer novidade, comunique-nos, por favor. Gabriel est muito preocupado com a segurana da me.
        - A esposa do Dr. Jos Lus? Ser mesmo que ela corre perigo? O rapaz pode estar enganado. Ela pode ser cmplice do marido - tornou o delegado.
        - No acredito. Ele sabe o que est falando. Ela sabe muito e corre srio risco. Ele pode suspeitar que ela estava ajudando-nos. Alis, foi com o auxlio 
dela e de Gabriel que chegamos ao paradeiro de Alberto. No se esquea disso - lembrou Daniel.
        - . De fato. Se ele souber disso, ela pode mesmo estar em perigo. Vo em paz. Qualquer notcia, telefonarei.
        
        Lanira levantou-se, vestiu-se e foi tomar o caf da manh. Maria Alice esperava-a.
        - Ningum ligou? - indagou.
        - No, filha. Tome seu caf. Tem aquele bolo que voc gosta. Ela se serviu e Maria Alice sentou-se a seu lado. Lanira comentou:
        - Voc precisava ver como Laura ficou quando descobriu a verdade. Parecia uma morta-viva.
        - D para entender. Seu mundo despencou.
        - Custou a acreditar. Quando viu Daniel, ficou furiosa. Mas Gabriel logo esclareceu a situao.
        - Ela acreditou?
        - A princpio, no. Mas depois acho que as coisas foram ficando mais claras em sua cabea. At eu ainda no consigo entender essa histria de o Dr. Jos 
Lus ter assassinado toda a famlia.
        - E difcil crer. Ele sempre pareceu um homem ponderado, afetuoso, amante da famlia. Sempre participando de obras sociais.
        - Apenas aparncias. Gabriel disse que ele sempre atormentou a esposa. Era cruel e indiferente com os filhos.
        - Estou decepcionada com a sociedade. A vida inteira prestei culto a suas regras, obedeci a esse mundo de vaidade e podrido. Hoje no sinto mais vontade 
de freqentar os sales nem de comparecer s festas.
        - Eu sempre soube. Por isso no pensava em me casar. No desejava fazer parte desse mundo.
        - No diga isso. H de haver gente boa ainda. No quero perder toda a f na vida.
        - Sabe de uma coisa? Toda esta histria suja serviu para perceber o lado nobre, o carter de algumas pessoas. Para Gabriel e a me, a honestidade, a verdade, 
a justia, a paz da conscincia esto em primeiro lugar.
        - E verdade. No sei se eu teria coragem de fazer o mesmo que eles fizeram.
        O telefone tocou. A empregada atendeu e chamou Lanira, dizendo:
        - Telefone para voc. Disse que  Alberto. Ela atendeu. Depois dos cumprimentos, disse:
        - Voc deve estar feliz. Afinal seu caso est resolvido.
        - . Finalmente parece que tudo vai terminar. Gostaria de conversar com voc. Quer almoar comigo hoje?
        - No sei... Estamos todos preocupados com o desaparecimento de D. Maria Jlia. Laura e Gabriel esto inconsolveis. Eu tinha pensado em ir at l.
        - Compreendo. Claro. Eles so seus amigos. Queria que soubesse: estou me sentindo muito s. Apesar de tudo, no tenho ningum para dividir minha vitria. 
Parece que ela no me deu tudo quanto eu esperava durante todos esses anos.
        Havia um travo de tristeza na voz dele e Lanira resolveu:
        - Est bem. Almoarei com voc. Acho que terei tempo para tudo. A que horas?
        - Passarei em sua casa ao meio-dia. Est bem?
        - Melhor s onze e meia. Estarei esperando. Ela desligou e Maria Alice perguntou:
        - Como  esse Alberto?
        -  um moo sofrido mas agradvel. Educado e de boa aparncia. Raramente sorri, mas tem um lindo sorriso.
        - Pelo jeito vai fazer muito sucesso em nossa sociedade. Estar interessado em voc?
        Pela lembrana de Lanira passou aquele beijo que haviam trocado. Abanou a cabea e respondeu:
        - No. Nosso relacionamento foi ocasional.
        - Voc saiu com ele algumas vezes.
        - Samos, como amigos. No ponha nada em sua cabea, porque ele quer apenas conversar um pouco. Senti uma ponta de tristeza em sua voz. Por isso aceitei.
        - No deve ter sido fcil para ele passar por toda essa experincia e acabar descobrindo que toda a sua famlia foi cruelmente assassinada.
        - Foi o que pensei. Ele me disse que no tem ningum com quem comemorar essa vitria.
        - Ele est certo. Est sozinho mesmo.
        - Ele tem Deus - respondeu Lanira, sria. - E jovem, pode fazer amigos, ser feliz.
        - Nunca a vi falar em Deus. No sabia que era religiosa.
        - No sou. Mas as sesses em casa de tia Josefa tm me mostrado coisas que me fizeram pensar. Eu sei que a vida continua depois da morte. Sei tambm que 
a vida responde de acordo com nossas atitudes. O bem sempre  o melhor caminho.
        Maria Alice olhou-a admirada.
        - Josefa conseguiu mostrar isso a voc?
        - Sim, me. Ela  uma pessoa extraordinria. Ficar a seu lado  encontrar a sabedoria e a paz.
        - Difcil aceitar. Ela sempre foi meio excntrica.
        - Vocs se deixaram levar pelo preconceito e perderam a oportunidade de privar de sua convivncia. Ns vamos l sempre. Vocs no sabem o que perderam.
        Lanira subiu para telefonar e saber se havia alguma novidade. Maria Alice sentou-se na sala, apanhou uma revista, mas nem sequer a abriu. Seu pensamento 
estava longe.
        Sua irm Josefa, dois anos mais nova do que ela, sempre fora alegre e descontrada. Contudo, estava sempre vendo coisas, falando em espritos, lendo livros 
estranhos. Em casa, ningum a levava a srio.
        Mas ela no ligava. Continuava mesmo assim. Quando se casou, o marido tinha as mesmas manias, e, alm de fazerem sesses espritas em casa, recebiam pessoas 
que eram tidas como bruxos.
        Por essa razo, Maria Alice se afastara dela e nunca permitira aos filhos essa convivncia. Uma vez deixara isso muito claro a ela e depois nunca mais tinham 
se encontrado.
        Sabia que Lanira tinha bom senso e que dificilmente se enganava com as pessoas. Mas falar isso de Josefa parecia-lhe exagero. Resolveu conversar com Daniel 
a respeito. Ele era mais ctico, talvez tivesse outra opinio.
        Bem que ela gostaria de encontrar a paz e esquecer sua frustrao. A vida estava indo embora e arrastando tudo em que ela acreditara. As iluses estavam 
ruindo e Maria Alice sentia que nada iria sobrar em que pudesse agarrar-se.
        Daniel afastara-se, Lanira qualquer dia iria casar-se. O que lhe restaria? O marido infiel, desonesto, ambicioso e ftil? De repente sentiu-se enojada da 
situao falsa em que vivia. Como levar adiante sua vida vazia?
        Algumas lgrimas afluram e ela as deixou cair. Tinha que fazer alguma coisa. Era uma mulher forte e determinada. No podia aceitar a destruio de tudo 
sem lutar. Mas o que fazer? Como seguir adiante? Onde encontrar de novo a paz do corao e a motivao para prosseguir?
        
      Captulo 21
        
        Antnio chegou em casa no fim da tarde. Maria Alice ainda estava na penumbra da sala de estar pensando.
        A carta annima que recebera dois dias atrs tivera o dom de coloc-la frente a frente com uma realidade que ela fingia ignorar. Depois que Lanira saiu com 
Alberto, ela se sentara ali e toda a sua vida, como num filme, passou diante de seus olhos.
        Lembrou a jovem bonita, cheia de vontade de viver, os primeiros anos de casamento, as primeiras desiluses, a certeza de que seu dever era preservar a famlia 
acima de tudo, at dos prprios sentimentos.
        Cedo descobriu que naquela sociedade a ingenuidade pagava um preo alto, que muitas pessoas, atrs do verniz da educao, eram capazes de trair, que a ambio, 
o jogo de interesses falavam mais alto do que a amizade.
        Maria Alice comeou a perceber como fora pouco a pouco modifi-cando-se, entrando no jogo da maioria, valorizando as aparncias. De tanto sufocar seus sentimentos, 
de tanto colocar em primeiro plano os conceitos da maioria, acabara por tornar-se um autmato, sem vontade prpria, sem prazer, sem entusiasmo.
        Quando Antnio entrou, vendo-a na penumbra em silncio, no se conteve:
        - Maria Alice! Voc est bem?
        Ela se levantou, acendeu o abajur e respondeu:
        - Estou. E voc?
        Ele fez um ar de cansao:
        - Mais ou menos. Essas viagens me cansam. Ter que discutir exaustivamente, trabalhar nos fins de semana,  muito cansativo!
        - Por que no deixa de viajar? - disse ela com voz calma.
        - Por amor  causa. Tenho que trabalhar pelo nosso pas. Para isso me elegeram.
        Ela o olhou sria e respondeu:
        - Comigo no precisa fingir. No est precisando de meu voto. Antnio surpreendeu-se:
        - O que houve? Aconteceu alguma coisa para voc me tratar assim?
        - Nada de novo. Tudo continua igual em minha vida, e sabe de uma coisa? Quem est cansada, muito cansada, sou eu.
        - Como assim? Voc ficou em casa descansando enquanto eu estava trabalhando. Do que se queixa?
        Maria Alice no respondeu logo. Olhou-o sria, depois disse:
        - De nada. Voc no vai subir para descansar?
        -  uma boa idia. Vou tomar um banho e relaxar um pouco. Depois que ele subiu, Maria Alice sentou-se novamente no sof. De
        repente ela sentiu que ele sempre fora o mesmo. Durante todos aqueles anos de vida em comum ela tentara entrar no jogo dele, mascarando suas atitudes, dizendo 
a si mesma que o marido era um homem voltado ao bem do pas, um homem ilustre, respeitado e de bem.
        Agora, a mscara de seus olhos cara. No s pela traio de seus sentimentos de mulher, trocando-a pela secretria, mas muito mais pela traio aos ideais 
que ele sempre pregara em suas campanhas e nunca cumprira nem cumpriria.
        Percebeu que imaginara estar se casando com um homem nobre, cheio de sentimentos elevados, e unira-se a um egosta, mentiroso e aproveitador do dinheiro 
pblico.
        A constatao dessa verdade chocou-a. Maria Alice sentiu brotar dentro dela o desejo real de fazer alguma coisa boa na vida. No podia continuar sentindo-se 
intil, sem objetivos.
        Pensamentos contraditrios passavam por sua cabea, deixando-a confusa e inquieta. Sentia que precisava reagir para no mergulhar ainda mais na depresso 
e na tristeza. Mas o que fazer?
        Atirar a carta annima na frente do marido no iria resolver nada. Ele negaria e ela no estava disposta a suportar sua suposta indignao. Repugnava-a essa 
hipocrisia. De repente decidiu. Apanhou o telefone e discou para Daniel. Ele atendeu:
        - Como vai, me?
        - Bem. Lanira me contou que vocs esto vencendo. Fiquei muito feliz. Parabns.
        - Obrigado. Voc est bem? Sua voz est diferente. Aconteceu alguma coisa?
        - O de sempre. Minha vida est muito sem graa. Mas no foi para isso que liguei. Lanira me disse que vocs tm ido a casa de Josefa. Lanira teceu muitos 
elogios. Minha irm sempre foi uma pessoa estranha. Lanira no estar enganada?
        - No, me. Tia Josefa tem sido para ns uma orientadora maravilhosa. Tem nos ajudado muito com seus conhecimentos espirituais. Voc no tem motivos para 
se preocupar. Alis, voc deveria ir v-la. Tenho certeza de que lhe faria muito bem.
        - Se voc diz, eu acredito.
        Eles continuaram conversando alguns minutos, e quando Maria Alice desligou, tomou uma deciso. No dia seguinte ligaria para Josefa e, se ela permitisse, 
iria visit-la. Precisava falar com algum sobre seus problemas. Comeava a pensar que ela seria a pessoa certa.
        
        Lanira entrou no carro de Alberto dizendo alegre:
        - Parece que estamos chegando ao final do trabalho.
        - E. Quando tudo acabar no saberei o que fazer com meu tempo. Durante anos no tive outra preocupao.
        Ela sorriu e respondeu:
        - Tenho certeza de que encontrar milhes de coisas. Tudo est a seu favor.
        - Agradeo a Deus todos os dias ter permitido retomar o fio de minha vida. Eu sabia que voc estava preocupada com Gabriel, mas ainda assim resolvi telefonar-lhe.
        - Uma coisa no tem nada a ver com a outra. Gabriel  meu amigo e est sofrendo muito com toda essa histria.
        - Fiquei com medo que ele fosse mais do que um amigo. Notei o modo como ele olha para voc.
        - Chamou-me para falar sobre esse assunto?
        - No propriamente. Na verdade, senti-me muito s. Minha vitria fez-me compreender que ela nunca trar de volta tudo quanto perdi.
        - O passado acabou e no tem remdio. Seria melhor que no deixasse essas mgoas diminurem a alegria de sua conquista. Pelo que sei, est colocando tudo 
em seus devidos lugares. Sua persistncia acabou por revelar os crimes contra as pessoas de sua famlia e os culpados. Sei que no  muito. Voc preferia que eles 
estivessem vivos. Mas no teve escolha.
        - No tive mesmo. Estou me sentindo sozinho, mas no pretendo mergulhar na tristeza nem me revoltar. O que eu desejo  encontrar uma forma de reagir, de 
me entusiasmar, seguir para a frente, fazer alguma coisa boa que justifique essa vitria que a vida est me dando. Sei que ela tem um preo. Pelo que conheo da 
espiritualidade, o que nos aconteceu teve um motivo justo.
        -  muito nobre de sua parte reconhecer isso.
        - No se pode negar a verdade. Se ns no tivssemos que passar por todas essas terrveis experincias, certamente teramos sido poupados. Sei que Deus no 
erra nem castiga. Apenas ensina o que precisamos aprender.
        - Pensar assim ajuda bastante.
        - Alivia. Mas reconheo que apesar disso a mgoa ainda me deprime. H momentos em que me sinto muito s, sem rumo, como se houvesse perdido a motivao de 
tocar a vida para a frente. Parece um paradoxo, mas  difcil explicar.
        - No , no. D para entender. Durante tanto tempo voc colocou todas as suas energias na conquista desse objetivo. Deixou tudo de lado. Agora que o est 
alcanando, percebe que todas as outras necessidades de seu esprito ficaram abandonadas. Isso vai passar. Tenho certeza de que logo voc retomar sua vida normal 
e tudo estar resolvido.
        - Tem razo. Desde que voltei ao Brasil deixei de lado todo sentimento pessoal para me dedicar inteiramente  realizao desse objetivo. No fiz amigos, 
no tive lazer nem namoradas. No queria que nada me desviasse. Sabia que precisava de toda a minha energia para vencer.
        Lanira sorriu e tornou:
        - Olhando para voc, tenho certeza de que far muito sucesso neste Rio de Janeiro. Basta querer. Quando comprar um palacete, roupas da moda, freqentar alguns 
clubes, logo haver muitas mulheres  sua volta e amigos a escolher.
        Ele parou o carro. Haviam chegado ao restaurante. Depois que se sentaram  mesa e que fizeram o pedido foi que ele retomou o assunto:
        - O que voc disse  verdade. E  o que mais me atemoriza.
        - Por qu ?
        - De pessoas interesseiras e falsas quero distncia. Se quer saber, penso que continuarei a ser um bicho do mato em meu canto.
        - Assim no conseguir se relacionar bem. Tambm no gosto de certas pessoas nem de suas futilidades. Mas generalizar  perigoso. H pessoas boas, honestas, 
sinceras, com as quais vale a pena conviver. Basta saber escolher.
        - Eu sei. Daniel, Rubinho e voc. Os dois como advogados tm sido mais formais. Mas quando tudo acabar, serei feliz se me aceitarem como amigo. Quanto a 
voc, confesso que sinto mais afinidade. Voc  uma pessoa verdadeira. Diz o que pensa. No tem aqueles pequenos artifcios que a maioria das mulheres usam. Eu aprecio 
isso.
        O garom trouxe a comida e ficaram silenciosos por alguns minutos. Depois Alberto tornou:
        - Voc est apaixonada por Gabriel? Lanira fitou-o sria:
        - Por que pergunta?
        Ele pousou o talher sobre o prato e olhando-a nos olhos respondeu:
        - Porque no posso esquecer aquela noite. O gosto daquele beijo ainda est me queimando os lbios. Sinto por voc grande atrao e, no posso negar, muito 
cime de Gabriel. Quero saber se ainda tenho chance.
        - Entre mim e Gabriel no existe nenhum compromisso. No nego que gosto dele. Mas ainda no sei at que ponto.
        Uma sombra de tristeza passou pelo rosto de Alberto.
        - Acho que cheguei tarde demais. Ele j se declarou?
        - J. Pediu-me em casamento. Mas recusei.
        - Ento...
        - Ainda no estou preparada para casar. Tenho idias prprias sobre a vida familiar. No sou uma mulher conformada como tantas outras. Quero ser feliz, levar 
a vida como eu gosto, fazer o que eu acho bom e tico sem me importar com as aparncias. Em sociedade isso  difcil. Depois, s me casarei quando tiver certeza 
de meus sentimentos. O amor, a sinceridade so muito importantes para mim.
        - Voc sabe o que quer, o que  raro nas garotas de hoje.
        - A maioria tem a cabea cheia de iluses que aprendeu em sociedade. Esperam o prncipe encantado e acordam frustradas e infelizes. Depois levam o casamento 
para a frente com receio de confessar o prprio fracasso. No quero ser assim.
        - Voc nunca ser. Tem idias prprias. Nesse caso...
        - O qu?
        - Ainda no estou de todo fora do preo. Vamos brindar a isso - disse ele sorrindo e levantando o copo de vinho.
        Quando os copos se tocaram, Lanira no se conteve:
        - Voc deveria sorrir mais. Toda a sua fisionomia muda quando voc sorri.
        - Vou tentar.
        Depois do brinde, Alberto no tocou mais no assunto. Comeou a talar sobre a Inglaterra, que tinha como sua segunda ptria, e Lanira interessou-se vivamente.
        Alberto era muito observador e excelente narrador. Descreveu lendas e costumes e at algumas aventuras de juventude. O tempo passou com rapidez, e quando 
Lanira olhou o relgio, passava das trs. Assustou-se.
        - Preciso ir.
        - J? Est to bom aqui.
        -  verdade. Nem senti o tempo passar. Quero saber se a polcia descobriu alguma coisa dos fugitivos. Voc no tem que trabalhar?
        - Hoje  feriado em nossa empresa. Esto comemorando o aniversrio de fundao. H at um jantar logo mais  noite.
        - Voc vai?
        - S se voc me acompanhar.
        - Obrigada, mas no posso.
        Ele pagou a conta e saram. No carro, Alberto tornou:
        - Eu vou passar no escritrio de Daniel para ver como esto as coisas. Vamos?
        Lanira pensou um pouco e respondeu:
        - Est bem. Tambm quero saber se h alguma novidade. Vendo-os entrar juntos, Daniel olhou-os pensativo, mas cumprimentou-os com naturalidade.
        - Alguma novidade dos fugitivos? - indagou Lanira com interesse.
        - Nada ainda. Parece que derreteram. Ningum consegue descobrir para onde foram.
        O telefone tocou e Daniel atendeu:
        - Jonas? Alguma novidade?
        - Prendemos o falsrio e o interrogamos. A princpio negou, mas por fim deu o nome que colocou no passaporte de Jos Lus e esposa. Dois homens esto checando 
as empresas areas. Logo saberemos para onde foram.
        - Devem estar fora do pas.
        - No estou certo. Alm do passaporte, o falsrio forneceu outros documentos,que s servem para ser utilizados aqui.
        - Quer dizer que eles ainda podem estar aqui.
        - A meu ver  uma possibilidade remota. Ele estava com muito medo. Sabe que, pela extenso de seus crimes, se for preso nunca mais sair. Deve ter desejado 
ir para bem longe.
        - E o mais provvel. O que pretende fazer agora?
        - Se os nomes que temos estiverem em alguma lista de embarque, imediatamente comunicaremos  polcia internacional. No descansarei enquanto no pusermos 
as mos nesse criminoso.
        - Avise-me se tiver alguma outra notcia.
        Daniel desligou e contou a eles como estavam as investigaes. Depois que ele finalizou, Lanira disse:
        - Vou telefonar a Gabriel para dar as notcias.
        - Ele j me ligou hoje. Perguntou se voc estava aqui.
        - Vou  sua sala falar com ele.
        Ela saiu e Daniel percebeu a inquietao de Alberto e perguntou:
        - Est preocupado com alguma coisa?
        - Estou. Sempre fico quando Lanira fala com Gabriel.
        Daniel olhou-o srio. J havia notado que os olhos dele brilhavam quando se fixavam em Lanira. No se sentia muito  vontade ao lado dele e no gostaria 
que ele namorasse sua irm. No se conteve:
        - Est interessado nela?
        Alberto sustentou o olhar e respondeu:
        - Muito. Se ela me quiser, ficarei muito feliz.
        - Ela  muito jovem para um compromisso.
        - Nem tanto. Meu interesse por ela desagrada-o?
        A atitude franca de Alberto desconcertou-o, e ele respondeu:
        - No se trata disso. No nego que sinto certo cime de minha irm.
        - Estou sendo sincero. Lanira voltou e eles se calaram.
        - Laura no est bem e Gabriel est inquieto, nervoso. Fica o tempo todo ao lado do telefone. Acho que nem dorme direito. Atende ao primeiro toque. Vou tomar 
um txi e ir at l.
        - Eu levo voc - disse Alberto.
        - No se incomode.
        Ele iria insistir, mas Daniel interveio:
        - Deixe-a ir. Quando ela decide, nunca volta atrs. Prefiro que v comigo at a delegacia. Temos que falar com Eleutria. O delegado tem um plano em mente 
e precisa de voc.
        Alberto fez um gesto de impotncia:
        - Se  assim, eu me rendo.
        - J vou indo. Obrigada pelo almoo. Se tiverem alguma notcia, liguem para l.
        Daniel prometeu e ela saiu, deixando no ar o leve aroma de seu perfume.
        Ao chegar na delegacia, Daniel viu-se logo cercado por vrios jornalistas. Todos queriam saber detalhes das investigaes em andamento, envolvendo o desaparecimento 
do Dr. Jos Lus e esposa.
        Daniel pediu-lhes pacincia, dizendo que a polcia ainda precisava manter sigilo para no atrapalhar as investigaes. Prometeu dar-lhes esses detalhes assim 
que pudesse.
        O seqestro de Alberto, que se intitulava ser Marcelo, o dono legtimo daquela fortuna, a priso do mordomo de Jos Lus, a presena da ama do menino na 
delegacia sendo interrogada e principalmente o desaparecimento do mdico indicavam que ele era culpado.
        As informaes vazaram e tomaram vulto na imprensa, tendo alguns jornais mais sensacionalistas publicado manchetes chamativas e dramticas. Tiraram vrias 
fotos de Alberto e de Daniel quando os viram.
        Entraram na delegacia e procuraram o delegado. Depois dos cumprimentos, Daniel considerou:
        - Os jornalistas esto vidos de notcias. Acha que podemos falar?
        - Eles ficam por aqui  cata de novidades. No nos foi possvel esconder mais. Creio que a esta altura podemos contar a verdade - respondeu o delegado. - 
A confisso de Bris  prova suficiente.
        - Acha mesmo que eles mataram meus pais e meu av? - indagou Alberto.
        - Acho. Mesmo levando em considerao que Bris no merece confiana, acredito que disse a verdade. A lgica nos conduz a isso. De que valeria afastar apenas 
voc se o dinheiro estava nas mos da famlia? Quando Jos Lus fez esse plano, j tinha planejado acabar com os outros tambm.
        Alberto suspirou e ficou pensativo. Foi Daniel quem tornou:
        -  difcil acreditar que algum possa ser to frio a ponto de exterminar pessoas de sua famlia por causa de dinheiro.
        - Eu no me surpreendo. Nesta delegacia tenho visto cada coisa que h muito fez-me duvidar da bondade humana. Esse  mais um caso de crueldade entre os muitos 
a que tenho assistido.
        - Mesmo eu, depois do que fizeram comigo, nunca imaginei que eles houvessem cometido esses crimes. Como eles morreram todos em pouco tempo, confesso que 
algumas vezes essa idia passou por minha cabea, mas ao mesmo tempo achei impossvel.  triste ter que reconhecer que essa tragdia aconteceu com meus familiares. 
Sinto-me s. Apesar de ganhar essa causa que era toda a minha expectativa, a sensao de perda  muito viva dentro de mim.
        - Posso compreender - tornou Marques. - Mas por outro lado, se voc no tivesse levado  frente suas pesquisas, nunca os teramos desmascarado. Eles continuariam 
usufruindo do nome, do dinheiro e do poder que desfrutavam.
        - Deus poupou sua vida para que pudesse cumprir essa misso - disse Daniel, e os outros dois olharam-no admirados.
        Marques considerou:
        - Algumas pessoas acreditam em crime perfeito. Muitos deles a polcia nunca consegue desvendar, permanecem ocultos das leis dos homens. Mas sabem duma coisa? 
Eu tambm creio que Deus tem l sua maneira de fazer justia.
        Alberto baixou a cabea pensativo. Sabia que, se descobrira muitas coisas, fora com a ajuda do esprito de seu av. Esperava que ele tambm o ajudasse a 
continuar quando tudo isso terminasse.
        - Pedi que viessem aqui - continuou Marques - porque quero que Alberto converse com Eleutria. Voc consegue lembrar-se de alguma coisa daquele tempo?
        - Lembro de alguns rostos, algumas coisas daquele tempo, mas detalhes, no.
        - Vamos at l e ver o que acontece.
        O delegado conduziu-os at a sala onde a ama estava detida. O marido e o advogado estavam com ela. O delegado entrou e disse:
        - Tem uma pessoa que deseja v-la.
        Ela levantou a cabea e os olhos dela se encontraram com os de Alberto, que estava ao lado do delegado. Seu rosto empalideceu, ela comeou a tremer e no 
conseguiu articular palavra.
        Alberto aproximou-se dela olhando-a nos olhos e dizendo:
        - Como vai, Teia?
        Ela cambaleou e segurou-se na cadeira. Seu advogado f-la sentar-se.
        - Quem  voc? O que est acontecendo aqui? - indagou ele.
        - Ela sabe quem eu sou. Reconheceu-me, apesar de fazer muitos anos que no nos vemos. A ltima vez eu tinha quatro anos, no , Teia? No era assim que eu 
a chamava?
        - Eu... - gaguejou ela - no sei... No quero v-lo. V embora.
        - Como pode fazer isso comigo? No percebe o mal que fez aos meus e a mim?
        Ela levantou as mos como querendo afast-lo de sua frente e gritou:
        - No quero. V embora. Voc est morto. Alberico garantiu que voc tinha morrido. Aquele maldito.
        - Cale-se. No diga mais nada - interveio o marido, assustado.
        - No precisa responder nada - atalhou o advogado dela.
        - Voc est obstruindo a justia - tornou o delegado. - Saiba que tudo quanto ela disse foi gravado. Ela tem o direito de confessar. Ela acabou de reconhecer 
esse jovem como sendo Marcelo, o menino cuja fortuna ela ajudou a usurpar.
        - Ela est emocionalmente abalada. Nunca esteve detida em uma delegacia. Alis, aqui est havendo um abuso. Ela foi detida indevidamente.
        - H um mandato judicial. Ela no compareceu para depor. Ela est detida para isso.
        - Nesse caso, no tem que dizer nada nem falar com ningum. Apenas apresentar-se ao juiz.
        - Eu quis falar com ela - declarou Alberto. - Queria ver se podia reconhec-la. No s a reconheci como ela tambm me identificou. Agora ter que contar 
direitinho todos os detalhes de como eles mataram toda a minha famlia.
        Eleutria olhou-o assustada:
        - Eu no sei. Juro que no sabia que eles iam fazer isso.
        - Mas concordou que Alberico acabasse com o menino. No  verdade? - disse o delegado olhando-a nos olhos.
        - Deixem-me em paz. No vou dizer mais nada.
        Marques ficou calado alguns segundos, depois disse com voz calma:
        - Estamos todos aqui agora. A vtima, a culpada e os advogados. Vamos aproveitar este momento e tentar esclarecer melhor esse caso. Se ela confessar tudo 
e facilitar a ao da justia, isso ser levado em considerao. Sua pena pode ser aliviada. Como advogado dela, voc sabe que no tem outro caminho. As provas so 
muito convincentes, e negar  impossvel. Portanto, o melhor que tem a fazer  aconselhar sua cliente a contar toda a verdade e assumir sua parte da responsabilidade.
        Eleutria olhou para seu advogado, que considerou:
        - Vocs me contaram uma histria dizendo que eram inocentes. Estou vendo que no disseram a verdade. O delegado est certo. E melhor contar tudo. Eu prometo 
fazer o que puder para ajud-la.
        Eleutria caiu em pranto e cobriu o rosto com as mos.
        - Eu no queria fazer isso. Eles me obrigaram. Parecia coisa simples, fcil. Eles fizeram tudo, trouxeram o corpo. Eu s consenti e simulei o acidente. No 
fiz por mal.
        Alberto sentiu o estmago enjoar e saiu da sala. Daniel conversou com o advogado dela, que pedia que concordassem em libert-la at o julgamento. Como ela 
era primria, eles concordariam desde que ela assinasse uma confisso completa.
        Maria Alice ligou para Josefa, que a atendeu prontamente. Depois dos cumprimentos, ela tornou:
        - Lanira e Daniel me contaram que tm estado em sua casa. Estou precisando muito conversar com voc. Poderia me receber?
        - Claro. Minha casa est sempre aberta para voc. Quer vir tomar ch comigo esta tarde?
        - Hoje? Havia pensado em ir amanh.
        - Voc tem algum compromisso hoje?
        - No.
        - Ento venha. Estarei esperando.
        Ela desligou e olhou o relgio. Passava um pouco das duas, tinha tempo. Antnio desceu as escadas. Tinha tomado banho e recendia a lavanda. Estava muito 
bem vestido. Vendo-a, disse apressado:
        - Que vida a minha. No posso descansar em casa nunca.
        - Vai sair?
        - Telefonaram-me do escritrio. Tenho que ir at l. H um assunto inadivel a resolver.
        Maria Alice no respondeu. As palavras da carta annima vieram-lhe  mente e ela sentiu um aperto no corao. Precisava fazer alguma coisa para no explodir. 
Sentia que no podia mais agentar aquela situao.
        Ele saiu e ela mandou o chofer tirar o carro, arrumou-se e foi a casa de Josefa. Sentia o peito oprimido, muita tristeza e certo constrangimento. Como seria 
recebida? Depois do que ela fizera, Josefa tinha todo o direito de trat-la com frieza. Se isso acontecesse, voltaria para casa sem lhe dizer o motivo que a levara 
at l.
        Josefa recebeu-a com carinho. Abraou-a como se sempre estivessem estado juntas, e essa atitude inesperada provocou forte emoo em Maria Alice. Acanhada, 
esforou-se por controlar-se.
        Sentadas no aconchego da sala, tendo  frente uma xcara de ch e alguns biscoitinhos delicados, Josefa confidenciou:
        - Estou muito contente que tenha vindo ver-me.  minha nica irm e sempre admirei-a.
        - Bondade sua. Reconheo que tenho sido preconceituosa com voc, por causa da religio. Daniel e Lanira me contaram que tm vindo aqui e voc os tem ajudado.
        - Eles me procuraram. Voc sabe que respeito suas crenas.
        - Eu sei. De repente, senti vontade de conversar com algum em quem pudesse confiar. Sinto-me rodeada de pessoas indiferentes e falsas. Estou passando por 
alguns problemas delicados. No tinha a quem recorrer.
        - Continue - pediu ela.
        - Descobri que minha vida tem sido um engano. Que a sociedade  falsa e interesseira, que no h amizade nem amor de verdade.
        - Voc est muito amarga.
        - Como no estar se tudo em que eu sempre acreditei no passava de uma mentira? Nesta fase de minha vida, meus filhos no precisam mais de mim, meu marido 
no  o homem que gostaria que fosse. No tenho como continuar a viver. Estou me sentindo deprimida, exausta.
        A voz de Maria Alice estava trmula e as lgrimas que ela tentara conter rolaram por fim. Josefa apanhou um leno e entregou-o  irm sem dizer nada. Ela 
o apanhou e tentava enxugar os olhos, mas era intil. As lgrimas brotavam em catadupas e ela estremecia de vez em quando sacudida pelos soluos.
        Quando ela finalmente parou, Josefa ofereceu-lhe o ch dizendo com firmeza:
        - Beba. Vai fazer-lhe bem.
        Ela pegou a xcara com mos trmulas e bebeu alguns goles. Josefa continuou:
        - Beba tudo.
        Ela obedeceu e aos poucos foi se acalmando. Colocou a xcara na mesinha e disse:
        - Desculpe. No pretendia fazer uma cena. Estou descontrolada. Isso no costuma acontecer comigo.
        - No se critique. Voc tem o direito de chorar suas desiluses, de jogar para fora as energias que a oprimem.
        - Voc tem razo. Eu me sentia oprimida, enganada. O que mais me maltrata  pensar em como pude me enganar tanto, como pude fazer de minha vida uma coisa 
intil e sem graa.
        - No se culpe por nada. Todos nos enganamos. E toda iluso traz sempre dor. A hora da verdade chega mais cedo ou mais tarde. Entretanto, eu penso que  
melhor viver com a verdade do que com a mentira.
        - A verdade pode ser pior do que a mentira. Para no admiti-la acabei mergulhando mais na falsidade e no jogo da aparncia.
        - O que voc chama de verdade ainda  iluso. Ilude-nos a vontade de que as pessoas que amamos sejam do jeito que gostaramos. Ficamos esperando que elas 
se comportem como queremos, desejamos o que elas no tm para dar. Nesse jogo, no enxergamos o lado verdadeiro e perdemos at o que elas de fato poderiam nos oferecer.
        - Em meu caso no  assim. Sei perfeitamente o que Antnio tem para me oferecer. E isso no est mais sendo suficiente. Depois de tantos anos de vida em 
comum, olho para ele e s vejo indiferena, desonestidade, futilidade, nsia de poder, leviandade, falta de amor. Tenho vivido iludida pensando que s eu sabia que 
Antnio era desse jeito. Mas descobri que de nada adiantava manter as aparncias, porque todos j sabem tanto quanto eu o quanto ele  mentiroso e falso.
        - No estar sendo muito dura com ele?
        - No. Ele faz promessas eleitorais que nunca pensou em cumprir, usa o poder para beneficiar seus interesses pessoais, fez de sua secretria uma amante com 
a qual desfila por toda parte, e nunca se interessou muito pelos filhos. Recebi uma carta annima chamando minha ateno para a passividade que tenho demonstrado 
suportando essa situao.
        - As pessoas apressam-se a julgar quando o problema no as afeta.
        - Reconheo isso. Mas h muito perdi o entusiasmo de viver. Tenho me obrigado a fazer as coisas, sem prazer nem motivao.  como se minha alma estivesse 
morta. Isso me assusta. Tenho me sentido muito s. H um vazio dentro de meu peito que nada consegue preencher.
        Josefa segurou as mos dela com carinho dizendo:
        - Sua alma est mais viva do que nunca. Est chamando sua ateno para o que  verdadeiro e justo. Voc est se tornando consciente da precariedade de certos 
valores aprendidos na sociedade. Est amadurecendo e percebendo que h sentimentos mais importantes e verdadeiros. Seu corao est se abrindo, voc tem sede de 
verdade. As futilidades j no servem mais, voc quer coisas que alimentem sua alma, que a faam restabelecer sua dignidade. Voc quer ser ntegra e forte.
        - De fato. E isso que sinto. Mas no  o que eu sou.
        - Voc  o que quer ser. Se no gosta de ser como tem sido at aqui,  s mudar. Voc pode daqui para a frente ser como acha que deve. A escolha  sua.
        - Voc fala como se fosse fcil. No  bem assim.
        - Assim  que . Escolha ser verdadeira, faa de sua vida um livro aberto. Encare seus medos e enfrente-os. Diga o que sente e no fique esperando a recompensa 
de ningum. Lembre-se de que deseja satisfazer seu esprito. No tolere em sua vida nada que a oprima. Valorize sua dignidade.
        - No posso sair por a dizendo aos outros tudo o que penso deles.
        - No foi isso que eu disse. Alis, dizer o que voc pensa dos outros no vai melhorar sua vida. Deixe-os em paz. Cada um  responsvel pelo prprio destino. 
Voc no tem que cuidar da justia do mundo. Deus sempre fez isso muito bem. Voc tem que cuidar de voc. Dar fora a seus sentimentos. No aceitar situaes que 
a oprimem. Colocar-se e dizer o que a incomoda, sem culpa ou ressentimentos.
        - Se eu fizer isso, ficarei sozinha. Todos me abandonaro.
        - Engana-se. Os que vivem na mentira certamente se afastaro. Mas os que se identificarem com sua postura respeitaro sua dignidade, tero prazer em aproximar-se 
de voc. E, nesse caso, vo oferecer sinceridade, amor, carinho, amizade. Eu nunca tive filhos, fiquei viva, mas vivo rodeada de pessoas bondosas e sinceras que 
me estimam e me respeitam. Nunca me sinto s. Creia, Maria Alice, voc s atrair pessoas dignas em sua vida quando valorizar sua prpria dignidade.
        - Voc diz coisas que nunca ouvi antes. Confesso que me assustam um pouco, mas ao mesmo tempo me fazem muito bem. Sinto como que se de repente houvesse uma 
esperana.
        - Isso mesmo. Tenho certeza de que voc ainda olhar a vida como ela realmente . Uma grande oportunidade de aprender, de viver e de ser feliz.
        - Felicidade  coisa que no conheo.
        - Tenho certeza de que ela est a, dentro de voc. Chegar o dia em que a encontrar.  apenas uma questo de tempo.
        As duas continuaram conversando e Maria Alice foi se sentindo cada vez melhor. A tarde foi findando, elas continuaram conversando entretidas e a penumbra 
do fim da tarde conspirava tornando aquele momento, para elas, mgico e inesquecvel.
        
Captulo 22
        
        Daniel chegou eufrico ao escritrio e procurou Rubinho:
        - Passei no frum antes de vir para c. O juiz deu sentena favorvel. Ganhamos a causa!
        Rubinho deu um pulo da cadeira e gritou:
        - Viva! Voc leu a sentena?
        - Li. Mandei tirar uma cpia para ns. Est aqui. O juiz reconheceu Alberto como sendo Marcelo Camargo de Melo, legtimo e nico herdeiro dos bens de sua 
famlia, que deve passar para suas mos imediatamente. Determinou a priso de Jos Lus Camargo de Melo e pediu urgncia no inqurito da polcia apurando as responsabilidades 
dos demais envolvidos bem como completa investigao nas mortes de Antnio Camargo de Melo, seu filho Cludio e sua esposa Carolina.
        Rubinho segurou o papel com mos trmulas. A emoo era grande. Aquela vitria representava muito para eles em todos os aspectos.
        - Depois que cheguei do almoo, a imprensa ligou sem parar. Deve ter tomado conhecimento da sentena.
        - Logo que cheguei l percebi que algo havia acontecido. Alguns colegas estavam mais amveis do que de costume.
        - Estamos famosos agora. Eles vo querer se aproximar.
        - Temos que falar com Alberto.
        - Alberto morreu hoje. Agora s existe Marcelo. Precisamos nos acostumar.
        -  verdade.
        - Temos que preparar a documentao para que ele receba o que lhe pertence.
        - Fazer um levantamento dos bens.
        - Temos muito trabalho pela frente. Precisamos comear com o formal de partilha do Dr. Antnio Camargo e um levantamento dos bens do Dr. Jos Lus. Ele tem 
filhos e que so herdeiros legtimos de todos os bens que ele possui e que no vieram da fortuna do Dr. Camargo.
        Daniel ficou pensativo por alguns instantes, depois disse:
        - Faz mais de um ms que ele fugiu e at agora nenhuma notcia. Parece que foram tragados pela terra.
        - O falsrio pode ter fornecido nomes errados dos documentos que fez para ele. Mesmo entre os bandidos h certo cdigo de honra a que eles obedecem e que 
serve de garantia para que nunca lhes falte servio.
        - Nos nomes que ele deu, foram compradas duas passagens areas para Roma naquela data. Mas at hoje elas nunca foram usadas. Se eram eles, no viajaram. 
s vezes chego a pensar que morreram.
        - Se isso tivesse acontecido, seria mais fcil encontr-los. Eles devem estar bem escondidos.
        - Vou ligar para Alberto, ou Marcelo. A primeira providncia ser requisitar os documentos de sua identidade.
        -  o primeiro passo. Eu vou atrs do formal de partilha. Deve estar com Jos Lus.
        - Fale com Gabriel e aproveite para dar-lhe a notcia.
        - Essa  uma misso que no me agrada nada. Vamos ver como ele vai reagir.
        - Ele sabia que seria assim. Para Laura ser pior. Ela nunca aceitou os fatos. Vive revoltada. Se ao menos D. Maria Jlia aparecesse...
        - Ela saberia contornar a situao e confortar os filhos. Apesar do que aconteceu, continuo achando que ela  mais uma vtima da maldade do marido.
        Daniel ligou para Lanira e contou a novidade. Ela ficou silenciosa por alguns instantes. Ele perguntou:
        - Voc ouviu o que eu disse?
        - Ouvi. Estou contente. Finalmente ganhamos, mas estou pensando em Laura e Gabriel.
        - Eu tambm. Por isso estou ligando. Rubinho foi at l em busca de alguns documentos que vamos precisar e vai contar a eles. Seria bom que voc estivesse 
junto para dar uma fora.
        - Est bem.
        Ela desligou e Maria Alice, que ouvira parte da conversa, perguntou:
        - Saiu a sentena?
        - Sim. Alberto foi reconhecido oficialmente como Marcelo.
        - Finalmente! Daniel e Rubinho estavam certos! Venceram!
        - Vou ver Gabriel e Laura.
        - Quer que a acompanhe?
        - No, me. Eles podem se sentir constrangidos em sua presena. 
        Depois que Lanira saiu, Maria Alice sentou-se na sala pensando na cara que o marido faria quando soubesse. Ele sempre menosprezara os rapazes e agora teria 
que admitir que estava errado. Nunca admitia os prprios erros. Era pretensioso e fraco.
        Trs semanas haviam decorrido de sua primeira visita a Josefa, e Maria Alice sentia que mudara bastante. Chegara l desesperada, pensando que no havia mais 
soluo para sua vida, que dali para a frente s lhe restava a velhice, a solido e a tristeza, e sara completamente transformada.
        Josefa fizera-a perceber que os fatos de sua vida que tanto a angustiavam eram resultado das escolhas que havia feito, das atitudes que tivera, e que, se 
as modificasse, tudo se transformaria.
        A princpio Maria Alice no acreditara muito nessas afirmativas, porm as palavras dela no lhe saam do pensamento. Uma vez em casa naquela noite, pensando 
e revendo seu passado, percebeu claramente como bloqueara seus sentimentos e havia se transformado naquela mulher fria, prisioneira das aparncias.
        Desde aquele dia, Maria Alice ia para a casa de Josefa logo aps o almoo e ficavam conversando o resto da tarde. Ela colocava suas dvidas e a irm esclarecia-a 
de tal forma que ela se rendia.
        Assim, aos poucos ela foi mudando sua maneira de ser. J no sentia prazer em dar as festas e o marido reclamava que ela estava diferente, que no se interessava 
mais pelo sucesso poltico dele.
        Tendo voltado para casa antes dela algumas vezes, ficava intrigado porque ela no lhe dizia aonde havia ido. Antes ele sabia todos os seus passos. A modista, 
o cabeleireiro, o dentista, as visitas s esposas dos amigos.
        Se ele no tivesse confiana absoluta na honestidade dela, teria ficado preocupado com suas sadas. Alm disso, sentia que sua mulher no era mais a mesma. 
Havia qualquer coisa em seu olhar que o incomodava, embora ela continuasse a trat-lo com a ateno de sempre.
        Confidenciou com Alicia:
        - No sei o que , mas Maria Alice no  a mesma. Est diferente.
        - Eu senti. Do jeito que ela falou comigo naquele dia... Fiquei com medo de que ela desconfiasse de alguma coisa.
        Ele sorriu e considerou:
        - No  nada disso. Ela est diferente. Vive abraada a Lanira... Nunca foi disso. Elas at saem juntas! Lanira est to cordata com ela que at me assusta.
        - Seja como for,  melhor tomarmos mais cuidado. Se seus filhos descobrem, eu sumo. No vou suportar.
        - No seja boba. Nem fale uma coisa dessas. O que seria de minha 'vida sem voc?
        Maria Alice, no entanto, a cada dia que passava reconhecia o quanto havia se enganado todos aqueles anos. Josefa fizera-a compreender que cada pessoa  o 
que  e que no valia a pena atormentar-se pelas fraquezas e pelos erros dos outros.
        Compreendia que no estava em suas mos modificar o temperamento do marido. S ele poderia fazer isso, se quisesse.
        O que ela precisava decidir  se queria continuar vivendo ao lado dele dali para a frente. Maria Alice sabia perfeitamente o que podia esperar dele. Conhecia-o 
to bem que sabia exatamente o que ele faria neste ou naquele caso.
        Comeava a pensar que tinha o direito de escolher como desejava viver. As atitudes dele incomodavam-na por serem contra seus princpios. Sua forma de fazer 
poltica era enganosa. Ele bajulava pessoas por interesse, e agora Maria Alice no se sentia mais disposta a fazer isso.
        Queria viver de maneira mais simples, mais sincera, cultivar a amizade das pessoas que lhe eram simpticas e com as quais se sentia bem. As futilidades, 
os comentrios maldosos, at as fofocas de gente famosa eram-lhe desagradveis.
        Maria Alice descobrira que tinha dentro de si sentimentos elevados e sentira que eles a alimentavam. No se contentava mais com as frases de convenincia. 
A troca de carinho com Josefa fizera-a perceber que os relacionamentos poderiam ser mais sinceros. Que havia pessoas boas, confiveis, dignas, com as quais seria 
gratificante estreitar os laos de amizade.
        Apesar de Josefa convid-la para participar de uma sesso com os espritos, ela ainda no tinha certeza se queria isso. O que ela sabia era que no dava 
mais para contemporizar com o marido.
        No se sentia com foras de tomar nenhuma deciso. Josefa aconselhara-a a deixar as coisas seguirem curso normal.  o que Maria Alice estava fazendo.
        Aquela noite, quando o deputado chegou no fim da tarde, foi logo dizendo:
        - Voc viu os jornais? Este mundo est virado mesmo. Daniel ganhou aquela causa!
        - Eu sei. Lanira foi at a casa de Gabriel e Laura confort-los.
        - Lanira? Como pode ser isso? Eles vo massacr-la.
        - Desde que Jos Lus fugiu levando Maria Jlia, eles esto incon-
        solveis. Lanira os tem visitado.
        Antnio sentou-se na poltrona da sala e passou a mo pelos cabelos:
        - Nunca imaginei que eles pudessem conseguir.
        - A mentira tem pernas curtas. A verdade sempre aparece.
        Antnio olhou a esposa um pouco assustado. Alicia teria razo? - Ser mesmo que ele  culpado? Parecia to boa pessoa!
        - As aparncias enganam. Pelo que sei, alm de ladro ele  assassino. Matou toda a famlia por causa do dinheiro.
        - Voc est exagerando. No acredito nisso. S porque ele desapareceu, agora todos os acusam.
        - Bris confessou tudo. No sabia?
        - Voc parece muito bem informada. Por que nunca me disse?
        - No tive vontade.
        - Antes sempre me contava tudo.
        - Tem certeza: Antnio olhou-a srio.
        - Por que est dizendo isso? Voc  minha esposa! Maria Alice olhou-o nos olhos e disse com voz serena:
        - Ainda sou, pelo menos no papel.
        - No entendo. Alis voc de alguns dias para c est mudada. Est doente?
        - Nunca estive to bem. Agora estou voltando a meu natural.
        - No parece. Voc sempre foi sensata, ponderada, interessada no bem de nossa famlia. Agora diz coisas sem nexo, no  mais a mesma, tenho impresso de 
que est me observando. Isso me incomoda. Alm do mais, ainda na semana passada recusou-se a oferecer o jantar aos Andrade. Ele  meu brao direito com o eleitorado.
        - No gosto da conversa deles. Guilhermina tem a lngua mais ferina e maldosa do Rio de Janeiro.
        - Tambm no morro de amores por eles, mas preciso cultivar essa amizade. Ele tem grande contingente de votos.
        Maria Alice olhou-o sria e disse com naturalidade:
        - Se voc cumprisse suas promessas eleitorais, no precisaria dele para nada. Teria muito mais votos do que ele pode lhe oferecer.
        Antnio levantou-se irritado:
        - O que  isso? Voc est contra mim?
        - Pelo contrrio, estou a favor. Voc foi eleito, mas nunca cumpriu nenhuma das promessas que fez. Se quer agir assim,  um problema seu, mas se precisa 
dos votos dos eleitores e deseja cumprir bem o mandato que lhe deram, o mnimo que precisa fazer  realizar o que prometeu.
        - No acredito que esteja me cobrando. Voc, minha prpria esposa. Como pode fazer isso comigo? S pode estar doente.
        - Estou muito bem. S que cansei de fingir, de suportar pessoas desagradveis, cujas idias abomino, s para ser amvel com voc. Chega de mentiras de convenincia. 
Elas me tornaram deprimida e infeliz. No quero mais isso para mim.
        - No posso crerem uma coisa dessas! Acho que deve marcar urgente uma consulta com o Dr. Edilberto.
        - Talvez voc precise de um psiquiatra mais do que eu. Voc e aquela sua secretria de mentira.
        - Alicia  uma excelente secretria. No seja injusta com ela.
        - No pretendo me envolver mais em sua vida particular. Voc  livre para escolher o prprio caminho. Corteje seus apaniguados como quiser, mas no conte 
mais comigo para isso. D suas festas em algum clube, leve sua secretria para ajud-lo, mas em minha casa eles no pisam mais.
        - Voc est se precipitando. Aconteceu alguma coisa. No pode ter mudado de repente dessa forma. Est propondo uma guerra e eu sou de paz.
        - Engana-se. Estou trabalhando em favor da minha paz.  diferente. Enquanto voc vive como gosta, eu me obrigava a representar um papel falso, sem dignidade 
nem prazer. No pretendo obrig-lo a pensar como eu nem a fazer o que eu fao. Viva como quiser. Mas estou decidida a fazer de minha vida alguma coisa melhor, e 
isso ningum vai me impedir. Agora  melhor ir tomar seu banho, o jantar logo ser servido.
        Antnio iria responder, mas mudou de idia. Subiu para tomar banho e por mais que tentasse no conseguia esquecer o que Maria Alice lhe dissera.
        
        Quando Lanira chegou em casa de Gabriel, Rubinho j estava l conversando com eles na sala. Vendo-a, Gabriel levantou-se para abra-la. Estava plido e 
mais magro.
        - Parece que est consumado - disse Gabriel tentando sorrir. Laura olhou e no disse nada. Via-se que estava transtornada. Lanira apressou-se a abra-la, 
dizendo:
        - Sinto por vocs.
        - Isso mais dia ou menos dia teria que acontecer - disse Gabriel. - O que me preocupa  o desaparecimento deles.
        - Voc s pensa em mame. Eu ainda penso que papai  inocente. Est sendo vtima de uma cilada. Qualquer hora ele vai aparecer e provar que todos vocs esto 
errados.
        Gabriel abraou Laura e respondeu:
        - Eu gostaria muito que isso fosse verdade. Mas no . Nosso pai  culpado, infelizmente. Gostaria que nos explicasse, Rubinho, o que vai acontecer agora.
        - Bem, preciso fazer um levantamento de todos os bens de sua famlia, bem como dos que receberam de herana do Dr. Camargo. Devo esclarecer que Marcelo s 
tem direito ao que seu av deixou. Os bens que seu pai tinha antes disso so de vocs.
        - Pelo que sei, ele no era rico - esclareceu Gabriel.
        - Temos que avaliar tudo. Como seu pai est desaparecido, gostaria que voc me ajudasse a encontrar esses documentos. Talvez estejam no escritrio dele. 
Se encontrssemos o formal de partilha do Dr. Camargo, seria mais fcil.
        - No tenho idia de onde meu pai guardava esses documentos. Podemos ir ao escritrio.
        Laura levantou-se:
        - Acho muito errado voc permitir que ele tenha acesso aos documentos de papai na ausncia dele. Para isso ele precisaria ter um mandato.
        - Acalme-se, Laura - tornou Rubinho. - Se vocs quiserem podem convidar outro advogado para cuidar de seus interesses e represent-los na justia.
        - Papai gostava do Dr. Eugnio. Vamos telefonar para ele.
        - O Dr. Eugnio abandonou a causa, Laura. Eu prefiro que Rubinho e Daniel cuidem de tudo.
        - Pois eu, no. No quero que mexam nos documentos de papai. Vou procurar um advogado de minha confiana. Por causa de vocs estamos passando por tudo isso. 
Como pode acreditar neles, Gabriel?
        - Nesse caso,  melhor esperar pela polcia - disse Rubinho. - Poderamos fazer isso de forma mais amena, amigvel... Sabem como , a polcia vem com mandato 
e sempre age de forma mais dura.
        - Laura, no seja criana. Os investigadores j olharam tudo e no encontraram nada importante. Procuravam pistas da fuga. Agora precisamos de documentos. 
Vamos juntos ao escritrio ver o que existe l. No faremos nada sem que voc saiba.
        - Est bem. Vamos. Mas Rubinho no vai levar nenhum documento sem eu saber.
        - Fique tranqila. No temos inteno de prejudicar vocs. Vamos cumprir a lei e fazer o que  de direito.
        Foram ao escritrio e comearam a procurar. Gabriel havia arrombado as gavetas da escrivaninha e elas ainda estavam abertas. No encontraram nenhum documento 
importante nelas. Olharam nos armrios e tambm no encontraram nada que os interessasse.
        - S falta o cofre, mas no sei o segredo - tornou Gabriel.
        Rubinho pegou a maaneta e ela girou. O cofre estava aberto e vazio. Estava claro que Jos Lus no deixara nenhum documento importante. Preparara cuidadosamente 
a fuga e tivera tempo de guard-los em lugar seguro.
        - Esto vendo? - tornou Laura triunfante. - Ele no tem nada que o comprometa. At o cofre estava aberto.
        - Ele levou o dinheiro e o que havia nele - disse Gabriel.
        - Bem, procurem no quarto dele ou no resto da casa, mas penso que no vo encontrar nada.
        - E agora? - indagou Gabriel.
        - Teremos que procurar nos registros de imveis. Vou procurar o Dr. Eugnio. Ele poder nos informar sobre isso.
        - Tenho estado preocupado com esta casa. Talvez tenha que entreg-la a Marcelo. Gostaria de ficar aqui mais algum tempo. Mame pode dar notcias. Se nos 
mudarmos, ela no saber onde estamos.
        - No se preocupe, Gabriel. Nem sabemos se esta casa ser arrolada. Mas, ainda que seja, vai demorar. As providncias legais precisam de tempo para serem 
cumpridas.
        - Marcelo est muito agradecido  sua me pelo que fez por ele. Tenho certeza que far tudo para ajud-los - disse Lanira.
        - Vocs falam como se esse aventureiro fosse mesmo Marcelo. Gabriel aproximou-se de Laura, colocou as mos nos ombros dela e olhou-a nos olhos dizendo com 
voz firme:
        - Laura, voc precisa aceitar que papai  culpado. Sei que  difcil para voc, que a imagem que tinha de nossos pais ruiu. Mas no querer enxergar a verdade 
pode machuc-la ainda mais. Nunca contamos a voc, mas mame confessou tudo. Contou-me detalhes de como ela salvou a vida de Marcelo e levou-o  Inglaterra sustentando-o 
sem ningum saber.
        - Se isso que diz for verdade, ela sabia e ficou calada.  to culpada quanto ele.
        - Ela foi ameaada, teve medo. Nunca notou o quanto Bris mandava nesta casa?
        Laura no respondeu, seus olhos encheram-se de lgrimas. Gabriel abraou-a com fora e continuou:
        - Temos que encontrar mame. Estou certo de que ela corre perigo. Gabriel tirou do bolso um envelope, abriu-o, apanhou o papel que
        Maria Jlia havia deixado para ele no dia da fuga e mostrou-o  irm. Ela o leu e abraou-se novamente ao irmo dizendo aflita:
        - E agora, Gabriel, o que ser de ns?
        - Acontea o que acontecer, estaremos juntos. Somos jovens, podemos trabalhar, refazer nossas vidas de maneira clara, limpa.
        - Que vergonha! Todos os nossos amigos vo nos desprezar!
        - Ns no fizemos nada. No somos responsveis pelo que papai fez. Aqueles que no souberem separar as coisas no merecem nossa amizade. Agora, Laura,  
que vamos conhecer quem so nossos verdadeiros amigos.
        Laura olhou para Lanira, cujos olhos estavam cheios de lgrimas, e disse:
        - Desculpe, Lanira. Voc no nos abandonou.
        - Nem abandonarei. Podem contar comigo. Ficarei ao lado de vocs para o que for preciso.
        - Tenho que ir agora - disse Rubinho. - Passarei na delegacia e informarei o Dr. Marques que no encontramos os documentos aqui. Pode ser que ainda assim 
ele mande algum vistoriar. Quero ver se evito isso.
        - Obrigado, Rubinho. Aproveite para perguntar-lhe se apareceu alguma pista.
        - Jonas est trabalhando direto no caso. Ele vai encontr-los.
        - E isso que me importa. Se alguma coisa acontecer com mame, nunca me perdoarei.
        - Voc no teve culpa de nada.
        - Ele se aproveitou de minha ausncia. Eu deveria ter ficado ao lado dela o tempo todo. Nunca deveria t-la deixado s.
        Rubinho estendeu a mo a Gabriel dizendo:
        - Se souber de alguma novidade, telefono. Acalme-se. Desse jeito vai acabar doente.
        - Tambm acho. Vou ficar aqui e tomar conta desses dois de verdade. Vai ver que nem comeram - tornou Lanira.
        - No tenho fome - justificou-se Laura.
        - Com fome ou sem fome, vocs precisam alimentar-se. Vou providenciar alguma coisa e vocs tero que comer.
        Gabriel olhou para Lanira e havia tanta ternura em seus olhos que ele estremeceu. Naqueles dias Gabriel evitara falar de seus sentimentos com relao a ela. 
Nunca mais tocara no assunto.
        Por outro lado, Alberto telefonava para ela diariamente convidando-a para sair. Ao lado dele, Lanira sentia-se bem. Aos poucos ele foi ficando mais  vontade 
e perdeu aquela reserva que lhe era peculiar.
        Quando a ss com ela, tornava-se alegre, comunicativo, delicado, mostrando-se muito diferente do Alberto que ela conhecera no escritrio de Daniel. Aos poucos 
Lanira foi percebendo o lado romntico e afetivo que ele procurava esconder quando estava com outras pessoas. s vezes, ela ficava pensando como ele seria se aquela 
tragdia no houvesse amargurado sua vida.
        Percebia que a cada dia ele parecia mais interessado nela. Sentiu vontade de posicionar-se, evitar o namoro. Mas ao mesmo tempo a presena dele a seu lado 
a atraa. Se o empurrasse para longe, tinha certeza de que ele a deixaria. No queria que isso acontecesse.
        A tragdia de sua vida tornara-o desconfiado e fechado. Sentia que ela era a nica pessoa com a qual ele comeava a mostrar-se mais confiante e aberto. Recusar 
seu afeto lev-lo-ia de volta s antigas atitudes que o tornariam solitrio e infeliz.
        Lanira estava confusa. De um lado estava Gabriel, vivendo um drama familiar. Sabia que ele no falara mais em seus sentimentos por causa da situao. Sentia 
vergonha por no poder oferecer-lhe um nome limpo, nem boas condies financeiras.
        Ele tinha alma nobre, e, embora houvesse se calado, Lanira sentia que a cada dia mais e mais ele a amava. A maneira como a olhava, o jeito como lhe falava 
eram mais convincentes do que as palavras.
        Ela gostava muito dele. Mas no sabia at que ponto. Era um misto de ternura e vontade de confort-lo. Impressionava-a o amor que ele sentia pela me e a 
maneira correta e corajosa como estava enfrentando tudo.
        Com Alberto, era uma espcie de desafio. Sua personalidade a atraa fortemente. Quando ele fazia alguma narrativa, ela ficava encantada, presa s suas palavras, 
s expresses de seu rosto, s emoes que se refletiam nele quando se entusiasmava.
        Ele a beijara algumas vezes desejando maior intimidade, mas Lanira esquivara-se delicadamente. Temia deixar-se arrastar pelas emoes e confundir ainda mais 
seus sentimentos.
        Acontecera com Gabriel, no se arrependia. Fora boa experincia. Mas com Alberto tinha medo de envolver-se. No se sentia com foras de tomar nenhuma deciso. 
Se tivesse que escolher entre os dois, no saberia o que fazer. Precisava deixar o tempo passar para descobrir.
        Rubinho chegou  delegacia e colocou o delegado a par de sua diligncia.
        - Ele teve tempo de esconder tudo tentando retardar a ao da justia - disse Marques. - No vai conseguir. Eleutria teve a priso decretada. Para encerrar 
o inqurito policial falta apenas a acareao que faremos com ela e Bris, depois do depoimento de Pola, a amante dele, que foi intimada. Ela vir hoje  tarde e 
pretendo apert-la dizendo que eles j confessaram sua participao.
        - Gostaria de assistir.
        - Pode ficar ouvindo na outra sala. No quero que ela o veja. Um policial avisou que Alberto havia chegado e pedia para falar-lhes.
        - Mande-o entrar.  bom que ele fique com Daniel e oua tambm o interrogatrio.
        Depois dos cumprimentos, Alberto e Daniel foram para o lugar indicado, onde j havia um operador e um policial para gravarem tudo. Dentro de alguns instantes 
teve incio a conversa entre o delegado e Pola. Ele alegou que no adiantava ela negar, porque Bris j havia confessado.
        - No pode ser. Ele no poderia ter dito uma mentira.
        - Ele afirmou que quem depositava o dinheiro todos os meses na conta de Eleutria era voc.
        - No nego isso. Mas eu no sabia a verdade. Ele me dizia que era uma mesada que seu patro mandava para a ex-empregada porque ela lhe prestara grandes servios. 
Eu acreditei.
        - Voc se tornou cmplice nos crimes que eles cometeram.
        - Eu juro que no sabia de nada. Ele me pedia dizendo que no tinha tempo de ir ao banco, e eu ia. No tenho nada a ver com essa histria que aconteceu antes 
que eu conhecesse Bris.
        - H quanto tempo tem relaes com ele?
        - Quinze anos.
        - Em suas declaraes, ele disse que voc era sua confidente.
        - Ele me contou algumas coisas da guerra, mas nunca falou dos negcios de seu patro.
        Bateram na porta e a uma ordem do delegado Jonas entrou:
        - Essa mulher est mentindo - disse com voz firme.
        - No estou. Juro que estou dizendo a verdade.
        - Voc estava com Bris na Itlia quando os pais de Marcelo morreram naquele acidente de barco. Ou melhor, Bris hospedou-se no mesmo hotel em que eles estavam 
e voc foi para l alguns dias antes e empregou-se como arrumadeira.
        Pola empalideceu e comeou a tremer. Jonas continuou:
        - No adianta negar. Descobrimos tudo. E melhor contar como foi que planejaram a morte do casal. Quem foi que preparou a lancha para que ela explodisse?
        Pola cerrou os lbios e olhando-os com raiva disse:
        - Podem falar o que quiserem. No direi nenhuma palavra.
        A partir dali, ela no respondeu a nenhuma pergunta. Marques mandou que a levassem detida, colocando-a em uma sala fechada. Daniel e Alberto procuraram pelos 
outros dois:
        - Essa histria que voc contou  verdadeira? - perguntou Daniel a Jonas.
        - . H algum tempo fizemos contato com a polcia italiana pedindo informaes sobre esse acidente. Mandamos fotos de Jos Lus, Maria Jlia, Bris e Pola. 
Descobrimos que, quando o acidente ocorreu, Pola era arrumadeira no hotel em que Cludio e Carolina estavam hospedados. Era encarregada da arrumao dos aposentos 
deles. Foi ela quem ajudou a arrumar todos os pertences dos dois para serem enviados aos familiares no Brasil.
        -  muita coincidncia! - interveio Alberto admirado.
        - E mais do que coincidncia.  prova de que o acidente foi provocado - tornou Daniel.
        - Ainda h mais! O casal era muito estimado pelos donos do hotel. Iam para l quase todos os anos e mantinham relaes de amizade com o casal de proprietrios. 
A comida era planejada pela esposa do dono e quando recebiam esses hspedes, ela fazia os pratos de que eles gostavam. Acabava recebendo carinho e pressente deles. 
Trocavam cartas e at telefonemas quando eles estavam no Brasil. Foi o dono do hotel que, procurado pela polcia internacional e colocado a par do que estava acontecendo 
aqui, reconheceu o retrato de Pola, embora agora ela esteja mais velha. Ele declarou que sempre suspeitara que aquele acidente fora provocado.
        - Ele disse isso  polcia na ocasio? - perguntou o delegado.
        - Disse. A lancha era do hotel e estava sempre muito bem cuidada. Ele aventou a hiptese de uma bomba, mas os peritos no descobriram nada que comprovasse 
isso.
        - Se no foi bomba, o que poderia ter sido? - indagou Alberto.
        - Estive conversando com um mecnico especializado em lanchas a motor e ele me disse que se eles fizessem uma ligao eltrica em curto que se comunicasse 
com o tanque de gasolina, ao ligar o motor ele explodiria. Foi o que eles fizeram.
        - Depois de tanto tempo ser difcil provar isso na justia. - disse o delegado.
        - O dono do hotel reconheceu o retrato de Bris, dizendo que ele se hospedara no hotel um dia antes do acidente. Ele se lembrava porque Cludio o convidara 
para jantar em sua mesa naquela noite apresentando-o como empregado de seu primo que cuidava de seus negcios no Brasil.
        - Naquele tempo meu av j havia morrido e eles cuidavam mesmo dos negcios da famlia.
        - No resta dvida de que eles planejaram tudo. Mataram todos da famlia - concluiu o delegado.
        - Obtive o atestado de bito do Dr. Camargo - prosseguiu Jonas. - A causa mortis foi parada cardaca. Quem assinou foi Jos Lus.
        - Estamos diante de assassinos perigosos - comentou o delegado.
        - Precisamos encontr-lo - disse Alberto. - Precisa responder por esses crimes na justia. No pode ficar solto.
        - Infelizmente ainda no temos nenhuma pista. Eles desapareceram. Vou continuar procurando. Para mim  um caso de conscincia.
        - O que vai fazer para Pola confessar? - indagou Daniel.
        - O de sempre. No deix-la dormir nem descansar. Interrogar mil vezes, pression-la at que seus nervos no suportem mais. Estou certo de que ela sabe de 
tudo. Est querendo salvar a pele, mas est na lama at o pescoo.
        - Isso mesmo. Ela vai acabar contando tudo. Agora temos que ir. Se tiverem alguma novidade, telefonem - disse Daniel despedindo-se.
        Eles saram. Daniel estava com pressa. Iria passar no escritrio rapidamente e ir para casa. Havia combinado encontrar-se com Ldia s sete e meia. Iriam 
assistir a uma sesso em casa de tia Josefa.
        
Captulo 23
        
        Alguns minutos antes das oito horas, Daniel e Ldia chegaram a casa de Josefa. Depois de abra-la eles foram para a sala de reunies. Surpreendido, Daniel 
viu que l estavam Lanira, Laura, Gabriel e Alberto. Eles haviam se encontrado durante o dia e ningum comentara a inteno de ir at l.
        Laura, abatida, olhava um pouco assustada para os outros participantes sentados ao redor da mesa e nas outras cadeiras da sala. Nunca havia ido a uma sesso 
esprita. Gabriel costumava conversar com a me dizendo que via coisas, mas ela nunca se detivera para pensar nisso. No acreditava.
        Tanto seu irmo e Lanira insistiram que ela concordara em ir at l. Gabriel dissera-lhe que os espritos viam tudo quanto acontece na Terra e poderiam, 
se quisessem, dizer onde seus pais estavam.
        Assim que chegaram, depois de apresent-la a Josefa, Gabriel pediu ajuda para descobrir o paradeiro dos pais. Queria saber se sua me estava bem. Ao que 
a dona da casa respondeu:
        - Vamos pedir com f e confiana e ver o que conseguimos.
        - Eles diro onde meus pais esto? - indagou Laura.
        - S se tiverem permisso de seus superiores.
        - E se eles no quiserem dar? - insistiu Laura, pensando que essa resposta seria uma desculpa caso a informao fracassasse.
        Josefa olhou-a nos olhos com firmeza e respondeu:
        - Tudo no universo funciona obedecendo  ordem divina. Cada acontecimento tem sua razo de ser. Por isso, para interferir nesse processo eles precisam de 
permisso de quem conhece mais do que eles, para no atrapalhar o andamento das coisas. Nem sempre o que ns desejamos  o melhor para ns e para os outros envolvidos. 
A vida  mais sbia do que vocs podem imaginar. Tem seus prprios caminhos, mais perfeitos e adequados do que os nossos. Aceitar os fatos que no podemos mudar 
 prudente e sbio.
        Laura calou-se e eles foram conduzidos  sala. Quando Alberto chegou, Laura fez meno de levantar-se. Gabriel segurou seu brao dizendo baixinho:
        - Sente-se e fique quieta.
        - No sabia que esse aventureiro viria. Vou embora. No posso ficar na mesma sala que ele.
        - Acalme-se. Est sendo injusta. Ele  que poderia no querer ficar conosco aqui. Afinal foi o maior prejudicado. Se ele fica aqui apesar de ns, voc tambm 
pode ficar.
        Laura mordeu os lbios e no respondeu. Seria mesmo verdade tudo aquilo? Seu pai teria feito tantas maldades? Se ao menos ela pudesse ter certeza!
        Tentou dominar a angstia. Sentia vontade de sair correndo dali, de gritar seu desapontamento, sua desiluso. Mas controlou-se. No podia fra-quejar diante 
de estranhos e principalmente diante de seus inimigos. Apertou a boca com mais fora quando viu Daniel entrar com Ldia. Sentiu-se acusada. Procurou no demonstrar. 
Eles no iriam ter o prazer de v-la sofrer.
        Josefa sentou-se  cabeceira da mesa, fez pequena prece, apanhou um livro e pediu a Laura que o abrisse ao acaso. Ela obedeceu e devolveu-o a Josefa, que 
leu:
        - A f remove montanhas.
        Aps ler o pequeno trecho do livro, Josefa falou sobre a f, dizendo que ela  a fora que alimenta o esprito. Que se juntarmos a f em Deus  sinceridade 
e pureza de nossa alma, removeremos todos os obstculos para nosso progresso e felicidade. Porm a f s age com toda a sua fora em ns quando estamos voltados 
 verdade e ao bem. Os conceitos da verdade e do bem so relativos ao entendimento de cada um, contudo a verdade  absoluta e o bem  o bem. Ambos independem de 
nosso relativismo, que ainda pode estar cheio de enganosas iluses. Para destru-las, a vida cria desafios para que a conscincia descubra os valores eternos do 
esprito. Quando chegamos a esse ponto  que a f e o bem possuem a fora irresistvel que transporta montanhas.
        As luzes apagaram-se, ficando acesa apenas pequena lmpada azul. Uma mdium comeou a falar:
        - Finalmente encontramo-nos. Tenho procurado falar com voc, mas nunca me deu ateno. Esqueceu nosso trato. Preciso que me ajude! Eles pensam que estou 
morta, mas  mentira. Tenho gritado que estou viva, mas parece que no me ouvem.
        - Voc est viva - disse Josefa -, mas seu corpo morreu.
        - No acredito. Como pode ser isso? Eu sou a mesma. Por que no me entendem?
        - A vida continua depois da morte do corpo. Voc morreu, mas seu esprito vive.
        - No pode ser verdade! Laura, fale comigo, diga que aquele acidente no me matou. Eu estou viva!
        Laura estremeceu enquanto seu corao se descompassava. Sentiu arrepios pelo corpo enquanto em sua mente aparecia o rosto de sua colega de colgio morta 
em um acidente de carro dois anos antes.
        Assustada, segurou a mo de Lanira, que estava a seu lado apertando-a com fora. Vendo sua aflio, Lanira sussurrou a seu ouvido:
        - Calma, Laura. Est tudo sob controle. No tenha medo. A mdium continuava:
        - Sou jovem, quero viver! Por que tudo aconteceu comigo?
        - Vamos orar em favor dela - pediu Josefa aos presentes. Aos poucos a mdium diminuiu os soluos e por fim disse:
        - Agora estou percebendo o que me aconteceu. Sinto-me melhor. O pesadelo acabou. Obrigado, Laura, por ter me trazido aqui.
        - V em paz. Deus a ilumine - disse Josefa.
        O silncio se fez. Pouco depois outra mdium comeou a falar sobre os desafios da vida que promove a renovao espiritual de cada um, colocando-os frente 
a frente com suas necessidades de progresso. Por fim, ressaltou a importncia da f e da confiana em Deus. Quando ela se calou, Josefa fez ligeira prece de agradecimento 
e encerrou a reunio.
        Quando a luz acendeu, Josefa aproximou-se de Laura oferecendo-lhe um pouco de gua, dizendo:
        - Beba.
        Laura obedeceu e depois perguntou:
        - Mencionaram meu nome. Estavam falando comigo?
        - Sim.
        - Como pode ser se a pessoa que falava nem me conhecia? Como sabia meu nome?
        - O mdium no a conhecia, mas o esprito que se comunicou por meio dele estava com voc. Trata-se de uma jovem de estatura mdia, cabelos castanhos lisos, 
pele clara e olhos cor de mel. Morreu em um acidente. Vocs eram muito amigas tempos atrs.
        - Milena! Minha colega de ginsio. Morreu h mais de dois anos em um desastre de carro. Ela era como voc disse. E extraordinrio!
        - Ela disse que vocs tinham um trato. Lembra-se?
        - Lembro. Fizemos um pacto de amizade. Estaramos sempre em contato. Fiquei muito chocada com a morte dela. Apesar da promessa, fui a seu tmulo s no dia 
do sepultamento, depois nunca mais voltei. Ser que foi por isso que ela disse que no cumpri nosso trato?
        - No. Ela se encontrava em estado de semiconscincia. Nem sequer sabia que havia morrido.
        - Como pode acontecer isso?
        - Resistncia s mudanas. Medo de perceber a verdade. Falta de conhecimento sobre a vida aps a morte.  comum acontecer com pessoas muito apegadas  vida 
na Terra, aos familiares e aos bens que deixaram.
        - Ela disse que eu a trouxe aqui. Como?
        - Apesar de perturbada, ela percebeu que precisava de ajuda. Procurou a famlia mas ningum a ouvia. Voc era a amiga e confidente, ficou de seu lado tentando 
falar-lhe. Hoje, aqui, pde ser esclarecida. Os amigos espirituais aproximaram-na de um mdium, e, ao ser envolvida pela energia dele, ela se sentiu como se ainda 
estivesse no corpo de carne. Pde falar atravs dele e ser ouvida. Nesses momentos, reassumiu a lucidez e pde compreender melhor o que lhe aconteceu.
        - E agora, o que acontecer a ela?
        - Ficar sob a proteo e orientao dos bons espritos, que a levaro para o lugar apropriado.
        - Ela no ficar mais a meu lado?
        - No momento, no. Se um dia estiver bem, poder visit-la.
        - Preferia que no. Senti medo. Josefa sorriu levemente.
        - Ela gosta de voc. Nunca lhe far mal.
        - Eu sei. Mas prefiro que ela no venha. Sofri muito por causa do acidente dela. Tive pesadelos em que a via ensangentada pedindo ajuda. Um horror! Sempre 
que pegava o carro, lembrava-me do acidente e tinha medo de dirigir.
        - Voc ficou impressionada, mas agora isso vai passar. A presena dela a seu lado provocava essas emoes e os pesadelos. Ela passava para voc toda a angstia 
e o medo que sentia. Tenho certeza de que essas impresses vo desaparecer.
        - Ainda bem. Gabriel interveio:
        - Eles no disseram nada sobre nosso caso.
        - No diretamente - respondeu Josefa. - Mas o tempo todo pediram que tivessem f e continuassem orando. Eles esto ajudando. Vamos aguardar mais um pouco.
        Alberto aproximara-se de Daniel e Ldia. De vez em quando olhava para Lanira sem coragem de se aproximar, uma vez que ela fora com Gabriel. Daniel despediu-se 
e saiu com Ldia. Alberto os seguiu.
        - Gostaria de falar com Lanira, mas ela est com Gabriel. Talvez no seja oportuno - comentou ele quando chegaram  rua.
        Ldia sorriu dizendo:
        - Pelo jeito voc est com cime.
        - Talvez - reconheceu ele. Depois, vendo que Daniel olhava-o srio, completou: - Gostaria de falar com voc sobre Lanira. Temos sado algumas vezes como 
amigos, mas confesso que ela me atrai muito.
        - Lanira  muito jovem.  cedo para pensar nisso - respondeu ele.
        - Agora  voc quem est com cime - brincou Ldia. - Lanira  mulher feita e sabe o que quer.
        - Nunca se interessou por ningum - disse Daniel querendo encerrar o assunto, que o desagradava. - At hoje no quis namorar firme.
        - Eu sei - concordou Alberto. - Compreendo sua inteno de proteg-la. Mas eu garanto que minhas intenes so srias. Gostaria que soubesse que estou disposto 
a conquist-la, e se ela me quiser serei muito feliz.
        Daniel fez ligeiro aceno com a cabea e em seguida despediu-se de Alberto. Assim que se afastaram, Ldia foi direto ao assunto:
        - Voc no foi muito amvel com Alberto.
        - Como cliente eu o suporto, mas no o quero na famlia.
        - Por qu? Parece-me um bom rapaz. Sua atitude com voc foi correta.
        - Por que o defende? Estar do lado dele?
        Ldia olhou-o surpreendida. Daniel nunca usara esse tom spero com ela antes.
        - Desculpe, no quis me envolver em assuntos que no me dizem respeito.
        Daniel pegou a mo dela e beijou-a, dizendo triste:
        - Sou eu quem deve pedir desculpas. Fui grosseiro.  que no gostaria que Alberto namorasse Lanira. Isso me incomoda, deixa-me nervoso.
        - Vamos esquecer o assunto. Afinal eu no deveria ter dito nada. Gabriel, Lanira e Laura ficaram algum tempo conversando com Josefa. Laura estava se sentindo 
muito melhor. A desconfiana desaparecera e dera lugar  curiosidade.
        Gabriel no queria estar ausente de casa durante muito tempo.
        - Temos que ir. Tenho esperana de que mame telefone.
        Despediram-se combinando voltar na semana seguinte. Levaram Lanira para casa e no caminho de volta Laura crivou o irmo de perguntas sobre as experincias 
dele. Descobriu que Gabriel vira o esprito do Dr. Camargo, entre outros.
        - Eu no quero ver nada. Tenho medo.
        - Essas coisas no acontecem por vontade nossa.
        - Deus me livre! No quero nada com almas dos mortos. Gabriel riu e considerou:
        - Voc no queria, mas Milena estava a seu lado. Voc acha que no querendo  o suficiente para no acontecer. Engana-se. Eles aparecem quando podem ou querem 
e voc no tem como evitar.
        - E se ela me aparecer?
        - Ela foi embora, no vai acontecer. Pois eu queria muito que o esprito do Dr. Camargo viesse para me dar notcias de mame. No tenho medo nenhum, ficarei 
at muito agradecido.
        Uma vez em casa, cada um foi para seu quarto. Antes de dormir, Gabriel rogou a Deus que o ajudasse. Deitou-se e dormiu. Sonhou que algum o perseguia, querendo 
mat-lo. Correu tentando esconder-se, tentou acordar mas no conseguiu mexer o corpo.
        Apavorado viu o vulto escuro do perseguidor entrar em seu quarto, quis gritar mas a voz no saiu. Em pensamento rezou pedindo ajuda de Jesus. Imediatamente 
apareceu no quarto uma luz clara e em seguida o Dr. Camargo entrou. Seus olhos brilhavam como faris acesos. Vendo-o, o vulto escuro encolheu-se a um canto enquanto 
a um gesto do Dr. Camargo duas pessoas que estavam atrs dele aproximaram-se do vulto, seguraram-no e levaram-no.
        Gabriel respirou aliviado. O Dr. Camargo aproximou-se dele e colocou a mo sobre sua testa, dizendo:
        - Tudo est bem agora. Continue orando com f. Ns estamos ajudando vocs.
        Ansioso, Gabriel pensou na me, e antes que formulasse qualquer pergunta o esprito disse:
        - Ela est protegida. Confie.
        Ele desapareceu e Gabriel finalmente conseguiu mexer o corpo. Levantou-se de um salto. Seu corpo estava coberto de suor. Foi  copa, tomou um copo de gua 
e respirou fundo.
        Tinha certeza de que fora mesmo o Dr. Camargo que estivera ali. Ele lhe disse que sua  me estava protegida. Respirou aliviada. Naquele momento sentiu que 
nada de mal aconteceria a ela. Comovido, levou seu pensamento a Deus em agradecimento.
        No dia seguinte logo cedo ligou para Lanira e contou-lhe o sonho e finalizou:
        - Sinto-me aliviado. Tenho certeza de que nada de mal acontecer com mame.
        - Ele poderia ter dito onde eles estavam.
        - No creio. Ajudar de fato  difcil. Depois, a vida tem seus prprios meios. Eles sabem que intervir em muitos casos pode piorar o processo. Por isso s 
o fazem quando tm permisso dos superiores. Mas ele nos garantiu ajuda e proteo. Para mim  suficiente.
        - Voc tem f.
        - Tenho. Sabe, Lanira, a presena dos espritos bons em minha vida tem sido constante. Sei que a proteo deles  preciosa. Agradeo a Deus poder t-los 
do nosso lado agora. A presena do Dr. Camargo trouxe-me alvio e esperana.
        - Gostaria de ser como voc. Eu acredito, mas no com essa fora. E Laura, est mais calma?
        - Sim. Acordou menos abatida. Ainda est maravilhada com a comunicao de Milena. No fala em outra coisa.
        -  natural. Est descobrindo a vida aps a morte.
        - Ela sempre foi indiferente a qualquer crena.
        Eles continuaram conversando durante algum tempo mais. Maria Alice passou pelo corredor e ouviu algumas palavras. Quando Lanira desligou o telefone, ela 
entrou no quarto perguntando:
        - Era Gabriel?
        - Sim. Voc acredita que o esprito do Dr. Camargo est ajudando Gabriel?
        - No diga! Ser? Como  que voc sabe disso?
        Lanira pediu  me que se sentasse a seu lado e contou-lhe os fatos da noite anterior, o sonho de Gabriel. Quando finalizou, Maria Alice disse:
        - Estou toda arrepiada! Que coisa! Ser que a pessoa que falou como se fosse Milena no estava fingindo?
        - De forma alguma. Por que faria isso? Depois, nenhum dos amigos de tia Josefa que freqenta as sesses conhecia Laura e muito menos Milena. Como poderiam 
falar de coisas que s Laura e ela sabiam? Era a primeira vez que Laura ia l
        -  inacreditvel! Eu me recordo quando Milena morreu. Conheci-a. Era uma bonita moa. Voc se lembra dela?
        - Vagamente. Mas Laura garante que ela era mesmo como a tia descreveu.
        - Josefa sempre disse que via espritos. Nunca acreditei. Mas agora...
        - Ela v mesmo, me. Acha que ela conheceu Milena?
        - No. Josefa no gostava de freqentar a casa de nossos amigos. Sempre foi avessa s formalidades. Estava sempre s voltas com pessoas que no eram de nosso 
crculo. Minha me ficava muito irritada com ela. No creio que ela a houvesse conhecido. Quando ela se casou, Milena nem havia nascido. A ela se afastou mesmo 
de todos ns.
        - Se ela no a conheceu em vida e a descreveu a Laura, s pode t-la visto agora, como esprito. No acha?
        - Isso  o que est me intrigando. Ser que Josefa v os espritos mesmo?
        - No tenho nenhuma dvida, me. Muitas vezes depois das sesses ela descreve alguns espritos para as pessoas dando o recado que eles pediram.
        -  incrvel. No sei o que pensar. Lanira sorriu e respondeu:
        - Pois no pense. V assistir a uma sesso e certifique-se.
        - Talvez v. Ultimamente tenho pensado muito. At agora tenho levado uma vida futil e sem prazer. Estou procurando alguma coisa nova que me estimule a viver. 
Ando cansada da falsidade das pessoas, dos jogos que elas fazem para obter o que querem, das mentiras e da desonestidade. Resolvi no participar mais desse jogo 
sujo. Quero mudar.
        Lanira abraou a me dizendo sria:
        - Ainda bem que entendeu. H muito que sinto a mesma coisa. Tia Josefa  a pessoa certa para voc conseguir o que deseja. Por que no a procura?
        -  o que tenho feito nas ltimas semanas. Ela tem sido muito bondosa comigo. Depois de nossas atitudes grosseiras nos afastando dela, recebeu-me e tem me 
tratado como se eu sempre a tivesse respeitado como deveria.
        - Ela  uma pessoa maravilhosa. Por isso voc tem estado to mudada. Est mais viva, mais interessada, perdeu aquele ar de indiferena, humanizou-se. Fico 
feliz por voc.
        Maria Alice olhou-a nos olhos e disse sria:
        - Essa mudana tem um preo. Eu espero que voc e Daniel no se aborream comigo por causa disso.
        - Ns? Por qu?
        - Olhar a verdade nem sempre  agradvel. Voc descobre coisas e, depois disso, no suporta mais viver enganada.
        - Est falando da carta annima?
        - Estou falando de minha vida afetiva. H muito que ela foi sufocada. Olhar a verdade pode trazer  tona coisas que podem mudar minha vida radicalmente.
        - Voc tem o direito de escolher como deseja viver. Ns no temos nada com isso. Pensa em separar-se de papai?
        - No pensei nisso ainda. Por enquanto estou querendo descobrir meus verdadeiros sentimentos. s vezes sinto medo do que irei encontrar.
        - Sei como  isso. De certa forma estou na mesma situao. Entre Alberto e Gabriel, no sei ainda de qual eu gosto mais. Nesse caso, me, acho que ns precisamos 
esperar um pouco mais para que a situao se esclarea.
        - Tem razo, minha filha. Vamos esperar. Quando  que ser a prxima sesso de Josefa?
        - Na tera que vem.
        - Acho que irei com voc.
        As duas continuaram conversando animadamente. Antnio, que naquela manh ficara em casa para estudar melhor um discurso que pretendia fazer logo mais  tarde, 
passou pelo corredor, pela porta entreaberta viu as duas conversando animadamente e pensou:
        "O que estaria acontecendo com Maria Alice? As duas nunca trocavam mais do que algumas palavras. Agora ficam horas conversando. Ela tem estado intratvel 
ultimamente. Era to cooperativa! Alicia falou em menopausa. Ser? As mulheres so to cheias de complicaes! Precisava insistir para que ela fosse ao mdico. Talvez 
com um pouco de hormnios ela voltasse a ser como antes."
        Resolveria depois. No podia desviar a ateno de seu discurso. Era muito importante. Estaria falando para tcnicos, teria que mostrar conhecimento e erudio. 
Felizmente Alicia fizera uma boa pesquisa do tema.
        Alicia! Entrara em sua vida e tomara conta de tudo! A seu lado sentia-se seguro, forte, capaz! O seminrio seria na Argentina. Depois da abertura e de seu 
discurso, estaria livre. No se importava de perder os debates. Como representante do Brasil, participaria das solenidades de abertura, faria seu discurso no primeiro 
dia e s apareceria novamente trs dias depois, no encerramento.
        Depois de sua fala, daria muitas entrevistas para que os jornais se ocupassem de sua participao no evento. Garantiria assim seu prestgio no Brasil. Dessa 
forma, ficaria com alguns dias livres para passear com Alicia. Pretendia lev-la a uma casa de tangos, danar um pouco e ver os shows. A viagem estava marcada para 
a tarde do dia seguinte. No tinha muito tempo para se preparar. Fechou-se no escritrio decidido a estudar.
        Na tarde do dia seguinte, quando Antnio j com as malas prontas procurou Maria Alice para despedir-se, encontrou-a lendo no quarto. Aproximou-se dizendo:
        - Vim despedir-me. Est na hora.
        Maria Alice levantou os olhos do livro e disse com naturalidade:
        - Boa viagem.
        - Voc parece aborrecida por eu ter que viajar.
        - Engano seu. J estou acostumada.
        - Voc sabe que no vou por prazer. Estou cansado dessas viagens. Preferiria ficar em casa, mas o dever me chama. Tenho que corresponder aos votos de meus 
eleitores.
        - No precisa fingir comigo. No pretendo ser sua eleitora nas prximas eleies.
        Ele se irritou:
        - Porque est to agressiva?
        - No tive inteno. Mas conheo bem voc. Discursar, aparecer, viajar com todas as mordomias oficiais  o que mais gosta de fazer. Est indo com prazer. 
No vejo razo para fingir o contrrio, ainda mais que vai em boa companhia.
        - O que est insinuando?
        - Nada que voc j no saiba.
        - Francamente, voc est intolervel. Bem que me disseram: mulher na menopausa  triste. Por que no procura um mdico?
        Maria Alice fechou o livro, levantou-se e encarou-o firme:
        - Foi a sua adorvel secretria quem disse isso?
        O rosto dele coloriu-se de intenso rubor. Tentou disfarar o susto:
        - Estou indignado! Est falando de uma senhora respeitvel e muito competente. O fato de Alicia trabalhar no lhe d o direito de implicar com ela.
        - Que injustia! A secretria exemplar, perfeita. V, Antnio, no a deixe esperar muito. Podem perder o avio.
        - Vou mesmo. No sei o que est acontecendo com voc. Francamente. No d mais nem para conversar.
        Ele saiu e Maria Alice deixou-se cair no sof. Estava indignada. Tanta falsidade enojava-a. L ia ele representar o papel de pai de famlia exemplar, de 
poltico digno, do homem correto, interessado no progresso do pas.
        A verdade era bem outra. Ele era como um sanguessuga do povo que dizia representar e servir, mau marido, pssimo poltico, interessado apenas em manter o 
prprio prestgio a todo custo.
        Maria Alice sentia que havia perdido o respeito por ele. Estava difcil continuar convivendo. A cada dia, ela via aumentar mais a distncia que os separava. 
Comeava a perceber que no poderia mudar sua vida e continuar fechando os olhos para as falcatruas do marido. As duas coisas eram incompatveis.
        Respirou fundo. Ainda no havia divrcio no Brasil. Tornar-se desquitada era ser desrespeitada pela sociedade. Quase sempre os maridos davam em cima da desquitada 
e as esposas afastavam-se dela com receio da concorrncia.
        Aos homens tudo era permitido. Ter amantes era chique, sinal de masculinidade. No desquite, mesmo quando o homem era o culpado, a mulher, de uma forma ou 
de outra, acabava sempre sendo responsabilizada.
        Se ela quisesse libertar-se do marido, teria que enfrentar essa situao. Precisava avaliar bem at que ponto suportaria. Estava resolvida a dar outro rumo 
 sua vida, mas ainda no sabia se estava preparada para ser olhada como uma mulher fracassada, que no soubera manter o casamento.
        Depois, havia os filhos. Lanira ainda no se casara. No tinha o direito de atrapalhar o futuro dela. Teria que agentar pelo menos at que ela se casasse. 
Depois pensaria novamente no assunto.
        Apanhou o livro, sentou-se e reiniciou a leitura.
        
        
Captulo 24
        
        Jonas entrou na sala do Dr. Marques na delegacia dizendo:
        - Encontramos o bicho.
        O delegado levantou-se satisfeito e perguntou:
        - Jos Lus?
        - Sim.
        - Onde eles esto?
        - Em uma vila perto de Assuno, Paraguai.
        - Como descobriu?
        - A princpio direcionei as buscas para a Europa, voc sabe: as passagens para Roma, depois para Estados Unidos, etc. Como ele teve tempo para fugir, imaginei 
que houvesse procurado ir para bem longe. Mas estava enganado. Foi um agente que trabalha junto  nossa embaixada em Assuno quem descobriu tudo. Tinha visto as 
fotos na central de polcia. Ouviu uma mulher conversando no mercado dizendo que estava trabalhando para um homem muito distinto, que pagava muito bem. S que no 
lhe permitia entrar alm da cozinha, dizendo que sua esposa era doente dos nervos e no suportava ver ningum. Pedira-lhe segredo porque, se os mdicos descobrissem-na, 
internariam-na. O agente desconfiou dessa histria e, quando ela se foi, seguiu-a. Era um stio, em uma pequena vila h uns quatro ou cinco quilmetros da cidade. 
Escondeu-se na mata para observar. Queria ver quem era. No conseguiu ver ningum. Apenas a mulher indo e vindo, lavando as roupas e estendendo-as no varal. Eram 
roupas finas, o que aumentou as desconfianas dele. Foi embora decidido a investigar melhor. Naquela hora no pensou nas fotos que havia visto na polcia. Estava 
mais interessado em contrabando, que era sua especialidade. Voltou l no dia seguinte e resolveu ver o homem. Bateu na porta e a empregada foi abrir.
        - "Quero falar com o dono da casa."
        - "Ele no atende ningum."
        - "A mim ele vai atender. Abra a porta. Sou da polcia."
        - Ele foi entrando assim que a mulher assustada abriu. Apareceu um homem magro, com barba e bigode, maneiras educadas e afveis.
        - "O que deseja?" - perguntou.
        - "Seus documentos e os de sua mulher."
         Ele foi buscar e os apresentou. O policial verificou que estavam em ordem.
        - "Quero saber qual  seu ramo de negcio e por que vocs vieram ao Paraguai."
        - "Estou aqui por causa de minha mulher. Ela est muito doente. Precisei afast-la de todos. Queriam que eu a internasse, mas no tive coragem. Eu a amo 
muito. Um mdico me orientou e estou tentando trat-la."
        - "Quanto tempo pretende ficar neste pas?"
        - "Depende do estado dela. Felizmente est melhorando. Lentamente, mas est."
        - "Est bem. Obrigado pelas informaes."
        - Ele- se retirou decidido a esquecer o assunto. O caso era sem importncia. Tinha outros mais relevantes a resolver.
        - Quando foi que ele descobriu a verdade? - indagou Marques.
        - Alguns dias depois. Foi  polcia e casualmente o delegado estava com as fotos sobre a mesa. Eu havia ligado e feito novo pedido de busca. Vendo as fotos, 
o agente recordou-se do homem que visitara. Apesar de a barba e o bigode modificarem a fisionomia e os cabelos serem mais curtos, os olhos, o formato da testa e 
principalmente a expresso do rosto eram muito semelhantes. Contou ao delegado e resolveram conferir. Quando saram da delegacia, passaram em frente ao mercado, 
a mulher estava l conversando com a amiga. O agente abordou-a perguntando pelo casal.
        - "As coisas no vo bem l. Acho que ela piorou - respondeu ela, satisfeita por estar em evidncia diante da amiga. - Hoje mandaram-me arrumar tudo porque 
eles vo embora. Acho que no voltam mais. Disse que eu posso morar na casa porque o aluguel est pago por dois meses ainda. Isso que  gente boa."
        - Os dois saram e imediatamente juntaram alguns homens e foram at l. Estava anoitecendo. Bateram, mas como ningum respondesse, arrombaram a porta. No 
havia ningum. Foram at o quarto e a porta estava fechada. Bateram, mas no obtiveram resposta. Arrombaram. Sentada na cama estava uma mulher plida, magra, mas 
que eles reconheceram como a da foto. Vendo-os, comeou a chorar. Um dos tornozelos estava preso por uma corrente e um cadeado na grade da cama. O delegado lhe perguntou:
        - "Onde est o homem?"
        - Trmula ela respondeu:
        - "Ele saiu. Tem um avio fretado e voltar para buscar-me. Desta vez quer levar-me para muito longe. Por favor! No deixe. No quero ir. Quero meus filhos!"
        - D. Maria Jlia soluava presa em crise nervosa e o agente abraou-a recomendando:
        - "Calma. Estamos aqui para ajud-la. Somos da polcia. Como  seu nome?"
        - "Graas a Deus. Sou Maria Jlia Camargo. Meus filhos esto  minha procura no Brasil. Ele me ameaou de morte, obrigou-me a segui-lo. Quero ir para casa."
        - "Vamos libert-la e providenciar. Tem idia do lugar aonde ele foi?"
        - "No sei o nome do lugar. Mas ele voltar, com toda certeza. Est louco. No quer me deixar."
        - "Nesse caso, vamos preparar tudo para quando ele chegar" - resolveu o delegado.
        - Mandou que escondessem o carro e apagassem os vestgios da presena deles. Libertou Maria Jlia da incmoda corrente. O tornozelo dela estava ferido e 
inchado. Jos Lus entrou sem desconfiar de nada, ento foi preso. No teve como reagir. Esto na embaixada  nossa disposio.
        -  uma grande notcia. Vamos avisar a imprensa e mobilizar tudo para receb-los.
        - Vou ligar para Gabriel. Nunca vi um filho to amoroso!
        - Nem parece filho daquele canalha!
        Jonas apanhou o telefone e discou. Gabriel atendeu logo. Ele deu a notcia e o rapaz ficou mudo do outro lado da linha.
        - Est ouvindo, Gabriel? Ns os encontramos. Sua me est bem. Tudo est sob controle. Logo estaro de volta.
        Gabriel respirou fundo, a voz sumira de sua garganta, no conseguia articular palavra. Por fim, disse com voz abafada:
        - Finalmente! Ela est bem mesmo?
        - Est. Foram localizados no Paraguai. Pode comemorar. Dentro de algumas horas para o cumprimento das formalidades, eles estaro aqui.
        - Ele vai voltar para casa?
        - No. O delegado j fez a denncia e conseguiu uma ordem de priso preventiva para ele. Pode ficar sossegado, que desta vez ele no vai escapar.
        - Eu gostaria de ir at l para v-la. Posso conseguir passagem agora mesmo.
        - No precisa. Ela est aos cuidados da embaixada e muito bem. O mdico deu-lhe um calmante e ela est descansando. Sua volta no vai demorar nada. Estaro 
aqui dentro de mais algumas horas.
        - Nesse caso vou preparar a casa para receb-la com flores e alegria. Estou muito feliz. Obrigado, Jonas, por tudo. Voc tem sido incansvel. Deus o abenoe.
        - Amm - respondeu ele tentando disfarar a emoo.
        Quando Daniel e Rubinho chegaram, meia hora depois, alguns jornalistas avisados por seus colegas do Paraguai j estavam na porta da delegacia e correram 
assim que os viram descer do carro, tentando obter informaes. Daniel foi logo avisando:
        - Encontraram o Dr. Jos Lus e esposa. Viemos nos inteirar dos detalhes. Tenham um pouco de pacincia.
        - Queremos saber tudo - disse um.
        - Os dois foram presos? - indagou outro.
        - No. S ele por haver seqestrado a mulher e por no se apresentar  justia - esclareceu Rubinho.
        Enquanto caminhavam com dificuldade cercados por eles, Daniel garantiu:
        - Vamos nos inteirar dos fatos e ao sair informaremos. Entraram e l j encontraram Gabriel ansioso por maiores detalhes.
        Laura ficara em casa, nervosa, sem saber o que fazer. Lanira estava com ela cuidando para que tudo estivesse em ordem quando Maria Jlia chegasse. Providenciou 
flores e pediu  cozinheira para fazer os pratos favoritos da dona da casa.
        Foi com revolta que Gabriel ficou sabendo dos detalhes da priso de Jos Lus. No se conformava com o fato de seu pai t-la acorrentado  cama. Era o cmulo 
da maldade.
        S isso bastava para que ele ficasse preso por muito tempo. Gabriel estava ansioso para abraar a me e certificar-se de que ela estava bem.
        O dia decorreu entre as providncias necessrias para a volta do casal. A polcia paraguaia fizera um boletim de ocorrncia endereado  polcia brasileira, 
registrando todos os fatos, inclusive as declaraes de Maria Jlia. Foram diversos telefonemas, e Gabriel, depois que conversou com a me, sentiu-se mais calmo.
        Era noite j quando o delegado disse a Gabriel:
        - V para casa descansar. Um avio especial sair daqui logo mais com dois agentes para busc-los, mas s levantar vo de volta l pelas seis ou sete horas 
da manh. Sabe como . H certa burocracia.
        - Prefiro esperar. No vou conseguir dormir.
        - Tambm eu irei para casa. Mas assim que eles levantarem vo vo nos avisar e imediatamente ligarei para voc.
        Gabriel acabou concordando e foi para casa. Passava das dez quando ele levou Lanira para casa. Durante o trajeto ia calado. Lanira tentou conversar:
        - Agora tudo vai ficar esclarecido.
        - . No vejo a hora que acabe esse pesadelo.
        - Vocs precisam ser fortes. Ainda tm o processo. Seria bom que pudessem viajar, afastar-se at que tenha acabado.
        -  impossvel. Voc esquece que minha me tambm est envolvida? Nenhum de ns vai poder afastar-se daqui.
        Quando ele parou o carro em frente a casa dela, disse:
        - Desejo agradecer tudo que tem feito por ns. Voc tem sido maravilhosa. Mas daqui para a frente prefiro que se afaste. No quero que se envolva nesse escndalo.
        - J estou envolvida, Gabriel. Como pode dizer uma coisa dessas? Acha que eu poderia?
        Ele segurou as mos dela, apertando-as com fora. Seus olhos estavam marejados e sua voz trmula quando respondeu:
        - Deus sabe como eu gostaria que tudo isso fosse mentira para poder dizer o que vai em meu corao. Mas no posso. O amor que sinto por voc me faz dizer 
que entre ns nada mais  possvel. Meu pai ser condenado, nosso nome j est na lama, nosso dinheiro passar para o legtimo dono. Estou pobre, desonrado, no 
tenho nem profisso. No posso arrast-la a uma situao dessas. Estou sendo sincero.
        - Voc est tomando uma deciso por mim, sem saber se estou de acordo.
        - Quero preservar voc. Logo encontrar algum melhor do que eu, que a ame e possa oferecer-lhe uma vida estvel, digna.
        - No estou  procura de ningum, muito menos de um casamento de convenincia. Alis, nem pensei ainda em casamento.
        - Voc j recusou meu pedido uma vez. Talvez no me ame nem deseje ficar comigo. Mas tudo mudou em minha vida. No quero que a lama em que estamos mergulhados 
respingue em voc, prejudicando-a.
        - Quem decide minha vida sou eu. No lhe dou o direito de escolher por mim. V descansar, est precisando. Boa noite!
        Beijou-o com carinho na face e desceu do carro. Gabriel apertou a direo do carro com fora. Amava Lanira. Sentia que ela era a coisa mais
        importante de sua vida. Ela era jovem e inexperiente. Poderia deixar-se levar por um sentimento de pena e isso o horrorizava. Estava decidido a sair do caminho 
dela de uma vez.
        A partir do dia seguinte os acontecimentos se precipitaram. Maria J-lia, abatida, prestou declaraes na delegacia, confirmando as que fizera no Paraguai. 
Jos Lus ficou preso e fechou-se no mais completo mutismo. No quis falar nada sem um advogado. No lhe foi difcil encontrar um que o defendesse. O caso era de 
destaque. Vrios advogados ofereceram-se e ele pde at escolher. Juntos estiveram durante horas para que se inteirasse do caso.
        Diante dos fatos novos, com base no inqurito policial, a promotoria pblica entrou com recurso para que a sentena que reconhecia a identidade de Alberto 
fosse mantida em suspenso at que todos os fatos que envolviam o caso ficassem bem esclarecidos. Pediu a abertura de um processo-crime contra Jos Lus como suspeito 
do assassinato de Cludio e Carolina. Por haver fugido, Jos Lus no conseguiu habeas corpus. Ficaria preso at o julgamento.
        Maria Jlia, abatida e nervosa, apoiada pelos dois filhos, mantinha-se fechada em casa e no recebia ningum, com exceo de Maria Alice e Lanira, que iam 
visit-los tentando confort-los, e dos dois advogados, interessados em defend-la no processo.
        Isso irritou Antnio, que tentou de todas as formas impedi-las de ir a casa deles.
        - Isso  um absurdo! Vocs se misturando com eles! Podem ser vistas. J pensaram que horror? Como  que eu fico? No posso permitir. Tenho um nome a zelar.
        Maria Alice deu de ombros, dizendo:
        - Maria Jlia  minha amiga h anos. Nem ela nem os filhos so culpados. Ao contrrio, foram vtimas dos crimes que Jos Lus cometeu. Fazer isso seria penaliz-los 
duas vezes. No vou cometer essa injustia.
        - No  possvel falar com voc. Pretende arruinar-me. Por que est fazendo isso comigo?
        - No estou fazendo nada contra voc. Estou apenas agindo de acordo com meu corao. Se isso o contraria, sinto muito, mas no vou transigir.
        - Sua me est perdendo o juzo - disse voltando-se para Lanira. - No  mais a mesma. Parece outra pessoa.
        - Engana-se, papai. A de antes  que era outra pessoa. Voc agora est diante da verdadeira mulher. Ainda no percebeu? Ela est dizendo o que sente.
        - Nem tudo que sentimos podemos dizer. H regras a serem seguidas, prioridades a considerar.  loucura sair por a dizendo tudo que se quer. Se eu fizesse 
isso, logo algum me internaria.
        - Se voc fizesse isso - contraps Maria Alice -, talvez conseguisse perceber o que at agora ainda no viu. Talvez ainda conseguisse reaver a dignidade 
e o respeito das pessoas que tanto pretende conquistar.
        - No disse? No d para conversar. Voc me agride sem motivo. Lanira, pelo menos voc v se consegue convenc-la a atender o que estou pedindo.
        - No posso fazer isso porque penso como ela. Que argumentos teria para convenc-la? Voc expulsou Daniel de casa porque ele decidiu aceitar essa causa. 
Ele enfrentou a situao e provou que estava certo. Hoje tem nome como profissional e d para perceber que  apenas o comeo de uma brilhante carreira que lhe trar 
posio e dinheiro. Se ele houvesse obedecido  sua orientao, onde estaria agora?
        - O que  isso? Uma rebelio organizada dentro de minha prpria casa? Meu Deus! Onde ns estamos?
        - Estamos aqui ainda. Espero que possamos continuar convivendo educadamente - tornou Maria Alice.
        - Sempre fui um homem educado.
        - Nesse caso no temos mais nada para conversar. Irritado, Antnio saiu batendo a porta. Lanira comentou:
        - Ele nunca vai entender, me.
        - Esse  um problema dele. No estou fazendo nada que possa desrespeitar nossa famlia nem prejudic-lo. Apesar de tudo que ele faz, trato-o com respeito 
e considerao. Sou esposa fiel, cumpridora de meus deveres com a minha famlia. Entretanto no estou mais disposta a fazer coisas que me desagradam. Se ele no 
pode entender isso, pacincia.
        Lanira abraou a me dizendo:
        - Voc tem todo o direito de preservar seus sentimentos. Ningum pode passar por cima deles sem ferir profundamente a prpria dignidade.
        -  isso. Vamos embora. Maria Jlia ontem estava muito abatida. Pretendo anim-la um pouco. Sinto vontade de convidar Josefa para ir conosco visit-la. Acha 
que ela a receberia?
        - Penso que sim. Gabriel gosta muito de tia Josefa. Se falarmos com ele, certamente aprovar e ela aceitar.
        - Noto que h momentos em que Maria Jlia fica muito agoniada, inquieta. Tenho impresso de que teme alguma coisa.
        - No ser impresso sua? Ela est nervosa,  natural depois do que tem passado.
        - Sinto que h alguma coisa a mais. Reparou como ela pergunta sempre aos advogados o que Jos Lus disse nos depoimentos? H muita ansiedade em seus olhos. 
Chego a pensar que ela est com medo que ele diga alguma coisa. Ser que ele pode compromet-la mais? Ter alguma prova de sua cumplicidade?
        - No. Isso ele no tem. O prprio Alberto tem prestado declaraes a favor dela, contando como ela o salvou e o sustentou durante todos aqueles anos. A 
nica coisa que h contra ela  o fato de no haver procurado a polcia para denunciar o marido. Esse  o ponto mais delicado que ela ter que enfrentar nesse processo.
        - No sei, no. Para mim h ainda alguma coisa que ela no contou. Vamos pedir a Gabriel que a convena a receber Josefa.
        - Tem razo. A ajuda espiritual  muito importante numa hora dessas.
        Gabriel conversou com a me e convenceu-a a receber Josefa, que lhe daria uma ajuda energtica e espiritual. Ele sempre que voltava de alguma sesso em casa 
dela contava detalhes para a me, que, por causa das vidncias de Gabriel desde a infncia, estudara esses assuntos e no tinha dvidas sobre a vida aps a morte. 
Concordou em receb-la na tarde seguinte para um ch com as duas amigas.
        Os amigos espirituais de Josefa haviam-na informado que ela seria chamada para ajudar essa famlia. Deveria aceitar, porque eles estariam a seu lado para 
fazer o que fosse possvel. Por isso, quando a convidaram, concordou imediatamente.
        Maria Jlia recebeu-os com delicadeza, porm Josefa notou o quanto ela estava nervosa, inquieta. Alguns vultos escuros estavam a seu lado e Josefa depois 
de meia hora de conversa disse:
        - Noto que voc est esgotada, nervosa e precisando de uma doao de energias positivas para sentir-me melhor. Se quiser, posso fazer isso.
        - Gostaria muito. Estou me sentindo muito fraca.
        - Nesse caso, vamos para outra sala onde possamos ficar a ss e onde ningum nos interrompa.
        - Vamos a meu quarto.
        As duas subiram e, uma vez no quarto, Josefa segurou as mos de Maria Jlia e fez uma prece fervorosa, pedindo a Deus proteo e ajuda para
        aquela famlia.  medida que ela orava, Maria Jlia rompeu em convulsivo pranto. Seu corpo estremecia sacudido pelos soluos, e Josefa convidou-a a abrir 
seu corao a Jesus, contando-lhe todos os seus receios e aliviando sua alma. Depois continuou orando e rogando a ajuda dos bons espritos para que a paz e a harmonia 
pudessem voltar quele lar.
        Aos poucos Maria Jlia foi se acalmando. Quando ela parou de soluar, Josefa ainda segurando suas mos perguntou:
        - Sente-se melhor?
        - Um pouco. Estou aliviada. No agento mais carregar o peso de meus atos passados. Estou no limite de minhas foras.
        - No se atormente, Maria Jlia. O passado acabou. No deixe que ele continue infelicitando sua vida. Esquea o que passou.
        - No posso. Carrego este maldito segredo que pode ser revelado a qualquer momento e eu preferiria morrer a que isso acontecesse.
        - Enfrentar a verdade  sempre o melhor negcio. Do que tem medo?
        - Carrego comigo um segredo que tem infelicitado toda a minha vida.
        - Voc tem medo de revelar um segredo e por isso tem arruinado sua vida. No seria mais prtico acabar com ele e enfrentar seus medos?
        - No posso. Envolve outras pessoas.
        - Vamos orar juntas e pedir a ajuda dos bons espritos. Feche os olhos. Josefa soltou as mos de Maria Jlia e silenciosamente comeou a orar enquanto estendia 
as mos sobre a cabea dela e imaginava a sala cheia de luz. Depois, durante alguns minutos foi passando lentamente as mos prximo ao corpo dela, que estremecia 
como que tocada por fios eltricos.
        Quando Josefa terminou, pediu:
        - Abra os olhos. Como se sente?
        - Melhor. Senti um calor agradvel percorrer-me o corpo. Obrigada por ter vindo. Voc tem um pouco mais de tempo? Gostaria de conversar um pouco.
        - Claro.
        Maria Jlia convidou-a a sentar-se na beira da cama e sentou-se a seu lado. Depois disse:
        - Sinto que posso confiar em voc. Preciso falar com algum para no explodir.
        - Estou ouvindo. Continue.
        - Tudo comeou em 1929. Nessa poca eu estava com dezessete anos. Apaixonei-me perdidamente por um rapaz. Famlia importante da sociedade, rico, bonito, 
rodeou-me de atenes. A princpio eu no sabia
        que ele era comprometido. No freqentava a alta sociedade. Minha famlia era de classe mdia. Amei-o de todo o corao e nos entregamos um ao outro sem 
pensar em mais nada.
        - Nossos encontros serviam para aumentar minha paixo e ele insistia para fugirmos juntos. Meu pai era oficial do exrcito e muito bravo. Exigia obedincia 
cega de mim e de meus dois irmos menores. Religioso, obrigava-nos a rezar o tero reunidos duas vezes por semana e mesmo doentes tnhamos que comparecer  missa 
no domingo. Estou contando isso para que possa compreender como fui educada. Ele possua uma vara de marmelo com a qual nos corrigia, e no permitia a mnima desobedincia 
s suas disciplinas. Ele tratava os filhos da mesma forma como tratava os soldados seus subordinados.
        - Voc pode imaginar como fiquei ao descobrir que estava grvida de um ms. Procurei meu amado e contei. Foi ento que ele com tristeza me revelou que j 
era casado e tinha dois filhos. Fiquei apavorada. Queria me suicidar. Ele, atemorizado, prometeu-me resolver tudo. No dia seguinte procurou-me s escondidas, como 
sempre, dizendo que no precisava temer. Havia resolvido a questo. Levou-me ao apartamento de um jovem que estava no ltimo ano de Medicina. Eram amigos, e quando 
soube de nossa situao, concordou em nos ajudar. Eles planejavam fazer um aborto.
        - Fiquei apavorada. Mas eles me garantiram que no havia nenhum perigo, que seria fcil e assim tudo estaria resolvido. Foi assim que conheci Jos Lus. 
Quando me conheceu, logo percebi que se interessou por mim. Eu estava arrasada, no s por ter que fazer aquilo como por saber que o homem que eu amava e ao qual 
me entregara era comprometido. Ele queria fugir comigo, mas no concordei. Tambm no estava disposta a continuar naquela triste posio sendo a outra e pensava 
que depois de resolver a gravidez me separaria dele para sempre.
        - Jos Lus era moo bonito, educado, fino. Desde o primeiro dia tratou-me com delicadeza. Disse que antes de fazer o aborto eu deveria tomar alguns medicamentos 
para evitar problemas futuros.
        - Acreditei e obedeci. O homem que eu amava precisou viajar a servio, mas antes de ir garantiu-me que tudo estava bem e que voltaria logo. Entretanto no 
voltou. Os dias foram passando e eu cada vez mais agoniada vendo minha cintura engrossar, minha barriga crescer e Jos Lus adiando o aborto.
        - Eu fazia tudo para levar vida normal a fim de que meus pais nada percebessem. Jos Lus encontrava-se comigo a pretexto de preparar tudo
        para resolver o assunto, mas quando chegava eu percebia que ele me olhava de maneira diferente. Um dia abriu o jogo. Disse-me que eu j estava com mais de 
trs meses de gravidez e que seria impossvel fazer um aborto a essa altura. Disse que no havia feito antes porque tinha medo de no estar preparado o suficiente 
e provocar uma tragdia.
        - Vendo meu desespero, confessou que me amava desde o primeiro dia em que me conheceu e que estava disposto a se casar comigo assumindo a paternidade da 
criana. Eu estava desesperada. No o amava, mas vi nessa sada a tbua de salvao. Aceitei prontamente.
        - Ele procurou meu pai, confessou que havamos cometido um erro, mas que ele estava disposto a reparar e pediu minha mo em casamento. Apesar de meu medo, 
meu pai aceitou essa aliana com prazer. Ter um mdico como genro era para ele uma boa soluo. Havendo casamento, o resto no importava. Minha me providenciou 
tudo, inclusive um vestido que disfarasse o pequeno volume que j comeava a aparecer, e assim que correram os proclamas nos casamos na igreja e no civil, no mesmo 
dia.
        - Intil dizer que eu entrei para esse casamento sem amor, carregando dentro de mim um filho de outro homem, e como foi difcil suportar a intimidade de 
meu marido. Apaixonado, violento em seu cime, sempre que sentia minha repulsa, que eu fazia tudo para esconder mas nem sempre com xito, cobria de injrias a mim 
e  criana que ia nascer, como se aquele pequenino ser fosse culpado por minha falta de amor.
        - Nossa vida foi um inferno desde o comeo. Vrias vezes pensei em separar-me, mas ele me ameaava com o escndalo. Apesar de casada, meu pai exercia ainda 
terrvel tirania sobre mim. Eu continuava temendo suas reaes. Quando Gabriel tinha um ano aconteceu toda a trama com Marcelo.
        - Ouvi Jos Lus conversando com Bris traando todo o plano, inclusive o de matar toda a famlia. Fiquei horrorizada. Nessa poca ele me obrigava a tomar 
calmantes fortes. Querendo evitar isso, tratei de dissimular meus sentimentos. Contudo, no podia aceitar a morte de Marcelo. Era um menino alegre, inteligente, 
amvel. Eu pensava em meu filho, to pequeno, que era minha paixo, e imaginava a dor que sentiria se ele morresse. Ento resolvi salvar Marcelo. Sabia que Alberico, 
o motorista, era homem bom e gostava muito do menino. Conversei com ele e combinamos tudo. Ele fingiu que matara o menino, e escondeu-o durante algum tempo. Eu andava 
muito nervosa e pedi para fazer uma viagem com meu filho at o convento das irms onde eu fora interna, para descansar. Jos Lus concordou. Senti que ele ficou 
aliviado por ver-se livre de mim para poder realizar seus planos sem minha interferncia. Sabia que eu no concordava com o que ele planejava.
        - Vendi algumas jias e comprei as passagens para a Inglaterra. Tinha tudo planejado. Deixei meu filho com as irms e a pretexto de socorrer uma amiga doente 
na Inglaterra pedi-lhes para no dizer nada a meu marido. Apanhei Marcelo com Alberico e embarcamos para Londres.
        - Era a primeira vez que eu viajava para o exterior. Sentia medo, mas fui. Deu tudo certo. Procurei o colgio e deixei Marcelo l. Eu pretendia, na volta, 
procurar pelo Dr. Camargo e contar-lhe a verdade. Mas quando voltei soube que o Dr. Camargo estava acamado e muito doente. Inconformado com a morte do neto que era 
toda a sua alegria, tivera a sade abalada.
        - Jos Lus estava tratando-o e eu fiquei apavorada com a suspeita de que ele iria mat-lo. A essa altura eu j conhecia bastante meu marido para saber do 
que ele era capaz quando queria alguma coisa.
        - Apesar disso, tentei procur-lo s escondidas, porm no consegui. Bris estava l, ajudando no tratamento e tomando conta dele. No pude fazer nada. Pensei 
em procurar Cludio e Carolina. Tinha inteno de dizer-lhes onde seu filho se encontrava. Mas eles viajaram e eu no sabia onde estavam.
        - O Dr. Camargo morreu e eu acredito que ele tambm tenha sido assassinado. Cludio e Carolina vieram para o enterro e eu fui constantemente vigiada por 
Bris. Estava proibida de sair de casa, e quando saa era sempre acompanhada por ele.
        - O casal visitou-nos algumas vezes, mas eu nunca pude ficar a ss com eles. At que foram para a Itlia, mas antes passaram uma procurao para Jos Lus, 
pagando regiamente para que ele cuidasse dos negcios da famlia.
        - Ento ele quis que fssemos para a Frana. Eu no queria, mas ele me obrigou fazendo ameaas a meu filho. Eu ficava apavorada. Sabia do que ele era capaz. 
Tinha horror de que algo pudesse acontecer a Gabriel.
        - Viajamos para a Frana e fui obrigada a deixar Gabriel com uma ama, coisa que eu no queria de forma alguma. Mas tive que obedecer. Bris acompanhou-nos 
e eu sabia que eles estavam tramando algo. Eu sabia tambm que se ele quisesse aquela fortuna teria que acabar com o resto da famlia. Portanto Cludio e Carolina 
corriam perigo. Mas no consegui fazer nada. Tive que suportar tudo com medo de que ele fizesse algum mal a Gabriel, que ficara no Brasil.
        Maria Jlia estava plida e seu corpo cobrira-se de suor. Preocupada, Josefa interveio:
        - Chega por hoje. Voc est esgotada.
        - No. Sinto que preciso desabafar. Vou at o fim. Falta pouco. Como voc sabe, eles explodiram a lancha e o casal morreu. Voltamos ao Brasil, ele herdou 
toda a fortuna. Sempre que eu pretendia deix-lo ele ameaava a vida de Gabriel. Com isso acorrentou-me at agora.
        - Acabou, Maria Jlia. Voc est livre. Deve contar na justia toda a verdade. Voc tem sofrido muito.
        - Meu pai no me importa mais. Agora tenho medo do julgamento de meus filhos. O que pensaro de mim quando souberem a verdade? Gabriel no vai aceitar eu 
ter ocultado todo esse tempo que ele no  filho de Jos Lus.
        - Ele vai ficar aliviado quando souber. Nunca pensou nisso?
        - Pensei, algumas vezes. Ele nunca gostou de Jos Lus. Alis, Jos Lus nunca se interessou em ser como um pai de verdade para ele. Dizia sempre que quando 
olhava para Gabriel lembrava-se de meu amor pelo outro. Gabriel  muito parecido com o pai. Agora que est moo, tem o mesmo sorriso, os mesmos olhos, at o jeito 
 igual. Isso fez com que Jos Lus sempre o odiasse.
        - Por que no lhe conta tudo? Ele tem direito de saber.
        - Tenho medo de sua reao. Laura tambm me preocupa. Ela sempre foi diferente do irmo. Vaidosa, intolerante, mimada. O pai fazia-lhe todas as vontades. 
Est sendo difcil para ela aceitar a verdade. Tinha uma impresso do pai muito diferente. Est sofrendo bastante.
        - Iluso  sinnimo de sofrimento. Talvez ela estivesse necessitando aprender os verdadeiros valores da vida. No lamente a desiluso que ela est tendo 
agora. Ela precisa deixar de ser a criana mimada e crescer. Esse crescimento traz lucidez, mas tem o preo da experincia. Lembre-se de que a vida sabe o que faz 
e trabalha pelo melhor.
        - Ela  to jovem! Gostaria de poup-la!
        - No vai conseguir. A vida deseja o contrrio. Quer que ela experimente, escolha, descubra, perceba, desenvolva, fortalea-se. Ela  um esprito, cheio 
de fora e potencial, dentro de um processo prprio e intransfervel de aprimoramento natural. Deve saber que tentar impedir esse processo  agir contra a vida, 
e isso s causa sofrimento. Seu amor deve contribuir para que ela se sinta mais forte, mais capaz, mais firme, mais confiante.
        - Sei o que quer dizer. Farei o possvel para isso.
        - O primeiro passo  dizer a seus filhos a verdade. Colocar seus sentimentos, abrir seu corao a eles. Garanto que no tem nada a temer. A sinceridade, 
a verdade tm mais fora do que tudo. Acredite.
        - No sei. Tenho medo. Vou pensar.
        - Pense. Pea a Deus foras para fazer o que for melhor. Quando as duas saram do quarto, Maria Jlia estava mais calma, seu
        rosto distendido. Embora plida, havia perdido a inquietao. Foram para o ch, mas todos, com exceo de Laura, notaram que a dona da casa estava melhor.
        
        
Captulo 25
        
        Daniel olhou o carto que a secretria lhe dera e perguntou:
        - Dr. Guilherme Gouveia. Est a fora?
        - Est.
        Ficou calado durante alguns segundos pensando. O que um brilhante e famoso advogado, diplomata respeitado de famlia muito importante, desejava dele?
        - Mande-o entrar imediatamente.
        Em seguida Elza introduziu na sala um homem alto, elegante, bonito, aparentando cinqenta anos. Daniel levantou-se para receb-lo.
        - Doutor Gouveia! Prazer em receb-lo.
        Depois dos cumprimentos, ele se acomodou na poltrona em frente  escrivaninha de Daniel, que se sentou tambm e esperou que ele falasse.
        -  um prazer estar aqui com voc. Tenho acompanhado o rumoroso caso que vocs esto defendendo com muito interesse. H uma semana cheguei ao Brasil. Estava 
como adido da embaixada brasileira em Bruxelas nos ltimos dois anos.
        - O senhor tem prestado inmeros servios ao Brasil. Temos acompanhado sua brilhante carreira.  preciso disposio para estar sempre fora do pas.
        - Desta vez pretendo ficar mais por aqui. Meu filho mais velho est radicado em Nova York e minha filha, na Frana. Casaram-se e no dependem mais de mim. 
Estou com saudade de nossa terra e um pouco cansado de viajar.
        -  uma boa notcia. Em que posso ser-lhe til?
        - Vim inteirar-me dos detalhes do processo do Dr. Jos Lus Camargo de Melo. O julgamento j foi marcado?
        - Sim. Ser no prximo dia dezoito. Temos apenas mais alguns dias. Por isso  que este escritrio est to movimentado. A imprensa no d sossego e para 
trabalhar precisamos de calma. Por isso estamos dificultando o acesso.
        - Entendo. Tenho lido o noticirio, nem sempre claro. Quero saber tudo a respeito desse caso.
        Daniel remexeu-se na cadeira indeciso. Apesar de ter diante de si uma pessoa importante, sua tica falou mais alto e tornou:
        - Qual  seu interesse no caso? Estaria representando o ru?
        - Absolutamente. Dou-lhe minha palavra de honra que pretendo ajudar a esclarecer plenamente o assunto. E de vital importncia para mim conhecer certos detalhes 
desse processo.
        - Poderia ser mais claro?
        - H muitos anos conheci o Dr. Jos Lus e sua esposa. Tenho motivos muito srios que me fizeram vir at aqui. Para ser mais sincero, foi por causa desse 
caso que resolvi voltar ao Brasil. Volto a dizer. Pode confiar em mim. Dou-lhe minha palavra de que estou aqui para colaborar com vocs.
        - Nesse caso, vou coloc-lo a par de tudo.
        Daniel relatou como conhecera Alberto, o desenvolvimento do caso que culminou na priso de Jos Lus e finalizou:
        - D. Maria Jlia tem sido uma vtima em tudo isso. Mas est difcil provar que ela no foi cmplice deles. Esse  o ponto crucial que estamos tentando resolver 
agora. A culpa de Jos Lus e dos demais est provada. Eleutria, Bris, Pola confessaram o suficiente para serem condenados. Mas Jos Lus insiste em declarar que 
a esposa era cmplice, e os outros confirmam. Estamos querendo impedir essa injustia. O prprio Marcelo testemunhou a favor dela contando como foi protegido e sustentado 
por ela. Est difcil entender por que, sabendo de tudo, ela se calou durante tanto tempo, usufruindo da fortuna. Esse fato tem sido explorado pela imprensa, sempre 
voltada  idia de atacar os ricos em defesa dos pobres.
        - Ela nunca disse por que se calou?
        - Alega que teve medo. Mas isso no serve de prova na justia.
        - Talvez o marido a tenha ameaado.
        - Foi o que ele fez. Mas quem acreditar nisso? Ela viveu ao lado dele todos esses anos, freqentou a alta sociedade sempre aparentando viver muito feliz. 
Eles eram at apontados como o casal modelo. E o que diz o promotor agora. De fato, no posso negar que essa era a imagem deles at h pouco tempo.
        - Acha que ela ser condenada?
        - Receio que sim. Embora com atenuantes no caso de Marcelo, h os outros crimes.
        - Vim procur-lo porque preciso encontrar-me com ela.
        - Desculpe. No entendi. O que disse?
        - Preciso encontrar-me com ela. Tentei falar-lhe, mas no quis atender-me.
        - Ela tem vivido reclusa. No fala com ningum.
        -  urgente que nos encontremos. Por isso vim procur-lo. Como seu advogado, penso que poder arranjar isso.
        - Posso tentar. Poderia esclarecer-me o que pretende com isso?
        - Ajudar. Mas preciso conversar com ela. Esclarecer algumas coisas. Convenc-la a se defender. Tenho impresso de que ela est pretendendo punir-se de alguma 
forma.
        - Sei o que quer dizer. Tambm j tive essa impresso. Guilherme levantou-se, curvou-se para a frente, apoiando-se na mesa, olhou-o firme nos olhos e pediu:
        - Por favor. Arranje um encontro a ss com ela. Se no quiser me receber em sua casa, iremos a qualquer outro lugar. Faa isso e serei grato pelo resto da 
vida.
        Impressionado, Daniel respondeu:
        - Vou tentar.
        - No temos tempo a perder. O julgamento ser dentro de alguns dias.
        - Falarei com ela hoje  noite.
        - Agora.
        - Agora?
        - Sim. E urgente.
        - Deixe-me pensar. Ter que ser a ss?
        - Ela no vai querer falar comigo diante dos filhos. Tem que ser a ss.
        - No pode me adiantar o assunto? O que me pede pode desgost-la. Vamos fazer o seguinte: vou ligar para ela agora e passar o telefone a voc. Posso?
        - Est bem.
        Daniel discou e mandou chamar Maria Jlia. Quando ela atendeu, ele disse:
        - D. Maria Jlia? Tem uma pessoa aqui que deseja muito conversar com a senhora.
        - Quem ?
        - Algum que deseja ajud-la. Fale com ele. Guilherme pegou o telefone e disse:
        - Sou eu, Maria Jlia, Guilherme. Voltei ao Brasil assim que soube de tudo. Quero falar com voc.
        - No posso! - respondeu ela emocionada. - O que quer de mim?
        - Esclarecer algumas coisas. Por favor. No me negue esse consolo.
        - Por que me procurou depois de tanto tempo? Ningum pode saber o que aconteceu no passado.
        - S quero conversar com voc. Seus filhos no precisam saber.
        Daniel guardar segredo. No pode me negar isso.
        - Tenho medo!
        - Farei o que disser. Tenho que falar com voc hoje.
        - No sei como. Meus filhos esto aqui. No me deixam sozinha.
        - Fale com Daniel. Ele vai dar um jeito. Passou o telefone a ele dizendo baixinho:
        - Ela aceitar se puder livrar-se dos filhos. Daniel apanhou o telefone e resolveu:
        - Vou cuidar desse assunto. Daqui a pouco voltarei a ligar. Vocs precisam se encontrar.
        Daniel sentou-se pensativo. De repente lembrou-se de tia Josefa. Imediatamente ligou para ela e explicou o que estava acontecendo.
        - Deixe comigo. Vou ligar para Maria Jlia e avisar que irei busc-la dentro de meia hora. Vocs vm para c e quem chegar primeiro espera.
        - Est bem, tia. Obrigado.
        - Estou contente em colaborar. Ele desligou e disse:
        - Tudo resolvido. Daqui a meia hora iremos a casa de minha tia, que est indo busc-la. Voc conseguiu.
        Guilherme deixou-se cair na cadeira aliviado.
        - Voc no avalia o bem que nos fez.
        - Tenho interesse em libertar D. Maria Jlia. Sei que  inocente. Depois, tanto ela quanto seu filho Gabriel ajudaram-nos muito desde o comeo, revelando 
um desprendimento admirvel. Chegaram a nos surpreender pelo interesse em fazer justia mesmo sabendo que alm de perderem dinheiro passariam pelo descrdito pblico.
        - Gabriel sabia de tudo?
        - No. Quando o escndalo estourou pela imprensa, ele desconfiou e a me acabou confessando tudo. Ele nunca se deu bem com o pai. Posso entender. So completamente 
diferentes. Enquanto um  criminoso e interesseiro, o outro  honesto e desprendido.
        Guilherme ficou silencioso por alguns segundos, depois disse:
        - Voc acha que Gabriel  um bom rapaz, apesar da convivncia com o pai?
        - Tenho certeza.  um moo de princpios e muito valoroso. Por isso eu e Rubinho nos empenhamos em defend-los, para que no sofram
        mais do que esto sofrendo. Para dizer a verdade, ele nem parece filho de Jos Lus.
        Daniel notou que os olhos de Guilherme brilharam comovidos. Ele baixou a cabea tentando encobrir a emoo. Daniel no se conteve:
        - Seu interesse por esse caso, o fato de D. Maria Jlia receb-lo e tudo o mais est me fazendo pensar que ainda no sei o suficiente. H alguma coisa a 
mais. Pode dizer-me o que ?
        - Ainda no. Espero que Maria Jlia concorde, e ento vocs sabero de tudo.
        - Devo lembrar-lhe que como advogado dela preciso estar informado de tudo.
        - Concordo. Se no pensasse assim, no teria vindo. Deixe-me falar com ela primeiro, depois voltaremos ao assunto.
        Quando Daniel e Guilherme chegaram em casa de Josefa, ela ainda no havia voltado. Foram introduzidos na sala pela criada, que, orientada, serviu-lhes caf 
com biscoitos.
        Quinze minutos depois as duas chegaram. Maria Jlia plida e nervosa. Depois dos cumprimentos, Josefa conduziu-os ao escritrio e deixou-os a ss, sentando-se 
com Daniel na sala para conversar.
        Assim que se viu sozinho com ela, Guilherme disse comovido:
        - Quanto tempo! Lamento o que est acontecendo. Durante todo este tempo pensei que voc estivesse feliz e que Jos Lus fosse um homem de bem. Por que nunca 
se comunicou comigo? No sabe como vivi atormentado este tempo todo.
        - Eu no queria envolv-lo em mais problemas.
        - Tentei algumas vezes v-la,  distncia acompanhava suas notcias nas colunas sociais. Consolava-me pensando que, apesar de todo o mal que eu lhe causara, 
voc conseguira vencer e ser feliz.
        - Minha felicidade era de aparncia. Uma mscara que eu usava para encobrir a verdade. Agora nem isso tenho mais.
        - Engana-se. Tem seus filhos, tem a mim, que voltei para tentar ajud-la.
        - Ningum pode me ajudar. Estou envolvida demais. Jos Lus me acusa e no tenho como defender-me.
        - Diga a verdade. Conte por que agentou todas as maldades dele sem reagir.
        Maria Jlia tremia nervosa, seu corao disparava e ela no conseguia controlar-se.
        - No posso. Meus filhos ignoram tudo. J esto desiludidos com o pai. O que ser deles quando souberem que eu tenho mentido todo esse tempo? O que pensaro 
de eu ter me casado carregando no ventre o filho de outro homem?
        - Entendero por que voc se submeteu s exigncias de seu marido. No compreende que essa  a sua defesa diante das acusaes que vem sofrendo? Voc precisa 
dizer a verdade.
        - No tenho coragem. Profiro morrer.
        - No permita que a falsa moral que a fez suportar uma situao terrvel todos esses anos continue a vitim-la. Voc sempre foi uma mulher de bem, apesar 
do que houve entre ns. Assim que li nos jornais o que estava acontecendo, deixei tudo e voltei decidido a ajud-la. Embora no conhecendo detalhes do caso, tinha 
a certeza de que voc nunca teria sido cmplice de seu marido. Nem por um momento acreditei em sua culpa. A conversa que mantive com o Dr. Daniel mostrou-me que 
estava certo. Ele me disse que est difcil explicar por que voc ficou calada todo este tempo. Eu sei o motivo.
        - Sabe?
        - Sei. Gabriel. Nosso filho. No foi por isso que se calou? Maria Jlia no conteve as lgrimas. Guilherme segurou a mo dela e continuou:
        - Esse canalha deve ter ameaado voc. Ela fez que sim com a cabea.
        - Por que suportou tudo sozinha e nunca me procurou? Eu a teria defendido.
        - Tive medo. No queria prejudic-lo. Voc  um diplomata e, depois, tem famlia. Eu no tinha o direito de envolv-lo.
        - Agora voc precisa contar a verdade no tribunal. Dizer por que se calou.  a maior prova de sua inocncia.
        - No posso. Vo querer saber tudo, voc ser envolvido. J pensou o escndalo? Sua carreira ir por gua abaixo. E sua famlia me odiar. No. No vou fazer 
isso.
        - Pois eu vou. Estou disposto a depor em juzo e a contar tudo.
        - No faa isso!
        - Fao. H muito me desiludi com a carreira. Estou cansado da hipocrisia dos polticos, dos governos de aparncia que se permitem a todas as falcatruas, 
desde que nada venha a pblico. No me importa mais o julgamento das pessoas maldosas que vivem julgando as pessoas para tentar fingir que so melhores. O que conta 
agora para mim, Maria Jlia,  a minha felicidade, a paz de minha conscincia.
        - Voc pensa assim, mas e sua mulher? E seus filhos? Eles sofrero.
        - Minha mulher morreu h cinco anos. Meus filhos casaram-se e vivem em outro pas. Mas ainda que eles estivessem aqui eu faria o que estou pretendendo. Sinto 
dentro de mim a vontade de ser verdadeiro, de limpar minha alma, de fazer o que meu corao sente. Eu preciso apagar um pouco a lembrana do mal que lhe causei, 
enganando-a.
        Mana Jlia j no tentava conter as lgrimas que desciam por suas faces. Ele continuou:
        - Eu a amava muito. Desde o primeiro dia que a vi, apaixonei-me perdidamente. Meu casamento com Isaura obedeceu mais  escolha da famlia em um tempo em 
que eu no sabia o que era amor. Ela foi companheira de infncia. Eu gostava dela, mas amor eu s vim a conhecer quando vi voc. Sabia que se dissesse que era comprometido 
voc nunca me aceitaria. Por isso a enganei. Estava louco. Queria ficar com voc para sempre. Insisti para que fugisse comigo. Mas voc no quis e eu no tinha foras 
para deix-la.
        - Para que recordar agora todo o nosso sofrimento? Chega!
        - Nunca pude dizer-lhe como me senti depois de nossa separao. Meu pai descobriu que eu estava apaixonado por voc e providenciou para que eu fosse mandado 
para longe. Eu havia ingressado na carreira diplomtica, que sempre fora o sonho dele. Fui embora com a famlia pensando que ficaria fora dois meses. Entretanto, 
eles foram me segurando fora. Quando voltei, soube que havia se casado com Jos Lus.
        - Depois que voc viajou, ele foi protelando o aborto dizendo que eu precisava tomar alguns medicamentos preventivos. Finalmente se recusou a fazer o que 
prometera alegando que era tarde demais e que o beb tinha que nascer. Fiquei apavorada por causa de meu pai. Hoje agradeo a Deus por no termos feito isso. Meu 
filho  meu tesouro. Mas naquele tempo s pensava em papai. Ento ele se ofereceu para casar-se comigo e dizer que era o pai de meu filho. Mesmo sem amor, aceitei. 
Pareceu-me a nica sada.
        - Ele me mandou uma carta dizendo que vocs haviam descoberto que se amavam e que iriam casar-se. Que eu nunca mais a procurasse, porque voc no me queria 
mais.
        - Eu nunca o amei. Tambm no pensava em procur-lo. Estava disposta a renunciar a seu amor. No concordaria jamais em ser apenas sua amante, prejudicando 
sua mulher e seus filhos.
        - Sofri muito por isso. Mas concordei em me afastar de seu caminho. Acreditei no que ele disse naquela carta. Senti que no tinha o direito de prejudicar 
mais sua vida. Confesso que foi difcil aceitar isso. E at hoje, quando penso, sinto enorme tristeza. Nunca deixei de amar voc, Maria Jlia. Esse amor ainda aquece 
meu corao. Foi ele que me fez regressar e  por ele que desejo lutar daqui para a frente.
        - Agora  tarde, Guilherme. Apesar de tudo, ainda estou presa a Jos Lus.
        -  uma questo de tempo. S uma coisa me interessa. Se disser que ainda resta em seu corao um pouco daquele sentimento que nos uniu um dia, no medirei 
esforos para conquistar o direito de vivermos juntos para sempre. Diga que no me esqueceu. Diga que ainda gosta de mim.
        Maria Jlia levantou o rosto lavado em lgrimas e olhando-o nos olhos disse emocionada:
        - Esse amor tem sido meu alimento nesta vida. Nos momentos difceis que tenho vivido, s a lembrana daquele tempo a seu lado me dava foras para suportar 
a realidade de minha vida.
        Guilherme no se conteve. Tomando a mo dela, f-la levantar-se, abraou-a e beijou-a nos lbios. A princpio delicadamente, depois com paixo.
        Maria Jlia esqueceu tudo. Nos braos de Guilherme, entregou-se quele sentimento h tanto tempo reprimido que tomava conta de seu ser ansioso por libertar-se.
        Quando se acalmaram, Guilherme disse baixinho:
        - No se entregue, Maria Jlia. Lute e permita que eu a ajude a libertar-se desse pesadelo. Juntos seremos fortes e venceremos. Ainda temos muitos anos pela 
frente. Podemos ser felizes.
        - E meus filhos? O que lhes direi?
        - A verdade. S a verdade. Eles entendero.
        - Tenho medo.
        - No precisa. Tenho aprendido que a verdade  mais forte do que :udo. Quero que conte a verdade a Gabriel. Ele precisa saber que sou seu pai. Pretendo reconhec-lo 
como filho legtimo e oferecer-lhe meu nome c dividir com ele minha fortuna.
        - E seus filhos? Eles podem no gostar.
        - Farei o que acho direito, doa a quem doer. Entretanto meus filhos esto bem de vida e tm fortuna prpria. Tm cabea aberta e muito bom senso. Estou certo 
de que vo nos apoiar. Mas mesmo que no concordassem eu o faria. Estou disposto a no fazer mais nada contra o que considero verdadeiro e justo. Quem no gostar, 
pacincia.  assim que quero viver daqui para a frente e conquistar a paz de minha conscincia.
        Os dois continuaram conversando durante mais algum tempo. Quando eles finalmente saram do escritrio, Maria Jlia parecia outra pessoa. Seu rosto conservava 
vestgios das emoes que vivera, mas sua expresso era mais relaxada e em seus olhos havia um brilho novo, de vida e de fora.
        Josefa f-los sentar e serviu-lhes ch com biscoitos. Foi Guilherme quem falou primeiro.
        - Obrigado por sua hospitalidade. Serei eternamente grato a vocs por haverem nos proporcionado este encontro. Temos muito que conversar. Voc fala ou eu?
        Maria Jlia respondeu:
        - Josefa j conhece nossa histria. Tem sido minha confidente. Fale voc. Daniel precisa saber.
        Guilherme relatou tudo quanto acontecera entre eles e finalizou:
        - Como eu previa, Maria Jlia viveu a vida toda chantageada por Jos Lus. Ele ameaava a vida de Gabriel.
        Maria Jlia completou:
        - Eu sabia que ele havia assassinado o prprio tio, os primos, tentara matar Marcelo sem nenhum remorso. No duvidava que ele seria capaz de cumprir o que 
dizia. Todos haviam morrido mesmo, quem lucraria com minha confisso? Preferi preservar a vida de meu filho.
        - Como a senhora deve ter sofrido! - disse Daniel admirado.
        - Estou disposto a testemunhar em juzo e contar a verdade - disse Guilherme. - Faria isso de qualquer forma, ainda que minha mulher estivesse viva. Mas 
ela morreu. Estou livre. Eu e Maria Jlia nunca deixamos de nos amar. Queremos ficar juntos para sempre. Estou disposto a fazer tudo que for preciso para isso. Se 
conseguir legalmente, bom. Seno, iremos para outro pas onde h divorcio e nos casaremos l. Temos o direito  felicidade e vamos lutar por ela.
        Josefa levantou-se e abraou Maria Jlia com entusiasmo:
        - Isso mesmo! Sinto-me feliz por saber disso. Vocs merecem a felicidade.
        - Estou pensando em meus filhos. Laura no vai aceitar.
        - Laura  jovem. Logo encontrar algum e seguir seu prprio caminho. Voc no est fazendo nada errado. Seu marido ser condenado. Mas mesmo que ele estivesse 
livre voc no voltaria para ele depois do que ele lhe fez. Nenhuma lei do mundo a obrigaria a isso. Laura ter que compreender. Se fizer isso, ser beneficiada. 
Poder viver em um lar feliz e ter a proteo e o carinho de vocs at dar um rumo  sua vida. No prejudique sua felicidade por causa dela. Voc j foi muito prejudicada 
e tem todo o direito de ser feliz. Se ela no puder entender isso ainda, a vida ter meios de ensinar-lhe o que lhe falta aprender. Um dia ela compreender.
        - Tem razo, tia.
        - Ainda assim, tenho medo. Guilherme  um diplomata. No posso permitir que se envolva em um escndalo desses. Arrasaria sua carreira!
        Guilherme abraou-a dizendo emocionado:
        - A carreira no conseguiu me devolver a felicidade. As viagens foram pretextos para fugir do Brasil e para no ver voc ao lado de outro homem. Eu imaginava 
que voc o amava e que eram felizes. Isso me entristecia e eu mergulhava mais no trabalho, na esperana de esquecer. Agora que sei a verdade, que reencontrei voc, 
que descobri que sempre me amou, no vou perder a chance de ser feliz. Saiba que, acontea o que acontecer, estarei a seu lado. Nunca mais a deixarei. Isso  tudo 
que eu quero da vida. O resto no importa.
        Maria Jlia quis responder, mas no encontrou palavras. Seus olhos encheram-se de lgrimas e seus lbios tremiam de emoo. Daniel no se conteve:
        - Um amor como o de vocs tem fora. Tenho certeza de que conseguiro tudo que desejam. Estamos aqui para ajudar no que for possvel.
        - Quero testemunhar no processo - disse Guilherme com voz firme. - Vocs, como advogados, devem me orientar.
        - No precisa. Basta contar os fatos - disse Daniel.
        - A verdade tem muita fora - completou Josefa. - Sempre  o melhor caminho.
        Maria Jlia passou as mos pelos cabelos dizendo inquieta:
        - Como contar tudo a Gabriel? Como dizer-lhe que o enganei durante toda a sua vida mesmo sabendo que ele no se dava bem com Jos Lus?E Laura?
        Josefa tomou a mo de Maria Jlia dizendo com voz firme:
        - Essa  uma coisa que ter que fazer.
        - Tenho medo.
        - E hora de posicionar-se. De conversar com seus filhos sobre seus verdadeiros sentimentos. Essa  a base de uma confiana mtua que deve existir entre pessoas 
que se amam e que desejam manter um bom relacionamento. No tenha medo de falar de tudo que vai em seu corao. De seu amor da juventude, de suas fraquezas, de seus 
medos e de sua infelicidade. Deixe-os conhecer sua intimidade. Abra sua alma para que eles sintam todo o amor que tem por eles. Se fizer isso, ir se surpreender.
        - Vou tentar.
        - Isso - concordou Josefa. - Uma atitude sincera, franca, agora vai dar-lhes mais segurana. Eles a conhecero como voc  de fato e isso os far sentir-se 
mais confiantes, apesar dos problemas que esto enfrentando. Percebero que a felicidade que pensavam possuir era falsa e que, fatalmente, um dia teriam que descobrir 
isso.
        - Voc acha mesmo?
        - Acho, Maria Jlia.
        - Poderia ir comigo falar com eles?
        - Poderia. Entretanto minha presena poder constrang-los.  melhor falar com eles sozinha.
        Maria Jlia colocou a outra mo sobre a que Josefa segurava e pediu:
        - Reze por mim. O que me pede  um ato muito penoso. Apesar disso, sinto que preciso fazer. No d mais para esperar.
        - Isso mesmo. Estarei rezando por voc. Agora vamos. Vou acompanh-la de volta a casa.
        - Por favor, Maria Jlia. Assim que falar com eles, ligue para mim. Estarei esperando ansioso. Gostaria de estar a seu lado nessa hora, mas sinto que essa 
conversa precisa ser s voc com eles.
        - Ainda bem que entende, Guilherme. Tenho que prepar-los para conhecer voc. No tenho idia de como vo receber essa notcia. Principalmente Laura. Ela 
 muito revoltada. Admirava o pai. Vai ser difcil aceitar.
        - Talvez no. Faa sua parte, que a vida far o resto - disse Josefa com um sorriso.
        Saram juntos. Enquanto Josefa com seu motorista levava Maria Jlia de volta, Daniel conduziu Guilherme de novo ao escritrio.
        Rubinho havia chegado e Daniel apresentou o diplomata, informando que ele iria depor no processo. Diante da histria que Guilherme lhe contou, Rubinho ficou 
radiante:
        - Finalmente encontramos o meio de libertar D. Maria Jlia. Uma histria de amor como essa colocar do nosso lado toda a opinio pblica. As mulheres, principalmente, 
vo se colocar ao lado da me que sofreu calada para proteger a vida do filho! At que enfim temos o motivo pelo qual ela se calou durante toda a vida!
        -  verdade - concordou Guilherme. - Nem eu sabia o que ela estava sofrendo. Sabia que Gabriel era meu filho, mas pensava que eles
        fossem uma famlia unida e que Gabriel havia encontrado em Jos Lus o pai que eu no pudera ser. Nunca os procurei porque no queria atrapalhar sua felicidade. 
Carregava no corao muita culpa pela infelicidade que havia provocado, no queria prejudic-los mais.
        - Qualquer pessoa teria feito o que fez. Como poderia suspeitar a verdade? Eles eram tidos como o casal modelo na sociedade - comentou Rubinho.
        - Se por um lado eu sentia cime, por outro me conformava pensando que eles haviam encontrado a paz. Quando li sobre o escndalo nos jornais, fiquei desesperado. 
Mas s depois, quando percebi que ela estava sendo acusada de cumplicidade, foi que resolvi voltar.
        - Sua presena ser de grande ajuda no caso dela - disse Daniel. - Sua coragem de enfrentar tudo e permitir que sua vida ntima venha  tona  admirvel.
        - Eu amo essa mulher! Sempre a amei. Saber que ela me ama deu-me foras para enfrentar qualquer desafio. Ns ainda seremos felizes, tenho certeza.
        Depois que ele se foi, Daniel ficou pensativo.
        - O que foi? Est calado.
        - Pensando na fora do amor. Puxa, o que ele faz com as pessoas.
        - E mesmo. Eu faria qualquer coisa por Marilda. E voc, o que faria por Ldia?
        - Tenho medo de pensar. A cada dia que passa me sinto mais preso a ela. Tenho a impresso de que agora j no d mais para tentar escapar.
        Rubinho riu alegre e respondeu:
        - Ns j marcamos o casamento. E voc?
        - Ainda no sei. Depois que tudo isto acabar, veremos.
        - O julgamento est marcado para o dia dezoito. Depois da sentena, tudo estar acabado.
        - Parece mentira que conseguimos desvendar tudo isso.
        - s vezes penso que tivemos muita ajuda espiritual. Voc com seus sonhos, as sesses em casa de D. Josefa. H momentos em que me parece que estamos apenas 
sendo instrumento das foras superiores. Nunca pensou nisso?
        - J. Tia Josefa acha que estava na hora de a verdade aparecer. Mas diz que nosso trabalho foi fundamental para que tudo se concretizasse. Se ns no tivssemos 
aceitado a causa, talvez eles no pudessem fazer o que pretendiam.
        - Por isso voc sonhou que precisava aceitar esse trabalho.
        - Eu ia dizer no. O sonho mudou minha vontade. Ainda agora a presena desse diplomata disposto a defender D. Maria Jlia fez-me pensar.
        - Em qu?
        - No merecimento que ela tem. Quem poderia imaginar uma coisa dessas?
        - Concordo.
        
        Josefa deixou Maria Jlia em casa e despediu-se dizendo:
        - Coragem. Estarei rezando por voc.
        Ela foi direto para seu quarto, sentou-se na poltrona e pensou nas palavras de Josefa. Durante o trajeto de volta ela lhe mostrara o quanto Deus havia sido 
bondoso com ela, ajudando-a sempre que precisava. Primeiro, tirando-a da tirania paterna, depois libertando-a do marido, e, num momento decisivo e difcil, trazendo 
de volta o amor de sua vida, disposto a lutar por ela e dar-lhe a felicidade.
        Josefa tinha razo. Nessa hora ela precisava confiar em Deus. Ele a estava ajudando e protegendo. Queria que seus filhos usufrussem dessa proteo e pudessem 
refazer suas vidas. Guilherme tinha dito que se ela desejasse, depois que tudo se resolvesse, eles iriam para outro pas, onde havia leis para o divrcio e para 
outro casamento. Tanto poderiam continuar vivendo l como voltar ao Brasil. Ele faria tudo como ela e seus filhos quisessem.
        Maria Jlia fechou os olhos e rezou. Agradeceu a Deus a proteo que tivera e pediu que lhe desse foras para contar toda a verdade aos filhos. Ao terminar, 
respirou fundo e sentiu-se aliviada.
        Chamou os filhos a seu quarto para essa conversa. Eles obedeceram imediatamente.
        - Sente-se melhor, mame? - indagou Gabriel.
        - Sim. Estou bem. Sentem-se aqui, a meu lado. Eles se acomodaram e ela continuou:
        - Chamei-os porque precisamos conversar. Tudo que tem acontecido ultimamente tem-nos perturbado e feito sofrer. Para vocs deve ter sido terrvel descobrir 
os fatos dolorosos de nosso passado.
        - Me, ainda duvido que papai tenha cometido tudo que dizem.
        - Infelizmente, Laura, ele o fez. Voc  sua filha, sempre teve dele uma imagem boa e eu sinto ter que lhe dizer a verdade. Eu me calei esses anos todos 
porque nunca pensei que Marcelo pudesse descobrir tudo e voltar para nos pedir contas.
        - Quer dizer que voc foi cmplice dele em tudo isso? Como pode concordar com uma coisa dessas?
        - Eu nunca concordei, filha. Fiz o que pude para salvar Marcelo e o consegui. S Deus sabe como foi difcil e o medo que passei. Mas eu tambm tinha um filho 
pequeno e repugnava-me saber que pensavam em matar aquele menino.
        - Me, no precisa dizer nada - tornou Gabriel. - Isso a faz sofrer. Sabemos de tudo. No se atormente mais.
        - No, meu filho. Ainda no sabem de tudo. E sobre isso que desejo lhes falar. Minha vida tem sido at agora um amontoado de mentiras. Tenho sido covarde, 
nunca tive coragem para lhes contar o que ia em meu corao, por que e como me casei com Jos Lus. O que vou lhes dizer agora  o segredo que tenho guardado durante 
tanto tempo mas que no d mais para segurar. Desejo abrir meu corao a vocs, dizer toda a verdade, lavar minha alma. Desnudar meus sentimentos mais ntimos para 
que me vejam tal qual sou. Apenas uma mulher que amou muito e que tem sofrido todos esses anos.
        - Sempre desconfiei de que havia alguma coisa que a fazia temer Bris e papai. Vrias vezes senti que eles a ameaavam.
        - E verdade, meu filho. A vida inteira vivi ameaada. Nossa histria comeou quando eu tinha dezessete anos.
        Maria Jlia, olhos fixos no passado, com voz pausada porm firme que a emoo por vezes dificultava, foi relatando todos os acontecimentos de seu passado. 
A medida que ela falava, Gabriel foi se emocionando, pressentindo que suas palavras tinham a ver com ele. Segurou a mo dela com fora e, sem desviar o olhar, esperava 
ansioso que ela conclusse.
        Laura sentia as lgrimas descerem por suas faces. Nunca lhe passara pela cabea que aquela mulher que sempre vira bem-posta, calma, controlada, havia passado 
por todas aquelas emoes, e parecia-lhe estar vendo-a pela primeira vez.
        Em silncio, esperaram que ela acabasse:
        - Por isso me calei durante toda a vida - finalizou ela. - Eles ameaavam a vida de Gabriel e eu sabia que eles diziam a verdade. Eu os conhecia. Vira como 
eles haviam planejado todos aqueles crimes. Eu mesma muitas vezes pensei que eles poderiam me matar. Acho que ele nunca fez porque tinha uma fixao por mim. Era 
como uma obsesso. Queria conquistar meu amor a qualquer preo. Precisava de mais essa vitria. Como nunca conseguiu, no desistia.
        Os dois a abraaram com fora e misturaram suas lgrimas. Gabriel sentia um n na garganta e no conseguia falar. Ficaram assim, abraados, durante alguns 
minutos. Quando se acalmaram, Maria Jlia continuou:
        - Eu queria poupar vocs. Entretanto foi intil. A vida tem seus prprios caminhos. Espero que me perdoem. Eu amo vocs. Preciso de seu amor.
        - Me, voc sempre foi generosa e amiga. Deu-nos tudo e foi at o sacrifcio para nos preservar. S lamento que no tenha me contado a verdade antes. Se 
tivesse feito isso, talvez tivssemos encontrado uma soluo para acabar com seu sofrimento.
        - Eu temia que no entendessem. Pretendia ficar calada pelo resto da vida. Nunca iria revelar esse segredo, a no ser que Jos Lus cumprisse a ameaa que 
me fez de que, se fosse preso, contaria tudo. Todavia, hoje aconteceu algo que me fez mudar de idia.
        Maria Jlia levantou a cabea e olhou-os por alguns segundos em silncio. Depois continuou:
        - Daniel me telefonou e disse que o Dr. Guilherme Gouveia insistia em falar comigo pessoalmente.
        - O diplomata? - indagou Gabriel admirado.
        - Ele mesmo. Conversamos e Josefa veio buscar-me para um encontro em sua casa.
        - Me, por que ele a procurou? O que ele tem a ver conosco? - indagou Gabriel apertando as mos dela com fora.
        - Porque ele foi o amor de toda a minha vida. Depois daquele tempo, nunca mais nos encontramos. Pretende testemunhar a meu favor. Contar por que me calei 
durante esse tempo todo.
        - Me... quer dizer que ele...  meu verdadeiro pai??!
        - , meu filho. Ele pretende contar tudo em juzo e reconhec-lo como filho legtimo.
        Gabriel no se conteve:
        - Me, ele tem famlia. No ser um pouco tarde essa atitude?
        - No, meu filho. Ele nunca nos procurou porque pensou que ramos felizes. No desejava nos prejudicar. Acompanhava nossa vida  distncia, pelas notcias 
sociais. Quando soube pelos jornais do que aconteceu, voltou ao Brasil disposto a me ajudar. Entendeu logo por que eu me calara. Seus dois filhos casaram-se, moram 
no exterior. Sua esposa morreu h alguns anos. Ele est sozinho e nossos sentimentos ainda so os mesmo?. Ele pensa em retomar nossa vida, desta vez de maneira limpa. 
Acredita que serei absolvida. Depois que tudo acabar, quer se casar comigo, no exterior,  claro. Aqui no h divrcio. Estou contando tudo a vocs como aconteceu. 
No vou decidir nada sem ouvi-los a respeito.
        Laura olhava-a emudecida pela surpresa. No sabia o que responder. Era-lhe difcil pensar em sua me casada com outro homem. Gabriel, emocionado, no conseguia 
concatenar os pensamentos.
        Maria Jlia abraou-os dizendo:
        - O importante  ter vocs a meu lado.
        - J pensou no que vai fazer? - indagou Gabriel. - Vai aceitar seu pedido?
        - No sei ainda, meu filho. Neste momento vocs so mais importantes do que tudo para mim. Nada farei que possa desgost-los.
        - Voc ainda gosta dele? - indagou Laura.
        - Nunca esqueci esse amor. Entretanto, para ser sincera, foi h muito tempo. Eu mudei, tudo mudou. No sei se poderia retomar esse sentimento. Estou confusa 
e atormentada. Nem sequer sei se conseguirei sair livre de toda essa sujeira. A pobreza me assusta por causa de vocs. No momento no tenho como tomar nenhuma deciso.
        - Ele vai mesmo testemunhar a seu favor? - indagou Gabriel.
        - Vai. Eu no queria.  um diplomata respeitado, admirado. Tem livros publicados,  famoso. Esse depoimento vai arruinar sua carreira. Mas ele insiste, e 
Daniel, que estava conosco,  de opinio que, se ele contar nosso segredo, serei absolvida.
        - Ele deve sentir-se culpado - disse Gabriel. - Por causa dele voc acabou se casando com uma pessoa que no amava e viveu todo esse drama. Ele no merece 
o respeito que usufrui. Diz que a amava, mas enganou-a, iludiu-a. Usou de m-f. Voc era inexperiente e confiante. Depois do que fez, ainda queria que voc abortasse.
        - No diga isso, meu filho. No o culpo. Ns nos apaixonamos perdidamente. Ele nunca quis um aborto. Ao contrrio, queria fugir comigo. Eu no quis. Tive 
medo de papai. Depois, repugnava-me faz-lo abandonar a famlia. Ele tinha dois filhos. Est muito arrependido do que fez; mas eu, no. Apesar de tudo, a lembrana 
daqueles momentos de amor que vivenciamos juntos tem me dado foras para suportar toda a frustrao que tem sido minha vida. Eles continuam vivos em minha mente. 
Nunca esquecerei.
        Gabriel baixou a cabea sem saber o que dizer. Ele se lembrou da noite em que levou Lanira para o barco e da experincia inesquecvel que tinha vivido.
        - Gostaria que entendessem que nos deixamos levar pelas emoes e nos envolvemos sem pensar nas conseqncias e pagamos um preo muito alto por nossa fraqueza. 
Ele teve medo de dizer que era casado e eu de assumir a verdade perante a famlia. Assim, acabamos por piorar a situao. Ele cumpriu at o fim a sua responsabilidade 
para com a esposa e os filhos, e eu tentei fazer o mesmo. Ele conseguiu, mas eu no tive a mesma sorte.
        - Voc no podia saber o que eles iriam fazer - disse Gabriel.
        - Se papai no tivesse cometido tantas loucuras, tudo estaria bem agora. Talvez at voc tivesse aprendido a gostar dele - disse Laura com voz triste.
        Maria Jlia abraou-a comovida:
        - Tem razo, minha filha. Quando Jos Lus me pediu em casamento, disse que me amava e que seria um bom pai para meu filho. Acreditei. Ele era um mdico, 
bonito, jovem, agradvel. Achei que seu amor estava sendo sublime a ponto de me aceitar grvida de outro homem. Acreditei que todos os problemas estavam resolvidos. 
Tinha certeza de que conseguiria am-lo. Infelizmente, no foi o que aconteceu.
        - Porqu?-indagou Laura.
        Maria Jlia olhou-a nos olhos e respondeu sria:
        - Ele  seu pai, e o que vou dizer no  agradvel. Mas estou disposta a dizer a verdade. Nunca mais quero ter segredos para vocs.
        - Fale, me. Queremos saber tudo - pediu Gabriel.
        - Voc j sabe, meu filho. Seu pai tinha um gnio difcil. Possessivo, ciumento. Casou comigo mas nunca aceitou de fato a situao. Tinha raiva de voc porque 
o achava parecido com o verdadeiro pai.
        - Pelo que sei, era Gabriel que no gostava dele - interveio Laura.
        - Quando era beb, vrias vezes surpreendi-o dizendo palavras rancorosas e voc chorava. Algumas vezes eu desconfiei at que ele o beliscava. Quando ficou 
maiorzinho, comeou a fugir dele e os criados comearam a notar. Ento ele passou a rode-lo de atenes, mas eu sabia que era s diante dos outros. Por isso nunca 
o deixava a ss com ele.
        - Eu sentia a repulsa dele. Nunca me senti bem em sua presena.
        - Me, custo a crer. Meu pai  um monstro!
        - Prefiro pensar que ele seja um neurtico, um psicopata. Gostaria de no ter que lhe dizer tudo isso, minha filha, mas sinto que no posso mais segurar.
        - Agora j posso entender melhor o que est acontecendo. Para mim papai sempre foi calmo, controlado. Era respeitado por todos, e mesmo voc
        sempre me pareceu feliz ao lado dele. Nada disso era verdade. Estvamos vivendo uma situao falsa. Vocs colocaram no rosto uma mscara atrs da qual escondiam 
seus verdadeiros sentimentos. Diante do que falou de meu pai, de seu temperamento, posso acreditar que tudo quanto dizem dele  verdade. Ele nunca foi quem eu pensava 
que fosse.
        Laura soluava e tanto Maria Jlia quanto Gabriel abraaram-na em silncio. Quando ela finalmente parou, Maria Jlia tornou:
        - Obrigada por terem me ouvido. Espero que me perdoem e continuem me amando apesar de. tudo. S isso me importa.
        - Me, no me sinto em condies de julgar nada - disse Gabriel emocionado. - Sempre amei voc e sempre vou amar. Acontea o que acontecer, estarei do seu 
lado.
        - Eu tambm, me - tornou Laura. - Nunca esquecerei este momento. Admiro sua coragem e seu desprendimento abrindo seu corao, contando-nos a verdade. Fico 
triste em pensar que papai cometeu tantos erros, mas reconheo que precisa assumir sua responsabilidade por eles.
        - Obrigada, meus filhos. Infelizmente, depois do que aconteceu, seu pai no pode ficar em liberdade. Est descontrolado e pode fazer coisa pior.
        - Apesar de tudo, me, no desejo abandon-lo. E meu pai. Se puder fazer alguma coisa para ajud-lo, eu farei.
        - Compreendo, filha.
        - Ele no pode ficar em liberdade, Laura. Voc ouviu o que mame falou - disse Gabriel. - Se ele sair da cadeia, vai tentar alguma coisa contra ela.
        - Depois de tudo, tenho certeza de que ele ficar preso. Vou ficar do seu lado e de mame, mas repito: se puder ajudar papai de alguma forma, eu o farei.
        - Faa o que seu corao quer.  a maneira mais certa de viver. Ter sempre meu apoio. Agora vamos para a copa, vocs precisam comer alguma coisa.
        Quando saram do quarto abraados, Maria Jlia sentia-se aliviada. A conversa fizera-lhe muito bem. Reconheceu que h muito tempo no se sentia to leve. 
Satisfeita, percebeu que tanto Gabriel quanto Laura tambm pareciam estar melhor.
        
        
Captulo 26
        
        Depois desse dia os acontecimentos precipitaram-se. O julgamento de Jos Lus movimentou a sociedade. No se falava em outra coisa. Depois da leitura do 
processo, que demorou dois dias, comearam os depoimentos.
        Alberto emocionou a todos contando sua histria. Jos Lus, ereto, mantendo na fisionomia um ar de indiferena, de vez em quando olhava para seus cmplices, 
sentados a seu lado, como se no os visse. Depois foi a vez de Bris, que tentou impressionar colocando-se na posio de vtima, dizendo-se chantageado pelo patro.
        Seu depoimento foi impiedoso. Jogou sobre Jos Lus toda a responsabilidade pelos crimes cometidos. Pressionado por Rubinho, que com inteligncia foi interrogando-o, 
acabou contando como Jos Lus envenenou o tio aos poucos e de que forma eles provocaram o "acidente" que matou os pais de Marcelo.
        Antunes disse que era inocente. Que ajudara Bris a intimidar Marcelo por ser amigo da famlia de Jos Lus. Que no pretendiam fazer nenhum mal ao moo.
        Estarrecidos, os presentes tomaram conhecimento de toda a trama. Ficou clara a ambio de Eleutria e de Pola, e principalmente a crueldade de Jos Lus.
        Quando chegou sua vez de prestar depoimento, Jos Lus tentou justificar-se dizendo que o Dr. Camargo havia roubado a fortuna do irmo, que era seu pai, 
deixando toda a sua famlia na misria. Ele queria desforra. Disse que foi sua esposa, Maria Jlia, quem deu a idia de trocar a identidade de Marcelo. Mais tarde, 
ela o ajudou a planejar o resto. Falou que ela o apoiava e que o aconselhara a fugir quando tudo foi descoberto.
        Durante todo o tempo lanava olhares para Maria Jlia, que, plida, estava sentada ao lado dos filhos no banco reservado s testemunhas.
        Foi ento que, para surpresa geral, Daniel chamou o Dr. Guilherme Gouveia para depor. Ele entrou no recinto e todos os olhares voltaram-se para ele. Jos 
Lus empalideceu ainda mais e trincou os dentes com raiva. De onde sara seu rival?
        Depois do juramento, Rubinho aproximou-se e pediu para a testemunha dizer ao tribunal por que resolvera pedir para depor.
        Com olhar emocionado porm firme, Guilherme comeou:
        - Vim para evitar que se cometa uma injustia. Sei que Maria Jlia  inocente dos crimes que foram cometidos contra os Camargo.
        - Como  que sabe? - indagou Rubinho.
        - Porque a conheo muito bem. Sei que ela nunca iria concordar com nada disso. Trata-se de uma mulher ntegra, que tem sido vtima da maldade do marido a 
vida inteira.
        - Em que se baseia sua afirmao?
        - Eu sei por que ela ficou calada durante todo esse tempo. Eu sei por que ela nunca revelou  polcia as falcatruas desses assassinos.
        - Na verdade - considerou Rubinho -, desde que tomamos conhecimento dos fatos, temos feito essa pergunta. Se ela no foi cmplice, por que no procurou a 
justia para contar o que sabia?
        - Ela estava sendo ameaada no que tem de mais sagrado. Na pessoa de seu filho!
        Um "oh!!" ecoou na platia e o juiz pediu silncio vrias vezes. Quando conseguiu, deu ordem para Rubinho prosseguir.
        - Pode nos esclarecer melhor?
        - Posso. Para isso terei que voltar no tempo e contar a histria de minha vida.
        Guilherme, com voz comovida, comeou a relatar todos os fatos do passado. Maria Jlia emocionada deixava que as lgrimas descessem por suas faces. Gabriel 
segurava a mo da me para dar-lhe coragem, mas tambm, vendo a dignidade daquele homem permitindo que todos invadissem sua intimidade, conhecessem seus sentimentos, 
soubessem de suas fraquezas, no conseguiu reter as lgrimas.
        Laura ouvia entre a tristeza e a curiosidade. Horrorizada com tudo que escutara naquele tribunal, no podia deixar de comparar os dois homens. Seu pai tentara 
destruir sua me, arrast-la com ele na queda, revelando uma maldade e um egosmo que ela era forada a reconhecer. O outro, para defend-la, no se importara em 
destruir sua carreira com o escndalo, interessado apenas em limpar sua conscincia e salvar a mulher que amava.
        Naquele instante Laura entendeu por que sua me amara aquele homem e nunca conseguira amar seu pai. A verdade doa, mas apesar de tudo ela sentia que precisava 
ficar do lado da me, que j havia sofrido mui' to e merecia encontrar a paz.
        Guilherme continuava relatando o passado com voz emocionada. As mulheres presentes choravam discretamente enquanto os homens pigarreavam de vez em quando 
tentando dissimular a emoo. Ele finalizou:
        - Eu no poderia ficar calado. Seja qual for o preo que terei que pagar por isso, sinto-me gratificado, aliviado por poder dizer o que vai em meu corao. 
Por poder contar que Gabriel  meu filho e que pretendo reconhec-lo diante da lei. Mas gostaria que soubesse, meu filho, que, mesmo distante todos esses anos, voc 
sempre esteve dentro de meu corao. Acompanhei  distncia, pelas colunas sociais, todas as notcias a seu respeito, tentando assim afogar a saudade e a vontade 
de me aproximar, de abra-lo e dizer-lhe que sou seu pai. Nunca os procurei porque no quis perturbar sua felicidade. Eu no sabia nada do que estava acontecendo 
aqui. S espero que, quando tudo isto acabar, voc possa me perdoar, aceitar e compreender.
        Fez ligeira pausa e prosseguiu:
        - Depois que voltei ao Brasil, procurei os advogados de Marcelo e tomei conhecimento dos detalhes, entendi tudo. Meu filho sempre teve a vida ameaada por 
Jos Lus. Essa era a arma que ele usava para coagir a esposa a ficar calada e a suportar suas exigncias. Agora acabou. Maria Jlia est livre desse martrio. Tenho 
a certeza de que sair deste tribunal de cabea erguida e livre para viver sua vida com seus filhos daqui para a frente.
        Maria Jlia, abraada aos filhos, chorava, e a comoo havia tomado conta dos presentes. O juiz tomou a palavra e suspendeu os trabalhos determinando que 
seriam reiniciados s dez da manh seguinte.
        Os jornalistas saram rpido, empolgados com a histria inesperada envolvendo o diplomata. Daniel aproximou-se de Maria Jlia dizendo:
        - Foi bom o juiz encerrar por hoje. Amanh  sua vez de prestar depoimento e precisa descansar, acalmar-se, para poder agentar. Vou lev-la para casa.
        Marcelo aproximou-se de Maria Jlia, que mais controlada preparava-se para sair.
        Olharam-se emocionados. Ele tornou:
        - Sempre desejei falar com a senhora. Agradecer tudo quanto fez por mim. Sinto ter envolvido sua famlia. Mas no pude evitar.
        - Eu sei, meu filho. Voc fez o que precisava fazer.
        Ele olhou para Laura e Gabriel, que o fitavam curiosos, e continuou:
        - Lamento por vocs. No desejava que sofressem. Agradeo a Gabriel por ter-nos ajudado.  preciso muita coragem para fazer o que voc fez.
        - Apesar de tudo, estou em paz. Gostei de seu depoimento. Tentou inocentar minha me - respondeu ele.
        - Fui sincero. Se no fosse por ela, no estaria aqui.
        Maria Jlia conversava com Rubinho e Daniel, distanciara-se alguns passos deles. Laura olhou Marcelo com curiosidade e um pouco de receio:
        - Voc vai tirar nossa casa? - perguntou baixinho. Ele se sentiu embaraado e respondeu:
        - No pensei em nada ainda. Nem sei o que me caber de direito. O juiz  que vai decidir.
        Gabriel abraou Laura dizendo:
        - No se preocupe, Laura. Ns podemos trabalhar. Deixemos isso para depois.
        Maria Jlia chamou os filhos para irem embora e despediram-se de Marcelo. Gabriel olhou e viu Guilherme do outro lado da sala, olhando-os. Sentiu-se embaraado, 
teve vontade de ir embora. Maria Jlia percebeu e foi saindo acompanhada dos filhos.
        Guilherme ficou olhando e no os seguiu. Daniel aproximou-se dele dizendo:
        - Ele est ainda em estado de choque. Tenha pacincia.
        - Terei. No est sendo fcil para ele nem para a irm.
        - Para ela ser pior.
        - Concordo. Podemos ir. Seu depoimento foi excelente. Emocionou todo mundo - tornou Rubinho satisfeito.
        - Acha que conseguiremos?
        - Temos grandes probabilidades. O caso  claro. Est suficientemente provado. S ela no tinha provas a seu favor. Com seu depoimento, ela tem. Foi concludente 
- disse Rubinho.
        - Foi mesmo - concordou Daniel. - Tive que fazer enorme esforo para conter a emoo.
        - Pelo menos me sinto aliviado.  como se tivesse tirado um enorme peso de meu corao.
        - Estou louco para ler os jornais de amanh. Espero que eles no inventem nada - disse Rubinho.
        - No precisam. O que o Dr. Guilherme contou d uma matria e tanto.
        Eles saram conversando. Alberto aproximou-se de Lanira, que estava acompanhada de Maria Alice. A moa apresentara-os na entrada do tribunal.
        - Aceitariam um ch, um caf comigo? Foi Maria Alice quem respondeu:
        - Est um pouco tarde. Vamos deixar para outra ocasio.
        - Posso lev-las at em casa?
        - Obrigada - disse Lanira. - Mas nosso motorista est a fora. Ele sorriu dizendo:
        - Nesse caso estou sem argumentos. O que eu queria mesmo  estar um pouco mais com vocs.
        - Se Lanira desejar ficar, irei sozinha.
        - No, me. E tarde. Amanh teremos que voltar cedo. No que-, r^> perder nada. D. Maria Jlia vai depor.
        - Virei com voc. Quero que ela sinta que estamos do seu lado e que confiamos na justia.
        Alberto ficou pensativo por alguns instantes, depois disse:
        - E uma mulher sofrida e merece conquistar a paz. Desejo isso de corao.
        Maria Alice olhou-o e viu o brilho de uma lgrima que ele no deixou cair. No se conteve:
        - Depois de tudo que aconteceu,  nobre de sua parte desejar isso.
        - Conhecendo o passado, cheguei a invejar Gabriel. Gostaria muito de ter uma me como ela.
        - De uma certa maneira, ela  um pouco sua me tambm. Salvou-lhe a vida, sustentou-o at a maioridade. Por que no reivindica esse lugar em seu corao?
        Lanira olhou a me admirada. De onde tirara esse idia? Alberto sorriu levemente e respondeu:
        - Se ela me aceitasse, eu faria isso.
        Despediram-se combinando estar de novo l na manh seguinte.
        No outro dia, Daniel e Rubinho foram a casa de Maria Jlia bem cedo. Vendo-os, disse nervosa:
        - Estou preocupada. O que ser que vai acontecer?
        - Depois de ontem, acredito que sair absolvida - disse Daniel.
        - No sei. Tenho medo. Penso em Gabriel e Laura. Eles precisam de mim. No quero deix-los sozinhos.
        Gabriel, que vinha entrando e ouviu suas palavras, abraou-a dizendo:
        - No vai acontecer nada. Todos perceberam que voc  inocente.
        - Mesmo que no considerassem o depoimento do Dr. Guilherme, h vrias atenuantes a seu favor. O depoimento de Marcelo deixando claro que voc lhe salvou 
a vida, nossas declaraes frisando que voc nos ajudou, o prprio inqurito policial registrando sua cooperao e a de Gabriel na soluo do seqestro que resultou 
na priso de Bris e de Antunes. A forma como foi encontrada pela polcia, prisioneira de Jos Lus.
        Ele nunca faria isso com uma cmplice. Tudo soma a seu favor - esclareceu Rubinho.
        - Seu depoimento de hoje  muito importante. Repita tudo que contou na polcia. Diga a verdade, fale da dramtica fuga, inclusive que ele a acorrentou para 
que no fugisse. Lembre-se de que estar falando com o jri. Pessoas que esto tomando conhecimento dos fatos agora, ou que s leram o que saiu nos jornais, mas 
que precisam conhecer bem como tudo aconteceu para que possam dar a sentena com justia - aconselhou Daniel.
        - , D. Maria Jlia. Faa como o Dr. Guilherme. V fundo. Abra seu corao, ponha para fora tudo quanto guardou estes anos todos. Deixe que as pessoas conheam 
sua intimidade, seus sentimentos, sua viso da vida. Mostre-se tal qual . Se fizer isso, tenho certeza de que conseguir o que deseja - acentuou Rubinho.
        - Isso, me - concordou Gabriel. - A mulher que eles imaginam que voc seja  falsa. A imprensa, os culpados, tudo que eles disseram a seu respeito, nada 
disso  voc. Deixe que todos conheam-na como . Isso ser o bastante para que a absolvam.
        - Est bem. Vou tentar.
        - Quando se sentar l para depor - continuou Daniel -, quando colocar a mo sobre o livro sagrado para jurar dizer a verdade, pea a ajuda de Deus em pensamento. 
Chame os espritos amigos para dar-lhe foras. Depois, esquea o lugar onde est. Entre no fundo de seu corao, de suas lembranas, e conte tudo do seu jeito. No 
omita nenhum detalhe, por pequeno que seja.
        - Est bem. A nossa vida j est devassada, e no adianta querer preservar alguma coisa.
        - Est devassada mas de maneira errada em muitos aspectos - lembrou Rubinho.
        - . Eles contaram tudo como quiseram o tempo todo. At Jos Lus fez seu jogo. Agora chegou minha vez. Vou dar a minha verso.
        Laura, que entrara e ouvira parte da conversa, interveio:
        - Depois de ontem, acho que no falta mais nada.
        - Engana-se, minha filha. Eu nunca disse a ningum como vivi todos esses anos. Tenho certeza de que posso acrescentar algumas coisas.
        Maria Alice levantou cedo, vestiu-se e estava tomando o caf da manh quando Antnio desceu e vendo-a disse admirado:
        - Vai sair?
        - Vou.
        - No me diga que vai quele julgamento.
        - Vou.
        - Melhor faria se no defendesse aquela famlia degenerada. J viu os jornais da manh?
        - No, mas imagino o que est l.
        - Quem imaginaria que aquele sonso do Guilherme Gouveia estivesse metido nessa histria srdida?
        - O Dr. Guilherme  um homem de bem. Seu depoimento ontem foi maravilhoso. Comoveu a todos ns.
        - O que ele fez foi um ultraje. Onde j se viu? Um diplomata em exerccio, envolver-se nesse escndalo. Garanto que vai se arrepender. Estou pensando em 
exigir que ele seja expulso do Itamarati.
        Maria Alice indignou-se. Olhou o marido nos olhos e disse irritada:
        - Quem  voc para fazer isso? Que moral tem para atirar pedras em um homem decente como ele? Logo voc que desfila por todos os lados com a amante que sustenta 
no luxo  custa do dinheiro pblico! No tem vergonha nessa sua cara?
        Antnio estremeceu. Seu rosto cobriu-se de intenso rubor. Apanhado de surpresa, no encontrou palavras para responder. Maria Alice olhou para ele e disse 
com voz calma:
        - No seja tolo de levantar a lebre. O tiro pode sair pela culatra. Havendo se recuperado do susto, ele conseguiu dizer:
        - O que est dizendo? Enlouqueceu? O melhor  ir embora, voc est intratvel. No d para conversar.
        Lanira ia entrando para tomar caf e perguntou:
        - O que foi, me? Ele estava furioso.
        - Nada de mais. Quis procurar l e saiu tosquiado.
        Lanira sorriu e no respondeu. Sabia que as coisas no estavam bem entre eles. Tratou de tomar caf, porque j estava quase na hora de sair.
        Quando o juiz reabriu a sesso do jri, s dez em ponto, todos estavam sentados em seus lugares. Os jornais da manh haviam publicado as declaraes de Guilherme 
e foi preciso conter os curiosos que acorreram ao tribunal querendo assistir ao julgamento.
        Depois das formalidades habituais, finalmente Maria Jlia foi chamada a depor. A solenidade do lugar, o olhar das pessoas que a fitavam com curiosidade, 
os filhos que de onde estavam controlavam a prpria ansiedade, tudo isso impressionou-a. Sentiu-se nervosa. Quando colocou a mo sobre a bblia para fazer o juramento, 
lembrou-se das palavras de Daniel e endereou um veemente pedido a Deus para que a ajudasse naquele decisivo momento.
        Quando se sentou, estava mais calma. Daniel comeou a interrog-la pedindo-lhe que relatasse tudo quanto aconteceu. Maria Jlia sentiu que uma fora nova 
apoderou-se dela. Esqueceu o lugar onde estava, as pessoas, a importncia do momento, voltou no tempo e viu-se aos dezessete anos, quando se apaixonou por Guilherme.
        Seu rosto modificou-se e ela comeou a contar, com voz que a emoo modulava, todos os acontecimentos. Seu amor por Guilherme, a entrega, a descoberta da 
gravidez.
        As pessoas ouviam-na sustendo a respirao, envolvidas pela magia daquela mulher bonita e cheia de classe que relembrava o grande amor de sua juventude. 
Ningum ousava interromper a narrativa, e ela, perdida no oceano de suas lembranas mais ntimas, desnudava seus sentimentos, seus medos, sua ansiedade, seu desejo 
de felicidade.
        Depois, sua desiluso. A descoberta terrvel do carter do homem que se tornara seu marido. De suas tentativas de salvar Marcelo, de conseguir contar tudo 
 famlia dele e de como sofreu por no haver conseguido.
        Depois, a mscara que foi forada a vestir para obedecer quele homem vaidoso, que se escondia sob o verniz social mas que na intimidade era violento e cruel.
        Ela contou tudo com detalhes. De vez em quando fazia pequena pausa e tomava um pouco da gua que Daniel colocara a seu lado.
        Quando ela falou da fuga, de como fora obrigada a segui-lo, levantou um clamor de indignao na assistncia que obrigou o juiz a pedir insistentemente silncio.
        Ela disse que ele pretendia viajar para Roma, mas, percebendo que na sala de embarque havia dois conhecidos, resolveu tomar outro vo. Assim chegaram ao 
Paraguai.
        Quando ela contou que finalmente a polcia apareceu e a libertou, houve um murmrio de alvio no recinto. Ela finalizou:
        - No guardo rancor de Jos Lus. Foi ele quem evitou que eu em meu desespero fizesse um aborto e permitiu que meu filho vivesse. Sempre lhe serei grata 
por isso, mas nunca mais quero v-lo. Desejo que ele um dia tome conscincia de todo o mal que fez, que se arrependa e que possa mudar sua maneira de ser. Quanto 
a mim, a nica coisa que espero da vida agora  poder viver em paz com meus filhos, se Deus permitir.
        - Obrigado, D. Maria Jlia - disse Daniel.
        O juiz perguntou se os advogados de defesa desejavam interrogar a testemunha. Nenhum deles quis, o que irritou Jos Lus, que esperava que pelo menos o seu 
se levantasse para questionar tudo quanto ela dissera.
        Depois de os peritos apresentarem em juzo algumas provas, a corrente com a qual Maria Jlia havia sido presa, os documentos falsificados, o dinheiro apreendido 
com ele na fuga, etc, Rubinho tomou a palavra e comeou a fazer as acusaes contra os assassinos. Falou da crueldade do mdico, que jurara curar mas que se tornara 
um assassino da prpria famlia. Arrancou lgrimas da platia e dos jurados, falando do sofrimento do Dr. Camargo, dos pais de Marcelo julgando-o morto. Comoveu. 
Foi uma pea brilhante de acusao.
        Depois foi a vez do advogado de defesa de Bris e seus comparsas. Disse que eles haviam cometido todos esses crimes pressionados por Jos Lus, que os explorava. 
Disse que estavam arrependidos e pediu um abrandamento de pena.
        O advogado de defesa de Jos Lus falou pouco. Disse que o ru cometeu esses crimes inspirado pela paixo que sentia pela esposa. Pediu clemncia sem muita 
convico.
        Finalmente levantou-se Daniel como advogado de defesa de Maria Jlia. Tanto Maria Alice quanto Lanira, vendo-o de toga, bonito, digno em sua postura elegante, 
tendo no olhar um brilho que elas nunca haviam percebido nele, emocionaram-se.
        Maria Jlia sentiu o corao descompassar. Pediu a Deus que o ajudasse naquela hora.
        Daniel falou do amor de me, incondicional e eterno. Da luta daquela mulher que tudo suportou para proteger o filho. Discorreu com fluncia sobre a infelicidade 
que se abateu sobre seus dois filhos, jovens inocentes de todos aqueles crimes, tendo que sofrer as conseqncias dos erros do pai. Salientou que eles precisavam 
mais do que nunca da me dali para a frente, e comoveu os jurados quando disse:
        - Eu peo que seja feita justia. Esta mulher j sofreu demais sem ter cometido crime algum. Mesmo rodeada de malfeitores da pior espcie, conservou a dignidade, 
fez o que pde para evitar que eles cometessem mais crimes. Salvou a. vida de Marcelo duas vezes: quando ele era criana e agora, h poucos meses, quando o seqestraram. 
Sim, foi ela e seu filho Gabriel que ajudaram a polcia a localizar e prender os seqestradores. Por causa disso, sofreu no cativeiro, acorrentada, com ameaa constante 
de morte. Ningum mais do que ela merece daqui para a frente estar de paz com seus filhos. Peo sua completa e total absolvio. Senhoras e senhores, tenho certeza 
de que lhe faro justia.
        Os jurados se retiraram para deliberar, e o juiz interrompeu a sesso, avisando que seria reaberta assim que eles tiverem chegado ao veredito.
        Daniel e Rubinho foram cumprimentados pela brilhante atuao. Maria Alice, Josefa, Lanira reuniram-se a Maria Jlia, abraando-a com carinho e dizendo-lhe 
palavras de conforto e apoio. Quando conseguiram escapar dos demais, Daniel e Rubinho juntaram-se ao grupo.
        Maria Alice abraou o.filho com olhos brilhantes, dizendo:
        - Voc me comoveu! Nunca pensei que pudesse ser to brilhante! Sinto-me orgulhosa e feliz. Tenho certeza de que escolheu o caminho certo.
        - Obrigado, me. Eu sempre soube que queria fazer o que fiz hoje. Sinto que esse  meu caminho.
        Marilda e Ldia aproximaram-se para cumpriment-los. Vendo-as, Daniel abraou-as com prazer:
        - Nunca esquecerei o brilho de seus olhos nem sua dignidade na brilhante defesa que fez - disse Ldia emocionada. - Voc nasceu predestinado a defender o 
Direito e fazer valer a justia.
        - A causa  nobre. Defender uma pessoa inocente  gratificante.
        - Tenho certeza de que se ela fosse culpada voc no a teria defendido - respondeu ela.
        - No mesmo.
        - Um advogado deve defender seu cliente mesmo que seja culpado - lembrou Marilda, que ainda abraada a Rubinho ouvira a conversa.
        - No eu. No encaro assim. Para defender uma causa ou uma pessoa, preciso acreditar que estou fazendo um bem. S essa certeza pode me dar fora e argumentos 
para vencer.
        - Eu tinha certeza que voc diria isso. Eu sei que voc  um advogado de Deus! - disse Ldia. E percebendo que a olhavam admirados, concluiu: - Quem defende 
o bem e a verdadeira justia no est sendo um instrumento dele?
        Todos concordaram. Maria Alice olhava-os curiosa e Daniel apresentou-as  me.
        - Quanto tempo pensa que vai demorar para sair a sentena? - perguntou Lanira.
        Ela estava um pouco preocupada com a presena de Marcelo e Gabriel juntos ali. Ambos a olhavam como que tentando descobrir como  que ela iria dividir sua 
ateno entre eles. Foi Rubinho quem respondeu:
        - No sei. Eles podem demorar o tempo que quiserem.
        - Quando a deciso  unnime, sai mais depressa. Quando h dvida, demora mais. Em todo caso, penso que vo demorar algumas horas. H muitas pessoas envolvidas 
e todas tero que ser julgadas - esclareceu Daniel.
        - Acha aconselhvel esperar aqui? - indagou Maria Alice.
        - Vocs podem ir, se quiserem. Ns precisamos ficar. Temos que estar presentes quando formos chamados - respondeu Daniel.
        - O que faremos? - perguntou Maria Alice a Lanira.
        - Penso que podemos ir almoar. H um bom restaurante perto daqui - sugeriu Alberto.
        Maria Jlia no quis e os dois advogados convidaram-na a passar para uma sala de espera, onde ficariam mais  vontade. L havia gua e caf. Eles tambm 
preferiam no sair dali. Estava difcil segurar a ansiedade.
        Alberto insistiu com Lanira, Gabriel e Laura para irem comer, e Maria Jlia insistiu para que fossem. Tanto fez que finalmente concordaram.
        Lanira sentiu-se um pouco constrangida entre os dois rapazes. Tentou dar mais ateno a Laura. Isso colocou os dois moos mais prximos. Eles estavam pouco 
 vontade. Lanira notou, e assim que se instalaram no restaurante tentou contornar:
        - Vamos dar uma trgua s nossas preocupaes. Nada podemos fazer com relao ao que est acontecendo naquela sala do tribunal agora.
        - No consigo pensar em outra coisa - tornou Laura.
        -  difcil - concordou Gabriel.
        - No , no - respondeu Lanira. - Vamos fazer de conta que estamos passeando em seu barco. Tudo est bem, o dia  lindo, o mar est calmo e vamos almoar.
        Gabriel suspirou fundo e considerou:
        - Como seria bom se pudssemos estar l e se nada disso estivesse acontecendo.
        - Que tipo de barco voc tem? - perguntou Alberto. Gabriel olhou-o e hesitou em responder. Laura no se conteve:
        - Est pensando em tirar o barco de Gabriel?
        Alberto olhou-a surpreendido. Seus olhos brilhavam quando ele pousou a mo na dela que estava sobre a mesa e respondeu:
        - O que  isso, menina? O que acha que estou fazendo aqui? Um inventrio de bens para saber qual  o montante de minha fortuna?
        - Ela no quis dizer isso... - interveio Lanira tentando suavizar a situao.
        - Quis, sim. Ela acha que sou um aventureiro que apareceu de repente para lhes tirar todos os bens. Fique sabendo que s quero o que me pertence de direito. 
No tenho inteno de tirar nada de ningum. Voc precisa perceber que sua postura orgulhosa e altiva no vai ajud-la em nada daqui para a frente.
        Gabriel mordeu os lbios e considerou:
        - Laura ainda no aceitou a nova situao. Desculpe, garanto que no temos inteno de ofender. Voc tem todo o direito  herana de sua famlia.
        -  difcil de repente voc saber que est pobre, que o nome de sua famlia no vale mais nada - disse Laura devagar, pensando em cada palavra. - Fiquei 
insegura. Meu pai era para mim a segurana. Descobri que no posso mais esperar nada dele. Tenho medo. No sei o que ir nos acontecer daqui para a frente. E se 
mame tambm for presa? Ficaremos sozinhos. Nossa famlia ter acabado.
        Gabriel ia responder, mas Alberto segurou a mo de Laura com fora e falou primeiro:
        - Est enganada, Laura. Voc ama sua me, seu irmo e at seu pai. Sei que ama. Essa  a garantia de que, acontea o que acontecer, nada poder separ-los. 
Estaro sempre em seu corao. Veja: eu perdi todos os parentes. Sozinho, tenho enfrentado no s o mundo mas tambm minha solido, minha tristeza por tudo quanto 
nos aconteceu. Mas apoiado no amor que sinto por meu av, na certeza de que ele estava comigo, consegui chegar onde estou. Venci no s os inimigos de nossa famlia, 
mas venci o mundo, seus perigos, suas armadilhas e, o que  mais difcil, venci meus medos. No pense que foi fcil. Mas posso garantir a voc, depois de tudo, que 
essa luta desenvolveu minha fora. Hoje no tenho mais medo de nada. Estou certo de que quando voc prefere o caminho reto, quando tem dignidade, respeito pela vida, 
escolhe viver no bem, tudo no universo trabalha a seu favor. O nico temor que voc pode ter  o de se deixar envolver pelas iluses, pelo orgulho, pelas armadilhas 
da vaidade. O nico perigo que a ameaa de fato no vem de mim nem ningum, mas de voc mesma, da maneira como voc olha e enfrenta os desafios de sua vida. Agora 
 o momento de usar sua fora e conquistar seu lugar. No perca esta oportunidade; aprenda com ela e cresa de verdade. Essa vitria ningum lhe poder tirar.
        Gabriel olhava-o admirado e Lanira sentiu-se mais aliviada. Laura baixou a cabea sem saber o que responder. Sem largar a mo dela que segurava, ele continuou:
        - Apesar da tragdia que nos envolveu, vocs so meus nicos parentes vivos. Ao aproximar-me de vocs, tive apenas a inteno de conhec-los, de dar oportunidade 
a que me conheam tambm, descobrir se podemos nos tornar amigos. Tenho me sentido s. Estou vencendo uma causa na qual dediquei toda a minha vida. Finalmente conheo 
minha origem, sei meu nome, sou algum. Mas no tenho com quem dividir essa alegria. Quem me dera ter uma me como a de vocs para abraar.
        Laura estremeceu, levantou os olhos e encarou Alberto. Sentiu que ele estava sendo sincero e sentiu vergonha. Ele estava sendo mais digno e generoso do que 
ela. Naquele momento, alguma coisa tocou seu corao e ela apertou a mo que segurava a sua dizendo com sincera emoo:
        - Desculpe, Marcelo. Tenho sido injusta com voc. Perdoe-me. Ele sorriu e largou a mo dela dizendo:
        - No tenho nada contra voc. Vamos pedir a comida, que estou morrendo de fome.
        Eles riram e a partir daquele momento comearam a conversar com naturalidade. Gabriel falou de sua paixo pelo barco. Marcelo o crivou de perguntas, j que 
no entendia nada do assunto. Depois foi sua vez de falar de sua vida na Inglaterra, dos costumes e da grandeza daquele povo que aprendera a admirar.
        A conversa decorreu agradvel e Lanira ficou alegre percebendo que a tenso entre eles diminura. Laura de vez em quando ficava pensativa e Lanira notou 
que ela disfaradamente observava Marcelo como querendo descobrir mais a respeito dele.
        Quando voltaram ao tribunal, passava das quatro e no havia ainda nenhuma novidade. Fazia trs horas que os jurados estavam reunidos deliberando.
        Rubinho mandara comprar alguns lanches e refrigerantes, e, apesar da tenso, eles conversavam tentando distrair Maria Jlia. Maria Alice aproveitou para 
conversar mais com Marilda e Ldia, e Daniel percebeu que ela sabia de seu interesse por Ldia e tentava conhec-la melhor.
        Finalmente bateram na porta para avisar que a sesso seria reiniciada dentro de quinze minutos. Em silncio, corao batendo forte, todos se dirigiram para 
a sala do jri.
        Guilherme estava l, olhar ansioso que ia de Maria Jlia a Gabriel. Ficara do lado de fora da sala onde eles estavam. Naquele momento difcil de incerteza, 
no queria impor sua presena. Queria apenas que eles percebessem que estava ali, apoiando-os, pronto para fazer o que pudesse a favor deles.
        Maria Jlia olhou para ele e seus olhos se encontraram. Queria correr para ele, aninhar-se em seus braos protetores at que aquele instante acabasse. Porm 
no teve coragem. Mas seus olhos disseram tudo que ela sentia e bastou esse pequeno sinal para que se entendessem.
        Depois das formalidades, o juiz leu o veredicto do jri. Jos Lus foi considerado culpado e condenado a noventa anos de priso. Os cmplices todos foram 
julgados culpados sem atenuantes e condenado^- Bris, Pola e Eleutria, trinta anos cada um. Antunes foi inocentado da participao nos outros crimes, mas plo seqestro 
pegou quinze anos de recluso. Quanto a Maria Jlia, foi considerada uma vtima do marido e absolvida de todos aqueles crimes.
        Ao ser pronunciada a sentena, um grito de dio quebrou a solenidade do momento.
        - Bandidos, canalhas, traidores! Vocs me pagam. Vou me vingar. Acabar com um por um.
        Antes que sassem da surpresa, Jos Lus de um salto agarrou Rubinho vibrando violento murro em seu rosto. Imediatamente os policiais saltaram sobre ele, 
que se debatia e gritava sem parar:
        - Voc no me venceu, seu moleque maldito! Nem voc, mulher traidora. Vou acabar com vocs. Ningum vai me vencer. Eu sou mais forte, mais inteligente, mais 
rico.
        A fora de Jos Lus parecia duplicada. Os guardas finalmente conseguiram imobiliz-lo no cho enquanto o juiz solicitava que o mantivessem seguro.
        Com as mos algemadas nas costas, as pernas amarradas e alguns homens segurando-o, Jos Lus no se assemelhava em nada com o homem altivo e desafiador que 
entrara no tribunal. Seus olhos pareciam querer saltar das rbitas e seu rosto se contorcia em um ricto de dio.
        Laura no se conteve e gritou:
        - Pai, no faa isso! No. Eles vo mat-lo! Por favor.
        Ela empalideceu e iria cair. Marcelo, que estava a seu lado, amparou-a tomando-a nos braos, saindo dali  procura de um mdico.
        Enquanto alguns amigos socorriam Rubinho, que se refazia do soco que levara, Maria Jlia queria sair atrs de Laura, mas a confuso que se estabeleceu no 
recinto, onde as pessoas se aglomeravam querendo ver melhor o que estava acontecendo, f-la perder o ar.
        Gabriel abraou-a tentando abrir passagem e impedindo que a empurrassem. Naquele momento um brao forte os amparou. Guilherme surgiu com dois guardas, forando 
a passagem, e segurou Maria sem ar ameaava perder os sentidos, e disse para Gabriel:
        - Rpido. Vamos ou ela vai desmaiar.
        Auxiliados pelos dois guardas, em poucos minutos eles conseguiram sair para o corredor. Guilherme continuou:
        - Vamos lev-la para aquela sala. Laura est l, sendo atendida pelo mdico.
        Foi quase carregada pelos dois que Maria Jlia se deixou conduzir. Sua cabea rodava e ela sentia que no tinha mais foras. S conseguiu balbuciar:
        - Laura. Quero ver Laura!
        - Calma. Ela est bem. Vamos cuidar de voc.
        Assim que entraram na sala, viram Laura sentada em uma cadeira amparada por Marcelo segurando um copo de gua com as mos trmulas. Vendo a me entrar amparada, 
assustou-se e quis se levantar:
        - Fique sentada. Sua me est bem. S um pouco abafada com o tumulto. O mdico vai ajud-la - disse Guilherme.
        Fizeram-na sentar-se e o mdico imediatamente a atendeu, segurando seu pulso:
        - Laura! - disse ela. - Como ela est, doutor?
        - J melhorou. No tem nada. Est s nervosa. Acalme-se. A senhora est muito debilitada. Tem se alimentado?
        Foi Gabriel quem respondeu:
        - Ela no comeu nada hoje. Estava muito tensa.
        - O que  isso, D. Maria Jlia? A senhora j ganhou essa guerra!  hora de comemorar! Vamos reagir.
        - Isso mesmo, me. Finalmente estamos livres desse pesadelo. Logo estaremos em casa e tudo ficar bem - disse Gabriel alisando com carinho os cabelos dela.
        Laura respirou fundo e tentou levantar-se, mas havia tomado um calmante e estava trmula. Marcelo amparou-a colocando sua mo em seu brao para que se apoiasse. 
Conduziu-a para perto da me. Sabia que era isso que ela queria.
        Vendo-os, Maria Jlia perguntou:
        - Est melhor, minha filha?
        Ela sentiu vontade de chorar, mas controlou-se:
        - Estou - respondeu. - Quero ir para casa. Maria Jlia olhou para o mdico e perguntou:
        - Ela j pode ir? No me parece bem ainda.
        - Pode, sim. Dei-lhe um calmante e ela precisa descansar. Seria bom mesmo que fosse repousar. Quando acordar, estar bem.
        - Eu tambm gostaria de ir embora, mas no sei se j estou liberada. Tenho que falar com Daniel. Leve Laura para casa, Gabriel. Ela precisa deitar-se.
        Ele olhou preocupado. No desejava deix-la s. Ela ainda estava muito fraca. Marcelo adiantou-se:
        - Fique com sua me, Gabriel. Levarei Laura para casa e ficarei com ela at que vocs cheguem.
        - Est bem. Obrigado.
        Maria Jlia olhou-os surpreendida. Sabia que Laura sempre se referia a Marcelo com raiva, mas, vendo-a apoiada no brao dele, no fez objeo. O que ela 
queria mesmo era afastar a filha daquele ambiente para que no visse mais nada do que estava acontecendo com o pai.
        Guilherme estava ao lado em silncio. No queria impor sua presena valendo-se de uma circunstncia conturbada como aquela. Mas estava pronto a intervir 
se fosse preciso.
        Eles se foram e aos poucos Maria Jlia foi se acalmando. Quando Daniel entrou na sala acompanhado por Lanira e Maria Alice, ela j estava melhor. Eles a 
abraaram com carinho.
        - Laura est bem - informou ela. - Marcelo levou-a para casa. Tomou um calmante e precisa descansar.
        O mdico, que se aproximara, interveio:
        - A senhora precisa se alimentar. O Dr. Gouveia j mandou buscar um lanche e a senhora vai comer agora.
        - Ela no est precisando de um calmante? - indagou Maria Alice, preocupada.
        - Se ela tomar um agora, fraca como est, ficar pior. Precisa  de um estimulante. Vai comer e depois est liberada. Quero ver a cor voltar a seu rosto 
antes de ir.
        Ela hesitou e depois perguntou:
        - Jos Lus ainda est l?
        - No. Deram-lhe uma injeo calmante e levaram-no - informou Daniel.
        - Para onde?
        - No sei. H muita confuso ainda. Os jornalistas no arredam p  sua espera. Disseram que no saem sem uma entrevista sua - esclareceu Daniel.
        - No quero falar com eles.
        - Daremos um jeito de tir-la daqui sem que nos vejam - garantiu Daniel.
        - E Rubinho? Est bem?
        - Est. No se preocupe.
        - A reao de Jos Lus foi inesperada - comentou Maria Alice.
        - Ele nunca aceitou perder - disse Maria Jlia.
        - Agora ter que se conformar. No h nada que ele possa fazer - esclareceu Daniel. - Estive conversando com o advogado dele. No vai recorrer. Diante do 
que ouviu no julgamento, acha que ser intil. Jos Lus est acabado.
        O lanche chegou e Maria Jlia tomou o caf com leite que lhe foi oferecido e comeu o sanduche de presunto com queijo sob as vistas do mdico. Ela estava 
se sentindo melhor. A certeza de que estava livre, o carinho dos amigos, dos filhos, a presena de Guilherme, que mesmo em silncio a confortava, deu-lhe calma e, 
aos poucos, disposio.
        - De minha parte, est liberada - disse o mdico com satisfao. - Desejo-lhe muitas felicidades. Trabalho aqui h muitos anos. Fico feliz quando a justia 
se cumpre.
        - Podemos ir para casa? - perguntou ela a Daniel.
        - Podem. A senhora est livre.
        Ela se levantou e abraou-o com carinho:
        - Obrigada, Daniel, por tudo que fez por ns. Nunca esquecerei. Ele correspondeu ao abrao e no respondeu. Estava emocionado e satisfeito. Rubinho entrou 
acompanhado de Marilda e Ldia. Garantiu que estava bem. Informou que Jos Lus fora retirado do local fora de si. Apesar da injeo calmante, continuava com a voz 
pastosa e insegura, acusando a todos e jurando vingana.
        Maria Jlia despediu-se de todos com carinho. Diante de Guilherme, deteve-se olhando-o com emoo. Ele gostaria de acompanh-la at em casa, mas no se atrevia 
a sugerir. Estendeu a mo dizendo:
        - Obrigada, Guilherme. Sem seu depoimento, talvez agora eu no estivesse livre.
        Ele segurou a mo que ela lhe estendia e sem poder se conter beijou Maria Jlia delicadamente na face:
        - V com Deus e fique boa logo.
        Gabriel olhou-o nos olhos e sentiu a voz embargada. Aquele homem era seu verdadeiro pai. Como ele seria na intimidade? Sentia vontade de abra-lo, de aproximar-se 
mais, entretanto teve medo. Havia aprendido que as aparncias enganam. Ele era respeitado e querido em sociedade, mas
        Jos Lus tambm. Era melhor continuar distanciado. No queria mais uma desiluso.
        Estendeu a mo e disse srio:
        - Tambm sou grato pelo que o senhor fez. Obrigado.
        Quando eles saram, Guilherme acompanhou-os com o olhar comovido e Daniel disse-lhe baixinho:
        - Fique firme. Vai dar tudo certo. Guilherme sorriu e abraou-o:
        - . Acho que vai. Parabns pelo trabalho de vocs. Foi grande. Se eu perder meu emprego, talvez volte a advogar. Teria um lugar para mim em seu escritrio?
        - Est brincando! - respondeu Daniel alegre. - Ouviu o que ele disse, Rubinho?
        Nesse tom alegre eles se despediram, e enquanto Rubinho tentava distrair os jornalistas afirmando que Maria Jlia iria sair de uma sala do outro lado do 
corredor, Daniel despediu-se de todos e conduziu-a com Gabriel at seu carro, levando-os para casa.
        
        
        
Captulo 27
        
        Rubinho levantou a cabea surpreendido:
        - O que disse, Elza?
        - Sua me, D. Angelina, est aqui. Deseja v-lo.
        - Pea a ela para entrar.
        Fazia duas semanas que o julgamento de Jos Lus havia terminado e tanto ele quanto Daniel haviam estado muito ocupados com as providncias necessrias a 
fim de que Marcelo pudesse receber tudo a que tinha direito.
        Daniel havia sugerido a Gabriel que contratasse outro advogado para cuidar dos interesses de sua famlia, mas Maria Jlia recusou. Preferia que eles cuidassem 
de tudo e tanto Gabriel quanto Laura concordaram.
        Eles haviam procurado o Dr. Loureiro, que sempre tratara dos negcios de Jos Lus e que se mostrou muito interessado em cooperar. Queria deixar claro que 
nunca compactuara com nenhum negcio excuso de seu ex-cliente e procurou mostrar servio facilitando o que podia. Guilherme acompanhava todas as providncias, interessado 
em ajud-los.
        Haviam feito levantamento de tudo. Descobriram que ele tinha muito dinheiro no exterior e estavam tentando descobrir o nmero da conta para poder retir-lo.
        Alm disso, eles haviam se tornado advogados famosos. Estavam sendo muito procurados pela imprensa para entrevistas e novos clientes surgiam a cada dia.
        Rubinho recebeu a me com naturalidade. Ela o abraou dizendo um pouco acanhada:
        - Vim parabeniz-lo pelo sucesso. Vocs venceram!
        - Obrigado, me. Como vo as coisas l em casa?
        - Como sempre. Por que durante todo esse tempo voc nunca nos procurou?
        - No sabia se seria bem recebido.
        - No diga isso, meu filho. Afinal somos a sua famlia!
        - Vocs tambm no me procuraram. Andr, Betinho, nem mesmo voc.
        - No tive coragem. Mas sempre acompanhei o caso pelos jornais. Seu pai ficou pasmo! Quem poderia imaginar que Jos Lus seria capaz de tudo aquilo? Parecia 
to bom, to srio! E pensar que por causa disso brigamos com voc. Estou envergonhada, meu filho.
        - No se preocupe, me. Compreendo a posio de vocs.
        - No est sentido conosco? Magoado com seu pai?
        - No. Ele fez o que pensou que fosse certo. Esquea isso. No vale a pena lembrar.
        - Nesse caso voc pode voltar l para casa. Falei com seu pai, ser recebido de braos abertos.
        - Verdade? Ento por que ele no veio?
        - Sentiu-se acanhado. Sabe como . Ningum gosta de reconhecer que errou. Quando eu disse que vinha aqui pedir que voltasse para casa, ele concordou. Est 
arrependido.
        - Sei.
        - Voc vai voltar?
        - No.
        - Ento no nos perdoou. Ainda est com raiva.
        - Engana-se, me. E que eu estou muito bem. Posso cuidar de mim. No precisa preocupar-se.
        - Seu pai pode montar um grande escritrio para voc. No precisa mais trabalhar aqui.
        Rubinho olhou-a nos olhos e disse com voz firme:
        - Eu trabalho aqui porque gosto. Adoro este lugar e no pretendo me mudar. Adoro meu apartamento com Daniel e s sairei de l para me casar, o que pretendo 
fazer assim que puder.
        - Casar? Voc falou casar? Com quem?
        - Saber quando for oportuno. Pretendo enviar convites para toda a famlia.
        - E moa da sociedade? Ns a conhecemos?
        - Sabero quando receberem os convites.
        - No  justo fazer isso comigo. Casar sem contar nada. Sou sua me. Mereo ateno.
        - Nunca lhe faltei com o respeito. S que agora no sou mais criana. Tomei conta de minha vida. Sei o que quero. Espero que compreenda.
        - Pelo menos v l em casa conversar com seu pai.
        - Tenho estado muito ocupado, trabalhado bastante. No sei se terei tempo.
        - Voc no quer ir. Diga a verdade.
        - No quero mesmo, me. No sinto vontade de v-los. Nunca se interessaram por mim. Garanto que no sentem minha falta.
        - Como pode dizer isso? Ainda somos a sua famlia!
        - J disse que mandarei convite de meu casamento. Se precisarem de mim antes disso, podem me procurar. Estarei disposto a cooperar.  o que posso oferecer.
        Angelina olhou-o triste e disse:
        - Voc est diferente. No  mais o mesmo.
        - No se entristea por isso. No vale a pena. Gosto de vocs, desejo todo o bem do mundo, mas estou disposto a viver do meu jeito. Cuidar de minha vida 
como eu quero.
        - Agora que ficou famoso no quer mais saber de ns.
        - Voc est me julgando de acordo com seus prprios valores. Eu poderia dizer que vocs me querem de volta pelo mesmo motivo. Mas prefiro reconhecer que 
pensamos de maneira diferente. Peo-lhe que entenda e no se aborrea comigo. Garanto que no lhe darei motivos de tristeza.
        - Quer dizer que no vai mesmo voltar para casa?
        - No, me.
        - Nesse caso, vou embora. Se um dia se arrepender, nossa casa est aberta. Lembre-se disso.
        - No esquecerei.
        - Pelo menos v nos visitar. Sinto tanto sua falta!
        - Vamos ver.
        Angelina abraou-o, beijou-o nas faces e saiu. Rubinho sentou-se atrs da escrivaninha pensativo. Daniel entrou e ele nem notou:
        - Encontrei com sua me agora. Aconteceu alguma coisa? Voc est com uma cara...
        Rubinho levantou a cabea olhando-o srio:
        - Queria que eu voltasse para casa.
        - Era de se esperar. Afinal eles entenderam que estavam errados.
        - Eles me pediram para voltar porque vencemos. Se tivssemos perdido, nem teriam me procurado.
        - No est sendo muito duro com eles?
        - Pode ser. Mas quando a vi reticente, dizendo que papai queria me dar um escritrio de luxo se eu voltasse para casa, senti vontade de pedir que ela fosse 
embora.
        Daniel comeou a rir.
        - O que foi? - indagou Rubinho mal-humorado.
        - Queria ver sua cara nessa hora. Pelo jeito, eles ainda no entenderam nada do que fizemos.
        - Nem nunca entendero. Para eles o que vale  a fama, o nome, as aparncias.
        - Meu pai  capaz de ter alguma idia parecida. Ainda bem que mame mudou. Est to diferente! Acho que foi influncia de tia Josefa. Est mais viva, mais 
alegre.
        - Sua me  mais independente. A minha nunca far nada que ele no aprove. No tem vontade prpria. S pensa por intermdio dele.
        -  uma pena. Mas ela deve gostar muito de voc. Sempre o tratou com carinho.
        -  verdade. Eu tambm gosto dela. Mas no suporto essa dependncia. Ela se anula, no posso entender.
        - Nem eu. Talvez seja problema de educao.
        - Jonas ligou e disse que Jos Lus ainda est internado. Vive do-pado. Quando acorda, fica to furioso que quer agredir todo mundo. Ento eles colocam de 
novo a camisa de fora e o imobilizam com tranqilizante. Acha que ele vai aceitar a condenao?
        - No sei. Laura est muito deprimida e todos esto preocupados com sua sade. Est abatida, mal se alimenta. Na sesso da semana passada, tia Josefa pediu 
ajuda aos espritos.
        - Ela ainda est em estado de choque. Vai passar.  jovem. Tenho certeza de que vai reagir.
        - Espero que sim.
        O telefone tocou em casa de Maria Jlia e a criada avisou-a que era Guilherme. Ela atendeu imediatamente:
        - Como vai Laura? Melhorou?
        - Infelizmente, no. Hoje nem se alimentou. Est l, no jardim, quieta, parada. No posso v-la assim. Emagreceu. Est mais plida a cada dia. O que podemos 
fazer, Guilherme?
        - Temos que dar tempo para que ela assimile o que aconteceu. Lanira pode ajud-la.
        - Ela tem vindo visit-la, mas no tem conseguido muito.
        - Eu gostaria de ir at a. Precisamos conversar. No suporto mais ficar longe de voc. Podemos resolver nossos assuntos, viajar todos juntos para algum 
lugar onde vocs possam esquecer um pouco tudo isso.
        - Eu gostaria muito. Mas tenho medo. Acho que  cedo para que ela veja algum no lugar do pai. Pode se revoltar. No quero mago-la mais. Prefiro esperar.
        - Sinto vontade de fazer alguma coisa por vocs. No posso v-los sofrendo sem que eu possa fazer nada. Eu amo voc, Maria Jlia, amo Gabriel, quero que 
Laura aprenda a gostar de mim.
        - Eu tambm. Mas vamos esperar um pouco mais.
        Ele desligou o telefone, mas no se conformou. Ligou novamente e pediu para falar com Gabriel. Quando ele atendeu, disse:
        - Gabriel, precisamos conversar. No podemos esperar mais. Quer almoar comigo hoje?
        Gabriel hesitou, depois resolveu:
        - Est bem. Irei. Onde?
        No carro, quando se dirigia para o local do encontro, Gabriel pensava em tudo que havia acontecido. Ao descobrir sua origem, havia ficado chocado. Porm, 
depois do depoimento de Guilherme no tribunal, sentira-se aliviado. Ele no era filho de Jos Lus e sim de um homem honesto, culto, bom, que amava sua me e o amava 
tambm.
        Sabia que chegaria a hora de falar com ele, de colocar para fora todos os seus sentimentos. Tentara retardar esse momento, porm sentia que precisava enfrent-lo.
        Guilherme esperava-o na porta do restaurante. Vendo-o parar o carro, aproximou-se. Gabriel abriu a porta e ele disse:
        - Vamos conversar antes do almoo. Posso entrar?
        Gabriel assentiu. Ele entrou, sentou-se a seu lado, fechou a porta e disse com voz embargada:
        - Sempre desejei este encontro, meu filho. Agora que estamos aqui, as palavras me fogem.
        Gabriel olhou-o e sentiu que algo se quebrava dentro de seu peito. Abraou-o e, seja pela tenso dos ltimos tempos ou pela comoo do momento, comeou a 
chorar sentidamente. Abraados, misturaram suas lgrimas e ficaram assim durante certo tempo. Nenhum dos dois conseguia falar. Depois, foram se acalmando, e Gabriel 
tornou com voz emocionada:
        - No pude me conter.
        - Nem eu. Tenho esperado por esse momento toda a minha vida. S quero dizer-lhe que sempre o amei. Infelizmente, no pudemos conviver, mas nestes dias em 
que estivemos mais prximos pude avaliar como voc  nobre, bom, amoroso. Senti-me muito orgulhoso de poder dizer a todos naquele tribunal que voc  meu filho. 
Quero recuperar o tempo perdido. Amo sua me. Meu maior sonho sempre foi casar-me com ela. Podemos ir para um pas onde h divrcio e regularizar nossa unio. Sei
        que posso ser para Laura um bom amigo, proteg-la e am-la. Sua me me ama tambm. Disse que sempre me amou. Mas tem medo de desgostar vocs. Teme que Laura 
no aceite. Diga que concorda com o que estou propondo.
        - Se mame o ama, penso que tem todo o direito de ser feliz.  o que mais desejo neste mundo.
        - E voc? O que pretende fazer de sua vida?
        - Eu tranquei a matrcula na faculdade. Ainda no tomei nenhuma deciso. Teremos que devolver nossos bens a Marcelo. No sei como ficaremos financeiramente.
        - No se preocupe com isso, meu filho. Tenho bastante para todos ns vivermos com conforto. Vocs no tero nenhum problema financeiro. Quero fazer pela 
felicidade de vocs tudo que puder. Diga: o que mais deseja obter neste mundo?
        Pelo rosto de Gabriel passou um lampejo de emoo. Seus olhos brilharam e fundo suspiro saiu de seu peito.
        - O que foi? - indagou Guilherme. - Fale. O que mais deseja no mundo?
        - Ver minha famlia bem e em paz.
        - Isso eu sei. Mas voc, pessoalmente, o que o faria mais feliz? Gabriel hesitou, depois disse:
        - O amor de Lanira. Eu a amo muito. Queria viver a seu lado para sempre.
        Guilherme pensou um pouco, depois disse:
        - Ela gosta de voc?
        - Gosta. Eu sinto que gosta. Mas no aceitou meu pedido de casamento. Disse que ainda  cedo.
        - Voc aceitou essa recusa assim, sem fazer nada?
        - No achei justo continuar. Ela  moa de famlia rica, importante. Eu sabia que ficaria pobre e com o nome sujo. Afastei-me por isso.
        - Compreendo. Mas agora sua situao  outra. Voc vai ter um nome honrado para oferecer e dinheiro para dar-lhe conforto. Vou reconhec-lo como filho legtimo. 
Acha que ela no o aceitou por causa do que seu pai fez?
        - No. Ao contrrio. Disse que no estava certa se o que sentia por mim era amor de verdade. Se tivesse essa certeza, casaria comigo em qualquer circunstncia.
        - Parece ser uma boa moa.
        - Lanira  diferente de todas as que conheci. Franca, direta, sincera, sabe o que quer.
        - D para perceber que voc gosta mesmo dela.
        - Gosto. Gosto muito.
        - Nesse caso, no perca sua chance de felicidade. Trate de conquist-la. Aproxime-se dela.
        - Agora j posso pensar nisso.
        - No perca mais tempo. Ela tem lhes dado todo o apoio. D. Maria Alice me parece pessoa de bem. Apoiou vocs durante todo o tempo. Tenho certeza de que aprovar 
o casamento.
        - O pai dela, talvez no.  muito diferente delas.
        - E poltico ardiloso. Conheo-o. Mas, como voc disse, ela sabe o que quer. O que ele pensa no vai influenci-la.
        Guilherme colocou a mo no brao do filho dizendo contente:
        - Com seu apoio, sei que vou conseguir o que pretendo. Me ajude a conquistar a estima de Laura. O que acha que posso fazer para que me aceite?
        - Conversarei com ela para perceber o que pensa. Depois veremos.
        - Voc deve estar com fome. Vamos almoar agora.
        Marcelo ligou para Lanira convidando-a para um ch no fim da tarde.
        - No posso. Prometi passar em casa de D. Maria Jlia.
        - Vai ver Gabriel?
        - Ele est bem. Vou mais por causa de Laura. Ela tem passado muito mal.
        - Fui visit-las duas vezes e s vi D. Maria Jlia. Laura nem apareceu. Ento pensei que minha presena era-lhe desagradvel. Afinal, eu provoquei toda esta 
mudana.
        - No deve ser por isso. Ela se recusa a receber qualquer pessoa. Vive triste, deprimida. D. Maria Jlia tenta tir-la desse estado, mas tem sido intil. 
Tenho estado com ela para ver se reage.
        - Sei como ela est se sentindo. Durante anos senti-me triste por causa de minha orfandade e dos mistrios que me envolviam. Julgava-me injustiado, infeliz. 
Tive que fazer muita fora para sair dessa atitude e confesso a voc que foi com a ajuda de alguns amigos que me levaram s sesses espritas, onde pude falar com 
meu av e receber a orientao dele, que reagi. Alis, penso que foi a mo de Deus que me guiou para que a justia se cumprisse. J falou com D. Josefa sobre o estado 
dela?
        - J. Ela tambm est tentando ajudar.
        - Se eu fosse visit-las esta tarde, acha que Laura me receberia?
        - No sei.
        - De certa forma sinto-me responsvel pelos sofrimentos dela. Eu provoquei a revelao dos crimes de seu pai.
        - No tem por que se sentir assim. Ela viveu toda a vida na mentira. A verdade di mas fortalece. Eu prefiro saber a verdade, seja qual for. Voc a enfrenta, 
reage, fica mais forte. Viver enganada sempre acaba em dor.
        - Gostaria de fazer alguma coisa por Laura. Seria uma forma de suavizar um pouco o golpe que fui forado a lhe dar.
        - Aparea l hoje  tarde. Vamos ver como ela reage.
        - Mais ou menos s cinco horas estarei l. Estou com saudade de voc. Depois do julgamento nunca mais samos juntos.
        - Tenho estado ocupada.
        -Precisamos retomar nossos passeios.
        - Vamos ver.
        Despediram-se e Lanira ficou pensativa. Durante o julgamento, sentira-se o tempo todo preocupada com Gabriel. Sabia que ele estava sofrendo e por vrias 
vezes sentira vontade de abra-lo, beij-lo, dar-lhe carinho.
        Comovia-a sua atitude digna, seu amor pela me e pela irm, seus cuidados para suavizar um pouco o sofrimento delas. Em nenhum momento ouviu de seus lbios 
palavras de vingana contra Jos Lus, nem revolta por ter que entregar a fortuna a Marcelo.
        Agia conforme sua conscincia, sem mesquinhez, disposto a trabalhar e a sustentar a famlia dali para a frente. Era forte e valoroso.
        Quando pensava nele, Lanira sentia um calor brando no peito e uma vontade muito forte de estar com ele, de repetir aqueles momentos que haviam vivenciado 
juntos. Isso seria amor? Estaria mesmo amando Gabriel?
        Ele nunca mais a procurara. Agora que os motivos de seu retraimento com ela haviam sido contornados, ele voltaria a mostrar interesse?
        Vendo-a arrumada, Maria Alice perguntou:
        - Vai sair?
        - Vou ver Laura. Quer vir?
        - Combinei tomar ch com Josefa.
        - Vocs agora no se largam.
        - Nunca pensei que pudesse dar-me to bem com ela. S lamento o tempo que perdi todos esses anos.
        Lanira saiu e Maria Alice apanhou a bolsa para sair. A criada apareceu e entregou-lhe uma carta. Assim que viu o envelope, ela estremeceu. Era igual ao da 
carta annima que recebera meses antes.
        Apanhou. Estava endereada a ela. Abriu e leu:
        "Enquanto voc finge que no v, seu marido leva a amante e registra-a no hotel como sua esposa. Voc sabia? Se duvida, telefone ao Grande Hotel de Punta 
dei Este e veja a ficha de registro. Alis, as jias que ela tem foram todas pagas com nosso dinheiro. At quando vai suportar essa vergonha? Ou ser que sabe e 
fica calada?  o que ns deduzimos vendo que ele faz isso tudo e voc continua ao lado dele como se nada fosse. Crie vergonha. Reaja! Est na hora de acabar com 
essa farra!!!"
        No estava assinada. Maria Alice deixou-se cair no sof. Aquilo era demais. Tinha que tomar uma atitude. No podia mais suportar essa situao.
        Gabriel chegou em casa e procurou por Laura. Ela estava sentada no jardim tendo ao colo um livro aberto sem ler, olhos perdidos em um ponto distante.
        - Laura.
        Ela o olhou e no disse nada. Gabriel sentou-se a seu lado e segurou sua mo dizendo:
        - Sente-se melhor?
        Ela deu de ombros e ele prosseguiu:
        - No gosto de v-la triste, abatida. Est na hora de reagir.  preciso enfrentar a verdade. Nada que fizer vai modificar os fatos que nos aconteceram.
        - No posso. Nossa vida acabou.
        - No creio. Somos jovens. Temos muitos anos para viver ainda. Podemos fazer de nossa vida alguma coisa melhor do que tivemos at agora.
        - Nossa vida era tima antes da desgraa que se abateu sobre ns.
        - Engana-se. Estvamos cegos para tudo que estava acontecendo  nossa volta, dentro de nossa prpria famlia. Vivamos s custas de dinheiro roubado. Bris 
dirigia nossa casa, nossos negcios, at nossas vidas, vigiando-nos pelas costas, sem que soubssemos. Pessoas estavam sendo vtimas da maldade e da ambio deles. 
De qualquer forma, isso um dia teria que ser descoberto. No percebe que tudo foi revelado para que nossa vida possa ser melhor daqui para a frente? Que agora todas 
as ameaas terminaram? Que mame pode respirar aliviada sem o peso da chantagem e das ameaas deles?
        - Reconheo tudo isso. Mas e papai? Voc nunca gostou dele e agora sei por qu. Mas eu sou sua filha. Ele sempre me tratou bem, nunca me fez mal. Depois 
do que vimos no tribunal, creio que ele seja um doente mental que precisa de ajuda. Di pensar que ele est l, abandonado, dopado, amarrado naquele hospital. Que 
quando melhorar, se melhorar, ser trancado em uma priso pelo resto da vida. Esses pensamentos me atormentam o tempo todo.
        Gabriel colocou a mo no brao dela enquanto dizia:
        - Voc est confundindo as coisas. Ele est no lugar onde se colocou com suas prprias mos. Durante anos ele burlou a justia humana, mas chegou o momento 
em que ele colheu o resultado de suas atitudes. Acha que ele iria ficar impune? Laura! Acorde. Perceba o que est dizendo. Claro que ele  digno de pena. Pode at 
ser um doente mental. Mas isso no o isenta de responder pelo que fez. Seja qual for o grau de insanidade que ele tem, o certo  que no pode de forma alguma ficar 
em liberdade. Trata-se de um homem perigoso. Pense. Ele matou trs pessoas da prpria famlia. Prendeu mame com correntes de ferro e por pouco no a matou tambm. 
Acha que ele poderia ficar solto?
        - Por que diz essas coisas horrveis que fui obrigada a ouvir no tribunal e que quero esquecer? Est sendo cruel.
        - No, Laura. Voc no  uma menina fraca, mimada, incapaz. Voc  uma moa cuja inteligncia sempre admirei e que tem condies de enfrentar a verdade. 
De saber tudo como . Isso no a impede de continuar amando seu pai como sempre fez. Mas esse amor no pode impedi-la de ver os fatos, de compreender. Ele escolheu 
como queria viver, voc tem o direito de fazer o mesmo. No pode permitir que o que ele fez a impea de ser feliz, de sentir alegria novamente. Voc um dia encontrar 
um homem que a ame, se casar, ter uma famlia. No pode permitir que essa sombra dos atos dele a impea de construir sua vida em paz.
        Laura soluava e Gabriel abraou-a com fora esperando que ela serenasse. Depois disse com voz firme:
        -Laura, preciso que me ajude. Mame tem se dedicado com amor a ns dois. Ainda agora, pensa em renunciar ao amor de sua vida com receio de nos desgostar. 
Acha que podemos exigir-lhe esse sacrifcio?
        - Ela disse isso?
        - Hoje estive com Guilherme... com meu pai. Tivemos uma longa conversa. Ele deixou bem claro que se amam. Mame s no o aceitou por nossa causa. No acho 
justo. Amanh cada um de ns casa, vai embora e ela ficar s. J pensou nisso?
        -  difcil para mim aceitar outro homem no lugar de meu pai.
        - Voc no precisa fazer isso. Ele no pretende substituir seu pai em seu corao. Eu gostaria que o conhecesse melhor. Que concordasse que ele nos visitasse.
        - Acha que mame quer isso?
        - Acho que ela se sentiria feliz se nos aproximssemos dele um pouco mais.
        - No sei... Vou ficar inibida.
        - Ele vir como uma visita. Disse-me que no vo decidir nada de suas vidas sem que ns sejamos consultados.
        - Ele disse isso?
        - Sim. Disse que quer ser um bom pai para mim e um bom amigo para voc, proteg-la e ajud-la a esquecer o que passou.
        - Se  isso que mame quer, posso tentar. Mas se eu no gostar dele ela pode casar assim mesmo. Irei embora de casa e pronto.
        - No seja criana nem preconceituosa. Nem o conhece e j est criando caso.
        Ela deu de ombros e ele prosseguiu:
        - Voc est cada dia mais magra e mais feia. Desse jeito nunca vai arranjar um marido.
        Ela fez uma careta e respondeu:
        - Se for para casar com algum almofadinha sem graa, prefiro ficar solteira.
        - Com esses olhos vermelhos, ento, parece que est de ressaca.
        - Voc tirou o dia para me criticar.
        - Vamos entrar, voc vai se arrumar um pouco. No gosto de v-la to relaxada. O que  isso? Voc nunca foi assim!
        - No sou relaxada, no!
        - Vamos. Vou lev-la para o quarto e vai se arrumar. Lanira no vir aqui hoje?
        - No sei. Mas se soubesse no lhe diria. Est caidinho por ela.
        - Estou mesmo. Se ela no vier at as quatro horas, telefono pedindo que venha. Vamos agora.
        Gabriel abraou-a e acompanhou-a at o quarto, fazendo-a entrar:
        - Veja se muda essa atitude. Afinal, somos civilizados. Estamos machucados mas no destrudos. Olhe-se no espelho. Acha que pode continuar assim?
        Laura empurrou-o para fora e bateu a porta. Aproximou-se do espelho e olhou-se. Aquela moa magra, olhos encovados, sem cor, cabelos em desalinho, no se 
parecia em nada com a Laura que ela se orgulhava de ser.
        Gabriel tinha razo. Ficar destruda e doente no iria ajudar em nada. Precisava reagir.
        Foi ao banheiro, lavou-se, penteou-se, colocou uma maquiagem leve, perfumou-se. Depois procurou um vestido elegante e vestiu. Olhou-se novamente no espelho. 
Ainda estava um pouco plida, mas pelo menos mais arrumada. Gabriel no poderia dizer que ela estava ficando relaxada. Isso, no.
        Gabriel procurou a me, que estava sentada na sala, beijou-a na face com carinho e disse:
        - Me, estive com meu pai.
        Ela estremeceu. Olhou-o preocupada.
        - Com meu verdadeiro pai - emendou ele. - Tivemos uma longa conversa. Penso que chegou a hora de falarmos nesse assunto.
        - O que foi que conversaram?
        - Tratamos de nos conhecer melhor e falamos sobre o futuro. Ele a ama e deseja propor-lhe casamento. Perguntou-me se eu concordaria.
        - O que respondeu?
        - No sou eu quem deve responder essa pergunta. Ele  meu pai. Estou aliviado por saber disso. Sinto que posso am-lo e manter com ele estreitas relaes 
de amizade. Mas quanto ao casamento, s voc pode resolver. Ele est certo quando diz que voc ainda sente por ele o mesmo amor?
        - Durante toda a minha vida nunca deixei de pensar nele, de recordar nossos encontros e de ter saudade. Ainda agora, depois do que ele fez naquele tribunal, 
de sua coragem, de sua dignidade, confessando seu amor diante de todos, senti meu corao bater mais forte e uma vontade muito grande de ficar ao lado dele. Mas 
tenho medo.
        - De qu? Ele me parece um homem de bem.
        - Ele . Mas penso em vocs. Voc  filho, vai aceitar melhor, mas e Laura? Ela no vai gostar. Ainda no se refez do golpe duro que sofreu e eu no posso 
agora coloc-la em uma situao delicada. Talvez um dia, depois que ela se casar, eu e Guilherme possamos pensar novamente no assunto.
        - Isso, no. Vocs j esperaram demais. Antes havia um casamento. Ele estava comprometido, porm agora est livre. Voc, depois do que houve,  como se estivesse 
viva. Estive conversando com Laura. Ela concordou em tentar conhecer melhor meu pai. Acho que podemos convid-lo a freqentar nossa casa.
        - Tem certeza? Ela est to deprimida... Isso no ir contribuir para que fique pior?
        - Ao contrrio. Ela  vaidosa, toquei-lhe os brios. A presena dele a far reagir e se cuidar. Ser at bom. Esta casa precisa de alegria. Chega de tristeza. 
Temos que reagir. Vou telefonar para Lanira, para que venha tomar ch hoje conosco. Posso telefonar e convid-lo que venha tambm?
        Maria Jlia iria recusar, mas Laura apareceu na sala e Maria Jlia olhou-a admirada. Sua aparncia estava muito melhor. Gabriel olhou para a irm e disse:
        - Vou ligar para Lanira e para o Dr. Gouveia, convidando-os para o ch. O que acha?
        Laura olhou-o com ar desafiador e respondeu:
        - Por mim est bem. Ainda acha que sou relaxada?
        - No, maninha. Voc agora est um chuchu. Se exibir seu lindo sorriso, ficar ainda melhor.
        Maria Jlia sentiu seu corao bater mais forte. Olhou-se no espelho. Tambm estava abatida. Precisava arrumar-se um pouco.
        A criada introduziu Lanira e Marcelo na sala. Depois dos cumprimentos, Gabriel disse alegre:
        - Ainda bem que chegaram. Iria ligar para voc vir.
        - Tomei a liberdade de convidar Marcelo - respondeu ela. - Ele estava com saudade de vocs, mas tinha receio de incomodar.
        - O que  isso, meu filho? - disse Maria Jlia. - Venha sempre que quiser. Teremos muita alegria em receb-lo.
        - Obrigado, D. Maria Jlia. Eu estava com saudade mesmo.
        - Fiquem  vontade. Vou subir um pouco. Com licena. Gabriel olhou para Laura e piscou o olho. Ela entendeu.
        - O que est acontecendo por aqui que eu no sei? - indagou Lanira aproximando-se de Gabriel.
        Marcelo sentou-se ao lado de Laura no sof e perguntou:
        - Sente-se melhor?
        - Estou tentando reagir.
        - Fico feliz de v-la mais calma. Estive aqui duas vezes e voc nem desceu. Fiquei apreensivo.
        - De fato, eu estava mal. Mas o que aconteceu no tem remdio e a vida continua. Obrigada pelo que fez por mim no tribunal. Ainda no tive ocasio de lhe 
agradecer.
        - Naquele dia fiquei muito abalado. Eu desvendei essa histria. Sabia que vocs iriam sofrer, mas precisava fazer o que fiz. Senti-me culpado por seu sofrimento. 
Queria muito que me perdoasse por isso e que aceitasse minha amizade. Garanto que  de corao.
        Laura olhou-o nos olhos durante alguns segundos, depois disse:
        - Estou precisando muito de amigos. Quando o escndalo estourou, as pessoas afastaram-se de ns e as que se aproximavam tinham inteno de especular para 
comentar depois. Por isso Gabriel largou a faculdade. Todos os amigos desapareceram.
        - Menos Lanira. Ela tem sido fiel.
        - . Quem eu menos esperava. A vida tem dessas surpresas. Lanira sentara-se em outro sof com Gabriel e conversavam baixinho. Marcelo olhou-os e entristeceu-se.
        - Tambm est apaixonado por Lanira? - indagou Laura.
        - Por que pergunta?
        - Voc ficou triste quando os olhou to prximos.
        - Confesso que ela me atrai. Mas pelo jeito ela prefere Gabriel. - Ele tentou desviar o assunto: - E voc, est apaixonada?
        - Tive alguns namoradinhos, mas nunca me apaixonei. Para dizer a verdade, penso que amor  iluso. As pessoas unem-se por interesse. O homem para ter um 
lar, filhos, perpetuar o nome da famlia; a mulher para ter quem cuide dela pelo resto da vida.
        -  isso que voc pensa? Quando chegar a hora, escolhe um bom moo, casa-se e pronto?
        - Confesso que o casamento no me atrai nem um pouco.  uma priso sem graa em que a mulher se anula a cada dia.
        Marcelo meneou a cabea dizendo:
        - O dia em que o amor entrar em seu corao, mudar de idia. Sempre vivi s, e sonho encontrar uma mulher que eu ame e que me corresponda para criar uma 
famlia como nunca tive. Tenho muito amor guardado dentro de mim e uma vontade muito grande de dividir isso com algum e poder finalmente viver em um ambiente de 
carinho e de paz.
        Laura olhou-o admirada.
        - Voc  um romntico. Acha que Lanira seria essa mulher?
        - No sei. Para que meu sonho se realize, minha companheira ter que me amar muito, tanto quanto eu a amarei. Lanira me atrai, tem sido
        gentil comigo, mas no parece me amar. Veja, seus olhos brilham quando fala com Gabriel.
        - No se importa de perder?
        - Se ela gosta dele, no estou perdendo nada. S estou percebendo que ela no  a moa de meus sonhos.
        - Vai continuar esperando por ela?
        - Vou.
        - E se ela no aparecer?
        - Virei atrs de voc para dividir minha solido. Sei que est se sentindo muito s tambm. Acho que, enquanto o amor no aparece, podemos fazer companhia 
um para o outro. Que tal?
        Laura sorriu:
        -  uma boa idia.
        Maria Jlia desceu mais arrumada e Gabriel trocou um olhar alegre com Lanira. Telefonara para Guilherme convidando-o ao ch. Ele chegou dez minutos depois 
e cumprimentou a todos com prazer.
        Seus olhos brilhavam e Gabriel sentiu-se feliz percebendo que Maria Jlia, com a fisionomia distendida, fazia as honras da casa com prazer. Fazia muito tempo 
que ele no via seu rosto to calmo. Olhando todos na sala conversando animadamente, sentiu que dali para a frente tudo iria mudar para melhor.
        
        Lanira entrou em casa mais animada. Laura estava melhor e Gabriel dissera-lhe que a amava cada dia mais. Pela emoo que sentiu naquele momento, compreendeu 
que era a ele que amava.
        Marcelo era atraente, inteligente, agradvel, mas Gabriel tocava fundo em seu corao, com seus olhos doces, sua figura elegante, seu jeito carinhoso e firme 
de ser. Se ele a pedisse em namoro, aceitaria.
        Passava das nove. Ela iria subir para o quarto quando ouviu vozes no escritrio. Prestou ateno. Seus pais estavam discutindo? Aproximou-se da porta que 
estava entreaberta e ouviu a voz firme de Maria Alice dizendo:
        - A deciso  sua. No vou mais tolerar essa vergonha. Ou voc manda sua secretria embora, acaba com essa ligao vergonhosa, ou sair desta casa para sempre.
        - Isso  uma calnia. No pode deixar-se levar por uma carta annima. Tenha bom senso.
        - No adianta, Antnio. H muito tempo que sei de tudo. Se nunca falei nada, foi porque desejava preservar o bom nome de nossa famlia.
        O futuro de Lanira no pode ser prejudicado por um desquite. Mas sua falta de vergonha chegou a um ponto que j  de domnio pblico. Portanto meu sacrifcio 
tornou-se intil.
        - Tenha calma, Maria Alice. Voc sempre foi ponderada.
        - J coloquei suas coisas no quarto de hspedes. Por enquanto vou tolerar sua presena nesta casa. No quero que diga que no lhe dei chance de arrepender-se 
e de acabar com essa sujeira. Mas nosso relacionamento acabou. Assim que Lanira se casar, quero o desquite.
        - Como pode agir assim depois de tantos anos juntos? Voc no tem sentimentos. Acaba com nosso casamento com essa calma....
        Maria Alice olhou-o friamente. Como pudera amar aquele homem to falso? Foi com voz firme e indiferente que respondeu:
        - Minha conscincia no me acusa de nada. Sempre fui esposa fiel e cumpridora de meus deveres. Sempre respeitei o nome que me deu e ajudei-o a galgar todos 
os degraus de sua carreira poltica. Foi voc quem traiu, foi voc que de tanto mentir para seus eleitores acabou mentindo para a prpria famlia. No quero mais 
isso em minha vida. Tenho o direito de exigir respeito e de viver em paz sem compactuar com suas falcatruas.
        - O que direi a Alicia? Ela  uma senhora direita. No merece essa suspeita vil.
        - Isso  problema seu. Se tem dificuldade em despedi-la, posso fazer isso amanh mesmo.
        - Voc teria coragem de fazer uma cena em meu escritrio? Nunca pensei que fosse capaz de uma baixeza dessas!
        - Eu sou. Se no tem coragem, eu irei at l e a despedirei com poucas palavras, sem me alterar. Afinal, ela j usufruiu bastante. Teve bons passeios, hospedou-se 
em hotis de luxo, ganhou roupas finas, jias. O que pode querer mais? Est muito bem paga. No tem do que se queixar.
        - Voc est louca! Se pensa que vou permitir isso, est muito enganada. No vou fazer uma inocente pagar por suas suspeitas injustas.
        - Nesse caso, pode ir direto para um hotel. Alis, no quarto de hspedes h uma mala preparada para essa eventualidade. Amanh mandarei o restante.
        - No vou fazer o que quer. Esta casa  minha e daqui no sairei.
        - Tentei uma soluo amigvel. Mas voc no entendeu. Nesse caso estou decidida a procurar um advogado para tratar de nossa separao.
        - Quer arruinar minha carreira? Est com tanta raiva de mim que pretende destruir-me?
        - Engana-se. Quero apenas cuidar de minha vida do meu jeito. No preciso fazer nada para destruir sua carreira. Voc j fez isso muito bem. Estou cansada 
e vou dormir.
        Vendo que ela ia sair, Lanira afastou-se da porta, subiu rapidamente as escadas e ficou esperando no quarto, com o corao batendo forte. Ouviu quando ela 
subiu, dirigiu-se para o quarto do casal e fechou a porta.
        No teve coragem de bater no quarto da me com medo que seu pai as surpreendesse. Ficou atenta ao menor rudo e deixou a porta de seu quarto apenas encostada 
para poder ouvir melhor.
        Ouviu quando seu pai subiu as escadas e bateu na porta do quarto vrias vezes. Ela no abriu e ele acabou indo para o quarto de hspedes.
        Lanira preparou-se para dormir, mas o sono no vinha. Sabia que Maria Alice estava segura do que dissera. Sua voz estava firme, revelando uma atitude refletida 
largamente. Depois, ela tinha a fora de quem sabe o que faz e est com a razo. O que seu pai faria? Aceitaria uma situao que sempre odiara ou acabaria com aquele 
relacionamento? Por mais que pensasse, ela no sabia o que ele iria fazer.
        
        
Captulo 28
        
        Daniel apressou-se. Estava atrasado para a cerimnia. Ainda tinha que passar em casa de Ldia para apanh-la. O casamento estava marcado para as sete da 
noite. Olhou-se no espelho com satisfao. Estava muito elegante. Iriam ser padrinhos d casamento de Rubinho e Marilda, e ele queria apresentar-se bem, pois tinha 
certeza de que Ldia estaria muito bem vestida.
        Dentro de mais alguns meses, eles tambm estariam se casando. Havia comprado uma bela casa e j estavam decorando com capricho e alegria.
        Um ano depois do julgamento de Jos Lus, tudo havia se modificado. Marcelo tomara posse da fortuna que lhe pertencia e pagara regiamente seus advogados. 
Maria Jlia ficara apenas com alguns bens que herdara de sua famlia e uma pequena propriedade que Jos Lus comprara antes de tomar posse do dinheiro do tio.
        A casa em que Maria Jlia morava com os filhos fora do av de Marcelo e pertencia-lhe por direito.
        Depois daquela primeira visita a casa de Maria Jlia, Guilherme passou a ir l todos as tardes, ficando para o jantar. Sua presena discreta, elegante, seu 
jeito ponderado e educado, a delicadeza de suas atitudes, o respeito que demonstrava por todos, a conversa inteligente sempre interessante acabou por encantar Gabriel, 
que a cada dia mais se sentia feliz em t-lo como pai. Depois Maria Jlia havia rejuvenescido, mostrava-se mais alegre, mais interessada nas coisas e mais serena.
        Aos poucos Laura tambm foi aprendendo a gostar de Guilherme. Quando a via triste, encontrava sempre uma forma de interess-la em coisas alegres e ela sem 
perceber acabava se sentindo melhor.
        Uma tarde, apareceu com uma cesta na qual havia um lindo cachorrinho branco e peludo e colocou-a no colo de Laura, que encantada apanhou o bichinho que abanava 
o rabinho e a premiava com generosas lambidas, olhando-a com olhinhos brilhantes e to alegres que ela o abraou feliz.
        Desde esse dia, onde Laura ia, Mocinho, como ela o chamava, acompanhava-a. Dormia com ela na cama, o que fez Maria Jlia comentar com Guilherme:
        - Nunca pensei que Laura gostasse tanto de cachorro. Dormir com ela na cama  exagero! Comprei uma bela caminha para ele, mas ela no o deixa ficar l.
        - No se incomode - tornou Guilherme. - Deixe-a. Dar amor devolver-lhe- o equilbrio. Ela precisa deixar seu amor sair.
        - Nunca pensei que isso pudesse ajud-la.
        - Um animalzinho amoroso, fiel, que depende de seus cuidados, far mais por ela do que qualquer terapia. Voc ver.
        De fato, Laura ganhou mais alegria, ocupou-se de Mocinho e aos poucos foi se interessando mais pelas coisas do dia-a-dia. Esse foi o princpio de sua amizade 
com Guilherme, que comeou conversando sobre o cachorrinho e acabou se tornando um verdadeiro amigo, ouvindo suas confidencias.
        Sempre que conversavam, ele nunca lhe dizia o que fazer, mas procurava colocar as coisas claras, de maneira que facilitasse a ela compreender melhor o assunto, 
dando-lhe sempre o poder de deciso.
        Assim, ela foi se tornando mais confiante em si mesma e, por sentir que as conversas com ele lhe faziam muito bem, procurava-o com freqncia.
        Quando Guilherme reuniu-os para uma conversa, convidando-os para uma viagem aos Estados Unidos, onde pretendia conseguir o divrcio de Maria Jlia e o casamento, 
Laura concordou.
        Seu pai continuava internado, enlouquecido, cada dia mais furioso. Ela se conformou sabendo que, mesmo que ele melhorasse, nunca mais sairia da cadeia.
        - Depois de nosso casamento, poderemos viajar para onde quiserem. Tenho trs meses de licena e estarei  disposio de vocs. Depois, quando voltarmos ao 
Brasil, iremos morar em minha casa. Gostaria que fossem at l comigo antes da viagem e ajudassem-me a transform-la a seu gosto. Quero que se sintam  vontade, 
escolham seus aposentos e decorem-nos como gostam.
        - Quer dizer que no voltaremos a morar aqui? - indagou Laura. Foi Maria Jlia quem respondeu:
        - Esta casa pertence a Marcelo. Portanto dentro em breve teramos que deix-la.
        - Espero que gostem de minha casa e se sintam  vontade l.
        - Esta casa me traz pssimas lembranas.  bom poder ir viver em outro lugar. S tem uma coisa: no quero ficar muito tempo fora. Logo agora que eu e Lanira 
estamos nos entendendo.
        - Voc precisa de um tempo para reassumir sua vida. Descobrir o que deseja fazer. Se quer continuar a faculdade ou se prefere dedicar-se a outro trabalho. 
Esperar um pouco vai dar a vocs mais condies de avaliar os prprios sentimentos. Depois, h o telefone, o correio, vocs podem corresponder-se. Mas se no agentar 
a saudade, poder voltar antes.
        Gabriel concordou. Sentia que viajar, mudar um pouco de ambiente iria fazer-lhe muito bem. Procurou Lanira, contou-lhe os planos da famlia e finalizou:
        - Viajaremos dentro de uma semana. Antes de ir, porm, quero esclarecer algumas coisas com voc. Temos estado juntos, tenho dito que a amo muito e tenho 
percebido que sou correspondido. Uma vez eu a pedi em casamento e voc recusou. Talvez porque tenha pensado que eu a pedi s por dever, querendo consertar o que 
aconteceu. Mas no  verdade. Eu a amo com sinceridade e quero me casar com voc. Quero estar a seu lado e am-la sempre. Voc quer?
        - Quero. Agora j sei que  a voc que eu amo. O casamento me assusta, mas desde j garanto que no pretendo transformar-me em uma matrona acomodada, nem 
em uma apaziguadora dentro do lar. Tenho gnio, fao as coisas do meu jeito e no gosto de ser cerceada. Gosto de conversar, expor minhas idias, e s aceito mud-las 
quando me provam que h outras melhores. Sinto que vou continuar sendo assim, mesmo amando voc. Agora sou eu quem pergunta: ainda quer se casar comigo?
        Ele a beijou apaixonadamente nos lbios muitas vezes, depois disse:
        - Antes de viajar quero falar com seu pai, pedir permisso para namor-la.
        Lanira meneou a cabea dizendo:
        - As coisas l em casa andam meio complicadas. Talvez no seja um bom momento para isso.
        - Acha que ele pode recusar por causa de Jos Lus?
        - No. Ele e mame andam se desentendendo. Esto separados. Ela o colocou no quarto de hspedes e quer que ele v embora, mas ele no vai.
        - Eles sempre pareceram to felizes!
        - As aparncias enganam.
        - Falarei com D. Maria Alice. Ela me dir se posso ir at ele. Gabriel conversou com ela, que consentiu no namoro, sentindo-se aliviada. Com o casamento 
da filha, poderia cuidar de sua prpria vida. Aconselhou-o a no falar com Antnio. Ele estava intratvel porque ela havia contratado um advogado para cuidar da 
separao. Ele estava inconformado. Principalmente porque Alicia, envergonhada, tambm se recusava a sair com ele e a continuar o relacionamento.
        Daniel chegou em casa de Ldia, que o esperava pronta. Estava linda. A cerimnia na igreja foi muito bonita. Daniel sentiu-se emocionado ao lado de Ldia. 
Gabriel, ao lado de Lanira, pensava como seria feliz quando tambm se casassem.
        Maria Jlia, Guilherme e Laura continuavam viajando. Eles haviam se casado nos Estados Unidos e regressado para a belssima casa onde foram instalados com 
luxo e bom gosto. Apesar da boa vontade de Guilherme para mudar o que quisessem, no quiseram mudar nada. A casa era muito bonita, cheia de objetos de arte, e eles 
ficaram encantados em poder viver l.
        Depois de algum tempo, decidiram viajar novamente. Laura estava descobrindo o prazer de conhecer outros pases, principalmente porque Guilherme era um cicerone 
maravilhoso. Profundo conhecedor de histria, contava coisas de cada lugar em que passavam, tornando ainda mais interessante a viagem. Estavam felizes.
        Gabriel retomara a faculdade e o namoro com Lanira. Conversara com Antnio, que acabara por consentir. Andava triste, infeliz. Alicia abandonara-o, cheia 
de culpa e de vergonha.
        Procurara por Maria Alice para pedir-lhe perdo e dizer-lhe que iria voltar para a pequena cidade onde sua famlia vivia. Dizia-se arrependida, sentia-se 
a ltima das mulheres.
        Maria Alice, vendo que lgrimas nos olhos dela estavam prestes a cair, disse apenas:
        - Eu estou me separando dele. Se quiserem continuar, esto livres. O que desejo que ele desaparea de minha vida e me deixe em paz.
        Ouvindo-a, Alicia no conseguiu conter-se ma\s, rompeu em soluos, o que fez Maria Alice dizer com voz calma:
        - No precisa se emocionar dessa forma. Depois de ter sido amante dele todos esses anos, chorar no serve para nada. Pelo menos assuma sua posio e agente 
com dignidade as conseqncias.
        Ela parou de chorar e saiu sem dizer palavra. No mesmo dia, foi ao escritrio, apanhou suas coisas e desapareceu. Quando Antnio foi  sua procura no apartamento, 
ela j havia se mudado. Desesperado, voltou para casa. Sua vida estava se desmoronando. Sua carreira poltica estava indo por gua abaixo. As pessoas olhavam-no 
com ar malicioso e ele no se atrevia a freqentar os lugares da moda.
        Na roda de amigos j se comentava a separao e ele sentia que as pessoas olhavam-no com ar de reprovao, elogiando Maria Alice. De repente ele comeou 
a sentir-se sozinho e triste. Maria Alice continuava linda, discreta, admirada, cheia de classe, e ele se arrependeu de haver mergulhado naquela aventura com Alicia. 
Mas era tarde.
        Tentou aproximar-se dela, contar de seu arrependimento na esperana de que ela o perdoasse e o aceitasse de volta. Entretanto, por mais que fizesse, ela 
no cedia. Finalmente percebeu o quanto ela estava mudada. Algo havia se partido entre eles e no haveria mais volta.
        Reuniu o resto de seu sentimento de dignidade que ainda possua e aceitou a separao, com todas as condies legais que o advogado dela props-lhe. Mudou-se 
para o apartamento e como sempre fizera tratou de fingir diante dos amigos, dizendo que no estava se importando nem um pouco com o fracasso de seu casamento.
        A recepo de casamento que os pais de Marilda ofereceram em seu palacete na Lagoa era finssima. A festa estava animada. Rubinho conseguira notoriedade 
e seu casamento marcou poca na sociedade, embora ele no se importasse com isso.
        Marcelo sentia-se solitrio naquela festa. Laura, de quem se tornara muito amigo, estava fora; Lanira, namorando Gabriel, afastara-se naturalmente. Ldia 
aproximou-se dele dizendo:
        - Est to pensativo! No est gostando da festa?
        - Estou. Tudo est perfeito. Eu  que sou um bicho do mato. No tenho facilidade em fazer amigos.
        - O baile est animado. H muitas meninas ansiosas para danar. Por que no tenta?
        - Hoje estou me sentindo muito s. J lhe aconteceu? Estar em meio a muitas pessoas, em uma festa bonita e animada como esta, e sentir-se s?
        - J. Como est se sentindo em sua nova casa?
        - Morar na casa de meu av sempre foi meu maior sonho. Pensava que l estaria mais prximo dele. Mas s vezes penso que no foi bom ir morar l. As lembranas 
da tragdia de minha famlia ficaram mais vivas. E difcil esquecer quando tudo me recorda o que passou.
        - Uma casa guarda sempre a energia de seus moradores. Nessa casa eles viveram momentos de angstia, de medo, de insegurana. Voc pode estar sentindo essas 
influncias. Por que no faz uma reforma?  bom para renovar o ambiente.
        - Pode ser mesmo. s vezes sou acometido de tristeza, de angstia, sem nenhum motivo. Vou falar com D. Josefa, pedir ajuda.
        - Faa isso. No o tenho visto nas sesses l.
        - De fato. Tenho me afastado um pouco, ocupado com meus afazeres. Estou tentando retomar os negcios do vov. Comprar novamente a empresa que foi dele e 
que Jos Lus vendeu.
        Daniel aproximou-se e sentiu um aperto no corao. Ver Marcelo ao lado de Ldia incomodava-o. Tentou dissimular:
        - Desculpe a demora. Rubinho vai ficar fora um ms e tinha mil recomendaes. No se esqueceu delas nem do dia de seu casamento!
        - Tudo bem. Falvamos dos projetos de Marcelo. Sabia que ele est fechando negcio com a empresa que era de seu av? Acho bonito retomar isso tambm.
        - Sabia. Estamos tratando dos contratos. Quer danar?
        - Mais tarde. Est to agradvel aqui!
        Daniel sentou-se esperando que Marcelo se levantasse e os deixasse sozinhos na mesa. Mas ele no parecia interessado em fazer isso. Estava segurando a taa 
de champanhe, pensativo.
        Tentando esconder a inquietao, Daniel dirigiu-se a Marcelo:
        - Voc no gosta de danar?
        - Gosto. Mas hoje estou sem disposio.
        - s vezes basta comear e o entusiasmo aparece - disse Ldia. E voltando-se para Daniel explicou: - Penso que Marcelo precisa fazer alguma coisa para mudar 
as energias da casa onde foi morar. Aquelas paredes ainda guardam as lembranas de seus antigos moradores. Seria bom voltar s sesses em casa de Josefa. Esta falta 
de entusiasmo no deve ser natural. Voc, Marcelo, tem tudo que precisa para ser feliz.  jovem e muito atraente. Tenho certeza de que se olhar em volta no ficar 
muito tempo sozinho.
        Marcelo sorriu e respondeu: ^
        - Diz isso para me animar. Quando estava na Inglaterra, tinha fases de depresso. Eu as atribua  minha orfandade, ao desconhecimento de minha origem. Hoje 
no tenho mais esses motivos. S que essas fases ainda permanecem. s vezes sinto que me falta alguma coisa ainda. Que preciso encontrar algum. s vezes sonho com 
uma mulher que est de costas, fico deslumbrado, sinto que a encontrei. Mas quando me aproximo e vou abra-la, ela desaparece e fico desesperado. O vazio reaparece 
e a sensao de solido me acompanha por alguns dias.
        Daniel sentiu um aperto no peito. Marcelo nunca lhe contara isso. Ele teve certeza de que essa mulher que ele via era Ldia. Olhou-o assustado. O que ele 
faria se um dia descobrisse a verdade? Percebeu que era esse medo que aparecia sempre que ele conversava com ela.
        - Interessante - comentou ela. -  sempre o mesmo sonho?
        - s vezes um pouco diferente, mas sempre com a mesma mulher. Ela sempre est de costas e nunca consigo ver seu rosto.
        - Os sonhos so sempre assim, confusos - interveio Daniel. - No se pode acreditar neles.
        - H sonhos e sonhos - respondeu Marcelo. - Esses despertam em mim tantas emoes que devem ter algum significado maior. As cenas permanecem em minha lembrana 
durante alguns dias. E mesmo agora, ao mencion-los, parece-me v-los de novo.
        - Talvez sejam lembranas de suas vidas passadas. Coisas que marcaram tanto voc que inconscientemente seu esprito as procura durante o sono.
        Daniel remexeu-se na cadeira inquieto. Por que Marcelo no ia embora? Ele parecia no estar nem pensando nisso. Olhos perdidos em um ponto distante, disse:
        - Pode parecer loucura, mas tenho comigo que preciso ver seu rosto de qualquer maneira. Que s assim ela vai aparecer de verdade em minha vida e poderemos 
ser felizes.
        Ldia sorriu alegre e respondeu:
        - Que romantismo! No acha que est alimentando uma iluso perigosa?
        - Por qu?
        - Ela aparece de costas em seus sonhos, o que quer dizer que no est disponvel para voc. Ou melhor, que no quer ser encontrada.
        - Ser? Nunca pensei nisso. De fato, sempre acordo com uma sensao de perda. Isso  que me impressiona. Tenho certeza de que  a mulher de minha vida, que 
ainda irei encontr-la e ficaremos juntos para sempre.
        - Fale com Josefa. Tenho certeza de que poder ajud-lo. No acho bom alimentar essa iluso. Ela pode nunca aparecer, sua vida passar e quando acordar ter 
deixado escapar todas as chances de felicidade que a vida lhe ofereceu.
        - Ldia tem razo. Voc deve deixar esses sonhos de lado. Se so lembranas de outras vidas, nunca se repetiro. Alis foi isso que o esprito de Norma disse-me 
certa vez. As emoes aparecem, mas o fato j acabou, passou e nunca se repetir. Portanto dar importncia a isso  perder tempo.
        - Talvez por isso no consiga amar ningum - tornou Ldia. - Olhe em volta, experimente as oportunidades que a vida lhe oferece. Pode se surpreender.
        - . Acho que vou fazer isso mesmo. Ainda se Laura estivesse aqui! Ela  boa companheira.
        - Nunca pensei que vocs pudessem ser to amigos - disse Daniel.
        - Temos algumas afinidades. Isso conta.
        Lanira e Gabriel se aproximaram avisando que os noivos estavam fugindo pelos fundos. Os trs levantaram-se e correram para o bota-fora.
        
        Naquela noite, Daniel remexeu-se na cama sem conseguir dormir. Aquele tormento precisava acabar. Pensou em falar abertamente com Ldia, saber se ela sentia 
alguma coisa por Marcelo. Hesitava. E se isso despertasse os sentimentos dela? Poderia deixar-se influenciar pelo passado e acabar abandonando-o para ficar com Marcelo.
        Sua cabea doa e ele no conseguia relaxar. Quando o dia estava amanhecendo foi que conseguiu adormecer. Acordou tarde, mal-humorado. Iria ligar para tia 
Josefa e pedir orientao, mas lembrou-se que  noite estaria em sua casa para uma sesso e resolveu esperar.
        Quando entrou com Ldia em casa da tia e notou que Marcelo j estava l, teve vontade de ir embora. Josefa abraou-o com carinho, dizendo baixinho:
        - No se atormente, que tudo vai ficar bem.
        Ele a olhou admirado. Ela sorriu e ele se sentiu um pouco melhor. Marcelo aproximou-se e cumprimentou-os com alegria. Sentaram-se ao redor da mesa junto 
com os freqentadores costumeiros e Josefa proferiu comovida prece, pedindo proteo e esclarecimento a todos.
        Abriu um livro e leu uma mensagem espiritual de otimismo e confiana. Depois apagou a luz, ficando acesa apenas pequena lmpada azul. O silncio era absoluto. 
Daniel sentiu um torpor que foi tomando conta de seu corpo e de repente viu-se em um jardim muito bonito onde o verde dos gramados fazia sobressair os canteiros 
cobertos de flores de vrios matizes.
        Ao contemplar essa paisagem, sentiu o corao bater forte e uma enorme expectativa apossou-se dele. Sentia que algo importante estava para acontecer. Tinha 
que alcanar a casa que via mais adiante.
        Rapidamente foi at l, abriu a porta e entrou. Seu corao batia forte. Na sala no havia ningum. Foi at o quarto, abriu a porta e deparou com Ldia, 
linda, sorrindo e estendendo os braos para ele.
        Emocionado, atirou-se neles abraando-a forte, beijando seus lbios com amor, sentindo grande alegria. Quando se acalmou, olhou-a nos olhos e disse:
        - Finalmente nos encontramos. Parece mentira que a tenho de novo nos braos. Diga que me perdoou, que ainda me ama e que nunca mais nos separaremos.
        - Eu amo voc. Sempre amei.
        - Quando voc rolou da escada, quase enlouqueci. Senti-me culpado. Se tivesse sido mais flexvel, nada disso teria acontecido.
        - No se culpe. Todos ns erramos. Eu no compreendi seu cime, nem a paixo de nosso filho. Achava que voc estava sendo duro demais. Ele era um menino 
que estava confundindo seus sentimentos. Mas voc o expulsou e ele o odiou.
        - Voc o via como um filho, mas ele a via como mulher. Ele a amava. Arrependi-me de t-lo levado para nossa casa. De trat-lo como filho.
        - Isso j passou. Todos sofremos e aprendemos.
        Daniel abraou-a de novo e beijou-a nos lbios com ternura e pediu:
        - Diga que ainda me ama, que agora ficaremos juntos para sempre.
        - Eu amo voc, sempre amarei. Para que possamos ficar juntos daqui para a frente, precisamos da permisso de nossos superiores.
        - Porqu?
        - Devemos comparecer a uma reunio com eles. Alberto tambm estar l.
        - No sei se estou preparado para v-lo. Ele me denunciou  polcia, abriu um processo contra mim, acusou-me de assassino afirmando que eu a empurrara daquela 
escada, causando sua morte.
        - Mas voc era inocente, conseguiu ser absolvido. Fui avisada que, se quisermos ficar juntos de novo, teremos que passar por alguns testes.
        - Que testes?
        - No sei. Saberemos na reunio.
        Na mesma hora Daniel viu-se em outra sala de estar sentado em um sof junto com Ldia. Havia outras pessoas nas demais poltronas. Em uma delas reconheceu 
Alberto.
        Um senhor de meia-idade, rosto simptico que pareceu muito familiar a Daniel, estava falando:
        - Para conquistar a felicidade precisamos deixar o passado ir embora. E o passado s vai embora quando conseguimos resolver todos os relacionamentos inacabados, 
em que nos envolvemos em mtuos compromissos que nos amarram a pensamentos negativos e impedem nosso progresso.
        - Conservar rancor, idias de injustia, insatisfao, culpa, frustrao demonstra que a pessoa no tem condies de poder desfrutar de uma vida feliz e 
serena.
        - Por isso  preciso limpar essas energias, e isso s se d quando percebemos que somos responsveis por tudo quanto nos acontece, quando deixarmos de culpar 
os outros por nossa infelicidade. Essa descoberta faz com que todos os sentimentos negativos criados por um enfoque errado de ver a vida desapaream.
        -  o que est acontecendo com vocs. Esto ligados por laos que construram com o correr dos anos e que precisam desatar para que possam limpar suas vidas 
e desfrutar da felicidade a que tm direito.
        - Pensem em tudo que lhes aconteceu. No sofrimento que passaram, observem as feridas que ainda esto sangrando e machucando vocs. Ningum pode conquistar 
a felicidade escondendo as feridas do corao, mascarando o medo, carregando o peso da culpa.
        - Vamos nos retirar agora e vocs trs ficaro sozinhos para conversar. Dessa conversa decidiremos quais providncias precisam ser tomadas daqui para a frente.
        Daniel viu-se frente a frente com Alberto, que o olhava triste. Reparou que em seus olhos no havia mais o brilho do rancor. Ldia foi a primeira a falar:
        - Eu gosto de vocs dois. Daniel  o amor de minha vida. Alberto, o filho de meu corao. Essa  a minha forma de querer. Gostaria muito que fssemos uma 
famlia espiritual, j que isso no foi possvel naquele tempo.
        Alberto olhou-os triste e respondeu:
        - Quero pedir-lhe perdo. Fui ingrato, infiel, joguei fora todo o bem que a vida me deu quando perdi tudo e vocs me agasalharam como um filho querido. Eu 
estava louco. Hoje sei que me deixei subjugar pela vaidade, pela competio, pelo cime. Eu queria a ateno de Ldia s para mim. Fui o causador da tragdia que 
envolveu nossas vidas. Estou arrependido, Daniel. Se me perdoar, gostaria de ter a chance de recomear.
        Surpreendido, Daniel percebeu que os olhos dele brilhavam sinceros e as lgrimas desceram pelo seu rosto. Olharam-se nos olhos e abraaram-se emocionados.
        - Tenho sofrido muito - continuou Alberto. - Deixei nossa casa, fiz tudo aquilo levado pelo dio, vivi muitos anos amargurado e infeliz. Mas o pior ainda 
estava por vir. Quando cheguei aqui, fiquei vagando sem rumo, ouvindo as vozes gritando, me chamando de assassino, escarnecendo e dizendo que seu assassino, Ldia, 
era eu. Eu a vitimara com minha obsesso. Arrependi-me, reconheci que vocs haviam me dado tudo, que eu fora maldoso, e pedi perdo a Deus, supliquei que me ajudassem. 
Ento fui auxiliado por um esprito bondoso que me conduziu a um lugar de recuperao. Desde ento, tenho pedido a Deus esta reunio para que me perdoem. Eu estava 
errado.
        - Continuo amando voc como um filho querido. Nada me faz mais feliz do que podermos ser amigos outra vez - disse Ldia com voz emocionada.
        - Bom, tudo passou - disse Daniel. - Reconheo que fui intransigente e duro. Gostaria de esquecer o passado.
        Na mesma hora as pessoas que se haviam retirado da sala voltaram e Daniel reconheceu o Dr. Camargo entre eles. Desta vez foi Norma quem tomou a palavra:
        - Sabemos que se reconciliaram e estamos felizes. J podemos preparar a prxima encarnao dos trs. Daniel ter chance de se casar com Ldia novamente. 
Alberto reencarnar como neto do Dr. Camargo, que ter em sua famlia alguns elementos que foram atrados em suas vidas e sabemos que iro causar-lhes problemas. 
Mas se souberem agir no bem, tudo dar certo. Devo avisar que Alberto, por no haver valorizado o que possua, ser rfo e ser privado da convivncia da famlia. 
Afirmo que todos tero muita ajuda espiritual e que estaremos torcendo para que consigam eliminar todos os obstculos e possam finalmente conquistar a felicidade.
        Alberto levantou-se dizendo:
        - Gostaria de fazer um pedido.
        - Faa.
        - Sei que no valorizei a famlia, serei rfo, mas hoje eu mudei. O que mais quero  ter uma companheira, um lar, ser feliz. Sei o quanto vale um afeto 
sincero e uma boa companheira.
        Norma sorriu e tornou:
        - Tem certeza de que ela deseja ir?
        - Ns nos amamos. Deix-la aqui e seguir sozinho vai ser muito difcil para mim. Sei que a vida t justa e tudo faz para que eu aprenda o melhor, mas se eu 
conseguir ficar no bem, fazer as coisas de maneira justa, posso contar com ela a meu lado?
        - Ento ela ir a seu encontro - garantiu Norma.
        Nesse momento Daniel viu uma moa loura e muito bonita entrar e abraar Alberto, que a olhou apaixonadamente. Foi nesse momento que todo sentimento de angstia 
desapareceu de seu peito e Daniel suspirou fundo dizendo:
        - Finalmente estou livre. Somos livres!
        Abriu os olhos assustado. A luz havia se acendido, ele falara em voz alta e as pessoas o olhavam curiosas. Ele respirou fundo. Ldia segurou sua mo com 
carinho e ele a olhou emocionado.
        Josefa deu-lhe um copo com gua para beber e depois ele se levantou e procurou Marcelo com os olhos. Localizando-o, levantou-se sem dizer nada e foi at 
ele, abraando-o forte.
        Marcelo sentiu-se emocionado, embora no soubesse o porqu. Daniel pediu a Marcelo que o esperasse, porque precisavam conversar.
        Quando todos se foram, sentaram-se na sala, e Daniel, com voz que a emoo fazia vibrar, disse:
        - Nesta noite finalmente entendi o porqu de tudo quanto nos tem acontecido. Todos ns estivemos juntos em outras vidas, ns trs principalmente. Machucamo-nos, 
iludimo-nos, criamos sofrimento. Nesta noite descobri que tudo isso acabou. O passado est morto e ns felizmente estamos vivos e podemos aspirar a felicidade.
        - Sinto que algo muito importante ocorreu aqui hoje. Estive o tempo todo emocionado, vrias vezes pareceu-me ver a moa com a qual tenho sonhado. Houve um 
momento em que finalmente ela estava de frente e me sorria.
        - Eu a vi - confirmou Daniel. - Ela  linda. Loura, esbelta, rosto oval suave, olhos verdes.
        Marcelo levantou-se admirado:
        - Isso mesmo. Voc tambm a viu? Daniel sorriu alegre e respondeu:
        - Vi. E pelo que sei, ela est guardada para voc e logo vai aparecer em sua vida.
        Ele suspirou alegre:
        - Ento nunca mais estarei sozinho. Daniel abraou Ldia e respondeu:
        - Sim, Marcelo. Ns dois nunca mais estaremos sozinhos.
        E Josefa sorriu, percebendo que vrios espritos estavam ali comemorando a vitria. O Dr. Camargo, Cludio e Carolina abraando Marcelo; Norma e vrios outros
amigos estavam envolvendo a todos com energias luminosas.
        Diante desse quadro, Josefa no se conteve. Fechou os olhos e silenciosamente comeou a orar, agradecendo a Deus por toda a ajuda que receberam. E os outros
trs, percebendo o que ela estava fazendo, guardaram respeitoso silncio. Em seus coraes tambm brilhava a alegria da gratido.

      Fim
